Quem nasceu primeiro, a palavra ou o palavrão? Os linguistas de plantão certamente acreditam que foi a palavra, mas há controvérsia. Afinal, quanto maior a fúria ou o perigo que enfrentam na natureza, mais os bichos produzem sons esquisitos com a boca.

Em tais circunstâncias, o cão rosna, o leão ruge e o macaco emite aqueles grunhidos que só mesmo o Tarzan seria capaz de decifrar. No reino animal, somente papagaios, araras e gente desocupada costumam falar pelos cotovelos sem necessidade.

Por essas e outras, não é difícil imaginar a cena. Certo dia, no tempo das cavernas, um dos primeiros trogloditas tentava literalmente lascar a pedra quando acertou o próprio dedo. Na ânsia de expressar a terrível sensação de dor e fúria, soltou um sonoro “puta que pariu”… Nascia assim o primeiro palavrão.

À noite, enquanto fazia sexo com a fêmea, o tal sujeito quis exibir sua descoberta e passou a resmungar: “Puta que pariu… puta que… puta”. Como nessas horas tendemos sempre a usar palavras pequenas e delicadas, do tipo “ai” e “ui”, a frase foi se resumindo ao essencial: “Puta… puta… putinha”… E dessa forma o palavrão virou palavrinha.

Seja lá como for, ninguém pode negar a utilidade de tais vocábulos. Imaginem, por exemplo, o que teria sido da grande Dercy Gonçalves se ninguém tivesse inventado o palavrão. Provalmente ela jamais teria se tornado a rainha do escracho do teatro nacional.

O também saudoso Costinha com certeza não teria se consagrado sem o uso de tais vocábulos. Menos ainda seu colega Ary Toledo, que chega a degustar palavrões dos mais cabeludos em suas piadas nem sempre engraçadas. E o que dizer de autores como Gregório de Matos e Plínio Marcos? Se o palavrão não existisse, eles provavelmente o teriam inventado.

Mas não precisa ir muito longe para reconhecer a importância de tal invento. No trânsito, por exemplo, o que seria de nós sem a possibilidade de xingar o pedestre “sacana”, que atravessa fora da respectiva faixa, ou o “filho da puta” do motoboy que nos corta pela direita? E quanto ao “veado” do motorista que nos dá aquela fechada sem nem mesmo “dar” seta? No campo de futebol, como poderíamos xingar o “corno” do juiz toda vez que nosso time fosse prejudicado?  

Para quem não tolera o palavrão, vai aqui uma imagem clássica que justifica a existência de todos eles. Imaginem o Papa pregando um prego na parede e acertando com o martelo a cabeça do próprio polegar. Pensam que ele evocaria São Pedro ou Nosso Senhor Jesus Cristo? Diante do desespero da dor, com certeza sua santidade se comportaria igualzinho ao homem das cavernas. Reiventaria a pólvora, isto é, o palavrão - que nada mais é que uma palavra explosiva.

Já notaram como os palavrões se ajustam às situações que nos levam a pronunciá-los? Isso revela a própria origem de cada um deles. Se a dor da martelada no dedo se expressa por meio do “puta que pariu”, ”merda” deve ter surgido no exato momento em que aquele mesmo troglodita sujou os dedos enquanto limpava o ”cu”. Esta palavra, por sinal, significa nádegas em bom português. Veio daí a expressão “pica no cu”, já que em terras lusitanas - segundo o escritor e filólogo amador Mário Prata - “pica” quer dizer injeção.

Dizem que “caralho” é uma corruptela de carvalho, ou seja, pau grande, duro e resistente. Os navios antigos tinham uma casinha no alto do mastro principal, para onde eram mandados a vigiar os marinheiros e grumetes indisciplinados. Assim surgiu a expressão “casa do caralho”.

Interessante notar é que algumas pessoas, geralmente gente mais simples e pouco instruídas, dizem “carai”. E essa palavra está corretíssima. Não se trata exatamente de um palavrão ou palavra derivada de “caralho”, mas dá quase no mesmo, pois na língua tupi “Karai” significa pau.

Pra quem não sabe, “vagina”, que não chega a ser palavrão, era a bainha onde os guerreiros guardavam suas respectivas espadas ou adagas. Já “boceta”, nome pelo qual o órgão sexual feminino é popularmente conhecido, era a bolsinha onde se portava o rapé. Este era um pó de cheirar, mas não tinha nada a ver com droga nenhuma.

Antes de se tornar o palavrão preferido dos cariocas, ”porra” era um artefato de guerra usado para derrubar portões de castelos e fortalezas. Como se parecia com o órgão sexual masculino, não demorou para ser associado ao produto do mesmo quando devidamente esfregado. O mesmo órgão também leva o codinome de “cacete” e deste veio a palavra cassetete, que significa cacete curto ou pequeno.

Por tudo isso, palavras e palavrões devem ser considerados irmãos de origem e função. Servem para expressar sentimentos, sensações, necessidades do corpo e da alma. Num outro sentido, palavrão seria palavra bem grande, algo do tipo inconstitucionalissimamente, a maior de todas da nossa língua.

Mais que palavrão, verdadeiro palavreão, que descreve todo ato que fere a Constituição do país. Em linguagem chula, podemos dizer que quem faz uma coisas dessas é um tremendo “filho da puta” que só pensa em si mesmo e pode até se “foder” nos termos da lei.