Arquivo de fevereiro de 2009

Tempos de violência

Até quando, meu Deus? Esta é a pergunta que todos fazemos quando nos deparamos com uma cena de violência. Em tempos de crises econômica e ecológica, vivemos principalmente uma crise de humanidade sem precedentes. Mesmo com os avanços tecnológicos alcançados ao longo dos séculos, espiritualmente o homem permanece nas cavernas da pré-história.

Na África e no Oriente Médio o ódio tribal entre povos de diferentes etnias parece aumentar a cada novo conflito. Nas repúblicas latino-americanas persistem as desigualdades sociais, enquanto o populismo - ora de direita ora supostamente de esquerda - ameaça a estabilidade democrática do continente.

Em vários pontos do Brasil, especialmente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, trava-se uma guerra civil não declarada, na base do cada um por si e Deus por ninguém. Policiais civis X militares, milicianos X traficantes, CV X TC X PCC e o povo perdido entre balas perdidas. E o problema é que, por mais perdidas que estejam, as balas sempre encontram o corpo de um inocente que paga com a própria vida a omissão dos políticos.

Em países europeus, que se dizem civilizados ou do Primeiro Mundo, cresce a intolerância e o discurso fascista. A paranóia coletiva leva à prática de crimes que até Jack duvida. Basta ver o assassinato do mineiro Jean Chales pela polícia londrina ou a recente agressão à jovem cearense, supostamente praticada por militantes do partido de direita que integra o governo suíço. Até que a polícia de lá comprove a tese, soa absurda a acusação de que a vítima teria simulado o crime.

Curioso é que até mesmo as máquinas parecem assumir o controle da situação, como costuma ocorrer em filmes de ficção científica, talvez na tentativa silenciosa de levar seus criadores à guerra e ao autoextermínio. Na semana passada, dois satélites artificais - um russo e outro norte-americano - chocaram-se em plena órbita terrestre, espalhando destroços no espaço.

Agora vem a notícia de que submarinos nucleares - um britânico e outro francês - teriam trombado nas profundezas do Atlântico, sem que os respectivos sonares tivessem detectado a aproximação um do outro. A sorte é que eram barcos de nações aliadas. Caso contrário, o acidente sem maiores consequências poderia ter se transformado num incidente de sérias proporções.

Diante de tais acontecimentos, não fica difícil deduzir que todo esse quadro de violência e insegurança resulta da falta de respeito mútuo e da perda dos valores humanos. A sociedade pós-industrial globalizada representa o ápice do modelo capitalista, que agora ameaça desabar sobre os próprios criadores.

Não precisa ser místico ou profeta para perceber que as crises que enfrentamos - num momento quase apocalíptico - traduzem a falta de sentido da sociedade contemporânea, que substituiu o ser pelo ter, transformando os indivíduos em células de consumo e alienação. Quanto mais distante dos valores humanos preconizados pelo humanismo e pelo amor ao próximo, mais o homem se perde de si mesmo.

* Publicado no Diário do Comércio, em 21/2/2009.

 

 

      

Mineiro bom de briga

Meu compadre Juventino é do tipo que dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair. Sua última aventura foi parar até na Internet. Dia desses, vindo de uma pescaria lá pelos lados de Pirapora, no Norte de Minas, ele foi ultrapassado por uma BMW vermelha, que de tão veloz provocou um vácuo e sacudiu a lataria de sua implacável Variant.

“Esse sujeito tá mesmo com pressa”, ruminou consigo mesmo. “Vai tirar o pai da forca…”

Minutos depois, numa curva da estrada, lá estava a mesma BMW parada junto ao acostamento, com um pneu traseiro murcho. O motorista fez sinal, pedindo ajuda. Mineiro às antigas, Juventino piscou o farol e estacionou um pouco à frente.

- Boa tarde, tchê - disse o motorista da BMW ao se aproximar.

- Tarde - respondeu Juventino, saindo da Variant.

- Será que o amigo teria um macaco que pudesse me emprestar? - perguntou o sujeito alto e parrudo, de no máximo 40 anos.

- O senhor veio do Sul sem trazer um macaco? - admirou-se Juventino, ao ler o nome Pelotas na placa da BMW.

- Só percebi que o havia esquecido ao tentar trocar o pneu - explicou o gaúcho.

- problema não. Tenho aqui um dos bão - disse Juventino, abrindo o porta-mala da Variant.

Para encurtar a prosa, trocaram o pneu em poucos minutos. O gaúcho agradeceu, entrou na BMW, ligou o som bem alto e arrancou a toda velocidade.

Juventino guardou o macaco no porta-mala, limpou as mãos num pedaço de estopa e retomou seu caminho nos rumos de Belo Horizonte. Meia hora depois, resolveu parar num posto de gasolina na beira da estrada pra completar o tanque. Lá estava a mesma BMW, cujo motorista calibrava os pneus.

Ao se aproximar, talvez surpreso por reencontrar o gaúcho, Juventino se distraiu no freio e o pára-choque da Variant quebrou uma lanterna traseira da BMW. O gaúcho teve um sobressalto e o sangue lhe subiu à cabeça.

- Mas que droga, mineiro, olha o que fizeste com o meu carro!

- Foi por querer não. Eu me distraí e peço desculpas, amigo - disse Juventino, humildemente, sem sair da Variant.

 - Amigo é o cacete… Tudo sabes o quanto me custou este carro? Teu calhambeque não vale uma roda de cromo dessa, ba!

Juventino se desculpou novamente e disse que aquilo não seria motivo para uma briga.

- Brigar? Eu vou é chamar a Política Rodoviária e fazer a ocorrência. Quero que me pague agora mesmo o prejuízo.

Sem perder a calma, que mineiro bom não se apavora, meu compadre buscou uma garrafa de cachaça no porta-luva da Variant.

- Ocê tá muito nervoso. Vai ver que anda bebendo muito chimarrão e isso não faz bem à saúde - comentou. - Bebe um trago dessa daqui pra se acalmar, que depois a gente conversa.

O gaúcho sentiu-se desconcertado com tanta gentileza do mineiro e acabou aceitando a oferta. Segurou a garrafa, bebeu um longo gole no bico e limpou a boca nas costas da mão.

- Aguardente da boa, tchê!

- É do alambique da fazenda onde eu tava pescando - disse Juventino. - Bebe mais um traguinho pra modo de relaxar direito.

O gaúcho tomou mais dois goles e devolveu a garrafa ao meu compadre.

- Obrigado, tchê!

- Não seja por isso - disse Juventino. - Agora ocê pode chamar os home da Polícia Rodoviária. Mas não se esqueça de dizer pra trazerem o tal bafômetro…

 

Em defesa da UFMG

Denúncias publicadas recentemente sobre irregularidades supostamente ocorridas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) devem ser investigadas e analisadas cuidadosamente. Afinal, não existem instituições à prova de corrupção e todo mundo sabe do esforço de certos setores para minar ainda mais o ensino público no país, com a clara intenção de privatizá-lo em sua totalidade. O ministério público deve ir fundo nas investigações e a imprensa deve manter o público informado, mas sem que isso comprometa a imagem da UFMG como uma das mais importantes instituições de ensino superior do país.

A carga contrária às instituições públicas de ensino é reforçada pela filosofia neoliberal que caracteriza a globalização, negando o papel do Estado como mediador das diferenças sociais. Claro que a UFMG não deve ser nenhum mar de rosas. Até porque, mesmo com toda sua importância reconhecida nacionalmente, ela enfrenta há muitos anos o descaso do governo federal, que tem rezado pela cartilha dos neoliberais, deixando setores de interesse público a descoberto, quase sucateados, o que sempre favoreceu a iniciativa privada.

No entanto, se existem coisas erradas nessa e em outras instituições públicas, que se apurem as responsabilidades com o rigor da lei. Negar a importância das universidades federais para o avanço da pesquisa e do conhecimento seria atentar contra o bom-senso e a própria soberania nacional. Mais que isso, seria abrir espaço para aqueles que vislumbram no ensino apenas o lucro material imediato, sem nenhum compromisso social ou com o futuro do país.

A péssima qualidade do ensino no Brasil é notória. No entanto, o mesmo setor da imprensa que agora aponta suas baterias contra a UFMG raramente se preocupou em denunciar o atentado de lesa-pátria praticado pelos governos, toda vez que deixam de investir em setores prioritários para a sociedade, como saúde, educação e segurança pública. A própria criação de cotas para minorias na universidade é uma tentativa tardia e demagógica de garantir igualdade de condições a estudantes de origem humilde, oriundos em sua maioria de escolas públicas de má qualidade.

O problema do ensino brasileiro está na base e a mídia raramente põe o dedo na ferida. A ironia é que a queda na venda de jornais está diretamente relacionada à péssima formação de leitores e de alguns daqueles que vão exercer a profissão de jornalista sem o devido preparo. Recente pesquisa sobre a qualidade do ensino básico na América Latina revelou que o Brasil se encontra no vergonhoso 18º lugar. Enquanto isso, proliferam faculdades particulares no país, que vendem facilidades àqueles que não conseguem passar nos vestibulares oficiais para conseguir o sonhado diploma. A concorrência é tamanha que, nos últimos tempos, o setor tem registrado altos índices de inadimplência.

Já se tornou folclórico o resultado de provas realizadas por alunos de certas instituições de ensino, que revelam total incapacidade e ignorância para exercerem a profissão na qual se formaram. Basta ver os índices de reprovação nos exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou mesmo em concursos públicos para profissionais de medicina. Tivessem todas as profissões conselhos normativos organizados e atuantes certamente a qualidade dos profissionais que atuam no mercado de trabalho seria melhor, pelo menos com alguma garantia para aqueles que pagam por seus serviços.

Por essas e outras, não é de duvidar que o tom moralizante da campanha contra a UFMG e a Fundep possa esconder interesses mercantilistas. É preciso que os leitores aprendam a ler nas entrelinhas para não caírem na esparrela do julgamento apressado e na manipulação da opinião pública em favor do poder econômico. Uma instituição como a UFMG deve, sim, ter uma administração transparente e devidamente fiscalizada pela sociedade, mas que a defesa desses princípios jamais coloque em risco sua existência.