12 mar 2010
Dizem que o mineiro trabalha em silêncio. Enquanto o resto do país faz estardalhaço por qualquer coisa, ficamos calados, olhando nossos pares e ímpares sempre com desconfiança ou inveja. Esse jeito nós herdamos do ciclo do ouro, já que no garimpo o silêncio é a alma do negócio. Ou talvez seja um traço herdado dos criadores de gado, no ciclo do couro, quando era comum desfazer do gado alheio para comprá-lo na bacia das almas. Seja lá como for, eis o silêncio, sobretudo e sobre todos.
Esse “nariz de cera” é para dizer que o Jota Dangelo, nosso grande homem de teatro, acaba de lançar pela Editora Atheneu um livro excepcional, intitulado Os Anos Heroicos do Teatro em Minas. Nele, o ator, autor e produtor teatral dá seu testemunho dos bastidores teatrais de Belo Horizonte entre 1950 e 1990, acrescentando entrevistas com importantes protagonistas da cena mineira, além de um rico acervo de fotos.
Dangelo dispensa apresentações, mas vale ressaltar seu pioneirismo. Quando ainda estudava Medicina na UFMG, ele e seu bravo colega Angelo Machado – hoje um consagrado zoólogo e autor de livros infanto-juvenis – fundaram o Show Medicina, ao qual se deve o fato de muitos médicos de BH se interessarem também por teatro. Entre esses vale citar o autor e diretor Jair Raso, neurologista do primeiro time – para lembrar apenas um dentre os muitos que se destacam nos consultórios e teatros da cidade.
Dentre os muitos trabalhos escritos e dirigidos pelo Dangelo, sempre me lembro de Noel, O Feitiço da Vila, encenado em 1988. Primeiro que sou apaixonado pela obra do compositor de Vila Isabel. Segundo que o espetáculo em questão foi excepcional. Tanto que para este ano, quando o país comemora o centenário do sambista, procurei saber se o autor traria de volta sua peça para só depois aceitar o desafio de escrever um musical sobre a presença de Noel em BH, a ser encenado pelo grupo Caixa de Fósforos. Para quem não sabe, o compositor morou aqui entre janeiro e abril de 1935, quando veio tentar se curar da tuberculose.
Dangelo é também compositor e carnavalesco. Foi Secretário de Estado da Cultura e hoje dirige o BDMG Cultural. Em seu livro, ele prova também que é jornalista. Não tem diploma de comunicação nem carteirinha do sindicato, mas escreve melhor que muitos coleguinhas que insistem no exercício profissional. Sua memória é prodigiosa e seu livro resgata importantes momentos de sua vida e do teatro exercido com fidalguia por uma geração aguerrida, que enfrentou os terríveis moinhos da ditadura militar e o preconceito da tradicional família mineira.
O lançamento do Dangelo ocorre 26 anos depois que publiquei meu primeiro livro, Teatro Mineiro – Entrevistas & Críticas, em 1984, pela Imprensa Oficial de Minas Gerais. Até aquele ano, não havia nenhum livro sobre nossas artes cênicas e eu cometi a loucura de ser o primeiro nessa ingrata tarefa. Em 1995, voltei ao tema, publicando pela Editora Del Rey o volume BH em Cena – Teatro, Televisão, Ópera e Dança na Belo Horizonte Centenária. Hoje, pouca gente se recorda do meu esforço em registrar parte da nossa memória cultural em respeito àqueles que devotam suas vidas ao ofício das artes.
Quando em 1983 passei a assinar a coluna Teatro Vivo, publicada quarta e sábado na 2ª Seção do Estado de Minas – editada pelo generoso Geraldo Magalhães – não havia praticamente nada documentado sobre as artes cênicas em nosso estado. Além de “cometer” algumas críticas sobre o que se passava nos palcos e bastidores do teatro daquela época, abri espaço para publicar entrevistas com artistas de destaque - entre eles o Dangelo. Além dos pioneiros do palco, ouvi novos talentos e artistas globais que por aqui se apresentavam na ocasião, incluindo a cidade no circuito nacional.
Para que esse trabalho não se perdesse no tempo, reuni a documentação nos dois livros, organizados de maneira diferente. O primeiro volume foi dividido em duas partes, com 54 entrevistas e alguns artigos de minha lavra. O segundo eu preferi dividir em quatro partes, narrando a história da TV Itacolomi, dos principais grupos de dança e teatro da cidade, e discorrendo sobre a nossa produção lírica desde os primóridos, por volta de 1935.
O curioso é que algumas pessoas viraram a cara aos dois trabalhos pelo simples fato de não constarem neles. O mesmo deverá ocorrer com o Dangelo, pois seria impossível esgotar o assunto ou incluir todos os nomes realmente importantes da cena mineira num livro. É bom que se diga que o fato de determinada pessoa não estar nesta ou naquela publicação não significa que ela seja desimportante ou que a omissão tenha sido intencional. É humanamente impossível esgotar qualquer tema sobre o qual se pretenda escrever. Só os profissionais do ramo sabem disso sem mágoa ou rancor. Mas num meio no qual a vaidade pesa mais que o talento, parece natural que o “famoso quem” se ofenda por não ter sido lembrado.
Num país que peca pela amnésia, sobretudo no que se refere à cultura nacional, o ideal seria que todo artista escrevesse pelo menos um livro narrando sua trajetória, defendendo suas teses, dando seu testemunho e resgatando os eventos e os nomes de sua época. É o que Jota Dangelo fez com muita propriedade em seu livro recém-lançado. E foi também o que tentei fazer quando me propus à tarefa de reunir em dois volumes o material que publiquei no jornal. Cada um dos nomes enfocados daria uma bela biografia, tarefa que está por ser feita como quase tudo em nossa cidade.
2 mar 2010
De segunda a sexta-feira, às 17h, a sanfona de Rubens Diniz sapeca pela Rádio Inconfidência AM, de Belo Horizonte (MG), o clássico Campo Belo, composição rancheira de Antenógenes Silva. Trata-se do prefixo de Hora do Fazendeiro, o programa radiofônico mais antigo do Brasil – talvez do mundo –, transmitido ininterruptamente há 73 anos em ondas médias e curtas, e hoje também pela internet.
A primeira transmissão foi ao ar em 7 de setembro de 1936, quatro dias depois da inauguração da rádio pública de Minas Gerais. Apresentado por Tina Gonçalves e Cristiano Batista, o programa passou por uma reformulação em junho de 2009, sendo ampliado de uma para duas horas de duração. Na retaguarda estão o superintendente de Jornalismo, Getúlio Neuremberg, e o coordenador artístico da emissora, Gustavo Abreu.
Segundo a produtora Aline Louise Moreira, o objetivo da equipe de produção sempre foi “dialogar com o homem do campo”, oferecendo serviços, boletim meteorológico, cotação de produtos agrícolas, dicas, receitas caseiras e a autêntica música caipira. Outra missão que não fica de lado é a prestação de serviços aos ouvintes urbanos, que podem, por exemplo, aprender a montar uma horta em apartamento ou numa pequena área do quintal.
Linguagem específica
Tina Gonçalves apresenta Hora do Fazendeiro desde a década de 1970, quando o programa ia ao ar ainda pela manhã. Ela trabalhou ao lado de Bentinho, Delmário, Caxangá, Geraldo Eustáquio e José Penido, nomes lendários do rádio mineiro. “O segredo do nosso sucesso é que não havia programas direcionados ao homem do campo, naquela época”, afirma.
“A TV não tinha o alcance de hoje e o homem do campo não dispunha de acesso a agrônomos e veterinários”, acrescenta a apresentadora. Segundo ela, o programa propiciou esse contato, orientando o ouvinte no seu dia-a-dia na roça. “Além disso, trouxemos a música de raiz, mensagens de ouvintes e a seção de desaparecidos, na qual procuram-se notícias de parentes e amigos que estão longe de casa”, ressalta.
Cristiano Batista começou a apresentar Hora do Fazendeiro há quatro anos, substituindo o locutor José Penido. “Usamos uma linguagem específica, pois o público padrão inclui o fazendeiro e o trabalhador rural”, ele explica. “Temos também ouvintes na capital e aqueles que gostam do programa por causa da música caipira. Muita gente liga apenas para ouvir o próprio nome no rádio, enviando lembranças a amigos e familiares distantes.”
Num especial apresentado quando o programa comemorava 70 anos, um dos entrevistados foi João Moreira, de 85 anos, ouvinte desde os tempos em que era fazendeiro, em Barão de Cocais, há mais de meio século. “Esse programa é uma maravilha”, disse ele, resumindo o sentimento da audiência. “Meu filho até já ofereceu música pra mim, lá de São Paulo… Meu rádio só fica ligado na Inconfidência.”
Marca do pioneirismo
A iniciativa de se criar uma rádio difusora em Minas Gerais foi articulada na década de 1930, durante o governo de Benedito Valadares. Quem viabilizou a ideia foi o secretário de Agricultura e futuro governador, Israel Pinheiro. O transmissor da terceira emissora a ser inaugurada em Belo Horizonte – depois das rádios Mineira e Guarani – foi adquirido graças a contribuições de prefeituras do interior, que doaram cerca de dois contos de réis ao governo estadual.
Com os estúdios instalados na antiga Feira Permanente de Amostras, na Praça Rio Branco, a emissora foi inaugurada às 19h de 3 de setembro de 1936. Entre as autoridades presentes estavam o ex-presidente Venceslau Brás e o ministro da Agricultura de Getúlio Vargas, Odilon Braga. Intelectuais e artistas como Tristão de Athayde, Almirante, Carmen Miranda e Orlando Silva também deram o ar da graça. Naquele mesmo mês seria inaugurada no Rio de Janeiro a legendária Rádio Nacional.
O primeiro slogan da “PRI-3″ dos mineiros foi “a voz de Minas para toda a América”. Em 1938, a Inconfidência foi uma das primeiras rádios do continente a transmitir uma Copa do Mundo de Futebol – a terceira delas, realizada na França, com notável desempenho da seleção brasileira. Pioneira belo-horizontina também nas radionovelas e nos programas de auditório, a emissora sempre teve Hora do Fazendeiro entre seus campeões de audiência.
Competência premiada
O sucesso do programa rural certamente contribuiu para que a Inconfidência ganhasse em 2009 o Prêmio Mídia do Ano em Comunicação Empresarial (categoria rádio), conferido pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje). Também no ano passado, sob a presidência do escritor e jornalista José Eduardo Gonçalves (que hoje preside a Rede Minas de Televisão), Hora do Fazendeiro conquistou o Prêmio Abimilho, com uma série de reportagens sobre o milho na cozinha brasileira.
Atualmente presidida pelo jornalista Valério Fabris, a emissora oficial de Minas firmou-se entre as principais do país. Basta dizer que a Inconfidência FM 100,9, que acaba de completar 30 anos de funcionamento, tornou-se uma trincheira da MPB, com programação de música 100% nacional. O padrão foi implantado por Claudinê Albertini, em 1980, no auge a chamada “invasão cultural”, sendo mantido até hoje e se tornando um importante diferencial frente à concorrência.
Para orgulho dos seus ouvintes mais fiéis, a Inconfidência FM foi cognominada “a brasileiríssima”. Em sua equipe sempre se destacaram profissionais que primam pelo bom-gosto musical, como os programadores Kiko Ferreira, Luiz Marcelo, Paulo Bastos, Miguel Rezende e o apresentador Tutti Maravilha, dono de um estilo inconfundível, que se tornou um dos símbolos do rádio mineiro.
* Reportagem escrita para o jornal Pauta, do SJPMG, e somente publicada no site do Observatório da Imprensa, em 3/3/2010.