Arquivo de junho de 2009

A agonia do jornal impresso

O fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão é apenas mais um capítulo na amarga história de decadência da imprensa brasileira. Dias antes da fatídica decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), já haviam rasgado a Lei de Imprensa, ato que deixou o setor a descoberto do ponto de vista legal. Diga-se de passagem que em quase todos os países existem mecanismos legais de regulação dos meios de informação. Aqui, pelo visto, fica decretada a barbárie.

 

Não bastassem as decisões equivocadas do STF, que muito contribuem para o desmanche de uma profissão regulamentada há 40 anos, os próprios jornais estão se encarregando de acabar com a imprensa. É fácil perceber duas tendências crescentes no mercado da informação. De um lado o avanço dos tablóides destinados às camadas menos favorecidas da população. De outro, as revistas dirigidas ao público de alto poder aquisitivo, tendo como foco noticioso as pseudocelebridades.

 

Se o primeiro produto tem o mérito de conquistar novos leitores junto a um público pouco dado à leitura de jornais, apresenta como principais defeitos o sensacionalismo e a apuração rasa da notícia. Esses tablóides são campeões de venda. No entanto, atropelam o idioma pátrio com erros grosseiros e subestimam a capacidade mental dos seus leitores. Já o segundo tipo de publicação geralmente tem o mérito da boa qualidade gráfica, mas capota na curva ao bajular gente rica que nem sempre é notícia.

 

Num cenário tão comercial, onde o faturamento é mais importante que a qualidade da informação, torna-se cada vez menor o espaço para o jornalismo investigativo e a justa prestação de serviços ao leitor. Os cadernos de cultura, por exemplo, curvam-se ao modismo imposto pela mídia eletrônica e se transformam em agendões de eventos para todos os gostos, sem reservar lugar para a crítica especializada.

 

As seções de cinema badalam as produções comerciais de Hollywood e se limitam a distribuir estrelinhas, sem aprofundar a discussão estética. Para não desagradar o improvável leitor jovem, os editores colocam o hit de baixa qualidade no mesmo patamar de clássicos do jazz ou da bossa nova.

 

Enquanto isso, a cobertura de eventos de âmbito global resume-se ao monólogo das agências de notícias, abrindo mão da pluralidade discursiva e do diferencial oferecido por correspondentes internacionais. Em vez de apostar na análise dos grandes acontecimentos, a imprensa rende-se ao sensacionalismo e repete informações até a exaustão numa vã tentativa de derrotar a Internet em seu próprio território. Se esta ganha em velocidade, supõe-se que os jornais deveriam ganhar na qualidade da notícia, com a justa reflexão e apuração dos fatos. Por outro lado, grande parte das revistas semanais rendeu-se ao denuncismo fácil e aos articulistas polêmicos, mas nem sempre responsáveis.

 

Essa novela de final dramático teve um dos seus começos quando as empresas jornalísticas passaram a abusar das cores em suas edições. A partir dos anos 80, qualquer pessoa que parasse diante de uma banca de revistas tinha a sensação de contemplar uma gaiola de araras e papagaios. A facilidade da impressão colorida, no entanto, não seria suficiente para enfrentar a agilidade da TV, identificada naquele momento como a provável grande rival dos jornais impressos.

 

Pouco tempo depois, com o advento da Internet, os diários se deixaram levar pela velocidade da informação, como se o rádio não tivesse sido inventado muito antes das novas mídias. Os editores de primeira página insistem em publicar manchetes óbvias e repetitivas, que nada acrescentam aos fatos. A coisa é tão mecânica que já virou rotina uma mesma manchete pipocar em mais de um jornal no mesmo dia. Basta ver a morte de Michael Jacson, explorada a exaustão sem revelar nenhuma novidade sob o rei do pop.

 

Se o rádio noticia o fato na hora e a Internet pouco depois, a televisão tem o péssimo hábito de apostar na espetacularização da notícia. Pelo menos teoricamente, caberia aos jornais a análise e a investigação dos acontecimentos. No entanto, preferem imitar o noticiário dos concorrentes, movidos pela pressa e pela preguiça mental. Com isso, os repórteres já não contam mais histórias e a venda dos jornais despenca a olhos vistos. As redações vivem hoje o pesadelo das demissões, sob o repetitivo discurso do corte de despesas.

 

Pelo visto, os donos de jornais perderam o trem da história e os editores e chefes de redação desaprenderam o próprio ofício. Culpam a concorrência dos meios eletrônicos, praticam o mau jornalismo, abrem mão da crítica aos poderosos e apostam na mediocridade dos leitores como tábua de salvação.

 

* Publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 30/06/2009, e transcrito em inglês no site http://brazzil.com por Aldo Jancel.

 

 

Frase

Viver é contemplar o inexplicável.

Barulho adoece e pode matar

Em 2008, depois de muita polêmica, foi aprovada em Belo Horizonte a Lei Municipal 0071, que visa disciplinar a emissão de ruídos na cidade. Em parte, a nova legislação veio a atender exigências típicas dos centros urbanos. Afinal, toda grande cidade do mundo adota critérios e estabelece leis sobre o assunto. No entanto, a nova lei tem vários furos, a começar pelo serviço Disque Sossego, que na prática não funciona.

 

Quem já telefonou alguma vez para o número 3277-8100 certamente teve que deixar recado na secretária eletrônica, pois não há viva alma do outro lado da linha. A voz que solicita o registro da queixa avisa que brevemente alguém entrará em contato, retornando a ligação. Quando isso acontece, o barulho que motivou o telefonema já acabou. Portanto, esse tipo de atendimento prestado pela Secretaria-Adjunta do Meio Ambiente simplesmente não funciona. Também não adianta mandar e-mails, pois raramente são respondidos.

 

A Lei 0071 é vaga no que diz respeito ao ruído produzido por automóveis. Além dos escapamentos abertos, com a onda do funk e da música eletrônica, muitos motoristas, sobretudo jovens, transformaram seus veículos em verdadeiras danceterias ambulantes. Alguns chegam a instalar altofalantes potentes na carroceria de caminhonetes e saem pelas ruas da cidade em franco desafio à legislação e aos ouvidos alheios. E isso acontece a qualquer hora e em qualquer lugar, inclusive perto de creches, asilos e hospitais.

 

Como se não bastasse esse tipo de abuso, existem os irresponsáveis que lavam o carro com o capô aberto e o som ligado “no talo”. O mais interessante é que esse tipo de disque jóquei nunca põe pra tocar uma sonata de Beethoven, um choro de Waldir Azevedo ou um samba de Tom Jobim. Os caras querem se afirmar com a pauleira sem harmonia e com letras licenciosas, de mau gosto, ao ritmo do bate-estaca amplificado: pum, pum, pum, pum! Por outro lado, se um bar ou um restaurante adota música ao vivo com seleto repertório de rock ou MPB, logo a vizinhança chia e os fiscais do meio ambiente entram em cena, aplicando multas, fechando o estabelecimento, desempregando os músicos.

 

A Lei Municipal deveria prever que carro particular – parado ou em movimento –  não é boate e o ouvido alheio não é penico. Portanto, deveriam multar motoristas cujos veículos extrapolam na barulheira. Fiscais não faltariam para esse serviço, pois além dos policiais civis e militares, BH tem uma Guarda Municipal e os habilidosos fiscais da BH-Trans, sempre com a caderneta na mão prontos para multar. Se penalizassem os carros barulhentos, certamente engordariam ainda mais as receitas da Prefeitura.

 

Além de perturbar o sossego alheio, o volume exagerado do som em automóveis coloca em risco a saúde do próprio motorista e seus possíveis passageiros. Quando exposta a ruídos acima de 50 decibéis, a audição humana sofre danos irreparáveis, que podem levar à surdez. Segundo especialistas, a poluição sonora impede o relaxamento e atrapalha o sono. O estresse causado pelo barulho excessivo é também uma das causas de irritação e dos altos índices de violência, sobretudo no trânsito. O ruído repetitivo coloca o cérebro em constante estado de alerta e o organismo tenta se adequar ao ambiente, liberando altas doses de endorfina. Isso explica porque algumas pessoas só conseguem pegar no sono se o rádio ou a televisão estiverem ligados. O barulho mina nossa autodefesa e pode também gerar problemas cardíacos, infecções e outros problemas de saúde. 

 

 

* Publicado no Diário do Comércio, em 24/06/2009.

 

Juventino e o papel do jornal

Meu compadre Juventino descobriu uma maneira criativa de reagir ao cinismo e à desfaçatez de políticos corruptos, editores vendidos, colunistas sociais e outros calhordas de plantão. Assinante de vários jornais, de uns tempos para cá ele tem escolhido cuidadosamente as páginas que irão forrar a gaiola do Cauby, o canário belga que herdou da sogra.

 

Depois de passar os olhos nos artigos e reportagens de política e economia, Juventino arranca as folhas cuidadosamente, dobra no meio e vai empilhando num canto da sala, para mais tarde reaproveitá-las para amparar o cocô e as casquinhas de alpiste espalhadas pela avezinha canora.

 

Essa prática se tornou uma espécie de resposta silenciosa ao festival de besteiras que assola a mídia nacional. Mais que um protesto simbólico, o ato de rebeldia do velho leitor de jornais pode ser considerado uma atitude ecologicamente correta, pois não deixa de ser uma forma inteligente de reciclar o papel desperdiçado pelo noticiário.

 

A maior dificuldade, no entanto, é estabelecer critérios objetivos de escolha, pois as besteiras são tantas que Juventino costuma colocar duas e até mais folhas na bandeja da gaiola. Ultimamente, ele tem preferido os artigos assinados pelo senador José Sarney, principalmente aqueles ilustrados com a foto do ex-presidente e seu ridículo bigode tingido de preto. A troca de forro tem sido diária, pois o cocô do canário parece aumentar na proporção das besteiras impressas.

 

Antigo assinante de jornais, Juventino é daqueles que ainda resistem ao canto de sereia da Internet e hoje se diz decepcionado principalmente com a pauta diária de economia. Para ele, o fato de o noticiário econômico ocupar tamanho espaço deve-se ao compromisso dos veículos com o sistema financeiro, que impõe ao país as maiores taxas de juros do mundo e uma agiotagem sem precedentes.

 

No que diz respeito ao noticiário político, Juventino pensa que bastariam duas páginas em branco, pois os repórteres e analistas dessa matéria raramente acrescentam alguma coisa ao que o leitor já sabia. Ex-comunista que esteve a um passo de pegar em armas contra a ditadura militar, meu compadre já pensou até em fazer mea-culpa. Diante de tanta corrupção e do cinismo dos poderes constituídos, confessa sentir saudade dos tempos de chumbo, pois o inimigo pelo menos era visível e estava do outro lado da trincheira.

 

O mais curioso nessa história é que Juventino descobriu que o Cauby sabe ler. Afinal de contas, dependendo da matéria exposta no fundo da gaiola, o canário dispara a cantar ou simplesmente emudece, permanecendo jururu no poleiro. Se o artigo for ilustrado com a tal foto do Sarney, por exemplo, a cantoria pode durar o dia todo. Mas se a imagem impressa for a do presidente Lula, o silêncio do canário será sepulcral.

 

Que não se ofendam os eleitores, pois não se trata de preconceito contra dois políticos que tanto já fizeram pelo País. Sem preferência partidária, meu compadre também costuma forrar a gaiola com artigos assinados por Fernando Henrique Cardoso, Delfim Neto, Maílson da Nóbrega e até pelo Jarbas Passarinho. Talvez devido ao sobrenome, este é o que mais agrada o Cauby, que sempre muda de tom quando vê sua foto no jornal. 

 

A bem da verdade, devo admitir que meu compadre anda meio ranzinza ultimamente, mas ele insiste na coerência. Por isso, não suporta discursos que tentam explicar a esculhambação generalizada que tomou conta do País. Por mera provocação, alguém poderia perguntar o que, afinal de contas, ele faz com as resenhas literárias e as colunas sociais publicadas nos cadernos de cultura. Estas ele reserva para forrar o xixi do Lulu, seu basset de estimação, que está sempre de caganeira.

 

PS: Formado em jornalismo, Juventino pretende agora forrar a gaiola do Cauby com seu velho e amarelado diploma.

 

* Texto também publicado no site www.tirodeletra.com.br

 

 

Sem diploma e sem compromisso

A anulação do Decreto-Lei 972/69 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pode não representar um mal em si, mas com certeza causa muita polêmica. Afinal, se para ser repórter não é preciso diploma, por que alguém deveria frequentar a faculdade para se tornar advogado ou para disputar uma vaga de juiz? Não bastaria conhecer a Constituição Federal, o Código Penal e as leis ordinárias para exercer a função com a devida competência?

 

Teoricamente, exigir diplomas de juristas também contraria o senso democrático e os princípios da igualdade social. Todo mundo sabe que a justiça brasileira é demasiadamente cara, desigual e elitista. Enquanto um pobre é condenado por roubar um pote de margarina num supermercado, o rico que lava dinheiro ou pratica crimes do colarinho branco pode gozar de plena liberdade sem nem mesmo ser algemado.

 

Afirmar que a profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade é ignorar a história recente do mau exercício da profissão. Em todo o mundo, muita gente tem recorrido à Justiça por se sentir caluniada ou difamada pela chamada “imprensa marrom”. É só lembrar o caso da Escola de Base de São Paulo, cujos donos foram injustamente acusados de um crime que não cometeram e tiveram suas vidas arruinadas.

 

Na Europa, recentemente, um cidadão português processou vários jornais depois de ser apontado como suspeito de ter sequestrado a menina britânica Madeleine. O curioso é que quando a imprensa erra geralmente publica a retratação numa notinha de pé-de-página, que quase ninguém lê. E se alguns diplomados agem dessa forma que dirá os sem-diploma, que pela ausência de formação especializada pouco sabem sobre ética e responsabilidade.

 

Ora, ora, ora! O problema do jornalismo não era o diploma. Embora existam diplomados incapazes de exercer a profissão com a devida competência em qualquer ramo de negócio, o fato é que a lei não exigia formação específica de articulistas e colaboradores. O diploma era necessário, sim, para o exercício pleno de atividades restritas à reportagem e à edição de notícias. Ao médico, por exemplo, sempre foi permitido assinar artigos sobre medicina. Da mesma forma, um chef de cozinha escreve receitas e um cidadão comum se manifesta nas seções de opinião.

 

Argumentar que o diploma tolhia a liberdade de informação é o mesmo que culpar os jornalistas pelo fato de alguns donos de jornais terem compromissos obscuros com o poder econômico ou com políticos de idoneidade duvidosa. Num país onde o analfabeto pode votar e até se eleger deputado ou presidente da República, diploma nenhum haveria mesmo de fazer falta. Convém ressaltar que a linha editorial do noticiário é estabelecida pelos patrões, quase nunca pelos jornalistas. Ao contrário do que dizem, o fim do diploma compromete a liberdade de imprensa e o livre exercício da informação.

 

Do ponto de vista prático, devemos reconhecer que o jornalista já nasce jornalista. Curiosidade e sede de conhecimento são as suas principais características. A passagem pela faculdade se faz necessária para abrir seus horizontes às particularidades da profissão, acrescentando conhecimentos de sociologia, história, ética, estética, técnicas de redação e teoria da comunicação. Uma faculdade que vende diplomas ou que despeja no mercado centenas de profissionais despreparados deveria simplesmente ser fechada pelo Ministério da Educação. No entanto, esse tipo de prática não se restringe às comunicações.  

 

O problema da decisão do STF é que o assunto não foi devidamente discutido com a sociedade. Não foi feito um plebiscito, uma pesquisa de opinião pública ou mesmo um seminário com a presença de patrões e trabalhadores do setor. O curso de jornalismo poderia, por exemplo, se transformar numa pós-graduação. Mas como, se agora nem é preciso ter um curso superior para exercer a profissão? Cozinheiro e jornalista estão no mesmo nível, oferecendo riscos semelhantes ao público. Se o primeiro pode envenenar a freguesia com um atum estragado, o segundo pode destruir reputações. Devo dizer que não tenho nada contra cozinheiros, mas não posso ser comparado a eles simplesmente porque não sei cozinhar e acredito que boa parte deles não sabe escrever.

 

Há poucos dias também sepultaram a Lei de Imprensa, que regulamentava a responsabilidade da mídia no País. Aliás, cabe aqui abrir um parêntese: o jornalismo faz parte da mídia, mas a mídia não se resume ao jornalismo. Nos Estados Unidos, por exemplo, é vetado o monopólio das comunicações. O empresário tem que escolher entre ser dono de um grande jornal ou de uma rede de televisão. No Brasil, desde os tempos do poderoso capitão Chateau, quanto mais, melhor. E o mais curioso é que ninguém discute o assunto.

 

Os donos de jornais e de emissoras de rádio e TV certamente acreditam que a decisão do Supremo beneficia seus interesses. Afinal, sem a exigência do famigerado diploma, podem empregar quem bem entender, condenando ao esquecimento 40 anos de lutas sindicais pela regulamentação da profissão e pela fixação de salários justos para uma categoria que teve papel fundamental na redemocratização do País.

 

Se a remuneração e o respeito profissional já deixavam a desejar, as coisas tendem a piorar daqui para frente. Se a qualidade dos periódicos brasileiros tem caído a olhos vistos, sobretudo depois do advento da Internet, a não exigência do diploma de jornalista joga uma pá de cal sobre o exercício digno da profissão e abre as redações aos aventureiros.

 

* Publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 23/06/2009, e em vários blogs de jornalismo.

 

Impunidade no trânsito

Na madrugada de 7 de maio, em Curitiba, o deputado estadual Francisco Carli Filho, de 26 anos, dirigia um Passat com o qual passou feito uma guilhotina sobre um Honda Fit, matando na hora os dois ocupantes, de 20 e 26 anos. O choque atirou os dois carros na outra pista e um dos jovens foi decapitado. Testemunhas afirmam que o carro do deputado vinha em alta velocidade e chegou a “decolar” ao atravessar um desnível.

Trata-se de mais um crime que provavelmente ficará impune. Basta dizer que a polícia levou uma semana para pedir o exame de sangue ao deputado, que, segundo os nove bombeiros que atenderam a ocorrência, estava visivelmente alcoolizado.

O velocímetro do Passat estava congelado em 190 km/h. E olha que o assassino, filho de influente família paranaense, já tinha levado 30 multas de trânsito, a maioria por excesso de velocidade. Nos Estados Unidos, um crime como este poderia resultar em prisão perpétua.

Recentemente, o governo federal levou adiante uma campanha pelo desarmamento da população, recolhendo armas de fogo e tentando convencer as pessoas a votarem ”sim” num plebiscito. Esse mesmo governo parece ignorar os dados estatísticos que revelam a violência do trânsito brasileiro.

Em nosso país, os carros funcionam como armas nas mãos de motoristas despreparados e irresponsáveis. Tanto isso é verdade que no auge do uso do bafômetro o número de acidentes caiu consideravelmente em vários Estados. Ou seja, quando a lei é levada a sério, os criminosos deixam de agir.

O fato é que a maioria dos brasileiros descarrega suas frustrações no automóvel, tendo por ele verdadeira paixão. É mais fácil o sujeito brigar no trânsito que numa torcida de futebol. Se você meche com a mulher alheia pode até ser tolerado, mas se esbarra no carro de outro, mesmo sem querer, pode até levar um tiro. É no trânsito que se conhece um povo e, pelo visto, temos muito que aprender com os países civilizados, onde a vida humana é de fato valorizada e protegida por leis rigorosas.

O trânsito brasileiro piora a cada dia, o estado das rodovias - sobretudo as federais - é lastimável e o perfil dos motoristas está longe de ser o ideal. Tudo isso porque as leis, embora existentes, raramente são cumpridas. O estado investe pouco no transporte coletivo e ainda mede o crescimento econômico pelo número de carros vendidos.

Jovens mimados fazem “pegas” à luz do dia e transformam seus veículos em verdadeiras boates ambulantes, com alto-falantes que ensurdecem a população sob as barbas da polícia. E cadê as leis do silêncio? Como é que um motorista cujo som está ligado “no talo” pode ouvir uma sirene ou buzina? Como fica o bem-estar da vizinhança?

No Brasil, as leis parecem ser feitas para justificar a existência dos poderes legislativo e judiciário. A maioria delas não serve para nada, pois raramente são cumpridas. Sobretudo aquelas que se referem ao trânsito.

Por essas e outras, pessoas de bom-senso devem ter mais medo de carros do que de armas de fogo. Afinal, as armas exigem perícia e são duramente fiscalizadas. Enquanto isso, qualquer maluco irresponsável pode comprar uma carta de motorista ou dirigir sem habilitação, na certeza da impunidade.

O automóvel é uma invenção maravilhosa que muito contribui para o nosso conforto, mas precisa ser encarado como coisa séria e não mais como brinquedo de gente grande.

* Publicado no Diário do Comércio, em 09/06/2009.