Ocupar estabelecimentos de ensino para protestar contra a PEC 241/2016 é direito dos estudantes, embora muitos façam isso por detestarem as aulas. Contudo, é preciso lembrar que a cada direito corresponde um dever e que o direito de um termina onde começa o do outro.

Além de impedir a realização das aulas em pleno final do ano letivo, as ocupações, em muitos casos, atrapalharam a realização do ENEM, no último fim de semana. Ou seja: quem está sendo diretamente prejudicado com isso é o estudante e não o governo federal.

Outra coisa que não deve ser ignorada é que o PT e seus aliados usam esse tipo de movimento para defender os próprios interesses. Todo mundo sabe que as entidades representativas, com poucas exceções, são comandadas pela esquerda e nunca medem esforços para usar os representados como massa de manobra. Se assim não fosse, a UNE teria convocado protestos quando a ex-presidenta cortou R$ 10 bilhões da educação.

Essa posição não significa que eu apoie o corte de verbas num setor já tão sacrificado. Pelo contrário, penso que sem investimentos em educação dificilmente teremos um futuro melhor. Mas é preciso direcionar a luta política em benefício do povo sem causar-lhe maiores prejuízos.

Hostilidade à dissidência

Ao contrário do que tentam demonstrar as lideranças estudantis, as ocupações não são assim tão democráticas. Ai do estudante ou professor que se atreva a criticá-las numa assembleia! Certamente será vaiado e desqualificado pela galera. Foi o que ocorreu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Num vídeo veiculado pelo canal Top News do Youtube, um estudante que se apresenta como “preto, pobre e favelado” alega ter o direito de estudar. Afinal de contas, lutou muito para chegar ao curso superior e se sente tolhido no seu direito constitucional de ir e vir. Seu discurso é recebido com vaias e palavras depreciativas. Enfim, onde se fala em educação, educação é o que menos se vê.

Fatos como esse deveriam estimular a reflexão. Afinal de contas, até que ponto o protesto atinge seus objetivos? Será que a melhor maneira de fazê-lo é ocupando escolas e atrasando os próprios estudos? Cedo ou tarde, as aulas deverão ser repostas, obrigando alunos e professores a adiarem seus planos de férias ou de cursos complementares.

Imaginemos um estudante que planejasse fazer um intensivo de línguas no exterior. Com as reposições programadas para as férias, certamente teria que adiar seus planos. Se tivesse comprado passagens com muita antecedência, ficaria no prejuízo.

E os alunos de pós-graduação, que dependem de certo cronograma quanto a pesquisas e defesa de tese ou dissertação? E aqueles que conciliam trabalho e faculdade e já programaram as férias? E os que conseguem empregos temporários no fim do ano? Além do mais, o MEC mostra-se indiferente ao movimento. Com certeza aposta no seu esvaziamento pelo cansaço.

Volto a dizer que não se pode admitir o corte na educação. Para equilibrar os gatos públicos, o governo deveria começar pelo congelamento de salários e comissões nos três poderes e pela limitação de despesas com viagens e cartões corporativos. Mas, francamente, ocupar escolas pensando que vão sensibilizar autoridades é quase o mesmo que acreditar em Papai Noel.