Arquivo de janeiro de 2010

Capa do disco Choro Cantado

No dia 10 de março, Lígia Jacques autografou o CD independdente Choro Cantado, no restaurante Cozinha de Minas. Dia 7 de maio, ao meio-dia, será o show de lançamento no Projeto Zás, no teatro da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Trata-se do seu segundo disco solo, no qual ela presta uma justa homenagem à rainha do choro, Ademilde Fonseca. Viabilizado com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte, o CD reúne cinco clássicos do gênero e cinco faixas praticamente inéditas.
Surgido em meados do século 19, no Rio de Janeiro, sob forte influência da polca e do lundu, o choro se tornou o principal gênero instrumental da música brasileira. Com excelentes melodias valorizadas pela performance de grandes instrumentistas, alguns clássicos do gênero também ganhariam letras assinadas por grandes poetas como Vinicius de Moraes, co-autor de Odeon (de Ernesto Nazareth), e João de Barro, letrista de Carinhoso (do mestre Pixinguinha).
A proposta do projeto Choro Cantado foi justamente registrar e resgatar choros que se destacam também pelas letras. O objetivo da produção foi unir música e letra com precisão, valorizando a poesia e a interpretação de Lígia Jacques, cantora de grande talento e perfeita técnica vocal - que fazem dela um dos grandes talentos musicais de Minas Gerais e do Brasil.
Gravado entre maio e novembro de 2009 no estúdio Fábrica de Música, com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte e produção de Jorge Fernando dos Santos, o disco tem arranjos e direção musical de Rogério Leonel, que também toca os violões. A direção artística coube a Jairo de Lara, flautista e saxofonista em várias faixas. Tocam no disco Milton Ramos (contrabaixo acústico) e Serginho Silva (percussões).
A produção executiva coube a Tião Rodrigues, a arte a Adriano Alves e as gravações ao Jairo e ao Eloísio Oliveira. Destacam-se as participações especiais de Ausier Vinícius (cavaquinho, na faixa Pedacinhos do Céu), Celso Adolfo (voz em Domingueiro) e Hudson Brasil (bandolim, no maxixe Satan, de Chiquinha Gonzaga, com letra inédita). Confiram uma amostra do trabalho ouvindo Romanceando, de Valter Braga e Jorge Fernando dos Santos. O CD está sendo vendido a R$30 o exemplar. Dois discos saem por R$ 50. Vejam fotos do lançamento: http://www.jorgefernandosantos.com.br/fotos4.html

Duas décadas sem Rubem Braga

Este ano completam-se duas décadas da morte de Rubem Braga. O sabiá da crônica, como foi chamado por Stanislaw Ponte Preta, deu o último suspiro na noite de 19 de dezembro de 1990, num quarto do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, vítima de parada respiratória devido a um câncer de laringe do qual se recusara a tratar.

Dois dias antes, ele se reuniu com os amigos mais próximos, entre eles Otto Lara Resende e Moacyr Werneck de Castro, em sua famosa cobertura da Rua Barão da Torre, em Ipanema, onde cultivava árvores frutíferas. O encontro foi uma espécie de despedida, na qual o cronista avisou que morreria sozinho, como sempre procurara viver.

Nascido a 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim (ES), Rubem Braga foi acima de tudo um jornalista. Saiu de sua terra natal ainda menino, depois de um desentendimento com o professor de Matemática, que o chamara de burro. Foi estudar no Colégio Salesiano de Niterói. De lá, iniciou os estudos de Direito ainda no Rio, vindo a se formar em Belo Horizonte, em 1932.

O cronista praticamente iniciou a carreira de jornalista no extinto Diário da Tarde. Ele cobriu a revolução daquele mesmo ano pelos Diários Associados e conheceu Juscelino Kubitschek e Adhemar de Barros no front da Serra da Mantiqueira. Em 1936, ainda em BH, casou-se com Zora Seljan – de quem se desquitaria – mãe de Roberto Braga, seu único filho. No mesmo ano publicou o primeiro livro, O Conde e o Passarinho, pela Editora José Olympio.

No campo de batalha

Ao lado de Joel Silveira, Rubem Braga foi correspondente de guerra do Diário Carioca. Tal experiência lhe inspirou o livro Com a FEB na Itália, de 1945. De volta ao Brasil, morou em Recife, Porto Alegre e São Paulo, antes de fincar raízes no Rio de Janeiro. De temperamento combativo e jeito turrão, também exerceu as funções de repórter, redator e editorialista, sendo preso mais de uma vez durante a ditadura do Estado Novo.

Durante o governo de Jânio Quadros, foi embaixador no Marrocos, mas não se adaptou às funções diplomáticas. Sua vocação era escrever e parece que só isso o satisfazia. Quando morreu, era funcionário da TV Globo, na qual fora trabalhar a convite do amigo Edvaldo Pacote, segundo o qual “ele escrevia todos os textos que exigiam mais sensibilidade e qualidade, e fazia isto mantendo um grande apelo popular”.

Homem de visão pioneira, Rubem Braga fundou em 1968, com os mineiros Otto Lara Resende e Fernando Sabino, a Editora Sabiá. Esta revelou o talento de Oswaldo França Júnior para o romance e lançou no Brasil os latino-americanos Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges e Pablo Neruda.

Dono de um estilo pessoal, que só encontra concorrência nas crônicas de Machado de Assis, Rubem Braga dizia escrever para ser publicado no dia seguinte. No entanto, seus textos se perpetuaram pela objetividade, simplicidade de estilo, humor e caráter poético. Também escrevia versos, embora seu único livro de poemas tenha sido póstumo.

Estilo de mestre

As duas décadas de ausência do mestre da crônica deveriam servir de mote para a reflexão daqueles que hoje preenchem as páginas dos jornais com textos apressados, pretensamente chamados de crônicas. Como poucos, o “urso” Rubem Braga sabia mesclar elementos do jornalismo com a literatura, essência dos verdadeiros cronistas como Machado de Assis, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues – para citar apenas alguns.

Sua passagem pela redação do Diário da Tarde, bem como sua relação com o jornalismo mineiro que lhe serviu de escola, também deveriam inspirar eventos que pudessem resgatar sua presença entre nós.

Segundo Afrânio Coutinho, crítico literário (outra função que vem desaparecendo da grande imprensa), a marca registrada da obra de Rubem Braga é a “crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza”.

* Artigo publicado nos sites www.jornalistasdeminas.org.br e www.observatoriodaimprensa.com.br .