29 abr 2009
A influenza norte-americana, nome correto segundo a OMS para a gripe suína, demonstra a fragilidade do sistema de saúde pública no mundo globalizado. A desigualdade de condições de vida entre os países de Primeiro e Terceiro Mundo é a principal causa dos riscos de uma pandemia de proporções catastróficas.
Vale lembrar que em plena Idade Média quase um terço da população da Europa sucumbiu à peste bubônica, apelidada de peste negra. Naquele tempo as distâncias entre vilas e cidades eram bem maiores que hoje. Com as facilidades de transporte e o aumento do intercâmbio comercial, sem falar na superpopulação das grandes metrópoles, as possibilidades de propagação de doenças, como a gripe espanhola ocorrida no início do século passado, tornam-se bem maiores.
O curioso é que, no Brasil, morrem milhares de pessoas todos os anos, vítimas de dengue, febre amarela, subnutrição, bala perdida e acidentes automobilísticos. Enquanto a mortandade permanece nos grotões e nas favelas, as autoridades nem se abalam. O problema da nova gripe é que ela desembarca nos aeroportos internacionais, frequentados principalmente por pessoas ricas e de classe média, formadoras de opinião. Se a doença chegasse de ônibus ou a bordo de um pau-de-arara, certamente não haveria motivos para pânico.
Enquanto isso, na África, a Aids avança a cada dia, vitimando principalmente mulheres e crianças. O continente que sempre foi explorado pelos países ricos e imperialistas paga o preço da omissão internacional. Afinal, quem se importa com a morte de um bando de negros e pobres do Terceiro Mundo?
Tão grave quanto o risco de uma pandemia é, na verdade, a desinformação. A gripe que agora ameaça o mundo tem muito pouco de suína e provavelmente evoluiu da chamada gripe aviária, que recentemente vitimou mais de 1 mil pessoas em vários países, principalmente na Ásia. Também naquele continente as condições de vida da maioria das populações são precárias e oferecem todas as condições para o surgimento de epidemias de todo tipo.
Os organismos internacionais e os governos de países em desenvolvimento deveriam instituir políticas públicas de controle da natalidade e de melhoria nas condições sanitárias da população. Afinal, em grandes metrópoles como São Paulo, Cidade do México ou Bombaim, pessoas pobres ou miseráveis vivem amontoadas, disputando espaço com ratos e baratas.
Boa parte dos problemas enfrentados pela humanidade resulta da superpopulação, concentração demográfica, ignorância e desigualdade social. Tanto é verdade que a gripe aviária e a nova epidemia que ameaça o mundo se originaram em regiões densamente habitadas, onde as condições de vida são as piores possíveis.
Contudo, em vez de espalhar o pânico, como vem ocorrendo nesses dias, os órgãos de imprensa deveriam alertar e orientar as pessoas, sobretudo as mais humildes, sobre como se precaver. Duas coisas chamam especialmente a atenção no momento. Os sintomas da nova gripe têm semelhança com a dengue e o resfriado comum. Afinal, como distinguir uma coisa da outra? Por outro lado, o nome gripe suína parece impróprio e já começa a causar prejuízos aos produtores e comerciantes de carne de porco. Com isso, um importante setor da economia mundial - já fragilizada pela crise - corre o risco de amargar sérios prejuízos e contribuir para o aumento do desemprego em vários países.
No Brasil, enquanto o governo tenta tranquilizar a população - como se uma epidemia internacional de gripe pudesse ser apenas mais uma “marolinha” - a imprensa se limita a repetir informações, pouco acrescentando ao que já se sabe sobre os recentes casos de contaminação ocorridos principalmente no México e nos Estados Unidos. Em vez de gripe suína, a nova doença poderia se chamar gripe Obama, pois coincide com o centésimo dia de governo do simpático novo morador da Casa Branca.
* Publicado no Diário do Comércio e no site Observatório da Imprensa, em 05/05/2009.
22 abr 2009
O Congresso Nacional parece uma usina de escândalos, pois toda semana estoura uma bomba nos ouvidos do contribuinte. A imprensa cumpre o seu papel, mas os políticos fingem que nem é com eles. Depois da farra do cartão corporativo e da notícia de que a filha do senador Tião Viana, do PT, gastou R$ 14 mil com o celular do papai, durante uma viagem ao exterior, a notícia do momento é sobre o custeio de passagens aéreas de parentes e amigos de parlamentares com recursos da verba oficial.
A desfaçatez ultrapassa o discurso ideológico, pois até o impoluto Fernando Gabeira entrou na farra. Não bastasse isso, o presidente da Câmara, Michel Temer, tenta justificar o injustificável. Ele alega que a lei não proíbe tal comportamento dos parlamentares, ignorando, no entanto, que nem tudo que é legal deixa de ser imoral. Por outro lado, a lei é feita por eles e geralmente tem brechas justamente para que possam se safar em casos como esse.
O Brasil é um dos recordistas mundiais na cobrança de impostos. A diferença, em comparação com seus competidores, é a péssima qualidade dos serviços públicos prestados por aqui. A maior parte dos recursos arrecadados é usada para alimentar um Estado que mais parece um mamute em constante regime de engorda. Inoperância, corrupção e nepotismo parecem doenças incuráveis.
O Congresso Nacional abocanha grandes nacos da alfafa. Haja vista reportagem divulgada há algum tempo pelo programa Bom Dia Brasil, da Rede Globo de Televisão, e agora divulgada por e-mail. Na época - não sei precisar quando -, o Instituto Transparência Brasil demonstrou que cada senador brasileiro custava por ano R$ 33 milhões aos cofres públicos e um deputado federal não saía por menos de R$ 6,6 mil. Em média, cada parlamentar tupiniquim custava R$ 10,2 mil por ano.
Para se ter ideia do disparate, na mesma época um parlamentar italiano custava R$ 3,9 mil por ano e um argentino, R$ 1,3 mil. Os dados não estão atualizados e provavelmente houve aumento nas cifras, com as despesas do Brasil correndo na frente. E olha que o Congresso Nacional já esteve fechado por ordem dos militares, durante a ditadura, mas os nossos parlamentares só se lembram disso para se fazerem de vítimas, ignorando a insatisfação e as queixas do atual contribuinte. Muita gente há de pensar que se isso é democracia, melhor seria a “ditabranda”.
A conduta dos senadores e deputados federais causa o efeito cascata, servindo de exemplo para deputados estaduais e vereadores pelo País afora. Na época da reportagem mencionada, os 20 deputados distritais de Brasília consumiam, cada um, R$ 10 milhões por ano, enquanto nas assembléias legislativa do Rio de Janeiro e São Paulo esse valor chegava a R$ 5 milhões.
Se o povo brasileiro medisse a relação custo-benefício de um legislativo tão caro e inoperante, certamente sairia às ruas exigindo mudanças. O Brasil tem por hábito importar costumes, mas no âmbito político isso ainda é raro. Nossos parlamentares vivem melhor que a nobreza dos países ricos, alguns em castelos construídos com dinheiro público. Enquanto isso, o grosso da população permanece aquém dos padrões do Terceiro Mundo, sem moradia, segurança, emprego ou assistência médica de qualidade.
20 abr 2009
A questão das drogas tem dois ou mais lados a serem considerados. Primeiro, o tráfico com todas as suas implicações, como violência, corrupção e impunidade. Segundo, o uso das drogas propriamente dito, que leva indivíduos à dependência, famílias à desestruturação e o Estado a gastar - ainda que modestamente - com a reabilitação de viciados.
O problema crucial, no entanto, é a hipocrisia que gira em torno do tema. O comércio de drogas movimenta bilhões de dólares em todo o mundo e por isso nem todos os governos estariam interessados em resolver a questão de uma vez por todas. E existe também o paradoxo legal - no caso do Brasil, por exemplo - onde o usuário não é considerado criminoso. Tudo bem que todo vício é uma doença, mas se não fosse o uso de drogas não haveria tráfico que se sustentasse.
O curioso é que a maioria dos usuários de drogas pesadas não está entre os pobres. Estes, quando são viciados, geralmente alugam sua força de trabalho aos traficantes para conseguir manter o vício. Já os jovens das classes média e alta têm dinheiro para sustentar o vício e por isso não precisam aderir ao tráfico - embora muitos já o façam, motivados principalmente pelas costas quentes do papai.
Por outro lado, a sociedade brasileira é demasiadamente tolerante com aqueles que infringem a lei. Nossa história está cheia de violões que se tornaram mocinhos, a começar pelo cangaceiro Virgulino Lampião. A imagem de Robin Hood sempre é evocada quando aparecem criminosos de aura romântica, como Lúcio Flávio, Pareja e Ramiro da Cartucheira.
Também existem aqueles que tentam comparar drogados e bêbados - embora o álcool também cause muitos estragos. O problema é o nível desses estragos, pois o drogado chega a ponto de roubar ou matar para sustentar o vício, enquanto o bêbado raramente chega a tanto. O dependente de drogas geralmente usa álcool, mas o alcoólatra muito raramente consome drogas.
E há ainda que se considerar que mesmo nos tempos da lei seca, nos Estados Unidos, o crime organizado não chegou ao estágio alcançado pelos traficantes de drogas, com o nível de violência e comprometimento social da atualidade. Hoje, na guerra do tráfico, há muito mais inocentes prejudicados que naquela época, durante a guerra do álcool, quando a Máfia ainda cultivava princípios de honra e lealdade.
Direta ou indiretamente, a sociedade brasileira também se mostra tolerante e muitas vezes se simpatiza com aqueles que fazem apologia das drogas. Em plena luz do dia, a televisão exibe filmes nos quais, vez ou outra, aparece alguém fumando maconha ou cheirando cocaína numa cena totalmente fora de contexto - já que o filme em questão não está necessariamente abordando a temática das drogas.
O cinema brasileiro também parece aderir a essa mania. O filme Divã, por exemplo, tem uma cena totalmente despropositada na qual a protagonista Mercedes, interpretada por Lilia Cabral, aparece fumando maconha com o namorado interpretado por Reynaldo Gianecchini. A sequência termina com ela rindo nas fuças de um guarda que os aborda em flagrante no carro. O curioso é que não se fala mais no assunto e não fica claro se houve ou não alguma punição para o casal.
Esse tipo de situação exposta com naturalidade nas telas da TV e do cinema não deixa de estimular jovens desavisados a experimentar drogas, ainda mais quando a cena é exibida gratuitamente, como se fizesse parte da rotina de vida de pessoas absolutamente “normais”. Fumar baseado parece ser uma coisa legal. Se fosse um filme ou novela sobre drogas, teria sentido, mas não podemos passar a ideia de que fumar maconha ou cheirar cocaína seja tão natural quanto beber um copo de cerveja ou uma dose de uísque.
Moralismos à parte, não é uma simples questão de censura ou proibição. O que falta é abordar o problema de frente, sem hipocrisia. Mas como, se algumas escolas se veem intimidadas pelos pais até mesmo quando tentam abordar temas relacionados à educação sexual? Este e outros assuntos polêmicos, como drogas, álcool e até mesmo educação no trânsito deveriam ser englobados por uma disciplina que ensinasse noções de cidadania, direitos e deveres do cidadão, servindo de alerta para crianças e jovens cujos pais muitas vezes evitam ter esse tipo de conversa com os filhos.
Outra coisa que se deve levar em conta é que o jovem pé-de-chinelo que vende drogas nas bocas de fumo certamente trabalha indiretamente para bandidos das classes média e alta. Não fosse assim, a julgar pelo número de clientes e pelo preço das drogas no varejo, as favelas seriam calçadas com ouro e diamantes e os presídios seriam verdadeiros palácios financiados pelos narcotraficantes.
16 abr 2009
Pelo visto, no que depender da classe política brasileira, o país jamais se recuperará dos efeitos da crise econômica que abala o mundo. Depois de bravatear em torno do tema, chamando o tsunami de “marolinha”, o presidente Lula finalmente anunciou ações concretas para o PAC, pacote anteriormente alardeado sem causar efeitos reais na economia nacional.
Essa era sua carta na manga para tentar alavancar a candidatura da ministra Dilma à sucessão presidencial - isso sem levar em conta o risco de um plebiscito propondo um terceiro mandato, a exemplo do que fez Hugo Chávez, o agora presidente vitalício da Venezuela. Na verdade, a ficha caiu e o governo federal se mostra temeroso diante dos efeitos da crise que podem comprometer seus interesses políticos.
Por outro lado, o Senado Federal continua literalmente “afastado de Deus”. Depois de ressuscitar os mortos vivos - Sarney na presidência e Collor no comando do PAC - a câmara alta mais parece um casarão assombrado no qual vagam funcionários fantasmas que pesam à beça no orçamento.
Para demonstrar ainda mais o desvario dos senadores, o destemido Cristóvam Buarque propõe em péssima hora a criação de novas vagas no Parlamento, alegando que os brasileiros que residem fora do país não têm uma representação à altura no Congresso Nacional. Mas, justiça seja feita, na Roma antiga os senadores já davam o que falar.
A questão é que todos esses absurdos ocorrem em tempos de crise, como se esta não existisse e a situação do país fosse de fato a melhor do mundo. E trata-se de uma crise cujos rumos independem da nossa vontade, pois veio de fora como resultado da orgia capitalista promovida pelo sistema neoliberal que tomou conta do mundo. O Brasil pode remediar os efeitos, mas não tem como evitar as causas do problema.
Lula teve dois mandatos para fazer as anunciadas reformas, bem como incrementar a economia interna com a criação de frentes de trabalho, recuperação de estradas, reinvestimento em transportes (inclusive ferroviário), melhoria da educação, da saúde e da segurança pública. Até agora ele governou em céu de brigadeiro, beneficiado pelas medidas adotadas por Fernando Henrique Cardoso - apesar do bombardeio petista. Em vez de promover a redistribuição de renda e a redução dos impostos, preferiu adotar ações populistas, esmagar a classe média, engordar o Estado e aumentar a folha de pagamento em 27%.
Se FHC enfrentou várias crises em seus dois governos, Lula pela primeira vez se depara com um desafio real. Só que esta é a mãe de todas as crises e exige ações concretas e destemidas, em vez de medidas demagógicas e superficiais. Exemplo disso é que se o governo anterior não tivesse implementado o polêmico Proer, certamente os bancos estariam fechando as portas, piorando ainda mais a situação do país.
Por enquanto o Brasil tem caixa para suportar os efeitos da crise, mas não basta querer que os brasileiros voltem a consumir para que a economia nacional retorne à normalidade, como num passe de mágica. Se o exemplo vem de cima, Lula e o Senado Federal não servem de modelo para os assalariados e/ou desempregados. Afinal, eleitos para representar o povo, nossos políticos vivem do dinheiro público e a maioria deles legisla e governa em causa própria.
* Publicado no Diário do Comércio, em 18/04/2009.
9 abr 2009
Há algum tempo venho observando a decadência musical brasileira. Decadência não no modo de fazer boa música (pois tem muita gente de valor na estrada), mas na quantidade de porcaria que a maioria das pessoas ouve - e obriga os outros a escutarem. Esse é o resultado da falta de educação musical nas escolas e da pilha de lixo cultural que nos foi imposta pela mídia e pela indústria fonográfica ao longo das últimas décadas, resultando numa espécie de lavagem cerebral.
Esse fenômeno ocorreu acentuadamente depois que as classes menos favorecidas começaram a ter acesso aos discos e aos sofisticados aparelhos de som. Todo “novo rico” transforma o próprio carro numa boate ambulante, movida a funk ou breganejo. Sou do tempo em que um adolescente pobre (era o meu caso) estudava música na escola e juntava dinheiro pra comprar um ou dois LPs no fim do ano, isso quando não pedia um disco de presente ao amigo-oculto.
De outro lado, a tecnologia barateou o preço dos discos e possibilitou não apenas o consumo, mas a própria pirataria, que pôs fim ao império das gravadoras. Com isso, o feitiço virou contra o feiticeiro. Depois de passar décadas impondo merda sonora aos ouvidos do público, as fábricas de disco sucumbem ao próprio veneno.
O mais lamentável de tudo é ver sacrificada uma tradição que sempre foi motivo de orgulho para os brasileiros. Nossa música já foi (e talvez ainda seja) considerada a melhor do mundo. De Carmen Miranda a Tom Jobim, passando pelos bossa-novistas, tropicalistas e roqueiros nacionais, a MPB já fez tanto sucesso lá fora quanto o nosso futebol (este, aliás, em franca decadência, assim como a música).
Por essas e outras, ando desanimado com as composições musicais. Tenho mais de 60 canções gravadas, a maioria em parceria, e nunca ganhei dinheiro com isso. Aliás, ganho de vez em quando um caraminguado de direitos autorais, quando algum parceiro inclui uma de nossas canções num show fiscalizado pelo Ecad. Sempre fui amador musical. Aquele que ama a música. Mas ao tentar fazer desse amor uma profissão, dei com os burros n’água - embora não possa reclamar da sorte.
Desde muito cedo sonhei me tornar um compositor popular. Estudei jornalismo, dediquei-me aos livros e busquei na música uma espécie de prolongamento da literatura. Afinal, entendo que a palavra escrita chega ao ponto em que precisa ser cantada. Mas devo esclarecer - como declarei ao site tirodeletra - que poesia é poesia e letra de música é letra de música. O poema tem ritmo próprio e obedece ao compasso das próprias palavras, sem necessitar de melodia. Já a letra de música precisa se grudar à melodia para desenhar uma forma harmônica.
Alguns dos poucos que já se deram ao trabalho de ler e ouvir minhas músicas com a devida atenção se mostram surpresos com a variedade de temas e gêneros musicais. Realmente, gosto da música brasileira por inteiro e cresci ouvindo de tudo, com destaque para Chico, Caetano, Milton, Aldir, Erasmo, Vandré, Noel, Tom, Vinícius, Caymmi, Secos e Molhados, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Gismonti, Renato Teixeira e muita gente mais.
Acho que roubei um pouco de cada ídolo para compor meu próprio estilo - até porque minha obra lítero-musical é quase toda de citação. E também ouvi (e ainda ouço) Beatles, Dylan, Stones, Sinatra, Cole Porter, Piaf, Azznavour, Piazzolla, Paco de Lucia, Billie Holliday, Miles Davis e outras feras do jazz. Além de mestres erutidos, como Bach, Beethoven, Chopin, Debussy, Ravel, Stravinsky e Villa-Lobos. Recentemente, fiz um mergulho na música caipira, para escrever o programa “Nos Braços da Viola”, para a TV Brasil (agora reprisado aos domingos, às 11h30, pela Rede Minas).
Lembro que quando o primeiro disco de música por computador chegou ao Brasil, aproveitei uma faixa de Bach como fundo musical para um poema que apresentei num dos festivais de artes do Colégio Anchieta. Fiquei em primeiro lugar com a minha performance de andróide. De lá para cá, fui me dedicando cada vez mais à composição, fazendo letras e, algumas vezes, melodias.
Já compus de tudo um pouco: samba, choro, frevo, marcha, valsa, bossa nova, coco de embolada, moda de viola, fado, tango, samba-rock e até rap. No entanto, tenho me perguntado pra quê tudo isso. Talvez o mundo estivesse melhor sem tantas músicas. Lembro de uma entrevista de Chico Buarque na qual ele dizia que não tinha aparelho de som em casa, pois estava se dedicando mais à literatura. Hoje eu entendo do que ele estava falando.
Tive a sorte de fazer parcerias com músicos que sempre admirei, entre eles Angelo Pinho, Clésio Vargas (meu primeiro parceiro), Chico Lobo, Tino Gomes, Manezinho do Forró, Valter Braga (que ganhou o prêmio de melhor letrista no festival da TV Cultura, em 2007), Rick Udler, Tabajara Belo, Eric Mordaché, Eduardo Pinto Coelho, Geraldo Vianna, Francisco Saraiva, Roberto d’Oliveira, Rogério Leonel, Rodrigo Delage e até Chiquinha Gonzaga (fiz uma letra para o maxixe “Satan”) e Nino Rota (fiz letras sobre duas melodias de sua autoria). Tive a sorte de ter Helena Penna entre outras intérpretes de valor reconhecido cantando minhas modestas composições.
Uma vez participei de uma promoção no site oficial de Chico Buarque (olha ele de novo!), fazendo versos pra canção “Bom Conselho” e fui premiado com uma caixa de DVDs. Escrevi: “Ouça um bom conselho/ Que lhe dou de graça/ Para o vinho velho/ A nova taça”… De certa forma, fui seu parceiro, ainda que informalmente.
Mas é aquele negócio: você faz música e ninguém grava. Quando grava, não toca no rádio. Quando toca, você não ganha direitos autorais. Isso quando o próprio parceiro ou intérprete não inclui a tal composição nos shows. Resultado: compor pra quê? Pra quem ouvir? Melhor publicar livros, fazer palestras para estudantes, escrever para TV, cinema ou bula de remédio.
Não digo que vou abandonar a música, pois ela está no meu sangue tanto quanto a literatura. Ainda há poucos dias não resisti à tentação e coloquei letra numa linda melodia do violeiro Zeca Colares, que disse ter gostado. Também estou fazendo parcerias com o Max Rosa, outro violeiro que ainda nem tive o prazer de conhecer pessoalmente. Contudo, devo confessar que o parceiro que eu mais tenho procurado é o silêncio, esse cidadão esguio que se faz cada vez mais ausente no mundo das bate-estacas. Numa sociedade de analfabetos e surdos, a música certamente não será necessária.
2 abr 2009
Uma coisa é o escritor, outra coisa é o livro. Embora muitas vezes a crítica e o leitor comum confundam os dois, nunca é demais ressaltar que o autor e a obra são autônomos e que devem ser julgados conforme suas qualidades intrínsecas. Portanto, não se deve exigir coerência do escritor, mas analisar sua obra no próprio contexto da narrativa e do momento em que foi escrita.
Isso significa que o autor pode ser um reacionário confesso e construir uma obra inovadora, quando não revolucionária. Por outro lado, pode ter um discurso engajado, pretensamente revolucionário e, “contraditoriamente”, escrever algo conservador. Afinal, onde estão os adeptos do realismo socialista imposto pelos soviéticos? Que contribuição estética eles prestaram aos cânones literários? Uma vez no poder, todo revolucionário se torna conservador e a maior prova disso foi o estalinismo.
A história está repleta de exemplos que comprovam a tese. É o caso do poeta norte-americano Ezra Pound e do romancista francês Louis-Ferdinand Celine. Ambos colaboraram com os nazistas e, apesar disso, escreveram obras literárias à frente do seu tempo. O argentino Jorge Luis Borges apoiou a ditadura militar em seu país por temor aos peronistas e, no entanto, tornou-se um dos maiores escritores de todos os tempos.
E não precisa ir longe. No Brasil, ninguém foi tão achincalhado pela esquerda quanto o dramaturgo carioca Nelson Rodrigues. Acusado de reacionário e amigo dos militares, ele criou uma obra teatral inovadora, incomodando os moralistas e conservadores de sua época. Enquanto isso, o romancista baiano Jorge Amado foi comunista de carteirinha, chegou a ser influenciado pelo realismo sociliasta, tornando-se um autor popular de livros importantes, mas que nada acrescentam à literatura universal. Ao contrário dele, o misterioso e nada discursivo Guimarães Rosa construiu mineiramente uma das obras mais surpreendentes do século XX.
Na era das celebridades, um livro se torna best-seller muito mais em função do autor do que do seu conteúdo literário. Exceção para Ernest Hemingway, que embora tenha investido como poucos no marketing pessoal conseguiu escrever contos e romances que mudaram os rumos da literatura contemporânea. Por outro lado, se o grande Chico Buarque assinasse José da Silva, provavelmente seus belos romances passariam em branco sobre a mesa da crítica. Esta se mostra cada vez mais comprometida com a moda, em detrimento da formação de leitores.
No livro A Literatura em Perigo, o historiador búlgaro Tzvetan Todorov dirige sua crítica aos professores universitários, que preferem ensinar métodos literários ao invés de focar seus esforços em aproximar o estudante das obras literárias. Segundo ele, “na escola não aprendemos o que falam as obras e sim o que falam os críticos”.
Essa análise inspirou um interessante texto de Luiz Rebinski Júnior publicado no site Digestivo Cultural, evocando o inglês George Orwell (1984 e A Revolução dos Bichos), que já no seu tempo criticava o adeptos do estruturalismo literário.
No Brasil, podemos constatar a maneira como as universidades trabalham os livros. A começar pelos exames de vestibular, que obrigam jovens literariamente mal-formados a lerem calhamaços que fogem à sua compreensão para depois sabatiná-los com questões subjetivas - que, geralmente, exigem respostas objetivas. Eu mesmo já vivi a experiência de errar duas questões - de um total de três - sobre um texto de minha autoria incluído no vestibular da UFMG.
O resultado catastrófico da maneira como muitas escolas tratam as literatura pode ser medido por meio do tráfico de resumos de livros e cópias xerografas de obras clássicas e/ou contemporâneas. O que os autores muitas vezes percebem é que a grande maioria dos estudantes não está diretamente focada no conteúdo da obra, mas interessada em passar de ano ou em adentrar a universidade o mais rápido possível.
É uma pena que isso ocorra, pois somente por meio da leitura de bons livros é que nos tornamos de fato bem informados - e formados enquanto cidadãos. Mesmo que a música, o cinema, o teatro e outras modalidades artísticas contribuam para o engrandecimento do espírito humano, somente por meio da boa leitura é que podemos de fato alicerçar nossos conhecimentos e vivenciar as mais profundas emoções.
Em outras palavras, podemos afirmar que fora do livro não há civilização que se sustente nem indivíduo que se complete. E graças à mídia e às instituições de ensino ainda estamos a confundir autores e obras, livros e métodos críticos, leitura e análise de obras. A obra literária é quase sempre subjetiva, permite as mais variadas análises e só se completa depois de ser digerida pelo leitor. Este, por sua vez, descobrirá uma outra obra - e ainda outra - em futuras releituras. E esse é um dos fatores que fazem da literatura a mais admirável das artes.