A eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos é mais uma prova de que a figura do político tradicional está mais desgastada do que nunca. No Brasil, ocorreu o mesmo fenômeno nas eleições para prefeito. Venceram Kalil em BH, Crivella no Rio e João Dória em São Paulo, todos com o discurso antipolítico.

No caso americano, a vitória dos republicanos era quase previsível sob a lógica da alternância de poder. Bom lembrar que a eleição de Barack Obama interrompeu a hegemonia conservadora da era Bush. Parece natural que dessa vez a balança tenha pendido para o outro lado. Mas na prática, apesar do alarde, poucas coisas deverão mudar.

Os democratas geralmente adotam uma política internacional moderada, não protecionista, o que contraria os defensores do chamado modo de vida americano. Enquanto isso, os republicanos são nacionalistas e quase sempre praticam uma política internacional desastrosa. Eis aí as principais diferenças. De qualquer forma, os dois grupos governam o maior império do planeta e priorizam, acima de tudo, os interesses do seu país.

O diferencial de Donald Trump é a arrogância e o fato de não ser um político tradicional. A questão é saber quem de fato ele é. Afinal de contas, é quase certo que seus eleitores votaram no personagem midiático e não propriamente em suas ideias. A empáfia do seu discurso desagradou até mesmo alguns de seus correligionários, mas conquistou o americano comum.

De escândalo em escândalo

No Brasil, um dos principais fatores de desgaste da classe política tem sido a corrupção investigada pela Operação Lava-Jato. Nos Estados Unidos, a atuação não muito eficaz de Hillary Clinton como secretária de Estado contribuiu para sua derrota nas eleições. Sem falar no escândalo dos emails recentemente requentado pelo FBI. Lá, muito mais que aqui, a opinião pública não costuma tolerar corrupção nem erros de seus políticos.

Mas a verdade é que hoje, em todo o mundo, nota-se uma guinada para a direita. Isso se deve à crise econômica, à falência dos regimes de esquerda e mesmo à decepção com a socialdemocracia e os blocos econômicos. A opção dos britânicos em sair da União Europeia comprova essa tese. Desde o início do processo, eles mantiveram um pé atrás com a unificação econômica, tanto que nunca adotaram o euro em seu território.

Mais do que nunca, deve-se discutir política pelo viés da economia e não mais sob a tese ou a viseira das ideologias. As pessoas não enchem o estômago com discursos e se mostram cansadas com a demagogia dos políticos. Em outras palavras, os eleitores se recusam a continuar pagando a conta da corrupção e dos equívocos de seus representantes.

O problema é que no vácuo das lideranças tradicionais surgem personagens como Trump, Kalil, Crivella e outros oportunistas. Mas não há nada de novo no front. Numa Alemanha soterrada pela crise e pela humilhação da derrota na Primeira Guerra, o povo, cuja cultura gerou grandes artistas e pensadores, escolheu Hitler. Em outras palavras, mesmo sendo o melhor dos regimes, a democracia não é infalível.