Em tempos de crise política vale refletir sobre o passado e o futuro do Brasil. Todo mundo sabe que a República brasileira não deu certo desde as suas origens. Aliás, a proclamação não foi nada democrática. Resultou de um golpe de estado das oligarquias com apoio das Forças Armadas e de intelectuais positivistas.

Seja como for, sem fazer discurso em favor da monarquia, o fato é que a República brasileira nunca nos garantiu democracia plena. Pelo contrário, ao longo do século XX, poucos presidentes eleitos conseguiram chegar ao fim do mandato sem adoecer, morrer ou serem depostos por movimentos conservadores.

O curioso é que nunca deixamos de lado os resquícios da monarquia. Se assim não fosse, nossos secretários de estado não teriam o título de ministro e nossas sedes de governo não seriam palácios. Enquanto Buenos Aires tem a Casa Rosada e Washington, a Casa Branca, o governo da República Federativa do Brasil ocupa o Palácio da Alvorada, em Brasília.

Além disso, nunca nos faltaram reis e rainhas no imaginário popular: rei do cangaço (Lampião), da embolada (Jackson do Pandeiro), do baião (Luiz Gonzaga), do futebol (Pelé), da jovem guarda (Roberto Carlos), do carnaval (rei Momo), rainha do choro (Ademilde Fonseca), dos baixinhos (Xuxa), reis e rainhas do congado, da pipoca, do milho e até da mandioca.

Canudos e as favelas

Mas a República foi algumas vezes contestada pelo povo. Um exemplo disso foi a trágica epopeia de Canudos, cujo líder, Antônio Conselheiro, enxergava nela o anti-Cristo e, ecoando o sebastianismo português, desejava a volta do rei. O resultado da rebelião foi o massacre de centenas de sertanejos, inclusive mulheres e crianças, pelas tropas federais.

A ironia é que os soldados sobreviventes dessa guerra de esfarrapados dirigiram-se à capital da República com o objetivo de receber o soldo prometido por seus comandantes. A partir de 1897, formaram as primeiras favelas do Rio de Janeiro na certeza de terem servido a Pátria como heróis nacionais.

Favela, é bom que se diga, era o nome do morro onde ficava o arraial de Canudos, no interior da Bahia. O termo tem origem no faveleiro, cujas folhas eram usadas para cobrir as humildes choças daquela região inóspita e miserável, onde hoje descansam as águas da represa de Sobradinho.

Figurantes da história

Voltando à monarquia, o antigo regime tinha menos de uma dezena de ministros e o imperador viajava às próprias custas, sem onerar os cofres públicos. Afastado do trono e exilado em Portugal, Dom Pedro II amargou a depressão e pediu pra descansar a cabeça depois de morto num travesseiro recheado com terra do Brasil.

Hoje, o governo federal tem nada menos que 39 ministérios (40 pegariam mal!). A exemplo de seus antecessores, a presidenta da República viaja cada vez mais, levando uma tropa de assessores muitas vezes desnecessários, todos hospedando-se em hotéis de luxo pagos com o suado dinheiro de nossos impostos.

Por outro lado, a República constituiu-se numa sucessão de governos incompetentes, dominados pela corrupção e pelos interesses oligárquicos, quando não movidos pelo populismo assistencialista e pouco eficiente. O brasileiro pobre, que não teve papel ativo na proclamação, continuou como simples figurante na história nacional. Pior que isso, alheio às grandes decisões, tolhido em seu legítimo direito de participação política e manipulado por falsas lideranças.

Alguns países hoje considerados modernos – entre eles a Inglaterra, Dinamarca, Espanha, Suécia e Japão – são monarquias parlamentaristas e se mostram muito mais próximos da estabilidade política do que a nossa fragilizada República. Não faço – repito – apologia ao regime dos reis, mas deixo aqui uma provocação para que o próprio leitor reflita sobre o tema.

* Publicado no site Dom Total, em 30/07/2015.