13 jul 2010
Dizer que a morte de Paulo Moura deixa um vazio na música brasileira seria chover no molhado, sobretudo em tempos de Reboleixo, quando as letras de sucesso se resumem a um monte de vogais. Até parece que os compositores de sucesso não conseguem mais combinar consoantes e vogais para nos dar lindas melodias como antigamente!
Paulo Moura era um mestre do clarinete e do saxofone. Mais que isso, era um gênio da música em toda sua excelência. Curiosamente, no dia anterior à sua morte – e eu nem sabia que ele estava doente – estávamos na casa da Vânia, noiva do violonista Roberto d’Oliveira, que integra o belíssimo duo Cordas e Janelas (o outro é o Márcio Brito, que já se recupera de uma cirurgia no pulmão).
Era aniversário do Roberto e, lá pelas tantas, ele colocou para tocar uma música de Tom Jobim interpretada justamente por Paulo Moura. Curiosamente, ao fazermos uma roda de violão, meu parceiro Valter Braga tocou e cantou um samba genial que dedicou ao cavaquinista e dono do bar Pedacinhos do Céu, que infelizmente está fechado.
A composição foi inspirada justamente por um episódio cujo protagonista teria sido o Paulo, se ele não tivesse faltado a um encontro do qual provavelmente nem sabia. Eu conto essa história no livro Caiçara, que lancei em 2008 pela coleção BH – A cidade de cada um, da Editora Conceito. Peço licença para transcrever dois parágrafos da página 62, nos quais explico melhor:
“De tão frequentado, o lugar (Pedacinhos do Céu) já tem seu folclore. Lembro o dia em que Valter Braga ligou todo animado, dizendo que ia levar Paulo Moura até lá. O Ausier serviria um jantar e disse ao meu parceiro musical para convidar alguns amigos. Quando lá chegamos, fomos informados de que a mulher e empresária do famoso clarinetista o havia proibido e a seus músicos de saírem do hotel. O show seria realizado na manhã de domingo e ela não admitiria atrasos nem ressaca.
“A decepção do anfitrião foi tamanha que mandou cancelar o frango com quiabo. Valter disse que não carecia, pois o resto da moçada estava presente. No final da noite, o garçom nos trouxe a dolorosa. Pegamos e saímos cabisbaixos, mas o Valter não deixou por menos, Dias depois, mostrou-me o samba ‘puxão de orelha’ que havia feito, intitulado Meu caro Ausier:
O frango com quiabo
Que você nos prometeu
E não saiu
Que a culpa foi do Paulo
Que foi primeiro de abril…
- Desculpas mil -
Me veio agora na memória, Ausier
Pois é, fazer o quê?
Escorregaste e ficamos sem cocó
(Só com a cara de bocó)
Mulher é o diabo
E, quando quer, faz do rapaz um zé-mané
E a moça do prezado
Não deixou que ele fosse ao fuzuê
Não é só o Paulo que tem boca, Ausier!
Você fincou o pé
E não é legal deixar a turma na pior
(Teve um ali que desmaiou)
O estrambo na cacunda
Cadê sua panela funda, Ausier?
O ronco que retumba
Não é choro de cuíca
A dica que te dou é ligar
Nos convidando pr’outro jantar
Ou pode ser almoço
Que a galera vai gostar.”
Apenas a título de esclarecimento, devo lembrar que a música e a letra são do Valter. Ele ganhou o prêmio de melhor letrista no Festival da Nova Música Brasileira, da TV Cultura de São Paulo, com Hai-Cai Baião, musicado por Renato Motha. Curiosamente, em nossas mais de 20 parcerias, ele me passou as melodias para que eu colocasse letra. Nem precisava, concordam?
7 jul 2010
A vitória de um a zero da Espanha sobre a Alemanha nas semifinais desta Copa do Mundo provou mais uma vez que a voz do polvo é a voz de Deus. Segundo a imprensa esportiva, até agora o bicho de oito pernas acertou todos os prognósticos feitos sobre os jogos da África do Sul, revelando-se um adivinho mais competente que o próprio Nostradamus.
A eficiência do novo profeta é tamanha que lideranças do PT e do PSDB poderiam contratá-lo para sabermos quem vai vencer as eleições presidenciais deste ano. A bem da verdade, vale observar que a careca do Serra lembra a cabeça de um polvo, enquanto os tentáculos do poder petista na máquina estatal têm tudo a ver com o famoso molusco.
Voltando ao esporte bretão, não sei se é coincidência ou o quê, mas toda vez que o locutor anuncia que quem está na Globo está na Copa, estou justamente na cozinha da minha casa. Afinal, alguém tem que lavar os copos de cerveja depois da partida… De qualquer maneira, como defensor dos frascos e comprimidos, torci pelos times mais fracos, a começar pela seleção brasileira.
No jogo entre Uruguai e Gana, fui mais o segundo time, cujos jogadores fizeram jus ao nome do seu país, disputando a partida sempre com muita gana. Não fosse a falta de sorte, estariam nas finais. Entre Alemanha e Uruguai, vou torcer para que o segundo fique em terceiro lugar, naturalmente.
Já na partida entre Espanha e Holanda tudo pode acontecer. Afinal de contas, são duas equipes poderosíssimas e muito técnicas, de futebol imprevisível. Não precisa ser Galvão Bueno pra saber que uma das duas equipes será campeã do mundo.
Chamo atenção para o baixíssimo saldo de faltas entre Espanha e Alemanha. Tanto, que o juiz teve pouco trabalho. Isso ocorreu porque os dois times têm muita disciplina e sangue frio, ao contrário dos sonecas comandados por Dunga, que ficaram zangados na última hora mas não me deixaram feliz.
Enquanto isso, dependendo das conclusões do inquérito policial em andamento, o goleiro Bruno poderá trocar o Flamengo pelo Bangu. Não o Bangu Atlético Clube, que há 50 anos venceu o Torneio Mundial de Nova York, mas o famoso complexo prisional de segurança máxima do Rio de Janeiro.
3 jul 2010
Futebol tem dessas coisas. Ou, como diria Noel Rosa, quem acha vive se perdendo. Brasil e Argentina saíram da Copa principalmente devido à arrogância dos seus respectivos técnicos. Dunga, que devia se chamar Zangado, passou quase todo o tempo brigando com a imprensa. Maradona, que ganha do nosso técnico em termos de carisma, ficou o tempo todo de salto alto, desfazendo dos adversários. Ambos provavelmente se esqueceram daquela máxima de que o futebol é uma caixinha de surpresas.
Vale notar, no entanto, uma diferença básica entre o estilo dos dois ex-craques do futebol. Enquanto Dunga saiu de campo de cabeça baixa, nitidamente decepcionado com o desempenho de seus atletas diante da Holanda, Dieguito fez questão de adentrar o tapete para abraçar e beijar seus rapazes num gesto de companheirismo e solidariedade frente à derrota para a Alemanha. Verdade seja dita, os jogadores brasileiros entregaram os pontos e saíram do sério na hora do vamos ver, enquanto os argentinos lutaram bravamente e sem perder a cabeça.
Essa diferença resulta principalmente do estilo e da postura de cada um dos dois técnicos. Esse tema, aliás, poderia até inspirar consultores empresariais que lecionam cursos de liderança para executivos de grandes organizações. Dunga, o irritadiço que guarda mágoa no congelador, acabou influenciando negativamente o comportamento de sua equipe.
O destempero dos nossos jogadores
Até mesmo o equilibrado “irmão” Robinho estava nitidamente nervoso, gritando palavrões na cara dos adversários e do juiz durante a partida decisiva. Enquanto isso, conhecidos pela agressividade em campo, os argentinos surpreenderam pelo comportamento esportivo, relativamente ameno. O jogo contra a poderosa Alemanha foi moderado, sem discussões desnecessárias ou cenas de violência e estupidez como a que resultou na merecida expulsão de Felipe Melo do nosso time, no dia anterior.
Curiosamente, em certo momento, o goleiro alemão fez uma defesa extraordinária, esmurrando a bola na pequena área como Júlio César tentou fazer no momento fatídico em que o mesmo Felipe desviou-a para a rede marcando gol contra. Diante da derrota iminente já no meio do segundo tempo, Dunga permaneceu paralisado e sequer mexeu no time com a lucidez que a situação exigia. Ele já havia cometido esse erro por não substituir Kaká antes de sua expulsão, na partida contra a Costa do Marfim.
Outro ponto importante a ser observado é que os jogadores brasileiros raramente se saem bem nas partidas em que trocam a camisa amarela pelo uniforme azul e branco. Parece mandinga ou superstição. Esse fato, inclusive, já poderia ter merecido um estudo sobre a influência subjetiva das cores na psique dos atletas em momentos de decisão.
Os efeitos do “cala boca, Galvão”
De qualquer forma, o “cala boca, Galvão” parece ter surtido efeito, já que o famoso locutor estava rouco durante a partida Brasil e Holanda. Ele certamente pressentia o perigo, pois sabia que aquele era de fato o nosso primeiro grande adversário na África do Sul. No final da disputa, diante do inegável fracasso da seleção brasileira, ficou se desculpando, dizendo que não devemos esquecer que isso é apenas futebol. Vale lembrar que a Rede Globo e boa parte da imprensa alimentaram a ilusão da torcida sem fazer as devidas críticas ao desempenho medíocre de nossos atletas diante de times inexpressivos, que não têm tradição futebolística.
O suposto desentendimento de Dunga com a direção da CBF, no episódio Fátima Bernardes, já atestava a falta de entrosamento e harmonia no comando da seleção. A convocação de alguns jogadores que parecem ser meros produtos de marketing apontava para os riscos de uma derrota decepcionante, o que de certa forma demorou a acontecer. Um time, por melhor que seja, sempre corre o risco de ser derrotado. No entanto, o Brasil jogou pouco e não conseguiu reagir à ação da “laranja mecânica” holandesa, única de suas adversárias que estava à altura do seu futebol.
No circo armado pela mídia e pelos patrocinadores da Copa, novamente a seleção brasileira se destacou mais nos bastidores do que propriamente nos jogos que realizou. Fizemos uma campanha abaixo do nosso dever de pentacampeões do mundo e só mesmo quem não entende nada de futebol poderia supor que chegaríamos à grande final com uma equipe tão acanhada.
A Globo, que dourou a pílula até o último minuto, ainda teve a indelicadeza de azarar os argentinos ao mostrar a reação de Maradona diante dos gols da multirracial seleção alemã ao som de um clássico do tango, logo após a partida. Deviam ter levado a sério as óbvias palavras do Galvão: isso é apenas futebol. Será mesmo?