18 jun 2010
Com a morte de José Saramago, a literatura portuguesa perde um de seus maiores escritores. Mais que isso, a comunidade lusófona perde um genuíno intelectual marxista que não desistiu de mudar o mundo apenas pelo fato de as tentativas socialistas terem descambado para o estatismo, o imobilismo e o absolutismo canhestro.
Saramago se definia como um homem pessimista, pois só os pessimistas querem mudar o mundo e as coisas a sua volta. A exemplo dele, também me considero de esquerda e um tanto pessimista, na medida em que desejo um mundo melhor, no qual também os pobres possam viver com dignidade. O verdadeiro esquerdista é aquele que anseia por uma sociedade mais justa e igualitária, livre da hipocrisia do politicamente correto e do vale-tudo praticado por governantes que se agarram tanto ao poder que se distanciam de si mesmos - independentemente da ideologia.
No entanto, confesso que nunca fui um fiel leitor dos livros de Saramago e tampouco concordava com tudo o que ele dizia. Sempre achei seu estilo narrativo difícil, pelo menos para os meus parcos conhecimentos literários. Sou daqueles que preferem textos enxutos, com poucas vírgulas e nenhum adjetivo. Gosto de Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, Camilo José Cela, Murilo Rubião, Albert Camus. Em se tratando de períodos longos com sinalizações próprias, abro exceção para Guimarães Rosa - um gênio, a meu ver.
Apesar disso, sempre fui fã de Saramago e me orgulho ao lembrar que nossos caminhos se cruzaram por duas vezes. Em setembro de 1983, um time de 11 autores portugueses desembarcou em São Paulo para diversos eventos literários. Depois de cumprir a agenda local, que incluía a Bienal Internacional do Livro – salve engano – o grupo se subdividiu, dirigindo-se a diferentes regiões do país. Era como se aqueles escritores tivessem a missão secreta de redescobrir o país inventado por Cabral.
Vieram a Minas Gerais José Saramago, sua então mulher, Isabel da Nóbrega, e o poeta Pedro Tamen. Queriam conhecer Ouro Preto e outras cidades históricas, para onde se dirigiriam em caravana com autores da província, entre eles Branca Maria de Paula, Robinson Damasceno dos Reis e o luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu amigo e guru. Na ocasião, tive a oportunidade de entrevistar os três visitantes nas dependências do Oton Palace Hotel, onde se hospedaram de passagem por Belo Horizonte.
A entrevista seria feita para o Estado de Minas, jornal com o qual eu já colaborava como colunista de teatro e cinema. Para minha surpresa, o editor de cultura, Geraldo Magalhães, havia escalado o repórter Waldir Vasconcelos para a mesma tarefa.Afinal, na minha ingenuidade de “foca”, não avisei ao jornal que estaria ali para cumprir a missão voluntariamente. O resultado disso é que publiquei minha reportagem no Suplemento Literário do Minas Gerais, editado naquela época pelo contista Duílio Gomes.
Naquele momento, com o gravador em punho, eu jamais poderia supor estar diante de um futuro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Mais que isso, o único autor a conquistar a láurea escrevendo numa língua que é quase um dialeto no mundo globalizado. Para aproveitar o encontro com os três visitantes, fiz quatro ou cinco perguntas a cada um deles, já que teria apenas uma página para publicar a reportagem. Foram todos simpáticos e objetivos. A matéria pode ser acessada na Faculdade de Letras da UFMG ou no link http://www.letras.ufmg.br/websuplit/exbGer/exbSup.asp?Cod=18089612198304 .
“A vossa literatura está com muita pujança e não está em crise”, disse Saramago ao responder a uma de minhas perguntas. Sobre sua estada no Brasil, ele de certa forma traduziu o ponto de vista de seus companheiros de viagem: “Desejamos que a nossa vinda sirva para que os leitores brasileiros pensassem um pouco mais e atendessem um pouco mais a uma literatura que está a ser feita em nossa terra, que me parece a mim ter mérito suficiente para que o leitor brasileiro se interesse. É possível que os escritores portugueses não sejam muito conhecidos do público brasileiro, mas são com certeza bastante conhecido e muito estimados nas faculdades, por professores de Literatura Portuguesa e por estudantes”.
Saramago voltaria várias vezes a Belo Horizonte, inclusive como convidado do projeto Sempre um Papo, comandado pelo jornalista Afonso Borges. O que eu também não poderia supor é que nossos caminhos se cruzariam mais uma vez. Em 1998, aproveitando a euforia do Plano Real, juntei meu suado dinheirinho e fui passar férias na Península Ibérica em companhia de Vilma, minha mulher.
Depois de quase 12 horas de viagem, desembarcamos em Lisboa e nos dirigimos ao hotel. Chegamos famintos, cansados e sonolentos. Enquanto ela tomava banho, liguei a TV do apartamento para saber das notícias locais. Os telejornais informavam que o grande escritor lusitano havia acabado de ganhar o Prêmio Nobel.
Naquele momento, penso eu, o próprio Saramago recebia a notícia de uma comissária ou recepcionista numa sala de espera do aeroporto de Frankfurt, onde fora participar da famosa Feira de Livros. Arregacei as mangas e telefonei para a redação do Estado de Minas, dizendo que poderia repercutir a notícia do ponto de vista dos portugueses. Aliás, a opinião pública se dividia: a esquerda e os leitores comuns comemoravam, enquanto os direitistas e a comunidade católica mais conservadora lamentavam o fato de se premiar o autor de Memorial do Convento.
Corri às bancas de revistas, ouvi por telefone o editor do Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Vasconcelos (que havia conhecido num encontro literário realizado em Manaus), comprei vários jornais e visitei livrarias cujas vitrines exibiam livros de Saramago. A prefeitura havia distribuído placas pelas principais esquinas de Lisboa, cumprimentado o autor.
Também colhi depoimentos do rádio e da TV, ouvi pessoas nas ruas, juntei as anotações e fui com Vilma para a casa de nossa amiga Maria de Santa-Cruz, professora de Literatura que residia em Paredes – lugar onde conhecera Saramago quando ele ainda era jornalista. Portugal ainda não tinha internet. O jeito foi ligar a cobrar para a redação e ler a reportagem manuscrita para a colega Clara Arreguy, que teve o cuidado de respeitar cada vírgula do meu texto.
Uma década depois, ao nos excluir de sua folha de pagamento, os Diários Associados não mais se lembravam desse nosso esforço de reportagem em plenas férias. Até porque, para os grandes jornais, cultura é pouco mais que um detalhe na pauta. Mas valeu a aventura por amor ao jornalismo e à literatura. Interessante notar que no momento em que Vilma e eu rumávamos de ônibus numa excursão pelo Sul da Espanha, Saramago e Pilar, sua mulher e tradutora, deixavam Madri num voo para Lisboa, onde seriam merecidamente recebidos com pompa e circunstância.
17 jun 2010
Matéria publicada no Comunique-se de sexta-feira, dia 11, destacou uma reportagem da revista The Economist, intitulada “A sobrevivência da tinta”, sobre a boa performance dos jornais impressos. Ao contrário das previsões catastróficas de 2009, a reportagem mostra um cenário favorável à recuperação dos títulos norte-americanos e registra lucros recordes na Alemanha, além do crescimento da circulação no Brasil.
A revista afirma que “a crescente classe média do Brasil gosta dos jornais baratos, que exploram os assassinatos e biquínis”. Eis o X da questão: a classe média brasileira não está em franco crescimento. De fato, as condições econômicas do país após o Plano Real permitiram a gradativa inclusão das classes C e D no mercado de consumo, com pequena melhoria de renda e facilidades de crédito. No entanto, a conta desse milagre tem sido paga justamente pela classe média.
Os tablóides sensacionalistas geralmente são consumidos não pela classe média, mas por pessoas das classes C e D, que antes não tinham dinheiro para comprar jornais e que ainda apresentam uma baixa formação escolar. Daí o sucesso das publicações baratas, com matérias rasas e enxutas que podem ser folheadas numa viagem de ônibus ou metrô. Mas se esse é o modelo vencedor da mídia impressa brasileira, isso significa que o jornalismo nacional vai de mal a pior.
O Brasil tem características particulares que devem ser levadas em conta nesse tipo de análise. Como bem lembrou a senadora Marina Silva, no discurso de lançamento de sua candidatura à Presidência da República, na quinta-feira, dia 10, cerca de 18% dos jovens brasileiros ainda são analfabetos. Isso sem levar em conta aqueles que passam pela escola sem que a escola passe por eles. São os analfabetos funcionais, que têm dificuldade até para escrever o próprio nome. Os tablóides sensacionalistas quase sempre são mal feitos. Apresentam erros de português e informações pela metade, que a clientela despreparada nem percebe.
Estatísticas apontam que o ensino básico brasileiro é um dos piores do mundo, gerando uma crescente massa de analfabetos funcionais. Em vez de reformar o ensino básico e oferecer uma escola pública e gratuita de qualidade para todos, o governo optou pelas cotas na universidade. Em outras palavras, nossas autoridades preferem remendar o telhado que reforçar o alicerce da casa. As cotas são importantes para remediar as desigualdades, mas é preciso bem mais que isso. Sem uma base sólida de conhecimento os futuros formandos terão sérias dificuldades para sobreviver num mercado de trabalho cada vez mais exigente. Essa é a dura realidade que poucos conseguem enxergar.
O hábito da leitura no Brasil sempre deixou a desejar, mesmo em comparação com outros países emergentes. Isso reflete diretamente no baixo consumo de livros, jornais e revistas. Os editores, no entanto, nunca cogitaram fazer uma cruzada nacional em prol da alfabetização e pela melhoria da educação no país. Crianças e jovens são subestimados, tratados como cidadãos de segunda classe. Haja vista a falta de espaço nos jornais para divulgar a boa literatura infantojuvenil, importante aliada na formação de leitores. Vale lembrar Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. A mensagem é mais simples do que parece. Sem o hábito da leitura não há jornal que se sustente.
O mais grave é que os grandes jornais estão diminuindo o conteúdo das informações impressas. A cada reforma gráfica, encolhem o texto, aumentam os espaços em branco, o tamanho das fotos e dos infográficos na ilusão de atrair um novo cliente. O problema é que esse tipo de “leitor” prefere a informação rasa e instantânea da televisão ou dos tablóides sensacionalistas, pois sem o hábito da leitura fica difícil pensar.
Outros têm ao seu alcance os blogs e sites especializados, com a publicação cada vez mais veloz da notícia. Basta lembrar que a morte de Michael Jackson foi anunciada por um site pouco conhecido, muito antes que a grande imprensa ficasse sabendo. Em vez de analisar os fatos e dar voz aos diferentes setores da sociedade, com plena liberdade de opinião, os grandes jornais evitam polêmicas e se limitam a publicar notícias velhas e pasteurizadas. A manchete de hoje foi destaque ontem na TV, no rádio, nos blogs, no Twitter. A não ser quando se trata de um furo ou de reportagem especial, o diferencial do veículo impresso seria justamente a repercussão e a análise da notícia por especialistas no assunto.
A verdade é que, quanto mais tentam imitar os novos meios, mais os jornais impressos perdem leitores fiéis e alinham o conteúdo por baixo. É como se publicassem notícias para quem não gosta de ler. Isso talvez explique o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo decretado há um ano pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Para fazer esse tipo de trabalho, não é preciso formação nenhuma. Basta seguir a ética de patrões que reduzem a visão de jornal a um simples balcão de negócios.
* Artigo publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 15/6/2010.
10 jun 2010
A cantora Lígia Jacques entra no clima de Copa do Mundo e se apresenta nesta quinta-feira, 17 de junho, às 20h30, no Mezzanino da Travessa, Rua Pernambuco, 1.286, 2º andar, na Savassi. O nome do show é Choro Cantado – Uma Seleção Musical. O repertório reúne músicas do seu novo CD e outros clássicos do choro. Destacam-se Conversa de Botequim (Noel Rosa e Vadico), Um a Zero (Pixinguinha, Benedito Lacerda e Nelson Angelo) e Meu Caro Amigo (Francis Hime e Chico Buarque), cujas letras falam de choro e futebol.
No Almanaque do Choro, o pesquisador André Diniz destaca que “o futebol e o choro, mesmo com regras básicas, guardam sua vivacidade nas trilhas dos improvisos, nos dribles inesperados de Garrincha e Pelé, nas bicicletas singulares de Leônidas da Silva, nos contrapontos de Pixinguinha, nas frases inusitadas dos músicos solistas”.
Lígia lembra que Um a Zero foi composto para homenagear a vitória do Brasil contra o Uruguai, com o gol de Friedenreich decidindo o campeonato sul-americano de 1919. “A letra foi feita muito tempo depois por Nelson Angelo, um mineiro bom de bola nascido na Rua da Bahia”, ressalta.
Seu novo CD é dedicado a Ademilde Fonseca. Com arranjos e direção musical de Rogério Leonel, Choro Cantado reúne cinco clássicos do repertório da rainha do choro e cinco faixas inéditas, ricas em citações musicais que reverenciam mestres como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e o contemporâneo Guinga. Lígia é uma das convidadas de Ademilde para o show em comemoração aos seus 90 anos, em 2011, no Rio de Janeiro.
HISTÓRIA DO CHORO
Surgido em meados do século 19, sob forte influência da polca e do lundu, o choro se tornou o principal gênero instrumental da música brasileira. Com excelentes melodias valorizadas pela performance de grandes instrumentistas, muitos clássicos do gênero também ganhariam letras, algumas assinadas por poetas como Vinicius de Moraes, co-autor de Odeon (de Ernesto Nazareth), e João de Barro, letrista de Carinhoso (o clássico de Pixinguinha).
Lígia Jacques afirma que a proposta do CD Choro Cantado foi justamente registrar choros melodicamente ricos, mas que também se destacam pela qualidade das letras. Para tanto, foram selecionadas 10 composições que dialogam entre si, unindo música e letra com precisão, valorizando a poesia e o canto. Destacam-se, por exemplo, Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo e Miguel Lima) e Títulos de Nobreza – Ademilde no Choro (João Bosco e Aldir Blanc).
Em algumas faixas, a cantora faz quatro vozes, formando um quarteto desdobrado em oito canais de gravação. Uma curiosidade é que Choro Barroco (de Rogério Leonel), carro chefe do seu primeiro disco, ganhou letra do escritor, compositor e jornalista Jorge Fernando dos Santos. Ele assina a produção do novo CD e outras quatro letras do repertório, três em parceria com Valter Braga e uma com Chiquinha Gonzaga.
CARREIRA DE SUCESSO
Belo-horizontina da gema, Lígia estudou técnica vocal na Fundação de Educação Artística, é integrante do quarteto Tom Sobre Tom, professora de voz e de técnica vocal. Realizou vários espetáculos e oficinas, participou de mais de 30 discos de artistas como Marcus Viana, Ladston do Nascimento, Hudson Brasil, Toninho Camargos, Geraldo Alvarenga e Rubinho do Vale. Também cantou em shows de Clara Sverner, Guinga e Francis Hime. Com o CD Choro Barroco, recebeu três indicações para o Prêmio Caras de Música.
Em 2004, ao lado do marido e parceiro Rogério Leonel, Lígia Jacques se apresentou no Circuito Cultural do Banco do Brasil. Em 2005, ambos participaram do programa Talentos, da TV Câmara, em Brasília. Em 2008, ela gravou programas na Rádio MEC, no Rio de Janeiro. Lígia é preparadora vocal e integrante do elenco do espetáculo Missa dos Quilombos, montagem carioca da Companhia Ensaio Aberto, com músicas de Milton Nascimento, textos de Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, direção musical de Túlio Mourão e direção geral de Luiz Fernando Lobo.
O CD Choro Cantado foi gravado no estúdio Fábrica de Música, com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Rogério Leonel tocou violão, fez os arranjos e a direção musical. Já a direção artística coube a Jairo de Lara, flautista e saxofonista em várias faixas. Também tocaram no disco Milton Ramos (contrabaixo acústico) e Serginho Silva (percussões).
A produção executiva foi de Tião Rodrigues, a arte do encarte de Adriano Alves e as gravações e mixagem foram feitas por Jairo de Lara e Eloísio Oliveira. O disco teve ainda as participações especiais de Ausier Vinícius (cavaquinho), Celso Adolfo (voz) e Hudson Brasil (bandolim). No dia do show será vendido a R$25,00 (preço promocional). Além de Lígia Jacques (vocal), o espetáculo Choro Cantado – Uma Seleção Musical terá a presença dos músicos Rogério Leonel (violão e arranjos), Bill Lucas (percussão) e Jairo de Lara (Flauta e saxofones). Os textos ficam por conta de Jorge Fernando dos Santos.
Ingressos individuais: R$ 20.
Mesa para quatro pessoas: R$ 70.
Informações e reservas pelos telefones: (31) 3223-8070 e 9764-9173