Participei de um encontro internacional de críticos literários em Manaus, em 1991, a convite do Instituto Nacional do Livro (INL). Na ocasião, conheci jornalistas de vários países. Fiquei muito próximo de um representante de Cuba, cujo nome não me recordo.

Nas refeições, o jovem periodista empilhava bifes de boi no prato. Na última noite, esvaziamos uma garrafa de cachaça. Ele confessou que se sentia culpado, porque sua família raramente comia carne. Lá pelas tantas, afirmou que em Cuba não havia liberdade nem socialismo. Uma colega brasileira o repreendeu, mas ele preferiu não argumentar. Depois me confidenciou que a moça não sabia do que estava falando.

Três anos depois, quando Fernando Morais lançou a biografia “Chatô, o rei do Brasil”, eu participei da entrevista coletiva no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Na ocasião, ele me deu um charuto Romeo & Julieta, cuja caixa lhe fora enviada por seu amigo Fidel Castro. Fumei o charuto numa ocasião especial e guardei a embalagem de alumínio como souvenir.

Morais ficou famoso em 1976, ao publicar “A ilha”, livro que fez a cabeça da minha geração. Com sua excelente narrativa, o autor nos convencia de que a Cuba de Fidel era um paraíso socialista. Ele só não explicava porque tanta gente fugia de lá! Interessado em política e na música cubana, li outros livros sobre o tema, vi documentários, falei com pessoas que visitaram a ilha e, finalmente, caí na real.

De herói a ditador

A morte de Fidel deixou claro que a esquerda brasileira continua idolatrando a imagem do herói de Sierra Maestra. Até mesmo parte da mídia nacional, considerada “golpista” por essa mesma esquerda, preferiu cantar loas ao carisma do ditador, em vez de ressaltar os crimes por ele praticados.

No auge da revolução que derrubou o golpista Fulgencio Batista, muitos intelectuais apoiaram os rebeldes por acreditar que a justiça e a liberdade seriam triunfantes. Dizem que o escritor americano Ernest Hemingway, que morava em Cuba naquela época, teria contrabandeado armas para ajudar a causa. Ao saber dos fuzilamentos sumários, o autor de “O velho e o mar” deixou a ilha para nunca mais voltar.

Fidel distribuiu terras, nacionalizou empresas, melhorou a educação e a medicina de Cuba. Mas, usando como desculpa o embargo econômico e as ameaças da Casa Branca, alinhou-se com a União Soviética e perpetuou-se no poder com a política do “paredon”.

O Partido Comunista converteu cidadãos comuns em informantes do regime; dissidentes foram presos e assassinados; jornais e sindicatos, fechados; homossexuais – como o escritor Reinaldo Arenas – enviados à Isla de La Juventud, para serem “reeducados”. Sem falar no período em que a ilha passou a exportar a revolução, treinando guerrilheiros estrangeiros e enviando tropas para a África.

Ilha da fantasia

É surpreendente que até hoje existam pessoas que acreditam nos contos da Carochinha socialista. Pior ainda quando são intelectuais que sentiram na pele o peso da repressão política. Outro dia, um desses ressaltou no Facebook as condições que levaram Fidel ao poder e os benefícios que seu governo teria proporcionado aos cubanos.

Pelo discurso, a violência e a repressão seriam justificáveis devido à soberania e ao bem-estar social dos cubanos – embora nem isso tenha sido alcançado. As mesmas razões serviriam para inocentar Hitler ou Pinochet, que também mataram “com a melhor das intenções”.

O sonho de liberdade da revolução que derrubou Fulgencio Batista em 1959 converteu-se num pesadelo, que acabou transformando Cuba numa ilha da fantasia parada no tempo. Fidel foi de fato um revolucionário, mas se converteu num ditador como outro qualquer. Como declarou Mario Vargas Llosa, “a história não o absolverá”.