O
bêbado da minha rua
Toda
rua que se preza tem um bêbado de estimação.
O bêbedo da minha rua não é diferente da maioria
que perambula por aí. É gente boa e de origem humilde,
mas o vício o arrastou para a sarjeta. Como muitos brasileiros
que a sorte desconhece, o bêbado da minha rua sobrevive de pequenos
biscates e gasta o pouco que consegue ganhar com cachaça e cigarro.
Fora isso, não sei mais nada sobre ele. A não ser o fato
de que, de vez em quando, ele me pede um trocado pra rebater a pinga
de ontem ou se oferece para cumprir alguma tarefa descomplicada, como
podar a grama do jardim, lavar o carro ou varrer o quintal.
Nas últimas semanas, o bêbado da minha rua resolveu radicalizar.
Transtornado pelo efeito mágico e malévolo do álcool,
outro dia ele bateu a campainha lá de casa altas horas da noite
e pediu alguma coisa de comer. O relógio marcava meia-noite. Mesmo
assim, dei-lhe um sanduíche que havia sobrado do lanche da noite.
Ele sorriu e saiu tropeçando rua abaixo, mastigando o pão
com presunto. Eu dei um suspiro de contentamento e fui me deitar com
um sorriso franciscano nos cantos da boca.
Alguns dias depois, por volta das duas da manhã, acordei sobressaltado
com os cachorros latindo no portão. Permaneci na cama, com os
olhos mirando o escuro e os ouvidos ligados em qualquer ruído
suspeito. O plin-plão da campainha me fez saltar da cama. Minha
mulher acordou, perguntando quem será numa hora dessas. Abri a
porta da sala sem acender a luz e fui até o jardim. Pelo olho
mágico do portão vi a figura inconfundível do bêbado
da minha rua.
Abri o portão e ele perguntou se por acaso eu não teria
um sanduíche de presunto como aquele que eu lhe dera dias atrás.
Pedi um tempo e assaltei a geladeira, improvisando um sanduíche
de queijo, que levei ao incômodo visitante. Ele agradeceu e seguiu
seu caminho tropeçando na própria sombra, mais bêbado
que um gambá de alambique.
Dois dias depois, cheguei do trabalho tarde da noite e vi o bêbado
da minha rua enchendo a cara no boteco da esquina. Pensei como é que
ele arranja dinheiro pra beber sem se preocupar com o que comer. Entrei
em casa na certeza de que não era nem um pouco responsável
por ele ou pelo seu vício maldito. Feito urubu em dia de urucubaca,
demorei a pegar no sono e acordei às duas e meia com a campainha
tocando e os cachorros latindo. Minha mulher também acordou dizendo
não acredito que é o bêbado de novo.
Saltei da cama e fui para o terreiro decidido a exorcizar o meu espírito
de bom samaritano. Através do olho mágico pude ver o bêbado
da minha rua cambaleando feito joão-bobo em dia de festa. Peguei
a mangueira do jardim, abri o portão e lhe dei um inesquecível
banho de água fria. Desde então, tenho dormido tranqüilamente
todas as noites da minha vida.
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Caminhante noturno
Cá estou eu, sentado na beira da cama, depois de mais uma
longa caminhada. Minhas pernas estão doloridas, com os músculos
retesados dentro do pijama. Nem mesmo o banho frio foi capaz de
expulsar de mim essa estranha sensação. E ali estão
meus pés. Ambos tranqüilos, como se nada tivesse acontecido.
Toda vez é assim. Eles estão sempre me obrigando
a fazer as coisas, sempre me arrastando para lugares desconhecidos,
muitas vezes perigosos.
Não me lembro quando foi que tudo começou e nem sei
se acontece a mesma coisa com as outras pessoas. Nunca perguntei
a ninguém. Às vezes imagino que sempre foi assim
com todo mundo. Comigo, pelo menos, tem acontecido regularmente. É só eu
começar a caminhar dentro da noite que os meus pés
logo assumem o controle. Não adianta eu tentar resistir.
Por mais que eu tente detê-los, simplesmente não consigo.
Depois eles ficam desse jeito, me olhando cinicamente, como se
não tivessem feito nada de errado.
Não me esqueço daquela vez em que fui assaltado por
causa deles. Eu havia saído tarde do trabalho. Deviam ser
quase dez horas quando deixei o escritório. Mal comecei
a descer a rua e os dois sacanas dominaram meus passos. "Hoje
não" - supliquei, mas não adiantou. Andei contra
a minha vontade. Atravessei o parque e, quando dei por mim, estava
numa esquina escura, perto da Estação Ferroviária.
Foi quando dois sujeitos mal-encarados saltaram da sombra, sem
mais nem menos. Tomei um susto daqueles e logo as minhas pernas
começaram a tremer. "Isto é um assalto",
disse o mais alto, sacando do bolso uma faca automática.
Tentei correr, mas não consegui. Minhas pernas ficaram paralisadas,
tremendo de bater os joelhos, como se o pior dos invernos tivesse
chegado. "Manda logo a grana, ô bacana", disse
o outro com uma voz ronronante feito um gato feroz. Um negro de
dentes muito brancos e olhos brilhantes como os de uma pantera.
Fracassei na tentativa de sair correndo. As minhas pernas são
como duas velhas esclerosadas. Os meus pés sempre fazem
delas o que querem. E o pior é que se divertem com isso.
Naquela noite eu escapei por um triz. Entreguei o dinheiro aos
dois assaltantes e ambos saíram correndo em direção
ao viaduto. Sumiram em meio aos carros que vinham do antigo bairro,
que fica do lado leste da cidade. Para dizer a verdade, senti foi
inveja deles. Dois marginais sem nada a perder, mas com pernas
tão jovens e pés tão obedientes.
Fui para casa a pé, pois fiquei sem dinheiro até mesmo
para a passagem do ônibus. Eram quase duas horas quando cheguei.
E foi como hoje. Tomei uma ducha, enfiei-me no pijama e a insônia
logo me tomou de assalto. Fiquei como estou agora, sentado na beira
da cama, olhando os meus pés e sentindo-me totalmente indefeso
e inútil. Quando consegui vencer a insônia, já era
madrugada e os galos da vizinhança cantavam para acordar
o sol. Foi então que aquele pesadelo veio me castigar o
sono. Não sei se já falei a respeito, mas o fato é que
estou sempre sonhando que os meus pés são gigantes
correndo no meu encalço. Fujo por ruas e vielas escuras
e enfumaçadas, onde os esgotos escorrem à flor da
terra.
Quanto mais eu corro, mais os meus pés se aproximam
de mim, sempre impávidos e ameaçadores, pisando tão
firme que chegam a retumbar o chão à minha volta.
Corro até perder o fôlego. Minhas pernas se embaraçam
e eu acabo caindo e perdendo os sentidos.
Acordo ofegante e suando frio, com a sensação de
que ainda estou sonhando. Afinal, não consigo sentir os
meus pés e, por mais que eu me esforce, nunca tenho coragem
de olhá-los para conferir se eles estão no lugar.
Distraio o meu pensamento contando os segundos ao ritmo do tiquetaque
do relógio de parede que fica na sala. Somente quando ele
me desperta com a campainha berrando, às sete da matina, é que
tenho a certeza de que tudo realmente não passou de um pesadelo.
O pior é que os meus pés parecem falar um com o outro.
Acho que se divertem ao olhar para cima e perceberem a angústia
estampada nos meus olhos. Mas eu não deixo por menos. Sempre
calço sapatos apertados só pelo prazer de castigar
os meus pés.
Eles podem ter a capacidade de me arrastar
pelas ruas escuras, para lugares perigosos, onde jamais eu iria
por livre e espontânea vontade, mas eu me vingo prendendo-os
em sapatos bem apertados. E eles se enchem de bolhas e calos, e
sofrem uma dor intermitente, e por mais que tentem repassar-me
tal martírio, eu me agüento firme, prosseguindo em
meu intento. Aí eles ficam desesperados e cheios de fúria.
Arrastam-me por caminhos cada vez mais tortuosos, chocando-se contra
pedras e paralelepípedos. Mas eu não desisto. E tenho
cá as minhas razões. Afinal, tentei fazer um acordo
com eles. Tudo seria simples demais. Eles paravam de me arrastar
por aí, passando a obedecer minha vontade, e eu só usaria
sapatos macios e confortáveis. Qual o quê! Os meus
pés nunca me dão ouvidos. Nunca.
Mas esta noite eles foram longe demais. Simplesmente passaram dos
limites toleráveis. Imagine que eu sou um homem tímido.
Praticamente casto, devo confessar. Questão de educação,
quero crer. O fato é que eu detesto licenciosidade, pornografia,
ou qualquer tipo de vulgaridade. Nas poucas vezes em que fiz amor
foi porque eu estava apaixonado. Sem paixão, o sexo não
faz sentido. É como um violão sem cordas ou um vinho
sem buquê. Nunca entrei num prostíbulo ou casa de
encontros. Nunca, até esta noite.
Larguei serviço às seis e meia e às sete e
dez eu já havia chegado em casa. Então, senti vontade
de fumar e só aí percebi que estava sem cigarros. "Hoje
eu não vou sair", falei comigo mesmo. Mas não
consegui resistir por muito tempo. É que, de todos os vícios,
o único que me domina é o do cigarro. Eu simplesmente
não consigo deixar de fumar. Fumo desde os quatorze anos
de idade. E fumo muito. Às vezes até três maços
por dia. Tudo depende do meu estado de espírito. Conforme
eu estiver me sentindo, fumo o dia inteiro, acendendo um cigarro
no outro, desesperadamente. "Desse jeito o serviço
não rende", disse o chefe do escritório, um
dia desses. Mas o que é que eu vou fazer? É assim
que eu sou. Um fumante inveterado e sem força de vontade.
Desses que acordam no meio da madrugada aflitos para fumar.
Mas, como eu ia dizendo, cheguei em casa às sete e dez e
percebi que havia me esquecido de comprar cigarros. "Hoje
eu não posso sair", repeti várias vezes em pensamento.
Mas não consegui resistir àquele impulso. "Vou
bem depressa até o bar da esquina", disse a mim mesmo. "Não
vai nem dar tempo dos meus pés perceberem". Eu estava
enganado. Foi só eu sair do bar e a coisa começou
como nas noites anteriores. Nem mesmo abri o maço de cigarros.
Quando dei por mim, já havia andado quatro, talvez cinco
quarteirões numa direção jamais tomada anteriormente.
Caminhei e caminhei até chegar a uma rua deserta, com um
forte cheiro de dama-da-noite. "Para onde vocês estão
me levando?", perguntei aos meus pés e, como sempre
acontece, não obtive nenhuma resposta. Foi então
que avistei aquela casa de dois andares, paredes amarelas e uma
luz vermelha iluminando o alpendre. Ficava numa esquina, ao lado
de uma outra casa de cor azul, com o símbolo da maçonaria
sobre a porta. "Não, eu não vou entrar",
quase gritei. E, sem conseguir me deter, passei pelo largo portão
e parei na varanda.
Logo apareceu uma mulher loura, de olhos verdes e enormes cílios
postiços. Usava uma saia lilás muito curta, que deixava à vista
as coxas brancas como neve e roliças feito pedra sabão. "Boa
noite", disse ela na minha cara, exalando um hálito
de hortelã. Uma estranha sensação percorreu-me
a espinha, causando-me um arrepio. Fiquei completamente imobilizado.
Senti as palavras embolarem na garganta e não consegui dizer
nada. A mulher pegou-me pela mão e me convidou para sentar
num sofá, onde as outras conversavam entre si. "Vamos
fazer um programa, querido", disse ela no meu ouvido. Senti
meu rosto ficar em chamas e, por cima do ombro dela, pude enxergá-lo
refletido num espelho, rubro feito brasa. "Preciso ir embora
daqui", pensei quase em voz alta.
Antes que eu reassumisse o controle da situação,
o meu pé esquerdo, que é sempre o mais atirado, descalçou
o sapato do direito e este começou a se esfregar nas pernas
da tal mulher. Ela sorriu, ficou de pé e foi me levando
pela mão até a escada logo à frente. Quase
não tive tempo de apanhar o sapato caído no tapete.
E fomos os dois, subindo a escada em direção a um
dos quartos do segundo andar. E, enquanto subíamos, eu ia
chutando os degraus com o pé descalço, só para
me vingar dele.
Quando entramos no quarto, eu me confundi de vez. "Olha, moça,
o que eu quero dizer...", danei a gaguejar e a mulher pensou
compreender e, é claro, compreendeu o que quis: "Não
precisa se preocupar, fica relaxado que eu faço o resto,
querido. Eu prometo que tudo vai dar certo...Vai ser uma noite
inesquecível, você vai ver". Ela se despiu rapidamente
e, como eu não fiz o mesmo, começou a tirar a minha
roupa. Tentei resistir, mas foi em vão.
Segundos depois,
lá estava eu, completamente nu, deitado na cama, com a tal
mulher me lambendo feito uma cadela esfomeada. Felizmente tudo
aconteceu depressa... Mas nem mesmo naquele instante de total intimidade
os meus pés me deixaram em paz. Foi só eu olhar para
o espelho do teto e lá estavam os dois me observando e se
divertindo às custas da minha desgraça.
Enquanto a mulher se lavava, eu acendi um cigarro. Dei duas tragadas
e olhei os meus pés novamente. Notei que estavam quietos,
como que saciados. "Hoje vocês me pagam", murmurei,
e a mulher perguntou lá do banheiro: "Que foi que você disse? ".
Pigarreei sem graça: "Nada não". E, antes
que ela saísse do banho, queimei os meus pés com
a brasa do cigarro. Depois vesti a roupa rapidamente. "Você não
quer se lavar? ", ela perguntou ao retornar ao quarto, enxugando-se
numa toalha amarela. "Estou com muita pressa", respondi
e evitei entrar em detalhes. "Tudo bem", disse ela, estendendo-me
a mão. E lá se foram os trocados que eu tinha no
bolso, o que me obrigou a voltar a pé para casa.
Agora, cá estou eu, sentado na beira da cama, depois de
mais uma longa caminhada. Minhas pernas estão doloridas,
com os músculos retesados dentro do pijama. Nem mesmo o
banho frio foi capaz de expulsar de mim essa estranha sensação.
E ali estão meus pés.
Ambos tranqüilos, como
se nada tivesse acontecido... E a minha atenção só se
desvia deles quando contemplo o facão afiado sobre a cômoda.
Talvez seja esse o melhor castigo para eles e para mim mesmo. Afinal,
eu nunca deveria ter ido a um lugar como aquele.
Aliás,
eu não fui. Não por minha espontânea vontade.
Foram os meus pés que me levaram até lá. De
fato eu gozei, não posso negar. Mas foram eles que sentiram
prazer.
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O homem que
contava coisas
Quando era criança, ele costumava falar sozinho. Não
se lembrava mais se ouvia vozes, mas que falava, falava. Disso
tinha certeza. E era repreendido pela mãe que dizia:
- Pára de falar sozinho, menino. Parece doido!
E ele acabava fazendo silêncio, falando só em pensamento,
sem ninguém perceber, até que um dia deixou de vez
a estranha mania...
De uns tempos para cá, dera para contar coisas. E contava
os azulejos do banheiro, os ladrilhos do chão da cozinha,
o número de vidros do basculante da sala. Quando ia pelas
ruas da cidade, contava os carros, os postes e as janelas dos edifícios.
Um dia surpreendeu-se ao constatar que, após percorrer a
pé um bom trecho da avenida Afonso Pena, havia contado novecentos
e cinqüenta e quatro postes, oitocentos e trinta e uma janelas
de edifícios e duzentos e oitenta e três degraus de
escadas. No final da maratona, estava exausto, quase sem fôlego.
Percebeu que realmente alguma coisa muito estranha estava ocorrendo
em sua mente. Num fio de memória, lembrou-se da advertência
da mãe:
- Parece doido!
- Doido? - interrogou-se em pensamento.
E a partir daquele instante, passou a observar melhor os próprios
hábitos. Chegara à conclusão de que não
poderia continuar daquele jeito, contando tudo o que via. Ainda
no dia anterior, quase passara do ponto de ônibus onde costumava
descer, distraído ao contar o número de passageiros à bordo.
Assustara-se, inclusive, ao notar que a quantidade de pessoas em
pé superava em mais do dobro a de pessoas sentadas. À noite,
vítima constante de insônia, ficava contando ovelhas
durante horas, até o sono chegar já quase ao amanhecer.
Ao se levantar da cama, distraía-se contando os tacos do
chão do quarto e por pouco não perdia a hora.
Mas haveria de melhorar... Já a caminho do escritório,
notou um considerável progresso ao resistir à tentação
de contar as grades do Parque Municipal. No serviço, procurou
concentrar-se na rotina e sentiu-se melhor ao vencer o teimoso
impulso que quase o levara a contar os livros de Direito na estante à sua
frente. Na hora do almoço, não contou as garrafas
na prateleira do restaurante e nem os bagos de arroz no fundo do
prato. Retornou ao escritório sentindo-se um vencedor, verdadeiro
campeão, dono de rara força de vontade. Duas horas
depois, sofreu uma recaída. Surpreendeu-se contando os orifícios
do crivo do mictório, enquanto urinava.
- Doido, eu? - perguntou a si mesmo, agora em voz alta.
Naquele momento, tomou uma decisão única e extrema: "Um
psicanalista, eis a solução". De maneira nenhuma
e em momento algum poderia contar com a ajuda dos colegas, amigos
ou familiares. Sabe lá o que eles iriam pensar? Somente
um especialista devidamente diplomado poderia ajudá-lo de
verdade e sem fazer críticas ou observações
incômodas. Entrando na sala de trabalho, consultou a lista
telefônica, escolheu um nome e discou.
Marcou a consulta
para dali a uma hora. Ansioso, tentando evitar o hábito
de contar objetos, distraiu-se contando os minutos. Saiu do escritório,
entrou num táxi e falou o endereço. Minutos depois
estava deitado no divã, explicando os sintomas que tanto
o afligiam. Na parede do consultório, sobre os ombros do
analista, Freud o observava com um olhar austero, envolto por uma
velha moldura de madeira preta.
Foram várias sessões de psicanálise. Meses
depois, sem conseguir um resultado satisfatório, o analista
- já ciente da extinta mania do seu paciente em falar sozinho
- sugeriu a ele a substituição do novo hábito
pelo antigo. Seria muito simples: ao invés de contar coisas,
ele voltaria a conversar sozinho. Depois passaria a falar só em
pensamento e, finalmente, eliminaria qualquer mania que lhe fosse
prejudicial ao juízo.
E o doutor tinha razão, pelo menos em parte. À medida
em que voltava a falar sozinho, o paciente ia deixando de contar
coisas. Numa segunda etapa da terapia, passou a falar em pensamento,
silenciosamente, sem nem mesmo mover os lábios. Só então
percebeu um novo e perigoso sintoma. Enquanto ia deixando de falar
sozinho - e já havia muito tempo que não mais contava
coisas
- passou a ouvir vozes que lhe falavam coisas estranhas
e com
muita insistência. O psicanalista tentou ajudá-lo,
mas foi em vão.
Um dia, enquanto limpava um velho revólver
que herdara do pai, o homem que contava coisas ouviu uma voz insistente: "Estoure
os miolos. Vamos, estoure os miolos e resolva todos os seus problemas".
Como que hipnotizado, não resistindo à ordem insistente,
ele carregou a arma - depois de resistir à tentação
de contar os cartuchos que tinha dentro da caixa. Então,
puxou o cão para trás e enfiou o cano no ouvido.
Mas, por ironia de sua própria sorte, ao invés de
fazer uma contagem regressiva, resolveu contar de um até três
e nunca mais conseguiu parar.
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O impostor
Tudo começou naquele dia em que telefonei para minha casa
e uma voz masculina atendeu. Uma voz familiar, é verdade,
mas que a princípio não consegui identificar. Vai
ver é algum parente da Graça, pensei, e pedi para
falar com ela. A Graça tá no banho. Quer deixar recado?
disse a voz. Quem é que tá falando? perguntei.
Quem
quer falar com ela? a voz retrucou. Aqui é o marido dela.
Marido dela? Mas o marido dela sou eu...
A vida nos apronta cada uma, pensei. Como é que pode uma
coisa dessas? Ligo para minha própria casa querendo falar
com a minha mulher e um outro cara atende e diz que é marido
dela. Desculpe, foi engano....
Desliguei e disquei novamente. Alô... Era a mesma voz, tão
familiar quanto antes, mas ainda não identificada. Quero
falar com a Graça, falei. Mas de novo? Como é? perguntei.
A Graça tá no banho, quer deixar recado? Mas quem é que
tá falando? perguntei irritado. Aqui é o marido dela,
a voz respondeu. Marido? Mas qual é o número daí?
555-0201. Mas não pode ser, suspirei...
Não. Não era engano. Aquele era mesmo o número
do telefone da minha casa. Quem tá falando? quase gritei.
Eu é que pergunto, disse a tal voz, agora ainda mais irritada
e mais familiar do que nunca. Já falei... Se isso é alguma
brincadeira, melhor dizer o seu nome. Aqui é o Alencar.
Quero falar com a minha mulher...
Nesse instante, ouvi a voz da Graça do outro lado: Quem é,
querido? Sei lá, disse o cara. Deve ser algum maluco dizendo-se
seu marido. Vai ver é alguém do escritório,
ela disse. Meus colegas adoram gozar uns aos outros por telefone.
Um deles é craque em imitação. Imita até a
minha voz. Deixa que eu atendo. Alô...
Era mesmo a Graça, minha mulher. Oi, querida, o que é que
tá acontecendo? Quem é que atendeu o telefone? Quem
tá falando? ela quis saber. Sou eu, o Alencar. Pára
com isso, ela disse. O
Alencar tá em casa, você não
me pega. Realmente, Graça pensava que se tratava do tal
colega do escritório onde trabalhava. Um engraçadinho
que vivia imitando os outros, como se fosse humorista e a vida
um palco ou um estúdio de TV...
Escuta aqui, Graça. Isso não é uma brincadeira.
Sou eu mesmo, o Alencar. Pára com isso, cara, não
tô pra brincadeiras, ela xingou. Mas já falei que
não é brincadeira... O sujeito da tal voz irritada
e familiar voltou a falar, agora completamente nervoso: Vai à merda, ô cara.
Se ligar de novo, vou anotar o número pelo bina e chamar
a polícia...
Bateu o fone na minha cara. O sangue me subiu à cabeça.
Saí do serviço tropeçando nos meus próprios
passos. Peguei um táxi e rumei para casa. Lá chegando,
bati a campainha disposto a fazer e acontecer. Se for o que estou
pensando, mato os dois e fujo pro Uruguai, pensei. Meti a chave
no portão, atravessei o jardim e entrei em casa. Ouvi gemidos
vindos do quarto e caminhei na ponta dos pés. Meu coração
parecia um cavalo indomável, galopando no peito. A porta
estava encostada e eu a empurrei lentamente....
Quase desmaiei diante do inusitado. O casal estava se amando na
minha própria cama. Ela, a minha mulher, aquela que me jurou
fidelidade aos pés da cruz, no altar da igrejinha de São
Francisco de Assis. De repente, Graça percebeu a minha presença
e arregalou os olhos em minha direção, por cima do
ombro esquerdo do meu rival. Você? exclamou, perplexa. O
tal sujeito virou-se rapidamente, movendo a cabeça sobre
o pescoço no sentido anti-horário...
Ele era eu. Ou melhor, eu era ele. Se fôssemos irmãos
gêmeos, provavelmente não nos pareceríamos
tanto. Tive uma síncope nervosa. A certeza de estar sendo
traído e a confusão gerada em minha mente ao encarar
o impostor devem ter desatarrachado algum parafuso na minha cabeça.
Comecei a falar coisas desconexas feito um robô com defeito.
E aí me internaram nesse lugar. Os médicos me mantêm
a sete chaves e as enfermeiras sequer conversam comigo. Ninguém
acredita no que eu digo. Minha vida perdeu a graça. Aliás,
eu perdi a Graça, minha mulher. Eu a perdi para mim mesmo.
Ou pior, para um impostor que sou eu mesmo ou que pelo menos tem
a minha cara, a minha voz e a minha carteira de identidade.
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O velho Tom
O Parque Municipal não era tão grande, mas era bonito
e tranqüilo nos fins de tarde. E aquilo agradava ao homem
que caminhava naquele horário, entre a relva e as árvores.
Seu nome era Hamilton e todos o chamavam de Tom. Tinha cinqüenta
e seis anos, embora aparentasse um pouco mais. Grisalho, de olhos
castanhos, rosto branco e redondo, colecionava algumas rugas e
cultivava uma barriga que servia de mais um motivo para as implicâncias
da mulher. O nome dela era Norma e estavam casados há vinte
e sete anos. Tinham um casal de filhos, a mais velha já casada
e mãe de uma menina de dois anos.
Tom havia se aposentado na profissão de alfaiate e, por
mais que se esforçasse, não conseguia sentir-se bem
em sua nova condição. No começo, achou que
seria uma justa recompensa pelos trinta e tantos anos de trabalho
ininterrupto. "Arranjarei um serviço de meio horário,
só para preencher o tempo e inteirar a aposentadoria" -
dissera à família num almoço de domingo. Qual
o quê! Não conseguira nenhum outro afazer, senão
ficar em casa discutindo com a mulher, folheando jornal ou vendo
televisão, sem nem mesmo tirar o pijama. "Ninguém
quer dar emprego a um velho aposentado"- concluiu, amargamente.
Nos últimos meses, Tom adquirira o hábito de caminhar
pelo Parque Municipal, ao anoitecer. No início, experimentou
ir ali durante o dia , mas a presença de muitas pessoas
era uma coisa que o incomodava bastante. E assim ele preferia o
final da tarde devido ao fato de haver menos gente ao seu redor.
Naquele dia, como sempre fazia, sentou-se num dos bancos de frente
para o lago, diante do qual erguia-se uma colina. Além da
colina, ele podia ver alguns prédios do centro da cidade.
O ar ainda estava úmido devido às chuvas de verão
que haviam estiado no dia anterior. Os passarinhos tomavam seus
lugares nas árvores, piando e esvoaçando como de
costume. O vento cantava nas frondes e todos aqueles sons, mais
o distante ruído da cidade, despertavam em Tom uma sensação
agradável.
"
Lá fora, o caos da civilização; aqui, a simplicidade
da natureza" - ele pensava. E alguma coisa fazia com que ele
se lembrasse da infância perdida. "Uma infância
que hoje em dia já não há" - dizia de
si para si. E recordava a cidadezinha onde fora criado e todas
aquelas brincadeiras do seu tempo e as conversas dos adultos na
calçada, ao entardecer. "Hoje, as crianças já não
brincam e os adultos já não conversam como antigamente" -
disse em pensamento.
O sol tombava por detrás da colina, além dos prédios,
tingindo as nuvens altas de dourado. As nuvens mais baixas, sopradas
pelo vento do Norte, passando em frente ao sol da direita para
a esquerda de Tom, desenhavam estranhas figuras cor de chumbo no
azul do céu. "Aquilo parece um peixe" - pensou
o homem, olhando as nuvens e se lembrando de uma das brincadeiras
de sua infância. "Agora está se transformando
num rebanho de ovelhas"- acrescentou e, no fundo de sua memória,
ecoou a voz de Cristina, a primeira namoradinha que ele teve na
vida. Ela devia ter pouco mais de dez anos quando lhe fez exatamente
aquela pergunta:
"
Qual é o artista que pinta as nuvens de dourado e desenha
no quadro negro do céu?"
Tom não soube responder.
"
Ora, Tina, é claro que não tem nenhum artista".
"
Será que não?" - disse ela.
"
Claro que não. Isso é coisa da sua imaginação.
Mulher é assim mesmo, gosta de ficar imaginando coisas absurdas".
Ele não falou, mas estava apenas repetindo uma frase dita
pelo pai, ao comentar uma fantasia inventada por uma das filhas.
"Naquele tempo a vida era boa" - disse Tom a si mesmo. E recordou-se
dos seus planos de então. "Quando crescer, eu quero
ser piloto" - dissera a Cristina, ao ver um bimotor cruzando
os céus.
"E eu vou ser aeromoça" - ela comentou.
Uma garça bateu asas e ficou sobrevoando o lago, até pousar
numa árvore. Tom a acompanhou com um olhar tristonho, na
certeza de que não realizara nenhum dos seus planos de vida. "Sonhei
tantas coisas e acabei fazendo tão pouco" – suspirou
do fundo da alma. Por um momento, lembrou-se de Norma e do seu
gênio que a cada dia se complicava mais. "O tempo esgarçou
o nosso amor como se ele fosse um retalho de seda"- meditou.
Depois pensou no filho caçula, ainda solto na vida, sem
planos para o futuro. "Ele vive como se fosse eterno" -
comentou, mas concluiu que seria melhor daquela maneira. Assim
o rapaz teria menores decepções. Lembrou-se da filha
que não vivia bem com o marido e da neta que, ainda tão
pequena, já sentia na carne o preço de tais desavenças. "Não
foi nada disso o que eu planejei para mim e para eles"- quase
murmurou, voltando a contemplar o crepúsculo e, em sua memória,
Cristina repetiu a pergunta: "Qual é o artista que
pinta as nuvens de dourado e desenha no quadro negro do céu?"
- Sei não, Tina - disse ele em voz alta. - Mas, seja lá quem
for, devia apagar o quadro antes que os homens o façam.
Aquilo saiu de sua boca sem mais nem menos e entrou pelos ouvidos, resvalando
nos labirintos do cérebro, provocando uma estranha sensação.
Ele olhou para os lados, pensando que alguém poderia tê-lo escutado. "Quê que
há, velho Tom, você nunca foi de filosofar"- resmungou consigo
mesmo.
As nuvens escuras e baixas continuaram passando da direita para a esquerda,
formando peixes, ovelhas e outras figuras. O sol ainda dourava as nuvens mais
altas, declinando por detrás da colina e dos prédios como um
operário a caminho de casa, depois de ter cumprido sua jornada de trabalho.
Os passarinhos que ainda piavam já estavam acomodados nos galhos das árvores.
Tom se pôs novamente de pé, ergueu a cabeça e viu a lua
cheia que era tão prateada que mais parecia uma medalha de São
Jorge sobre um veludo azul-marinho. "Está esfriando"- murmurou,
enfiando as mãos na algibeira. - "Melhor tomar um gole antes de
ir para casa".
Surgiram as primeiras estrelas e as luzes foram se acendendo entre as árvores.
Fora do parque, a cidade parecia gemer através do ruído de motores,
sirenes e buzinas. E foi naquela direção que o velho Tom caminhou,
antes que a noite o envolvesse.
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A comemoração
ESTAVAM ali para comemorar alguma coisa, disso ninguém tinha dúvida.
Luís Carlos, Analu e Gabi eram os convidados e Eduardo o anfitrião.
O vinho era um chateau da melhor qualidade, de perfeito buquê. Como
tira-gosto, havia um queijo de leite de cabra. Era uma combinação
perfeita: um bom vinho, um queijo fino e dois casais amigos.
- Esta é uma ocasião especial - disse Eduardo. - Eu sugiro um
brinde.
- E a que devemos brindar? - indagou Luís Carlos.
- A tudo isso, enfim - respondeu o outro.
As duas mulheres se olharam sem nada entender. Luís Carlos percebeu
que nada havia em especial, pelo menos que ele soubesse.
- Ora, Eduardo, quando você me ligou nos convidando, você disse
que íamos comemorar.
- E estamos comemorando, Luís Carlos.
- Mas comemorando o quê?
- Uma ocasião especial.
- E por que especial? - perguntou Analu.
- E não é?
Um ar de mistério circulou pelo quarto. Novamente as mulheres se entreolharam.
- Você não sabe do que se trata, Gabi? - disse Analu.
- Sei tanto quanto vocês.
Eduardo sorriu, segurando um cigarro entre os lábios. Acendeu o cigarro
e deu a primeira tragada.
- Daqui a pouco eu vou abrir uma caixa de charutos cubanos. Coisa muito fina,
pessoal.
- Charutos cubanos - exclamou Analu. - Mas como o homem não está!
- Ganhei uma caixa de um amigo que é vereador na cidade. A recepção
do hotel já deve ter mandado subir.
Mais uma vez Luís Carlos ficou sem entender nada. Tomou mais um gole
e, enquanto pegava um pedaço de queijo, insistiu:
- Mas o quê é que está acontecendo, Eduardo?
- Uma comemoração, ora bolas!
- Isso já está me deixando confusa - disse Gabi.
O clima foi interrompido quando alguém bateu à porta. Eduardo
atendeu. Era o mensageiro com uma pequena caixa embrulhada em papel de presente.
- Os charutos cubanos - disse Eduardo, entregando uma gorjeta ao rapaz e pegando
o pacote. Enquanto ele desfazia o embrulho, Luís Carlos recomeçou:
- Espera aí, Eduardo. Você convida a gente para uma viagem até Itabira,
custeia todas as despesas, serve-nos vinho francês, queijo de leite de
cabra, charutos cubanos...
- E daí?
- Ora, deve haver algum motivo muito especial.
- O motivo sempre existe, meu caro.
- Você passou em um concurso público - sugeriu Analu.
- Ganhou na loteria - falou Gabi.
Eduardo acendeu um charuto e deu uma baforada.
- Você não fuma, não é, Luís Carlos?
- Você sabe que não.
- É uma pena, pois este Bolívar está ótimo. É umas
das melhores marcas de charutos do mundo, sabia?
Um silêncio cheio de suspeitas invadiu o recinto. Gabi encheu novamente
os copos. Analu cortou mais um naco de queijo. Luís Carlos pigarreou.
- Ô, Eduardo, vê se fala coisa com coisa.
A ansiedade foi crescendo. Eduardo mantinha aquele sorriso estranho sob o bigode
amarelado de fumo.
Analu tentou descontrair o ambiente.
- Já sei. Você vai se aposentar.
- Que é isso, Analu? Eu não sou tão velho assim, né?
- Então você e a Gabi vão se casar.
- Casamento, eu heim?
Gabi interferiu:
- Ora, Eduardo, você está me matando de curiosidade. Isso não
tem graça nenhuma.
- A questão é a seguinte: estamos comemorando e não importa
o quê.
- Comemorando a comemoração - completou Luís Carlos.
- É mais ou menos isso daí. Vocês sabem como são
as coisas. Nos dias de hoje, não há muito o que comemorar, a
não ser uma despedida, uma promoção... sei lá.
- Você foi promovido? - disse Gabi.
- Não, infelizmente ainda não me fizeram essa justiça.
Ele deu outra baforada no charuto e fez com que todos se entreolhassem com
mais expectativa. O cheiro do fumo impregnou todo o quarto.
- Então você está se despedindo? - perguntou Analu.
- Vai viajar para algum lugar - disse Luís Carlos.
Eduardo conservou-se em silêncio. Sorriu, deixando a fumaça exalar
entre os dentes, e interrompeu Gabi no início de uma conjectura.
- Você... - dizia ela, ao que ele ergueu a mão direita.
- Eu quero dizer que... bem, quem chega a algum lugar mais cedo ou mais tarde
tem que ir embora.
- Pois então - falou Analu - você está de partida?
- Mais ou menos.
- Como mais ou menos? - disse Luís Carlos já irritado. - Ou as
pessoas vão ou as pessoas ficam.
- Correto. Palmas pra você. Ou as pessoas vão ou as pessoas ficam.
Ou vivem ou morrem.
- Morrem? - disse Gabi, sentindo um calafrio percorrer o corpo.
- Morrem - confirmou Eduardo, friamente.
Todos engoliram seco naquele instante. Luís Carlos teve receio, mas
tentou manter o bom humor:
- Você está condenado à morte e resolveu comemorar. Está com
câncer ou sofrendo de Aids?
Analu protestou:
- Mas que humor negro, Luís!
- Quem sabe, gente? - disse Eduardo. - Quem sabe ele não está certo?
- Como assim? - disse Gabi. - Ô, Eduardo, pára com isso que eu
tô ficando pê da vida.
- Eu também - disse Luís Carlos, bebendo mais vinho.
- Calma, gente - Eduardo pigarreou.
- Brincadeira mais chata - disse Analu.
- Sacanagem, Eduardo - disse Luís Carlos. - Puta sacanagem...
- Ora, Luís Carlos, fica frio. A gente deve enfrentar a realidade tranqüilamente,
de cabeça erguida e com bom humor. As pessoas chegam, as pessoas partem
e ponto final. É a vida, cara!
Luís Carlos sentiu um forte sentimento de perda. Percebeu que seu melhor
amigo ia mesmo partir. Eram quase irmãos, embora ele fosse bem mais
jovem que Eduardo. Lembrou-se de outros amigos que também se foram.
- Droga - exclamou.
Ninguém entendia direito o que se passava e a comemoração
ainda estava mergulhada em mistério. O vinho já estava no fim,
o charuto que Eduardo fumava também se acabava e todos demonstravam
chateação, menos ele.
Luís Carlos acabou perdendo a paciência.
- Olha, Eduardo, esse seu joguinho sujo já me encheu o saco. Você parece
não ter nenhuma consideração pelas pessoas.
- Ora, o que é isso? Tanto considero vocês que os convidei para
comemorarmos juntos.
- Mas comemorarmos o quê?
O silêncio voltou novamente e o nervosismo cresceu. Era uma situação
desconcertante. Gabi serviu a Analu as últimas gotas do vinho e foi
logo dizendo:
- Eu não conhecia essa sua vocação para o mistério,
Eduardo.
- Nem eu - exclamou Eduardo e Analu ao mesmo tempo.
Eduardo sorriu. Luís Carlos virou o resto do vinho num só trago.
- Acho melhor a gente ir para o nosso quarto, Analu - disse a seguir.
- Mas ainda é tão cedo, gente - disse Gabi.
- Pois pra mim já chega.
- Calma, Luís Carlos - disse Eduardo - Experimenta fumar um Bolívar.
- Você está se divertindo com a gente. Pensa que arcar com as
despesas lhe dá esse direito. Pois está sendo leviano, isso sim.
- Calma, Luís Carlos - interrompeu Analu.
- Calma o cacete. Esse cara tá de gozação com todo mundo,
você não percebe?
- Mas ele é seu amigo.
- E com um amigo desse quem é que precisa de inimigos?
- Cala a boca, Luís Carlos. Você pode ofendê-lo.
- Cala a boca você - gritou Luís Carlos.
Analu sentiu-se ofendida e saiu rapidamente sem se despedir dos outros.
Luís Carlos ficou ainda mais irritado.
- Tá vendo o que você fez, Eduardo? Satisfeito agora?
- Eu?!
Gabi permanecia em silêncio e completamente sem jeito diante da situação.
- Ora, eu vou é me deitar - disse Luís Carlos, finalmente. -
Não vou ficar aqui perdendo o meu tempo... Boa noite pra vocês.
Ele saiu, deixando Eduardo com uma frase pela metade.
- Mas Luís...
A noite foi horrível para os quatro. Gabi perdeu a paciência e
passou quase uma hora repreendendo e ameaçando deixar Eduardo.
Analu chorava quando Luís Carlos entrou no quarto. Ele, por sua vez,
se sentia muito mal, vendo-a daquele jeito. Foi a primeira vez que a viu chorar.
Tomou uma ducha fria e colocou-se a andar de um lado para o outro. Analu suspirou:
- Luís, deita aqui comigo...
Ele não teve como evitar. Deitou-se ao lado dela e acabou pedindo desculpas.
Comentaram o incidente e só cochilaram lá pelas tantas da madrugada,
depois de fazerem amor.
Às nove e meia do dia seguinte, os quatro já se encontravam no
refeitório. Cumprimentaram-se meio sem graça. Falaram poucas palavras
e Eduardo acabou se desculpando. Todos ouviram suas explicações,
que pouco explicavam de fato. Afinal, a dúvida permacia cruelmente dentro
deles.
Por fim, Luís Carlos acabou não resistindo à curiosidade:
- Escuta, Eduardo, agora que tudo já passou, diga-nos francamente. Afinal
de contas, o que foi que nós comemoramos ontem à noite?
E Eduardo , depois de acender um cigarro:
- Se soubesse, eu teria dito.
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