Arquivo de janeiro de 2009

Protecionismo previsível

As medidas protecionistas anunciadas pelo presidente norte-americano, Barack Obama, poderiam surpreender se ele fosse republicano e não democrata. Embora do ponto de vista ideológico haja pouca diferença entre os dois maiores partidos políticos da América, o fato é que os democratas sempre tenderam mais ao protecionismo e às causas sociais. Os republicanos, por sua vez, são  liberais na economia e conservadores na política. A ação de Bush no final do governo, liberando recursos para a iniciativa privada, só foi tolerada por se tratar de um ato desesperado em momento de grande crise.

Uma vez que a economia norte-americana se vê à beira de um colapso, não há nada de novo no comportamento de Obama. Ele assumiu o governo justamente com a missão de salvar o país do caos. Para isso, fará de tudo para estimular a economia interna e retomar o caminho da estabilidade, inclusive criando subsídios para socorrer os setores mais fragilizados. 

A história dos democratas mostra que eles são muito mais voltados para os problemas internos do seu país, enquanto os republicanos geralmente priorizam as questões internacionais. Tanto é que os gastos com o aparato bélico-militar na era Bush foi certamente uma das causas da atual crise dos EUA. Com a atenção voltada mais para os problemas externos, os republicanos talvez não tenham percebido a semente do caos econômico germinada pela ação irresponsável dos grandes especuladores.

Embora seja natural a reação da comunidade européia e de outros governos diante das medidas de proteção adotadas por Obama, o fato é que elas já eram previsíveis. A indignação do presidente Lula, por exemplo, é procedente. Os neoliberais sempre combateram o estado empresarial, mas diante da crise pedem socorro aos governos. No entanto, é bom que se diga, a globalização foi muito mais uma iniciativa dos europeus para enfrentar a concorrência internacional do que propriamente uma estratégia dos norte-americanos.

O Partido Democrata dos EUA foi fundado por Thomas Jefferson, em 1792, justamente para se contrapor às elites representadas pelo Partido Federalista. Em 1798, o “partido do homem comum” passou a se chamar Partido Republicano Democrático e dois anos depois Jefferson se tornou o primeiro democrata eleito presidente. No século 19, William Jennings Bryan se destacou na luta pela reforma agrária, apoiou o direito das mulheres ao voto e as eleições diretas para o Senado.

Já em 1912, Woodrow Wilson se tornou o primeiro presidente democrata do século 20. No seu governo, os EUA lutaram na Primeira Guerra Mundial e defenderam a criação da Liga das Nações, antecessora das Nações Unidas. Wilson também criou o FED (espécie de banco central) e aprovou uma lei de assistência a crianças e trabalhadores.

Contudo, o democrata que mais se sobressaiu na Casa Branca foi Franklin Delano Roosevelt. A exemplo de Obama, ele foi eleito com o propósito de salvar o país da recessão causada pela quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Adotou o New Deal (1933-1939), plano que consistia numa política de intervenção do Estado na economia, com a criação de frentes de trabalho, seguro-desemprego, regras de limitação das instituições financeiras e fiscalização do mercado de ações, além de um grande programa de obras. Durante seu governo, os EUA entraram na Segunda Guerra como devedores e sairam como credores, o que contribuiu na recuperação da economia interna.

Graças ao sucesso do governo Roosevelt, o também democrata Harry Truman pôde intervir na reconstrução da Europa, por meio do Plano Marshal. Entre 1948 e 1951, o gigantesco plano de investimento nos países destruídos pela guerra também ajudou a consolidar a economia e o modo de vida dos norte-americanos. Na mesma época, foi criado o Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar ocidental liderada pelo Pentágono para enfrentar a ação soviética.

Em virtude dos resultados positivos para os EUA, dificilmente o New Deal deixará de ser um exemplo para o governo Obama. Também convém lembrar os avanços sociais e a ajuda do Estado à economia interna nos governos de John Kennedy, Lindon Johnson, Jimmy Carter e - claro! - Bill Clinton. Em 1996, ele foi o primeiro democrata reeleito presidente, desde Roosevelt. Seus dois mandatos foram voltados para os problemas internos, marcando um período de expansão econômica, redução do desemprego e dos índices de criminalidade. Se Obama conseguir metade disso, já será lembrado como um dos maiores presidentes da história. 

 * Publicado no Diário do Comércio, em 07/2/2009.

 

Dois pesos, poucas medidas

O governo brasileiro precisa rever seus critérios diplomáticos, para não comprometer ainda mais a imagem do país lá fora. Fatos recentes revelam incoerência do Planalto no campo das relações internacionais. A polêmica decisão do presidente Lula de não extraditar o ex-ativista italiano Cesare Battisti, de 57 anos, contrasta com a devolução apressada dos pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que abandonaram a delegação cubana após participarem dos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro, em 2007.

Cesare foi condenado por assassinato e terrorismo pelo governo democrático da Itália, enquanto os dois atletas apenas discordavam da realidade política e social de Cuba, que há 50 anos é governada por uma ditadura. Tanto o pretenso escritor italiano quanto o governo dos irmãos Castro são de esquerda, o que leva a crer que nas duas medidas tomadas pelo governo brasileiro possa ter pesado a questão ideológica. Ou será que existem razões que a própria diplomacia desconhece?

Outro fato que chama atenção é a falta de uma reação contundente por parte do Itamaraty diante da Espanha, que vem tratando turistas e estudantes brasileiros a pontapés. E olha que os negócios espanhóis no Brasil vão de vento em popa, sobretudo nos setores bancário, editorial e de telefonia. O pior incidente ocorreu em 14 de janeiro, quando o compositor e violonista Guinga, de 60 anos, viu-se roubado ao passar seus pertences pela esteira de raio-X do Aeroporto Barajas, em Madri. Ao tentar registrar queixa na polícia, ele foi esmurrado por um guarda, perdendo dois dentes. A ironia é que além de ser neto de espanhol, o genial músico carioca é também dentista.

Não é difícil imaginar a reação do governo espanhol se o guitarrista flamenco Paco de Lucia - amigo de Guinga - fosse igualmente agredido por policiais brasileiros. É só levar em conta o sonoro - e merecido - “por que não te calas?” gritado pelo rei Juan Carlos nas barbas do presidente colombiano Hugo Chávez, quando este discutia com o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodrígues Zapatero, durante uma reunião política. Os espanhóis são um povo aguerrido e não levam desaforo pra casa. Basta ver o que fizeram com os incas, maias e astecas durante a colonização das Américas.

Convém lembrar que o assassinato do mineiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos, pela polícia londrina, em 2005, até hoje não foi devidamente esclarecido. Afinal, as autoridades britânicas reconheceram o equívoco cometido pelos policiais, mas a Justiça daquele país não condenou nenhum dos envolvidos. Se a vítima fosse um súdito da rainha Elizabeth e o incidente tivesse ocorrido no metrô de São Paulo, certamente as pressões teriam sido desastrosas para o Brasil.

O governo brasileiro também foi muito tolerante com o presidente boliviano Evo Morales, quando ele resolveu descumprir contratos assinados por seus antecessores com a Petrobras. Não demorou muito para que o mandatário equatoriano, Rafael Correa, pegasse pesado com uma construtora brasileira questionando inclusive um empréstimo do BNDES ao seu país.

Há 200 anos, quando a corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro, o príncipe regente, Dom João VI, decretou a abertura dos portos brasileiros às “nações amigas”. O que ele não sabia - e o governo brasileiro às vezes parece ignorar - é que amizade é um sentimento individual. Entre países e nações prevalecem interesses políticos e econômicos, que precisam estar equilibrados na balança das relações internacionais para garantir colaboração e respeito mútuos. Afinal, nesse campo, tanto quanto no campo de futebol, quem não faz gol corre o risco de levar goleada.

 * Publicado no Diário do Comércio, em 31/01/2009.

 

A herança de Bush

A administração Bush se despede da Casa Branca sem deixar saudades. O governo de George W. Bush foi o mais desastrado da história norte-americana e deixa um saldo negativo sem precedentes. Não bastasse a estupidez da guerra contra o Iraque e o Afeganistão, reação impensada aos ataques de 11 de setembro de 2001, atribuídos à Al-Qaeda, esse governo quebrou a economia dos Estados Unidos e de vários outros países.

Não bastasse isso, nos seus últimos dias de poder, Bush permitiu a ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Sob o pretexto de destruir o grupo radical Hamas, o que se vê ali é o assassinato de civis palestinos sob protestos das Nações Unidas e de qualquer pessoa com um mínimo de senso humanitário. A Casa Branca faz um jogo sujo, apoiando ações de genocídio denunciadas até mesmo pela imprensa israelense.

Várias reportagens e documentários foram feitos sobre o governo Bush, denunciando seu envolvimento com a indústria bélica, os magnatas do petróleo e membros da família de Osama Bin Laden. No entanto, nada foi feito para frear suas ações no governo que, segundo o conteúdo de tais denúncias, agiu na maior parte do tempo a serviço de interesses privados. A própria guerra contra o terrorismo, chamada por Bush de “cruzada” antiterror, enriqueceu muita gente e ajudou a endividar a América.

A administração Bush foi de um cinismo sem precedentes nos últimos tempos, a começar pela história pessoal do presidente, que sempre se beneficiou do fato de ser filho do todo-poderoso George H. W. Bush. Ex-diretor da CIA, ex-vice-presidente e ex-presidente dos EUA, Bush pai é um dos homens mais ricos e mais bem informados do mundo sobre política e economia global. Suas ligações com os poderosos da Arábia Saudita, entre eles um irmão de Bin Laden, são públicas e notórias.

A invasão do Iraque foi feita sob a falsa premissa de que o ex-aliado Saddan Hussein tinha em seu poder armas químicas de destruição em massa. No entanto, isso jamais foi comprovado. Se tais armas existiram, até hoje não foram encontradas. Ou talvez tenham sido fornecidas pelos EUA durante a administração Reagan, no período da guerra Irã-Iraque, quando Saddan combatia os xiítas que tanto ameaçavam os interesses da Casa Branca naquela região do planeta. Parte desse armamento teria sido usada pelos iraquianos na sua tentativa de exterminar os curdos.

As relações entre Saddan e a Casa Branca se tornaram insustentáveis depois do episódio Irã-contras da Nicarágua, quando armas que seriam fornecidas ao Iraque foram desviadas para o Irã. O lucro dessa operação teria sido revertido em favor das forças conservadoras nicaragüenses na sua luta contra os sandinistas, apoiados por Cuba. Por outro lado, os EUA jamais comprovoram a tese de que Saddan e Bin Laden eram aliados.

Falência de empresas, desemprego, guerras e aumento da dívida pública constituem a herança de George W. Bush para seu sucessor, o democrata Barak Obama. Este tem sérios desafios pela frente e assume o poder coroado pela esperança não só dos norte-americanos, mas de todo o mundo que assistiu perplexo às trapalhadas do último governo republicano. Contrariando o ditado racista, caberá a um negro de origem humilde e muçulmana limpar a sujeira deixada pelo branco rico, de formação supostamente cristã, pelo bem do seu país e da civilização ocidental.

* Publicado no Diário do Comércio, em 20 de janeiro de 2009, dia da posse de Barak Obama na presidência dos EUA