Arquivo de abril de 2010

Prós e contras da internet

Não sei exatamente há quanto tempo mantenho no ar o meu site e o presente blog, que faz parte dele. Há algum tempo, certamente. Aqui tenho o hábito de escrever o que me dá na telha. Publico artigos, contos, crônicas, poemas e até paródias musicais. Sempre convoco amigos, ex-colegas de trabalho e outros conhecidos para ler e opinar. Alguns não leem. Outros leem e não comentam. Uma minoria lê e comenta. Alguns concordam, outros discordam. Outros não fedem nem cheiram.

Acho que todo blog tem os visitantes que merece. É muito bom quando alguém se dá ao trabalho de replicar ou treplicar uma opinião do blogueiro. Meu objetivo principal é estimular a reflexão e o debate sobre temas do cotidiano que nos afetam direta ou indiretamente. Não sou o dono da verdade. Se o fosse, não diria. Aliás, se alguém souber o que é a verdade, que faça o favor de me explicar. Como escreveu o autor luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu grande amigo, “todo homem tem o direito de ter razão”. Nesse sentido, a verdade será sempre relativa.

Voltando ao blog, o problema é que muita gente se serve do mesmo para mandar abobrinhas, pedir favores, enviar os malditos spans, propagandas de viagra, encumpridamento de pênis, equipamentos eletrônicos, sacanagens de todo tipo. De vez em quanto, algum jovem pretenso talento teatral manda mensagem como se eu fosse o Jorge Fernando, diretor e ator da Globo.

Se coloquei minha foto no site não foi por mera vaidade. Meu objetivo era deixar bem claro que sou outro e não aquele cara de olhos verdes e trejeitos delicados que de vez em quando aparece na telinha. Sujeito de grande talento e simpatia. Sou seu fã, diga-se de passagem. Mas parece que essa gente nem se dá ao trabalho de observar minha cara no site e sequer faz ideia do quanto eu e o ilustre xará somos diferentes. Aí sapecam pedidos de oportunidade no elenco do filme ou da nova novela que ele está dirigindo, um teste no Projac, uma dica de curso teatral etc. Até já sugeri ao pessoal da Alterosa a criação do Projeca, mas ninguém me deu bola.

Até bem pouco tempo eu respondia essas mensagens, dizendo para olharem bem minha cara feia no site. O gordinho é meu xará e não somos o mesmo sujeito - eu dizia. Contudo, como não adiantava nada, desisti de dar explicações. As mensagens continuam chegando e agora nem me dou ao trabalho de respondê-las. Isso me leva a pensar que todo mundo que sonha ser ator neste país quer trabalhar na novela das oito. Taí uma coisa que jamais desejei. Sempre quis ter uma obra literária reconhecida, mas sem nunca ser parado nas ruas para dar autógrafos. Mesmo na era das celebridades, não abro mão da privacidade. Liberdade é ser um desconhecido na multidão.

Lembro do dia em que meu amigo Jackson Antunes entrou em pânico numa loja de Belo Horizonte, na qual tentava comprar um eletrodoméstico. Isso ocorreu logo no início de sua atuação na novela O Rei do Gado. Ele fugiu pela porta dos fundos, apavorado diante da multidão de fãs que invadiram a loja para vê-lo de perto e pedir autógrafo. Pouco depois, tentava ele caminhar perto de casa, no Rio de Janeiro, quando uns sujeitos mal-encarados começaram a assediá-lo, perguntando se era mesmo tão valente quanto o pistoleiro que interpretava na tal novela.

O site e o blog são excelentes meios para divulgar ideias e trabalhos de cunho artístico, mas felizmente não nos expõem tanto quanto a TV. Mesmo assim, conheço um monte de artistas e jornalistas que sobrevivem sem essa vitrine. Por meio do site, possíveis leitores, professores e editores interessados em meus livros entram em contato comigo ou ficam sabendo mais sobre minha produção. Sempre que faço palestras em escolas, fico surpreso ao saber que os alunos pesquisaram no meu site ou leram meus artigos estampados no blog.

Isso facilita a interlocução, a compreensão da obra, os trabalhos em sala de aula. No entanto, tenho amigos que ainda passam dias e até semanas sem nem mesmo abrir a caixa de mensagens do e-mail pessoal. E há aqueles que nem têm computador em casa. Francamente, eu não saberia viver desse jeito. Posso ficar sem telefone, rádio, TV e mulher; mas sem computador, nem pensar.

No tocante ao blog, acho curioso que alguns textos escritos há meses ainda sejam visitados. Vez ou outra, alguém posta um comentário sobre um assunto do qual eu nem mais me lembrava. Outro dia um sujeito leu uma artigo que publiquei sobre os equívocos da descriminalização do uso de drogas. Indignado, ele disse que fumava maconha, cheirava pó e que eu sou um babaca. Talvez eu seja mesmo, mas nunca usei droga nenhuma, respondi, a não ser o danado do computador.  

Brasília é um 3X4 do Brasil

Brasília comemora meio século, mergulhada na dengue e na corrupção. Construída como símbolo da modernidade, a cidade espelha as contradições do Brasil. De um lado a classe política legislando e governando em causa própria; do outro, o povo, massa de manobra das elites nacionais. Sobra dinheiro para construções faraônicas, centros administrativos, mensalões, propinas, viagens, nepotismo e outras bossas. Faltam verbas para corrigir as injustiças que se acumulam desde sempre.

 

Nas festividades dos 50 anos da capital federal, políticos fazem discursos. Enquanto isso, a imprensa publica reportagens e coberturas especiais. No balanço geral, os erros do passado roubam a cena e se repetem no presente. “E o povo” – quem ousa perguntar? Esse permanece como figurante da história, multidão de caras iguais nos shows e em outros eventos comemorativos.

 

A tragédia ocorrida no Rio de Janeiro em decorrência das fortes chuvas de abril revela a dura realidade. Apesar das promessas de políticos de diferentes partidos ao longo de muitas décadas, o Brasil ainda não deu certo. No lugar da justiça social, oficializaram a esmola em forma de ajuda aos mais necessitados. Em vez de trabalho e boa educação, distribuem dinheiro na certeza de comprar o voto dos mais desesperados e menos esclarecidos.

 

Seria uma contradição se em Brasília o quadro fosse outro. No entanto, o Distrito Federal acaba de ter o governo deposto por mais um escândalo. Sua população periférica paga o preço da indiferença social, às voltas com doenças medievais, altos índices de violência, péssimas condições de moradia, trabalho e educação. A não ser pela arquitetura, não há nada de novo sob a linha do Equador. Enquanto isso, os políticos trafegam pelas ruas do Planalto em carros blindados, indiferentes à miséria e às aflições dos eleitores.

 

O curioso é que estamos em mais um período eleitoral e os candidatos que aí se apresentam ainda não perceberam o quanto atrasado é o discurso que se repete. Embora neguem as evidências, governo e oposição rezam na cartilha neoliberal. A grande imprensa, por sua vez, mostra-se pouco interessada em analisar o quadro eleitoral com o rigor merecido, pois precisa faturar de todos os lados para manter suas contas em dia.

 

Na ausência de proposições para um país perplexo e cansado de promessas vazias, os candidatos trocarão acusações no faz-de-conta das campanhas. Nenhum deles exibirá um projeto de governo que possa de fato apontar soluções para os problemas elementares do país. E enquanto isso, na quase certeza de ganhar tempo e ludibriar a opinião pública, os congressistas empurram com a barriga a votação do projeto Ficha Limpa, que evitaria a candidatura daqueles que respondem a processos na Justiça.

 

Brasília levou desenvolvimento ao Planalto Central, descentralizando a administração pública. No entanto, contribuiu para esvaziar o Rio economicamente e  abrigou a classe política longe do olhar vigilante dos eleitores numa época em que as informações não circulavam com tanta facilidade. Os candangos, por sua vez, aqueles que de fato ergueram do chão o projeto juscelinista, foram empurrados para as chamadas cidades satélites. Em vez de economizar o dinheiro público, os políticos se sentiram à vontade para aumentar os próprios ganhos e mordomias, constituindo uma casta autônoma quase sempre alheia à realidade nacional.

 

E assim coexistem dois mundos, em Brasília e no restante do país. O mundo dos muito ricos e o mundo dos muito pobres, sendo que os primeiros vivem a sugar os demais por meio de elevados impostos, contribuindo para uma das maiores cargas tributárias do planeta. A Justiça que inocenta uns não é a mesma que condena outros, ainda que seus crimes sejam pequenos em comparação com as aberrações praticadas pelos poderosos. Por essas e outras, podemos concluir que a alvorada sonhada por JK se transformou em crepúsculo antes mesmo do sol se pôr no céu da pátria.