 Poemas
"Muita gente pensa que escrever poemas é uma arte fácil.
Talvez por isso exista tanta gente escrevendo poesia por aí.
Eu mesmo comecei nesse caminho e tive a sorte de
ganhar alguns concursos ainda no ginásio. Aliás, foi isso
o
que me trouxe para as letras de um modo geral. Hoje,
escrevo poesia só de vez em quando. Certas coisas só
podem ser ditas na forma de um poema ou haicai."
  Ampulheta
  A
teia
  Estatuto do vinho
  Poeminha
da Bárbara
  Soneto
sertanejo
  Trindade









 
 

Ampulheta
Cai a areia
grão a grão
gota a
gota
vai
a
vida
ávida de
vinho e pão
escoa, esvai
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A teia
O tempo tece a teia
feito aranha invisível
e, quando se vê preso
no seu próprio fio,
a si mesmo desfia
num gesto intraduzível.
O tempo é Penélope:
à
noite desfaz o que fez de dia.
Sua espera é para sempre
e, enquanto espera, fia.
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Poeminha da Bárbara O
pé de abóbora da Bárbara
Dá de tudo, menos abóbora
Dá laranja, banana e limão
Abacate, manga-rosa e mamão
Dá batata, cenoura e melão
Beterraba, couve-flor e agrião
Dá de tudo, menos abóbora
O pé de abóbora da Bárbara.
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Trindade
O caminho
A pedra
O poeta
O poeta
A pedra
O caminho
A pedra
O caminho
O poeta
Passarão caminhos
Pedras e poetas
Mas aquele caminho
Aquela pedra
Aquele poeta
Não.
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Soneto
sertanejo
"Sertão é dentro da gente" *
Ser tão sozinho me dói
Rio que já fez enchente
A seca hoje corrói
Na seara desta vida
Ceará é o meu Saara
Um mar de areia moída
Que o vento sopra e não pára
Peixe não é passarinho
Se tropeço numa pedra
Dessas que têm no caminho
Lembro a navalha e a seda
Iguais à flor e ao espinho
Margens da mesma vereda
* Apud Guimarães Rosa

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Soneto falado pelo autor no CD Chico
Lobo e Convidados, trilha sonora da minissérie Palmeira Seca,
adaptada do romance de mesmo nome.
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Estatuto do vinho
Artigo 1     Fica decretado que a videira
     é o mais nobre dos vegetais.
 #1  Ao desembarcar no Monte Ararat,
     Noé não semeou a macieira,
     árvore do bem e do mal.
     Ele plantou um ramo da videira,
     consagrada como a árvore da vida.
 #2  O prefixo do fonema
     é que determina seu fruto,
     assim como os feitos do homem
     determinam seu caráter.
Artigo 2    Fica decretado que o vinho
     é o alimento do espírito
     da mesma forma que o pão
     é o alimento do corpo.
Artigo 3    Fica decretado que o vinho
     é o melhor amigo do homem.
# Vinho que te quero
     vinu que te quero
     vena que te quero pão:
     O vinho é a seiva da comunhão.
Artigo 4    Fica decidido que o vinho
     deverá ter um padroeiro,
     uma vez que o próprio Messias
     o abençoou como símbolo do seu sangue.
Artigo 5    Fica decretado que “não será digno do vinho
     quem o beber como água”
     nem tampouco aquele
     que nele afogar sua mágoa.
# O vinho é a bebida sagrada,
     néctar dos deuses e dos sábios.
Artigo 6    Fica expressamente proibido
     dar de beber o vinho aos animais.
# “Não atirarás pérolas aos porcos
     nem coisas santas aos cães.”
Artigo 7    Fica expressamente proibido
     agitar um receptáculo de vinho,
     bem como tentar misturá-lo
     ao gelo ou à água.
# O bom vinho é como o óleo
     que a nada se mistura.
     Nem mesmo ao seu semelhante
     que é feito da mesma tintura.
Artigo 8    Fica permitido a qualquer pessoa,
     em qualquer época ou lugar,
     converter-se ao deguste do vinho.
# “Onde há vida, há esperança.”
Artigo 9    Fica decretado que o vinho tinto
     será servido com as carnes vermelhas,
     pois é ele o sangue da terra.
# É a terra que forja na uva
     o acre milagre do vinho,
     da mesma forma que forja no trigo
     o doce mistério do pão.
Artigo 10   Fica decretado que o vinho branco
     será servido com sopas e peixes,
     pois é ele o irmão-segundo da água.
# O champanhe será servido à vontade,
     pois é ele o mais fino dos vinhos.
Artigo 11   Fica terminantemente proibido
     o emprego da palavra vinho
     para designar qualquer tipo de imitação
     à base de anilina ou similares.
# A vulgarização do vocábulo
     compromete o seu sentido.
Artigo final Fica decretada a democratização do vinho,
     com a farta distribuição do mesmo
     em praças e vias públicas.
# “Nem só de pão viverá o homem.”
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