28 jul 2009
Muito se fala em jornalismo investigativo, uma prática nem sempre presente nos jornais de hoje e que já glorificou muitos profissionais do ramo. No entanto, a dedicação ao trabalho e o compromisso com a verdade – doa a quem doer – podem ter um desfecho fatal, como o ocorrido com Tim Lopes, repórter da TV Globo queimado vivo por narcotraficantes numa favela carioca, em 2 de junho de 2002. O episódio chocou a opinião pública e resultou na prisão e condenação de Elias Maluco e seus comparsas.
Dois anos antes, em Belo Horizonte, o jornalista José Cleves da Silva desceu aos infernos depois de ver a própria mulher ser assassinada durante um assalto. Não bastasse o choque da perda, o então repórter do Estado de Minas, jornal dos Diários Associados, viu-se convertido de vítima de assalto e testemunha do crime à condição de réu. Inocentado pela Justiça depois de oito anos de angústia, danos morais e materiais, ele narra a trágica história no livro “A Justiça dos Lobos – Porque a imprensa tomou meu lugar no banco dos réus”. Publicação independente, a obra foi lançada em 30 de junho deste ano, numa solenidade promovida pela Comissão dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais com apoio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.
Premiado diversas vezes pelo teor de suas reportagens, José Cleves cultivou uma galeria de desafetos, que vai da máfia dos garimpos clandestinos a policiais acusados de envolvimento com caça-níqueis, venda de armas e de carteiras de habilitação. Ele também cobrava das autoridades maior investimento em segurança pública. No final dos anos 90, chegou a denunciar a manipulação de dados estatísticos referentes à criminalidade na Grande BH. O episódio brutal que mudaria para sempre sua vida ocorreu às vésperas do lançamento do seu primeiro livro, “Distrito Zero – Memórias de um Repórter”, no qual aborda o caso Baungharter e a morte de Mário Eugênio, repórter do Correio Braziliense executado por policiais do esquadrão da morte de Brasília, em 1984.
Três tiros na noite
A mulher de José Cleves, a enfermeira Fátima Aparecida de Abreu Silva, de 39 anos, foi morta no domingo, 10 de dezembro de 2000, por volta das 20h30. Segundo o jornalista, estavam a caminho de casa depois de visitar a irmã dela, no bairro Camargos, Região Noroeste de BH. Assim que ele embicou o carro na Via Expressa Leste Oeste, surgiram das sombras dois jovens de no máximo 18 anos, que agiram depressa e sorrateiramente. A dupla se posicionou dos dois lados do Santana Quantum dirigido por ele, que sequer teve tempo de esboçar reação. Aquele que estava do seu lado apontava-lhe um revólver “preto e reluzente”. Ocuparam o banco de trás do veículo, ordenando que ele tocasse em frente e entrasse numa rua à direita, logo adiante.
No momento em que o assalto se iniciava, Fátima Aparecida estava ao celular, falando com o filho Paulo. Mãe zelosa, ao se dar conta do ocorrido, perguntou como estava a caçula, Sandrinha. “Cuida da sua irmã”, foram suas últimas palavras ao telefone. Os bandidos fizeram José Cleves parar o automóvel num quarteirão deserto e escuro, tomaram dele R$ 200 e esvaziaram a bolsa de sua mulher.
Quando os bandidos já saíam do carro, aquele que empunhava a arma viu o celular na mão de Fátima Aparecida e gritou para que ela o entregasse. Descontrolada, quase em pânico, ela deixou o aparelho cair no asfalto. “Toma”, gritou o meliante, alvejando-a com três tiros na cabeça. Ao ver os dois bandidos sumir na escuridão, José Cleves tentou arrancar o carro, mas não conseguiu. Tentou telefonar para a polícia, mas seus dois celulares estavam sem bateria. Correu para a avenida ali perto e em vão acenou para os carros que passavam. Encontrou um rapaz de camisa branca, que veio em sua direção, e pouco depois dois cavalarianos da PM, que constataram a morte de sua mulher. Mesmo transtornado, ele fez questão de prestar depoimento naquela mesma noite. Dois dias depois, passou à condição de suspeito.
Falhas e contradições da acusação
Mesmo sendo um repórter de polícia que sofria ameaças constantemente, José Cleves viu boa parte da mídia voltar-se contra ele. Pouco a pouco, os veículos de comunicação passaram a enfatizar a versão oficial apresentada pela polícia e pelo Ministério Público, sem atentar às contradições do processo ou sequer ouvir o outro lado. Não fosse pela solidariedade de familiares seus e de sua mulher, dos cinco filhos ainda menores de idade e de alguns poucos colegas de profissão – já que muitos passaram a evitá-lo – ele poderia dizer que ficou sozinho diante dos lobos. De uma hora para outra, passou a viver o outro lado da notícia. De repórter investigativo a suspeito de um crime bárbaro, protagonizou uma história de suspense com requintes cinematográficos, daquelas em que o acusado luta sozinho para provar sua inocência.
Para complicar a situação, uma reportagem sensacionalista com 6m30s de duração exibida em 21 de janeiro de 2001, no programa “Fantástico” da Rede Globo, julgou e condenou o réu por antecedência, dando ênfase à tese sustentada pelo delegado de homicídios encarregado do caso. José Cleves, então, percebeu que estava a caminho da condenação. No dia seguinte, muita gente que tendia para o seu lado começou a duvidar de sua versão dos fatos. Versão esta sustentada desde o primeiro depoimento ao delegado de Furtos e Roubos.
Uma cópia da tal reportagem foi exibida no Tribunal do Júri, sendo uma das principais peças do processo de acusação. Ainda segundo José Cleves, o inquérito policial tinha vários “furos”, inclusive o desaparecimento de provas materiais que teriam sido forjadas. A boa notícia é que, apesar do esforço da promotoria em condená-lo, as falhas e contradições da acusação pesaram a seu favor e ele foi absolvido por sete votos a zero. Também na segunda instância prevaleceu sua inocência. Depois de um longo calvário, o jornalista pôde finalmente se ver livre em 14 de outubro de 2008, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) o absolveu da acusação de assassinato, acatando as decisões das demais instâncias e determinando o arquivamento do processo.
Em busca de reparação
Em seu livro, José Cleves afirma não ter recebido apoio de seus antigos patrões, apesar das promessas que lhe fizeram. Sua tese é que a tentativa de incriminá-lo era uma manobra para silenciar o jornal, que há anos vinha incomodando a “banda podre” da polícia mineira. Por estranha coincidência, a equipe de repórteres de polícia foi praticamente desfeita, inclusive com algumas demissões. Sua sorte é que o advogado Marcelo Leonardo, ex-presidente da OAB em Minas Gerais, abraçou a causa. Acionado pelas jornalistas Ana Malta, Maria Clara Prates e Bertha Maakaroun, o renomado jurista acreditou na inocência do réu e conseguiu prová-la em todas as instâncias da Justiça. Outro apoio importante veio da Comissão dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, com destaque para os deputados João Leite, Durval Angelo e Nilmário Miranda.
A absolvição de José Cleves, no entanto, não traz de volta a mulher nem o sossego da família. Tampouco condena os verdadeiros culpados do crime, já que os agentes da lei não se preocuparam em investigar a versão sustentada por ele. Dois marginais apontados como suspeitos do assalto foram mortos misteriosamente. Na orelha do livro, Dídimo Paiva, um dos jornalistas mais respeitados do País, afirma que “Cleves agora vai iniciar outra batalha em que os pobres sempre acabam perdendo: entrar na Justiça em busca da reparação civil e moral que sofreu”. Ele pergunta: “Mas será que o Judiciário brasileiro tem agilidade para resolver o caso? Ou vai levar 30 anos para encerrar um processo simples?”
Inicialmente licenciado das funções de repórter da editoria Gerais e posteriormente desligado do Estado de Minas, José Cleves continua desempregado. Seu propósito com o livro “A Justiça dos Lobos” não é apenas desatar a mágoa que o corrói desde o assassinato de sua mulher, mas dar seu testemunho aos leitores. Seu principal intuito é denunciar os abusos cometidos no País, toda vez que se estabelece o conluio do Estado opressor com o chamado quarto poder representado pela imprensa – sobretudo quando esta se mostra mais interessada na espetacularização da notícia do que na devida apuração dos fatos.
Absolvição publicada em 16 linhas
Além de bem escrito, o livro de José Cleves é rico em detalhes, fotos, depoimentos e trechos do processo criminal no qual ele se viu envolvido na condição de réu. Sua história nos deixa várias lições. Em primeiro lugar, quem julga e condena não é a polícia nem a mídia, mas a Justiça. Somente depois que o juiz da última instância bate o martelo é que podemos declarar a culpa ou a inocência do réu. Em segundo lugar, o jornalista deve saber ouvir e dar voz a todos os lados envolvidos no fato a ser noticiado. Em se tratando de um colega, isso não implica em corporativismo, mas reforça o respeito ao código de ética da profissão. Em terceiro lugar, se um jornalista conhecido se vê condenado por antecipação pelos próprios colegas, que dirá o cidadão comum desprovido de dinheiro e de poder numa sociedade injusta e desigual.
No momento, José Cleves percorre diversas cidades proferindo palestras em faculdades de comunicação e autografando o livro no qual procura esclarecer os fatos que mudaram para sempre os rumos de sua vida. É bom que se diga que o seu caso só não teve maior repercussão no País porque – ao contrário da tragédia ocorrida com Tim Lopes – a empresa onde trabalhava simplesmente virou-lhe as costas. Prova disso é que a notícia de sua absolvição publicada no jornal ao qual serviu com lealdade e profissionalismo durante muitos anos se resumiu a 16 linhas num canto de página.
* Publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 28/07/2009.
16 jul 2009
Ao chamar os senadores da República de pizzaiolos, o presidente Lula desrespeitou toda uma categoria de homens probos e descentes, que ganham a vida literalmente com o suor do rosto. Eu, se fosse pizzaiolo profissional, entraria na Justiça cobrando indenização por calúnia e difamação. Não há como comparar profissionais que trabalham na boca do forno para alimentar pessoas famintas com políticos profissionais, que pouco fazem em benefício dessas mesmas pessoas.
Os recentes escândalos envolvendo o Senado Federal e o arquivamento na Câmara do processo contra o deputado mineiro que construiu um castelo (só Deus sabe com que dinheiro) são provas suficientes da ineficácia e da falta de respeito dos políticos brasileiros pela opinião pública. Um deles até já disse que, apesar disso, será reeleito, pois ninguém no País liga para as denúncias da imprensa.
O mais curioso nessa história é que o presidente se irritou devido à instauração da CPI da Petrobras. Se quem não deve não teme, qual seria o motivo de tanta irritação? Se por acaso descobrirem alguma coisa que possa desabonar seu governo, bastaria ele dizer que não sabe de nada, como ocorreu durante o processo que investigou o envolvimento de homens de sua confiança no esquema do mensalão. Nesse caso, seus índices de popularidade certamente subiriam acima das nuvens.
Curioso é que Lula defende Sarney com unhas e dentes. Um homem que representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Coronel udenista da Velha República e “dono” de um dos estados mais pobres do País, ele apoiou a ditadura militar, fundou o antigo PDS e pulou do barco na hora do naufrágio para aderir à campanha de Tancredo Neves para a Presidência da República, na condição de ser o vice-candidato na chapa de oposição.
Num momento de azar para os brasileiros, Sarney assumiu o Executivo, protagonizando com Ulisses Guimarães um golpe de Estado jamais denunciado. Com a doença e a morte do presidente eleito, o correto seria a realização de outra eleição, pois o vice só poderia assumir o cargo depois da posse do titular. Os políticos sabiam disso, mas a maioria preferiu o caminho mais fácil, ignorando a Constituição Federal. A mídia também sabia, mas optou pelo silêncio.
Sarney posa de intelectual moderno, mas – todo mundo sabe – ele é fruto das oligarquias que insistem em permanecer no poder, tendo hoje herdeiros políticos como Fernando Collor de Mello, também aliado de Lula. No entanto, há que se reconhecer, o autor de “Marimbondos de Fogo” está sendo imolado feito um boi de piranha, pois não é o único culpado pelos desmandos na casa que preside. Basta lembrar as denúncias que derrubaram Antônio Carlos Magalhães, Jarbas Vasconcelos e Renan Calheiros. O problema, pelo visto, é o próprio Senado, instituição que já não funcionava bem desde os tempos do Império Romano.
Às vésperas das férias parlamentares, há fortes indícios de que as investigações sobre os desmandos praticados na casa não vão dar em nada. O presidente da CPI que deveria apurar o envolvimento de Sarney e os abusos cometidos com o dinheiro público é seu aliado e tem poderes para arquivar o processo, caso decida por mais uma pizza. No entanto, vale repetir, os honrados pizzaiolos que fazem a alegria do povo com suas massas e temperos nada têm a ver com a classe política, que se alimenta do suor desse mesmo povo.
* Publicado no Diário do Comércio, em 18/07/2009, e no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 28/07/2009.
12 jul 2009
Durante uma palestra sobre literatura num conceituado colégio de Belo Horizonte fui surpreendido por uma aluna de no máximo 11 anos, com a seguinte pergunta: por que os autores estrangeiros lideram as listas dos livros mais vendidos no país? A resposta, expliquei, poderia inspirar uma tese acadêmica tamanha a sua complexidade. No entanto, o mesmo não ocorre nos Estados Unidos e em países europeus, cuja imprensa coloca em destaque os autores nacionais. Nada mais justo, pois a identidade de um povo passa pela visão dos escritores.
Supostamente, as listas de livros mais vendidos são elaboradas mediante consulta a livreiros em diferentes pontos do país. Assim, a preferência pelos autores estrangeiros seria dos leitores e não dos órgãos de imprensa. Contudo, é público e notório que o número de matérias publicadas no Brasil sobre livros traduzidos é quase sempre superior às reportagens que falam de obras nacionais. A exceção fica por conta dos autores já consagrados.
Boa parte dos leitores ignora os escritores brasileiros contemporâneos simplesmente porque nunca leu nada deles ou sobre eles. Se a editora não compra espaço ou se o autor não é amigo do editor de cultura, dificilmente o livro terá lugar na pauta. Algumas editoras, por sua vez, investem na publicidade de um único autor estrangeiro aquilo que não gastam com todos os nomes nacionais do seu catálogo. Até porque, os direitos de publicação de um best-seller custam caro. Nesse caso, a pergunta seria outra: quem nasceu primeiro, o ovo ou a ave?
Ao conferir a lista dos livros de ficção publicada em maio numa revista semanal, deparo-me com autores como William Young (em primeiro lugar), Stephenie Meyer (segundo, terceiro e quarto lugares), Chico Buarque (quinto), Dan Brown (sexto), Augusto Cury (sétimo e oitavo), várias autoras (nono) e Khaled Hosseini (em décimo lugar). Vale dizer que Chico é o segundo colocado numa relação publicada em Portugal, cercado pelos livros de Stephenie Meyer. Curiosamente, as listas dos mais vendidos no Brasil raramente destacam livros infanto-juvenis, mas o público de Meyer é formado principalmente por adolescentes.
Para usar um termo muito comum nos tempos da resistência à ditadura militar, é fácil concluir que o Brasil é um país culturalmente ocupado. Em outras palavras, o que é bom vem de fora. No mercado editorial, o quadro se agravou durante a crise vivida pelas editoras nacionais, no início do Plano Real, quando algumas foram vendidas a conglomerados, alguns estrangeiros – no melhor espírito da globalização.
O problema de se divulgar mais os livros estrangeiros que os nacionais é o risco da alienação e da descaracterização cultural. Um best-seller não é necessariamente um clássico ou sinônimo de qualidade literária. Como disse Tolstoi, para ser universal é preciso falar da própria aldeia. Além do mais, aqueles que criticam o sucesso internacional de Paulo Coelho provavelmente acham natural o excesso de autores estrangeiros nas listas dos mais vendidos no país. O fenômeno faz lembrar a época em que as emissoras de rádio tocavam música americana em detrimento da MPB, o que causava muita polêmica.
Aprendi muito sobre o Brasil e a cultura nacional nos romances e nos discos. Os Sertões, de Euclides da Cunha, e os baiões de Luiz Gonzaga revelaram-me o Nordeste com todos os seus contrastes. As histórias de Jorge Amado e as canções praieiras de Dorival Caymmi mostraram-me a Bahia de todos os santos, ainda que um pouco estilizada. Enquanto o genial Erico Verissimo apresentou-me a saga do Rio Grande do Sul na tetralogia O Tempo e o Vento, as músicas de Teixeirinha que meu pai ouvia na vitrola trouxeram-me o bafejar do minuano e as primeiras impressões da cultura gaúcha. Da mesma forma, em outros estados, acredito que muita gente teve contato com Minas Gerais nas páginas de Guimarães Rosa ou nas canções de Milton Nascimento.
A literatura, a música e o cinema de qualidade são algo mais que mero passa-tempo, pois revelam a alma de um povo e ensinam muito de sua cultura. Contudo, na era das celebridades e da arte fabricada em laboratório para o entorpecimento das massas, os meios de comunicação reduziram o espaço dedicado à arte nacional e se renderam ao modismo ditado pela indústria de entretenimento. Por consequência, a crítica especializada perdeu status nos periódicos. Na era do politicamente correto não seria de bom tom criticar o fazer artístico. Daí os elogios derramados a obras de qualidade duvidosa. Numa sociedade em que o Ter vale mais que o Ser, a embalagem muitas vezes é melhor que o produto – mas isso nunca deve ser dito para não prejudicar os negócios.
Seria ingênuo supor que essa tendência resultaria apenas da má formação cultural dos jornalistas. Com certeza, o preconceito e a falta de conhecimento contribuem para a desinformação, mas a questão econômica deve ser levada em conta. Nas programações radiofônicas, por exemplo, sempre existiu o chamado “jabaculê”, na base do “só toca quem paga”. Como as gravadoras alinharam por baixo o padrão estético visando horizontalizar o consumo de discos, fica fácil compreender a decadência do repertório e do próprio mercado fonográfico. Mesmo sendo concessões públicas, as emissoras de rádio e televisão contribuem cada vez menos para a cultura nacional. Na outra ponta do balcão está a péssima qualidade do ensino fundamental no país, o que também compromete a autoestima dos brasileiros.
No que se refere a jornais e revistas, existem vários fatores que propiciam a prática favorável ao produto descartável. Basta ver o destaque que sempre foi dado ao cinema americano, cuja política de distribuição quase esmagou a produção local em países como França e Itália. Por outro lado, vale perguntar como é que um livro que mal chegou às livrarias pode ser tão rapidamente alçado aos primeiros lugares da lista dos mais vendidos. Outro fato que chama a atenção é que as editoras desses “campeões de venda” são as mesmas, isto é, estão sempre com mais de um título em destaque. Não sei se a reserva de mercado seria a solução para garantir espaço para os autores nacionais, mas o certo é que nos EUA ela nunca deixou de existir.
É claro que também existem as tendências de mercado, com a predominância de certos temas e autores. Depois das guerras do Afeganistão e do Iraque, por exemplo, registrou-se uma proliferação de best-sellers oriundos de países islâmicos. Tanto que alguém poderia publicar, sob pseudônimo, um romance na terceira pessoa, chamado A Puta de Cabul. Com o sucesso dessa obra, lançaria em seguida Eu Sou a Puta de Cabul, dessa vez escrito na primeira pessoa e assinado com o nome da protagonista. Lá na frente, depois de encabeçar as listas dos mais vendidos, assinaria com o próprio nome o último volume da trilogia, intitulado O Filho da Puta de Cabul.
* Publicado nos sites www.observatoriodaimprensa.com.br e www.tirodeletra.com.br, em 14/07/2009.
6 jul 2009
O curso de jornalismo nos ensina que o primeiro compromisso dos jornais deve ser com os leitores. Esse é um dos grandes ensinamentos que a escola nos dá. No entanto, na prática diária da profissão, aprendemos a duras penas que a coisa nem sempre funciona desse jeito. Isto é, o primeiro compromisso dos jornais muitas vezes é com o anunciante, com o “amigo da casa”, com aquele que exerce o poder.
Agora que o diploma de jornalismo deixa de ser necessário para o exercício da profissão, quem dirá aos novos profissionais que seu compromisso deve ser com os leitores? Quem vai ensinar aos “focas” noções de ética e dizer a eles que a notícia não tem um nem dois, mas vários lados a serem ouvidos? Se depender da maioria dos patrões e de seus “homens de confiança”, certamente ficará claro que o compromisso do repórter é cumprir ordens e escrever o que lhes mandam.
O jornalismo é um ramo de negócio como outro qualquer. Precisa ter receita para custear as despesas. Receita essa obtida por meio da publicação de anúncios e de matérias pagas. Até aí não há nada de errado ou imoral no negócio. O que não pode é sonegar informações aos leitores para agradar a quem quer que seja. Lamentavelmente, esse tipo de comportamento não é raro no Brasil. Com isso, políticos e empresários poderosos sentem-se blindados contra escândalos e denúncias. O tráfico de influência na mídia favorece esse tipo de gente. Isso quando não são eles os próprios donos dos veículos de informação.
O que muitos empresários do ramo jornalístico não percebem é que pouco a pouco essa prática prejudica a imagem do veículo diante da opinião pública. No século 21, os leitores estão cada vez mais bem informados, pois ouvem rádio, assistem TV e estão conectados à Internet.
O jornal deixou de ser a única fonte de informação ao alcance do cidadão. Pelo contrário, tornou-se uma fonte secundária, quase sem importância no cenário das novas mídias, principalmente quando tenta competir com elas no quesito velocidade. Por isso não é mais possível enganar a ninguém. Sem credibilidade, os leitores fogem, o jornal não vende e os anunciantes desaparecem.
O escritor inglês George Orwell, autor de clássicos como 1984 e A Revolução dos Bichos, considerava que jornalismo é a arte de noticiar alguma coisa contra a vontade de alguém. Todo o resto seria mera publicidade. Na era das celebridades, o que menos se lê são notícias. Mesmo um escândalo bem forjado serve ao interesse daqueles que querem se promover a qualquer custo. Com isso, mentiras e verdades se confundem sob o manto da notícia enquanto o leitor se sente confuso diante da intriga. A vida e a morte de Michael Jackson é um bom exemplo disso. Realidade e fantasia se misturam no mundo dos mitos e é praticamente impossível separar uma coisa da outra.
Pressionados pela concorrência dos meios eletrônicos, os jornais diários foram deixando de praticar a investigação e a análise da notícia. A maioria repete informações à exaustão e apressadamente, sem chegar a nenhuma conclusão sobre os fatos. Com isso, perde-se o crédito junto à opinião pública. Basta um veículo denunciar um suposto escândalo para que os concorrentes repliquem a notícia sem maiores preocupações com a verdade. Não há diferencial no material divulgado. No final das contas, os leitores se sentem perdidos diante da espetacularização da notícia.
Em outras palavras, a falta de ética no exercício do jornalismo certamente é um dos fatores que mais prejudicam os jornais. A notícia mal apurada e o fato noticiado a serviço de terceiros ajudam a minar a credibilidade desses veículos. Consequentemente, na medida em que as pesquisas de leitura revelam a queda nas vendas, os anunciantes se afastam e lá se vão os recursos que dão sustentação ao negócio.
Claro que uma publicação pode apoiar uma empresa, um partido político ou determinado governante. O correto, no entanto, seria esclarecer a decisão nos editoriais, explicando o porquê da escolha e apontando as qualidades do provável “amigo da casa”. No entanto, essa escolha jamais deveria prejudicar o noticiário. No mundo das novas mídias, a mentira tem pernas curtas. A notícia tem vários meios de ser divulgada e supor que a autocensura não será desmascarada é no mínimo uma ilusão, uma burrice sem tamanho, que compromete a credibilidade e a própria sobrevivência da empresa jornalística.
* Publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 07/07/2009.
3 jul 2009
A poesia não serve pra nada.
Não serve pra comer
Nem pra beber.
Não serve pra vestir
Nem pra calçar.
A poesia não toca no rádio
Nem melhora a audiência da TV.
Não dá lucros,
Não paga impostos,
Não vence eleições,
Nem alucina os viciados.
A poesia é inútil,
A poesia é estéril,
A poesia não é isso nem aquilo,
Não ata nem desata,
Não fede nem cheira.
A poesia, senhores, é um absurdo!