30 mai 2010
A notícia me pegou de surpresa, como um cruzado no pé do ouvido. Era sábado, depois das dez, quando abri a caixa de e-mails e lá estava a mensagem do Geraldo Vianna, repassada pela Lígia Jacques. José Eymard havia morrido na sexta-feira, 28 de maio, depois de 15 dias de internação devido a um aneurisma na aorta. O corpo havia sido sepultado às nove, no Parque da Colina.
Conheci José Eymard nos tempos áureos do Projeto Fim de Tarde, da Fundação Clóvis Salgado, lá pelos anos 80. Lembro que sua salinha ficava numa sobreloja do Palácio das Artes, acho que em cima de uma das galerias de arte. Lá também trabalhava o Célio Balona, outro mestre da nossa boa música.
No Fim de Tarde eu assisti pela primeira vez a shows de alguns dos grandes músicos que hoje se destacam na cena mineira. Foi lá que conheci o talento de cantoras como Lígia Jacques, Loslena, Titane e Titti Walter; de compositores como Celso Adolfo, Ladyston do Nascimento, Ricardo Faria e Tadeu Franco. A primeira vez que falei com Juarez Moreira foi depois de um show no qual ele acompanhava o Celso. E teve muito mais gente, cujos nomes me escapam pelos buracos da memória.
Tive a oportunidade de dirigir três espetáculos no saudoso projeto, que surgira sob a inspiração do antigo Projeto Pixinguinha, o Seis e Meia da Funarte. E olha que naquele tempo nem existiam leis de incentivo à cultura! Cheguei a escrever e dirigir um show do meu parceiro Angelo Pinho, cujo título era “Belôricéia”. A música de mesmo nome só seria gravada em 1997, por Helena Penna, no disco homônimo dedicado ao centário de Belo Horizonte.
A própria Helena, que hoje luta contra as sequelas de dois AVCs, apresentou no Fim de Tarde o espetáculo “…E agora, Brasil?”. Isso em 1989, no tempo das Diretas Já. O show terminava com toda a plateia cantando a marchinha que fiz sobre o tema, cuja letra chegou a ser publicada no Diário da Tarde.
Helena fez a maior bilheteria daquele ano, o que deu a ela o direito e a honra de repertir a dose em 1990. José Eymard assistiu às duas temporadas e, no final, fez críticas e considerações como bom entendedor do ofício musical. Como sempre, passou-nos dicas importantes, que certamente nos ajudariam em futuros projetos.
Agora estou aqui, nesta noite fria de domingo, ouvindo pela enésima vez o CD “Um Saxofone Bem Brasileiro”, gravado pelo Zé em 2003, no Estúdio Bemol. Realmente, seu sax era pra lá de brasileiro. Mais que isso, era também mineiro da gema. No encarte, Toninho Horta aponta a pureza e a delicadeza do seu som, “cujo toque é do coração”.
Quem sou eu para acrescentar alguma coisa às sábias palavras desse gênio das cordas? O teor do texto que ele assina e a qualidade do som que estou ouvindo me fazem supor que José Eymard era de fato um sacerdote da Música. Basta notar a limpeza do seu sopro e a delicadeza do seu toque nas chaves do instrumento inventado por Adolphe Sax.
O repertório do disco é do melhor bom gosto. Destacam-se composições de Dorival Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Flávio Venturini, Chico Buarque, Tavito, Tom Jobim, Gonzaguinha e do próprio Toninho Horta. Melodias que marcaram época e que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. A gravação do “Beijo Partido”, por exemplo, deve ter deixado o Toninho de cabelos em pé, tamanha a fidelidade à partitura original - coisa que nem sempre acontece por aí.
A última vez que vi José Eymard foi na festa dos 60 anos do meu querido parceiro Eduardo Pinto Coelho, vulgo PC. Aliás, ele era irmão de outro PC: o Paulo César de Oliveira, colunista e diretor do jornal Hoje em Dia. Naquela noite, homenageou o aniversariante solando o sax à capela, o que deixou os convidados emocionados. Depois se sentou à nossa mesa, onde também estavam o Paulo Brandão, o Claudinho Campos, o senador Eduardo Azeredo, entre outros. Falamos essencialmente de música, num clima alegre, cordial e de muita descontração.
Agora o Zé foi tocar com os anjos. Certamente seu saxofone estará tecendo uma nuvem de acordes entre as estrelas. Felizmente, tenho seu CD na estante e poderei matar saudades ouvindo seus doces acordes.
28 mai 2010
Como já era previsto, foi um sucesso a abertura da II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, que vai até 25 de junho na Casa do Jornalista, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (avenida Álvares Cabral, 400). O evento comemora os 25 anos da primeira edição, da qual tive a oportunidade de participar ainda no início de carreira. Estão expostas dezenas de obras artísticas, como poemas, contos, crônicas, charges, caricaturas, ensaios fotográficos, pinturas e até mesmo reportagens. Cerca de 30 autores estiveram presentes autografando livros.
O melhor da festa foi ver a sede do sindicato lotada de jornalistas, coisa que raramente tem ocorrido nos últimos tempos, já que a categoria anda dispersa. Aliás, atribuo parte disso à própria desativação da Casa do Jornalista, que sempre funcionou como braço cultural do nosso sindicato. Por problemas burocráticos, que já estão sendo sanados, a entidade ficou fora do ar por algum tempo e agora promete retornar com toda força.
A abertura da mostra homenageou a memória do grande jornalista e escritor Wander Piroli. Participaram do debate sobre sua obra seus antigos colegas Arnaldo Vianna, Carlos Herculano Lopes, Fernando Brant, José Maria Rabelo, Tião Martins e a escritora e professora de Literatura da UFMG, Letícia Malard. A família do homenageado emprestou aos organizadores da mostra alguns de seus objetos pessoais, para que se fizesse uma instalação lembrando seu local de trabalho. A abertura ficou por conta do Secretário de Estado da Cultura, Washington Melo.
Lembro ter estado pessoalmente com Wander Piroli apenas duas vezes. A primeira em 1990, durante o coquetel de lançamento da coletânea “Flor de Vidro”, pela Editora Arte Quintal, na qual tivemos contos incluídos. Na ocasião, ele comentou que lia meus artigos e críticas publicados no Estado de Minas e no Suplemento Literário do Minas Gerais. Disse que gostava do meu estilo, mas recomendou-me rigor nos textos e impiedade nas críticas. Conversamos sobre nossas influências literárias e encerramos o papo elogiando o legado de Hemingway.
Muitos anos depois, pouco antes do início de sua enfermidade, nos reencontramos em volta das mesas de sinuca do salão Bronwswick, no alto da Afonso Pena. Eu estava jogando uma partida com colegas do Estado de Minas e ele, com seus colegas do Hoje em Dia. Trocamos obas e olás sem maiores consequências.
Antes ou pouco depois disso, não me lembro exatamente quando, escrevi um artigo defendendo o direito de Paulo Coelho disputar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Com a ironia que lhe era peculiar, Piroli enviou uma carta à redação elogiando meus argumentos e dizendo que concordava plenamente comigo, até porque “Paulo Coelho e a ABL se merecem”. A carta foi publicada pelo editor de opinião - Geraldo Magalhães ou Dídimo Paiva, não tenho certeza. Sei que devo tê-la guardado em algum lugar.
De qualquer maneira, quero dizer que sempre admirei Wander Piroli. Não só como jornalista e escritor, mas também como homem que virou lenda nas redações de Belo Horizonte. Seu legado é um exemplo para todos nós. Quando ele morreu, um jornal local relutou em publicar uma grande reportagem. Por picuinha de algum diretor, queriam dar apenas uma nota, mas alguns colegas telefonaram para o chefe de redação argumentando que isso seria uma injustiça e um vexame.
O resultado de tal investida é que permitiram a publicação de uma matéria de 30 linhas. No dia seguinte, toda a redação se sentiu vingada ao ver matéria de página inteira na capa do caderno de cultura do Estado de S. Paulo. Aquela era mais uma prova de que, em Minas Gerais, santo de casa não faz milagre nem mesmo depois de morto.
Hoje, devo reconhecer que aprendi muito lendo Wander Piroli. Seu último livro publicado em vida reúne deliciosas crônicas sobre o bairro da Lagoinha, na coletânea que abriu a coleção “BH - A cidade de cada um”, da Editora Conceito. Meu livro sobre o Caiçara faz parte da mesma série, para a qual indiquei a jornalista Márcia Cruz, com um excelente relato sobre o Morro do Papagaio. Na novela juvenil “No Clarão das Águas”, publicada pela Paulus Editora, presto uma justa homenagem ao nosso guru, citando sua obra ”Os rios morrem de sede”, ganhadora do Prêmio Jabuti.
Finalizando, gostaria de registrar que a II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros foi uma iniciativa de Carlos Barroso, um dos bravos diretores da Casa do Jornalista. Foi ele quem de fato pegou o touro pelos chifres, trazendo de volta um evento que jamais deveria ter saído de cena. Afinal, jornalismo também é cultura.
22 mai 2010
Quase três décadas depois de me iniciar no ofício da palavra, como escritor e jornalista profissional em Belo Horizonte, percebo que as dificuldades são as mesmas para os autores que residem em nossa cidade. Dispomos de poucas editoras voltadas para o mercado nacional. Temos uma bienal de livros que não remunera o autor local pela sua participação e perdemos com isso o Salão do Livro, que promovia e remunerava indiscriminadamente todos os convidados.
Não bastasse isso, os poucos eventos voltados para a literatura em nossa cidade dão muito mais destaque aos autores de fora, que figuram na mídia. É a tal “síndrome do tapete vermelho”, sobre a qual já escrevi, inspirado numa frase do sempre lúcido Bartolomeu Campos de Queirós. Nossas faculdades raramente estudam a obra de autores vivos, que dirá se for mineiro! Para piorar o quadro, nossos jornais dão pouco espaço aos livros e têm dificultosa circulação fora dos limites da Serra do Curral.
Mesmo com tais entraves, não posso e não devo reclamar em causa própria. Se coloco o dedo na ferida, falo mais em nome dos novos do que dos antigos autores – entre esses os da minha geração. Lembro que quando comecei nesse ramo de atividade muitos escritores já consagrados eram pouco mais velhos ou tinham a idade que tenho hoje. Basta lembrar que o grande romancista Oswaldo França Júnior, do qual tive a sorte de ser amigo, morreu ainda jovem, aos 53 anos.
A boa notícia é que, apesar da falta de estímulos oficiais, tenho conseguido algumas vitórias. Em 2010 tenho nada menos que seis lançamentos e duas republicações programados no Brasil, além de uma tradução na Itália. Com mais de 300 mil exemplares vendidos dos muitos livros que publiquei (só “O Rei da Rua” esgotou mais de 20 edições), pela primeira vez haverá uma tese sobre um deles, escrita pela jovem Eleonora Casani, estudante de Letras em Roma. Trata-se de “Palmeira Seca”, romance ganhador do Prêmio Guimarães Rosa em 1989, adaptado para teatro e minissérie de TV. Quem me indicou o caminho das pedras foi o fratelo Carlos Herculano Lopes, companheiro de fé e ofício desde os primeiros tempos.
Depois de me desligar da assessoria de comunicação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, em fevereiro, venho me dedicando quase que exclusivamente à literatura. Falando nisso, na quinta-feira, dia 27, participo da abertura da 2ª Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, na Casa dos Jornalistas (na sede do sindicato), autografando a coletânea de contos “Caminhante Noturno”, publicada pelo selo Terceira Margem, da Editora Multifoco. São narrativas produzidas espaçadamente, com o objetivo de me exercitar no texto de ficção até chegar ao gênero romance.
Pela Prumo, de São Paulo, acabo de publicar o infantil “Feira de Aves”, inaugurando a coleção “Natureza Viva”. A série inclui outros três volumes poéticos, todos de minha autoria: “Passeio no Zoo”, “Lindo Jardim” e “Vida no Mar”, belissimamente ilustrados por Cláudio Martins, meu antigo parceiro em outros projetos.
Ainda este ano, publico pela Paulus “As Cores no Mundo de Lúcia”, com maravilhoso projeto gráfico e ilustrações de Denise Nascimento. Pela Saraiva, também de São Paulo, relanço as novelas “Reportagem Mortal” (em 4ª edição) e “Sumidouro das Almas” (numa 2ª edição revista, pelo selo Atual). Enquanto isso, faço palestras em escolas e acompanho a cantora Lígia Jacques nos shows de lançamento do CD “Choro Cantado”, que tive o prazer de produzir com recursos do Fundo Municipal de Cultura. A próxima apresentação será no espaço da Travessa, antiga livraria da Savassi, na noite de 17 de junho, uma quinta-feira – em clima de Copa do Mundo.
Em novembro, marco presença na 56ª Feira de Livros de Porto Alegre, divulgando “Alice no País na Natureza”, novela inspirada no clássico de Lewis Carrol e publicada pela Paulus, com ilustrações de Ayssa. A outra novidade é que acabo de me tornar verbete no “Dicionário biobibliográfico de escritores mineiros”, organizado pela professora Constância Lima Duarte e publicado pela Autêntica Editora. Quem leu esse artigo até aqui pode ter certeza de que todas essas conquistas resultam de muito trabalho, alguma sorte e total dedicação ao ofício que escolhi para toda a vida.