23 out 2009
O fim da exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão no Brasil obedece a vontade de mentes sinistras, que em momento algum apresentam justificativa plausível para a desastrada decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A luta pela volta do diploma que vem sendo conduzida pela categoria na Câmara Federal tem sofrido percalços, já que representantes do patronato das comunicações insistem em manter sua posição retrógada.
Num país que ainda deixa a desejar no quesito escolaridade, é no mínimo um retrocesso suspender a necessidade de formação adequada para o exercício desta ou de qualquer profissão já regulamentada. Quando o presidente do STF, Gilmar Mendes, comparou os jornalistas a cozinheiros e alegou que o mau exercício da profissão não oferece riscos à sociedade, ele certamente ignorou os riscos de envenenamento (no caso dos cozinheiros) e de calúnia e difamação (no caso dos jornalistas).
Para justificar a decisão do STF, uma parte daqueles que insistem no fim do diploma alega que, para exercer o jornalismo, não há necessidade de curso superior. Outros sustentam a falsa premissa de que a exigência do diploma para escrever em jornais atenta contra a liberdade de expressão – supondo-se que aqueles que não têm formação adequada não poderiam escrever em veículos de comunicação. Ledo engano! Afinal, qualquer pessoa pode ser convidada a se manifestar como colunista ou a colaborador na imprensa diária, desde que escreva sobre matéria de seu domínio. Opinar é direito de todos. Por isso mesmo, jornais e revistas mantêm espaços para cartas de leitores e artigos de colaboradores não necessariamente diplomados em jornalismo. O diploma era exigido para o cumprimento de tarefas típicas da profissão, como fazer reportagens, entrevistar e editar matérias.
Há ainda aqueles que afirmam que o diploma de Jornalismo foi instituído durante o período de arbítrio da ditadura militar e que por isso mesmo fere a Constituição Federal promulgada em 1988. Curiosamente, quem usa esse argumento para justificar o equívoco cometido pelos juízes do STF não oferece nada em troca, simplesmente defende o fim da diplomação e do curso superior de Jornalismo. Nessa linha de pensamento, não seria preciso diploma para ser advogado ou juiz do Supremo, bastando quando muito conhecer as leis.
Na verdade, boa parte dos donos de jornais e revistas odeia os jornalistas justamente devido ao seu perfil questionador. Estes por sua vez, justamente por terem formação superior, noções de ética e responsabilidade profissional geralmente resistem ao monopólio da informação e à manipulação da notícia pelos empresários de comunicação, prática geralmente imposta por chefes de redação que se colocam cegamente a serviço dos patrões e de grupos políticos e/ou empresariais seus aliados. Se existe alguma verdade no noticiário, isso ocorre principalmente devido ao senso de responsabilidade de profissionais bem formados e de boa índole.
Acabar com a exigência do diploma é nivelar o jornalismo por baixo, na categoria de profissões não regulamentadas, para as quais ainda não existe curso superior. Ao nos comparar com cozinheiros, Gilmar Mendes parece ignorar que alguns deles já estão frequentando bancos de universidades em busca de especialização e de melhores ganhos no mercado internacional dos chefs de cozinha.
Sem diploma, os jornalistas deixam de constituir uma categoria profissional de nível superior, o que certamente contribuirá com o interesse patronal que deseja achatar nossos ganhos ao extremamente necessário. Quem trabalha em redação sabe que o volume de tarefas sobe na proporção inversa aos salários. O investimento de algumas empresas no chamado jornalismo convergente, obrigando seus profissionais a escrever para mais de um meio ou veículo ao mesmo tempo, comprova o aumento da mais-valia sem nenhum respeito às leis do trabalho.
Por outro lado, ninguém fala em fiscalizar os cursos de comunicação, para saber se o ensino que oferecem é mesmo de qualidade e se está adequado às exigências do mercado. O que querem alguns é de fato alinhar por baixo os jornalistas, condenando-os ao baixo salário, ao aumento da carga de trabalho e ao não comprometimento com a ética e a qualidade da notícia. Em outras palavras, querem empregar profissionais afáveis, obedientes, despreparados ou vendidos aos interesses patronais sem nenhuma preocupação com a veracidade da notícia, na base do “dane-se o leitor”. A maioria dos donos de jornais quer mesmo é ganhar dinheiro a rodo, usando seus respectivos veículos de informação para defender interesses próprios e eleger políticos que rezam em suas cartilhas.
Apesar disso, muitos coleguinhas ainda se colocam na posição de observadores desinteressados da luta que agora se trava pela volta do diploma. Agem como se não acreditassem na reversão da história em nosso favor, ou como se fossem apenas coadjuvantes nessa novela de final imprevisto. Em vez de se mobilizarem em nome da dignidade profissional, acreditam que as coisas são como são e que o homem não é mais sujeito da própria história. É preciso defender nas redações o pouco que ainda resta de dignidade, responsabilidade e respeito profissional. Caso contrário, a profissão de jornalista deixará de existir e a qualidade da informação estará irremediavelmente comprometida em nosso país.
* Artigo republicado nos sites www.sjpmg.org.br/novo/, www.observatoriodaimprensa.com.br e www.fenaj.org.br
13 out 2009
Ele nunca tinha matado ninguém. Pior que isso, nunca tinha roubado, estuprado ou traficado seja lá o que fosse. Por isso mesmo foi condenado à pena máxima: 150 anos de trabalhos forçados ou redução da pena mediante morte súbita. Somente assim a sociedade pôde respirar aliviada. Tratava-se do inimigo público número um. Aquele que, desde a infância, recusava-se a cometer qualquer tipo de delito, por menor que fosse.
Tudo começou aos sete anos de idade, quando ele cedeu seu lugar no ônibus a uma velhinha. Todo mundo ficou surpreso e os vizinhos que se encontravam a bordo chegaram a comentar o fato. Mas ninguém levou aquilo muito a sério. Ele é só uma criança, alguém comentou.
Alguns dias depois, o que parecia ter sido uma simples travessura da infância aconteceu novamente. A mãe, que estava com ele, não teve outra alternativa senão repreendê-lo na frente dos demais passageiros, que já se mostravam injuriados com o menino.
Já aos 13 anos, ele se recusou a consumir uma droga oferecida pelo primo, que era seu colega no primeiro grau. A notícia logo se espalhou e tanto a família quanto a diretora do estabelecimento de ensino se horrorizaram. O ópio custa tão caro e esse menino simplesmente não aceita a oferta do primo que tanto o admira? Quem ele pensa que é? - muitos comentaram.
E ele continuou ignorando esse tipo de pressão. Aliás, acostumou-se com aquela forma de tratamento. Consciente de sua própria rebeldia e - por que não? - orgulhoso de ser um adolescente do tipo rebelde e contestador, foi várias vezes suspenso da escola e quase tomou bomba por questionar os ensinamentos antiéticos de seus professores.
Os pais já não sabiam mais o que fazer. O padrinho, que além de ser seu tio era também um deputado federal várias vezes investigado por corrupção - e por isso mesmo reeleito duas vezes para o cargo - simplesmente rompeu os laços afetivos com a família. Não quero ser lembrado como parente de um caso perdido como esse, justificou. Seu irmão, pai do garoto problema, lamentou o fato. Como sempre fazia, castigou o filho, passando-lhe uma descompostura e repetindo as desvantagens de ser uma pessoa que não se mostra enquadrada no sistema.
Aos 17 anos, o jovem problema cometeu um legítimo ato de atentado ao pudor. Em plena fila de alistamento militar, socorreu um recruta que, estando de sentinela há várias horas, desmaiou sob o intenso sol do verão. Se você fosse um militar, seria levado à corte marcial, disse um sargento, furioso diante do fato inusitado jamais ocorrido em seu pelotão. Dispensado do serviço obrigatário, conseguiu arranjar emprego numa agência bancária da cidade. Mas não durou muito no emprego. Acabou sendo demitido por justa causa depois de se recusar a tomar parte num desfalque planejado pelo gerente.
Jamais pensei criar um filho pra isso, desabafou o pai numa discussão em família. Trabalhar honestamente como caixa de banco, isso é um absurdo! Calma, pediu-lhe a mulher, sempre paciente. Ele é ainda muito jovem, há de aprender com a própria vida.
Não aprendeu. E por isso mesmo, aos 30 anos, tendo já uma enorme ficha criminal - que incluía multas de trânsito por respeitar o sinal vermelho e por jamais estacionar em fila dupla - acabou sendo preso em flagrante ao tentar salvar uma jovem de ser estuprada por um padre dentro de uma igreja do seu bairro.
Apesar de nunca ter aprovado suas atitudes, o pai contratou os serviços do melhor advogado da cidade, um eminente professor de Direito que já havia tirado da cadeia vários chefões do crime organizado. Tudo foi em vão, pois a promotoria agiu com incrível competência, apresentando várias testemunhas e comprovando todos os crimes praticados pelo réu.
No final do demorado julgamento, que catalisou a atenção da imprensa e mobilizou a opinião pública do país, o veredicto foi unânime. Um elemento de tamanha periculosidade, verdadeira ameaça aos interesses do sistema vigente, não poderia continuar às soltas, incomodando as pessoas normais que obedecem cegamente aos mandamentos da lei de sobrevivência.
Hoje, ele está confinado numa cela escura em alguma das penitenciárias privadas do país, cuja especialidade é justamente punir aqueles que se recusam a levar vantagem na vida. Um país onde os homens honestos andam sempre de cabeça baixa, porque é isso que lhes convém.
* Conto publicado na revista da Academia Mineira de Letras, aqui dedicado ao amigo e grande jornalista Dídimo Paiva.
3 out 2009
Participei, no último fim de semana, do 4º Salão do Livro Vale do Aço, evento literário sediado em Ipatinga e Coronel Fabriciano (MG) sob a curadoria do jornalista e escritor Adriano Macedo. Com exposições, mesas-redondas, contações de história, apresentações teatrais e oficinas de arte e literatura, o salão homenageou a memória de Fernando Sabino, representado pelo filho Bernardo, sendo uma realização conjunta da Paralelo, AHPCE Eventos e Instituto Cultural Usiminas, empresa patrocinadora desde a primeira edição.
Lá também estiveram Branca Maria de Paula, Daniel Munduruku, Edmir Perrotti, Marilda Castanha, Nelson Cruz, Marcelo Xavier, Zélia Versiani, Ziraldo, Michele Iacocca, Aracy Alves Martins, Angela Leite de Souza, Neusa Sorrenti, Lino de Alberbaria e muitos outros. Convidados especiais, não puderam comparecer Afonso Romano de Sant’Anna e Bartolomeu Campos de Queirós, este por motivos de doença.
Eventos desse tipo funcionam como alternativa às bienais internacionais do livro, realizadas com muito dinheiro e grande repercussão no eixo Rio-São Paulo. Sem o apelo turístico que ajudou a alavancar os fóruns de literatura realizados em Parati e Ouro Preto, o Salão do Vale do Aço busca principalmente a participação de educadores e pedagogos da região, além do público infanto-juvenil. O principal objetivo é contribuir para a formação de leitores - grande desafio de educadores, autores e editores num país que ainda tem um dos piores índices de alfabetização da América Latina.
Além da oportunidade de divulgar seus livros sem necessariamente visar o sucesso comercial imediato, os escritores que há quatro anos comparecem ao salão abordam temas relacionados direta ou indiretamente às suas respectivas obras, mas fundamentalmente de interesse dos educadores presentes. Edmir Perrotti, por exemplo, comandou este ano o painel de abertura falando sobre “A importância da leitura no estímulo à descoberta do mundo e na formação da criança e do adolescente”. Temas como memória, descobertas, sentimentos e diferenças permearam outros debates, bem como a relação entre imagens e palavras no universo das letras.
Justamente por se tratar de um evento que ainda não tem o poder de marketing da Flip ou das bienais já consolidadas, é de se lamentar a pouca atenção dada pela mídia mineira ao Salão do Livro Vale do Aço. Realizado em vários locais, inclusive em cidades vizinhas de Ipatinga e Coronel Fabriciano, o evento busca justamente a descentralização do debate, na tentativa de levar a literatura a pessoas que nem sempre têm acesso a livros e escritores.
Trata-se, portanto, de iniciativa louvável, espécie de semente que germinou e cujo broto cresce a cada nova edição. Se isso não é suficientemente importante para motivar a pauta jornalística, fica explicado porque os jornais vêm perdendo leitores a cada dia. Com exceção do Hoje em Dia, representado pelo repórter Alécio Cunha, a imprensa belo-horizontina praticamente ignorou o evento.
Se os chamados homens de imprensa levassem em conta que alfabetização, literatura e hábito de leitura constituem o motor de interesse pela notícia impressa, provavelmente até mesmo a menor das feiras de livros realizada numa cidadezinha qualquer do interior mereceria notas e boa cobertura dos cadernos de cultura. Graças a isso e a outros fatores, a Feira do Livro de Porto Alegre resiste há mais de 50 anos, tendo se tornado uma das maiores do gênero na América Latina.
É preciso que a imprensa nacional se comprometa com iniciativas que visem promover a leitura e combater o analfabetismo no país. Sem isso, lamento informar, os jornais terão cada vez menos leitores e assinantes - e não adianta atribuir a culpa exclusivamente à internet! O diferencial da informação impressa é que ela pode documentar e analisar os fatos com a profundidade que eles merecem. No entanto, sem leitores qualificados isso se torna tardiamente inútil e desnecessário. Melhor, nesse caso, o tom espetacular da cobertura televisiva ou o noticiário virtual nem sempre consolidado. Jornais impressos? Só mesmo para forrarem gaiolas.
* Texto publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 06/10/2009.