Arquivo de maio de 2009

Viva o Bartolomeu!

Segunda-feira, 18 de maio, fui a Nova Lima a convite da professora Zoí Rossini, para conversar com alunos da Escola Técnica de Formação Gerencial do Sebrae-MG. Já estive lá diversas vezes, mas nenhuma se comparou a esta. Tive a oportunidade de dividir a cena com Bartolomeu Campos Queirós, um dos autores mais premiados do país, verdadeiro mestre das palavras.  

Para relizar o trabalho, que teve a família como tema central, os alunos leram e debateram os livros O olho de vidro do meu avô, escrito por Bartolomeu, e No clarão das águas, de minha autoria. Tivemos um encontro inesquecível, com a participação atenta das turmas e o apoio sempre caloroso da direção da escola.

Sempre que posso, não me furto a atender a esse tipo de chamado. Eventos desse tipo quebram a rotina das aulas, marcam a memória dos estudantes e desmistificam a figura do escritor, que se mostra presente, em carne e osso, ao falar de sua obra e de sua relação com as palavras.

Estar ao lado de Bartolomeu, para mim, foi mais uma vez motivo de honra e orgulho. Sempre admirei seus livros, sobretudo pela facilidade com que escreve e pela escolha dos temas abordados. Chegando em casa, tratei logo de reler Por parte de pai, e novamente me emocionei com a história do garoto e seu avô paterno, personagem real que escrevia histórias nas paredes de casa.

Durante nosso encontro em Nova Lima, Bartolomeu falou de sua infância, de sua relação com os avós, de sua maneira de escrever e confessou que hoje prefere ler e reler os grandes autores. Só escreve quando está bem certo da história que vai contar e se diz satisfeito com a publicação de sua obra também no exterior, embora reconheça que o Brasil é que realmente precisa de livros.

Ainda com problemas de saúde depois de um longo período de internação hospitalar, o escritor se ilumina quando fala de sua grande aventura com os livros. Ele afirma que hoje seu passa-tempo predileto é ficar observando os vários títulos que guarda na estante, imaginando a conversa entre autores e personagens no silêncio da noite.

Pelo nível de atenção e participação dos alunos, deduzo que a professora Zoí acertou na mosca ao promover o encontro. A garotada ficou embevecida, sobretudo diante da sensibilidade do Bartolomeu, que muito nos ensina com suas palavras e seus livros. Habitar o mesmo tempo que ele é para mim um privilégio, motivo de satisfação. Subir com ele no mesmo palco é alimentar a certeza de que valeu a pena ter me dedicado à literatura.

Afinal, Bartolomeu Campos Queirós é um autor reverenciado no Brasil e no exterior e sempre nos ensinou lições de vida com seus livros, sua prosa, sua lúcida visão de mundo. Brevemente ele toma posse na Academia Mineira de Letras, juntando-se a outros expoentes das letras que lá estão, entre eles meus amigos Olavo Romano, José Bento Teixeira de Salles, Angelo Oswaldo e Antenor Pimenta, o caçula da turma. Eleição merecida, que só tem a enobrecer a casa do escritor mineiro!

  

Tributação da poupança

A decisão federal de taxar a contas de cadernetas de poupança com saldos superiores a R$ 50 mil reflete apenas uma preocupação do governo, que é aumentar a carga tributária já considerada a maior do planeta. Quase no final do seu segundo mandato, o presidente Lula sabe que não reduziu o tamanho do Estado. Pelo contrário, engordou o bicho além da conta e agora precisa fazer caixa para pagar as despesas, sobretudo num momento de crise econômica e às vésperas da corrida eleitoral.

Considerar que a aplicação na poupança é uma espécie de investimento como tantos outros disponíveis no mercado é alinhar por baixo a economia popular. Quem tem recursos e quer especular sabe que a caderneta de popupança não é o melhor caminho. Pelo contrário, trata-se de um quase estelionato implementado durante o regime militar para administrar o dinheiro do povo.

Por outro lado, as taxas de juros continuam altas, garantindo lucro apenas aos grandes grupos financeiros e é isso o que de fato inviabiliza o aquecimento da economia nacional. Supor que o dinheiro guardado na poupança possa estar represando recursos é apostar numa tese equivocada, de cunho antipopular.

Quem tem poucos recursos ao alcance das mãos encontra na popança uma maneira de garantir pelo menos o capital aplicado. Mais que isso é impossível, pois o rendimento está sempre abaixo dos demais papéis do mercado. Além disso, tradicionalmente, o governo sempre deu garantias de que o dinheiro das cadernetas estaria seguro. A única exceção ocorreu durante o tumultuado mandado do presidente Fernando Collor, que surrupiou o dinheiro das cadernetas sem jamais dar explicações ao povo.

Curioso é que Collor passou todo o período eleitoral afirmando que Lula, seu principal opositor, é que lançaria mão do dinheiro popular para viabilizar o governo petista - caso fosse eleito daquela vez. Bastou tomar posse para que a máscara do caçador de marajás caísse no chão. Na maior cara-dura, ele e sua destemida ministra Zélia Cardoso de Mello decretaram o confisco da poupança, deixando boquiabertos e arruinados até mesmo seus eleitores. Fato parecido também ocorreu na Albânia, o que resultou numa revolta popular. E olha que aquele país vinha de um longo período de autoritarismo pró-soviétivo.

Não é de duvidar que essa história de tributação da poupança esconda outras intenções do governo federal. Apoiado pela elite econômica e pelos clientes da bolsa família, Lula é talvez o presidente que mais pisoteou a classe média, como se fosse ela a principal responsável pela desigualdade social e pela má distribuição de renda. Mais que Getúlio Vargas, cabe-lhe o epíteto de “pai dos pobres e mãe dos ricos”.

Em vez de realizar as grandes e proteladas reformas sociais, o governo petista escolheu o caminho mais fácil, distribuindo bônus à pobreza e fazendo a classe média de boi-de-piranha, sem de fato incomodar as elites. O pior desse quadro é a falta de reação dos poucos partidos que se dizem de oposição. Enquanto o Congresso Nacional tem sua imagem desgastada pelo despreparo dos parlamentares e pela sucessão de escândalos que revoltam a opinião pública, Lula se resguarda, tendo passado incólume pelo  controvertido episódio do mensalão.

Tudo que cheira a impostos deveria ser combatido pela elite pensante e pelos parlamentares que se levam a sério. Afinal, sobrecarga tributária nunca serviu para atender ao interesse público. Se assim não fosse, setores como saúde, educação, saneamento e segurança não deixariam tanto a desejar. Contudo, diante da necessidade de cortar gastos para enfrentar a “marolinha” da crise econômica, o governo não pestanejou em reduzir verbas justamente nos setores de educação e saúde - quando deveria fazer exatamente o contrário.

Qualquer país desenvolvido aumenta o investimento em educação durante os períodos de crise, pois os governantes sabem que a solução para o problema costuma vir da boa formação dos futuros profissionais. Quanto à saúde, é no mínimo temerário que se cortem verbas no momento em que o país enfrenta nova epidemia de dengue, longos períodos de enchente e agora - só para complicar o quadro - a ameaça de uma pandemia de gripe. 

* Publicado no Diário do Comércio, em 23/5/2009.

   

Haicai suíno

Fantasma de si mesmo

o porco se assombra

com o próprio torresmo