27 dez 2008
A viola, meu compadre,
Dá licença de tocar!
Chama os filhos e a comadre
Para modo de escutar.
Já não há um cão que ladre,
Até o padre quer dançar.
A viola é minha escola,
Vou fazer o meu repente.
Quem gostar me dê uma esmola,
Que aceito humildemente.
Toda moda nos consola,
Faz a gente mais contente.
A viola tem dois lados,
O de dentro e o de fora.
O seu timbre lembra fados
Lusitanos de outrora.
Seus trinados são alados,
Voam longe e vão-se embora.
A viola é tradição,
Não deve nada a ninguém.
Na cidade e no sertão
Ninguém tem o que ela tem.
Violeiro é meu irmão
Na confraria do bem.
A viola vem de longe,
Lá dos tempos de Cabral.
Era instrumento de monge
Nos templos de Portugal.
Quem a escuta responde
Com sentimento abissal.
A viola é viajante.
Caravanas, caravelas,
Cara lusa radiante
Segue a lua e as estrelas
Pra bem longe, bem adiante,
Lá no céu poder revê-las.
A viola é do repente,
Calango, coco e catira.
Sua levada é o que acende
O pito do bom caipira.
E se a musa não se rende,
Amarra a cuja com embira.
A viola é feiticeira,
Traz no bojo um caldeirão.
Faz feitiço a noite inteira
Com os acordes da canção.
Mulher casada e solteira
Ficam loucas de paixão.
A viola é rezadeira
Louva a Deus e a São João
Do Amarante e a padroeira
Do Rosário e do sertão.
Mulher dama, e mesmo freira,
Dança em meio à procissão.
A viola e a rabeca
Formam dupla sertaneja
Desde os tempos lá do Jeca,
Cordas de tripa, que seja!
Feito quem joga peteca,
Fazem moda de bandeja.
A viola é congadeira,
Segue os ritos do tambor.
Maruja catopeseira,
Acompanha o cantador.
Foliã moçambiqueira,
Faz no ar o seu andor.
A viola é aparente,
Alaúde, violão…
Violeiro sai na frente
Comandando a procissão.
No louvor do povo crente,
Todo canto é uma oração.
A viola é pactária,
Diz a lenda do sertão.
Pra tocar de forma vária,
Rio abaixo, em maldição,
Violeiro canta a ária,
Vende a alma e louva o cão.
A viola é de pinho,
Mas tem de cocho também.
Angelim toca sozinho
Só nos braços do meu bem.
Cada toque é um caminho
Pra quem sabe de onde vem.
A viola tem arrojo,
Tem capricho e sedução.
Dorme dentro do estojo
Sem temer assombração.
Bem lá dentro do seu bojo
Brilha a lua do sertão.
A viola é preguiçosa,
Só trabalha por amor.
Acompanha verso e prosa,
Na glosa do cantador.
Dedo com o qual ela goza
Não usa anel de doutor.
A viola é seresteira,
Toca fundo o coração
Da moça namoradeira
Recostada no portão.
Tece moda a noite inteira
Sem errar a marcação.
A viola de Queluz
Serve ao cego de bengala.
Dedilhada ela reluz
Luz no breu, noite de gala.
Boa moda é a que seduz
No terreiro ou lá na sala.
A viola é namorada,
Amante, musa e mulher.
Ela tem um dom de fada,
Minhas mãos, já sabe ler.
No seu braço fiz morada,
Dou de tudo o que ela quer.
A viola é artesã,
Costureira de mão cheia.
Tece fitas, trança lã,
Feito aranha tece a teia.
Criativa tecelã,
Faz a trama na colcheia.
A viola é companheira
De quem vive em solidão.
Amiga pra vida inteira,
Ela alegra o coração
Do caipira sempre à beira
Do abismo da paixão.
A viola é garimpeira
Procurando pedra nova.
Na bateia e na peneira
Rio acima se renova.
No sertão não há maneira
De viver sem sua trova.
A viola é lapidária,
Toda moda é pedra bruta.
Nasce a nota igual a um pária,
Ainda verde feito a fruta.
Violeiro, vida agrária,
Leva a vida na labuta.
A viola é encantada,
Sabe passes de magia.
Ao seu som não penso em nada,
Não há dor nem alegria.
Caipira segue a estrada
Asfaltada de poesia.
A viola é roseana,
Louva as coisas do sertão.
Raramente ela se engana,
Vive tudo com emoção.
Tem também viola urbana,
Ecoando a solidão.
A viola é do Sudeste:
São Paulo, Minas, Goiás.
Seu Zé Coco foi agreste.
Renato Andrade, aliás,
Fez um som quase celeste
Que só um mestre refaz.
A viola é bem moderna,
Já diziam os modernistas,
Sua alma é eterna.
Cantador e repentistas
Tocaram até na caserna,
No tempo dos tenentistas.
A viola é pantaneira,
De Helena a Almir.
Desce o rio em corredeira,
De chalana a prosseguir.
Tuiuiú, ave ligeira,
Do seu bojo há de sair.
A viola é virtual,
Já tem site na Internet.
O seu toque é universal,
Sua letra é em ofsete.
Tem caipira espacial,
Viajando de foguete.
A viola é da garoa,
De Pacífico a Boldrin.
Quando toca o som ecoa
Do Bexiga ao Itaim.
Tião Carreiro e sua loa:
Caipirapora sim.
A viola é inexata,
Inezita sabe disso.
Quando a cuja se desata,
Sua música é um feitiço.
Violeiro, aristocrata,
Cumpre à risca o compromisso.
A viola é boa amiga,
É leal feito ninguém.
Seu arpejo é pra formiga
E pra cigarra também.
Não há aquele que consiga
Merecer o seu desdém.
A viola vive acesa,
Candeeiro a iluminar
Os porões da alma tesa
Pela vida a caminhar.
Violeiro que se preza
Faz a reza no cantar.
19 dez 2008
Os crédulos e inocentes que me perdoem, mas Natal é a coisa mais chata do mundo. Não fosse pela singeleza do presépio atribuído a São Francisco de Assis, a data poderia ser descartada do calendário ou simplesmente passar em branco. Em primeiro lugar, trata-se da adaptação de antigas tradições pagãs aos ritos católicos. Em segundo, deixou de ser a festa da confraternização universal para se transformar num carnaval de consumo.
Natal tem sentido é na infância, pois sem a inocência das crianças não podemos suportá-lo, a não ser de cara cheia. Não sei se existem estatísticas, mas é quase certo que o número de suicídios aumenta nesta época do ano. Quem não tem dinheiro para entrar na farra certamente se sente frustrado. Quem já perdeu pai, mãe, irmãos e bichos de estimação também não deve ter muitos motivos para comemorar.
Uma vez vi um Papai Noel de loja negar uma bala a um menor de rua. Menor, menor mesmo, um anjo de cara suja, e não um desses marmanjos que praticam crimes e se escondem atrás do Estatuto da Criança e do Aborrecente. O bom velhinho de barba e cabelos brancos estava lá, sentado em seu trono vermelho, com sua beca vermelha, seu saco vermelho, suas botas vermelhas. O moleque chegou e pediu uma bala. O sacana simplesmente disse não. E sua cara nem ficou vermelha.
Pior que o Natal são as músicas natalinas. Inclusive aquela do Jonh Lennon, que faz as pessoas balaçarem de um lado para o outro igual joão-teimoso. Lembro de uma rádio cujo locutor traduzia cada verso da canção: “então é Natal…”. Mais melancólico só mesmo Jingle Bells, atribuído a James Lord Pierpoint (1822-1893) - e viva o Wikipedia! Prefiro aquela que diz “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”, composição do baiano Assis Valente - que, por sinal, se suicidou.
No entanto, devo reconhecer que as iluminações natalinas costumam ser muito bonitas. O curioso é que o governo faz campanha durante todo o ano para que as pessoas economizem energia elétrica. Quando chega dezembro, é o primeiro a desperdiçá-la com tantas lâmpadas enfeitando praças e prédios públicos - inclusive o da própria companhia de força e luz!
Nada no Natal consegue ser mais terrível que o famigerado amigo oculto. Principalmente quando é realizado na firma ou repartição onde trabalhamos. Não bastasse o tapinha nas costas dado pelo chefe filho da puta - que sacaneia os subalternos o ano inteiro - ainda temos que participar de uma festinha de faz de conta, na qual todo mundo é “amigo” de todo mundo. Na verdade, são apenas colegas e estão cagando uns para os outros, de olho no lugar do chefe e sempre reclamando do patrão. O amigo é oculto, mas o presente não, pois logo depois do sorteio dos nomes corre a listinha informando o que cada um deseja ganhar.
Deviam mudar o nome para inimigo inculto, pois muita gente que participa da brincadeira tá mais afim é que os outros se danem. Assim, o Recursos Humanos poderia entregar um nariz de palhaço e uma faca de aço para cada funcionário, apagar as luzes e mandar o pau comer. Depois de dez minutos, o palhaço que permanecesse de pé seria promovido para a vaga do chefe e levaria para casa todos os presentes depositados ao pé da árvore iluminada.
Essa árvore, diga-se de passagem, é oriunda das tradições egípcias e representa a árvore da vida. As bolas simbolizam os frutos da prosperidade. Já o nascimento do Menino Deus repete antigas tradições de vários povos que festejavam o solstício de verão e o ressurgimento do sol. O menino representa o filho da luz, e teve nomes como Hórus, no Egito; Dionísius, na Grécia; e Mitra, na antiga Pérsia. Esses e outros messias nasceram de mães virgens, pregaram a verdade (ou a luz), foram traídos por um discípulo dedo-duro e sacrificados na cruz, ressuscitando três dias depois e subindo aos píncaros do céu como o vitorioso sol de verão.
Esse, aliás, é o lado mais bonito do Natal, pois comprova que as tradições e crenças mais profundas do ser humano mudam de nome e lugar por força das circunstâncias, mas não perdem seu significado mais profundo. Mesmo que a Igreja negue, o catolicismo tem pouca coisa de original, a não ser o fato de ter sido instituído por um imperador romano que achou melhor aderir ao cristianismo em vez de continuar perseguindo os cristãos - que já eram quase maioria.
Natal deveria ser tempo de paz e prosperidade, mas tornou-se tempo de chuva e consumismo. Basta dar uma volta no centro da cidade ou ir ao shopping mais próximo para sentir o frenesi dos “bons cristãos”, que precisam dar presentes aos amigos e familiares para compensar as sacanagens que praticaram ao longo do ano e aplacar a consciência cheia de culpa.
Quando chega a grande noite, temos que suportar o cunhado bêbado, a irmã interesseira, o tio aposentado que reclama sempre do governo, o sobrinho pentelho, a prima dissimulada - tudo na boa, com cara de bons amigos. Vai ver que é por isso que todo mundo se entope de tanto comer e beber na ceia natalina. E, nessa hora, quase ninguém se lembra que boa parte da humanidade está passando fome - sendo que parte dessa boa parte mora logo ali no morro ou debaixo daquele viaduto.
As mensagens de boas festas geralmente contribuem para a superficialidade do Natal. Agora, com a Internet, chegam às dúzias, muitas delas enviadas por pessoas e empresas que você nunca ouviu falar. Sem falar naquelas que chegam por telefone, no serviço de telemarketing, com a voz gravada dizendo “a gente vai estar desejando um feliz Natal para o senhor e sua família”. Me poupem! Alguns cartões até que são legais, mas a maioria chove no molhado, repetindo velhos chavões, conclamando à reflexão. Com todo respeito, uma pessoa inteligente deve refletir o ano inteiro. Até porque, quem reflete no Natal é espelho de vitrine.
Eu, da minha parte, faço o que posso. Há mais de 20 anos não abro mão de montar meu pequeno presépio dentro da lareira que nunca mais foi acesa. Coloco um gorro ou uma meia vermelha no basculante da porta de vidro para fingir que Papai Noel passou por aqui. Escrevo uma crônica ou um conto de Natal, cheio de sarcasmo, como o presente texto, e rezo a Deus - se Deus houver - para que nos perdoe por usar o seu nome e o nascimento do seu filho de maneira tão cínica.
13 dez 2008
A música brasileira sempre fez parte da minha vida, desde a infância em Venda Nova, quando meu avô paterno tocava violão e ouvia discos em sua radiola. O móvel feito pelo meu pai em modelo Luís XV está hoje no meu quarto, servindo de sapateira. Muitos daqueles vinis que tocavam na tal radiola fazem parte do meu pequeno acervo de discos.
Em frente à nossa casa, na Rua Padre Pedro Pinto, morava um jovem efeminado que tocava piano, violão e acordeon. Nossos pais eram amigos e sua casa sempre reunia pessoas em saraus e festas juninas. Foi lá que ouvi a expressão “bossa nova” pela primeira vez. E ao ouvir o tal sujeito tocando um samba nesse ritmo ao piano, passei a prestar atenção em cantores como João Gilberto e Roberto Carlos - que naquela época tentava imitá-lo.
Na adolescência, já residindo no bairro Caiçara, acompanhei pelo rádio e pela televisão todos os movimentos musicais pós-bossanovísticos. Primeiro a Jovem Guarda, de Roberto, Erasmo Carlos e Wandeleia. Depois a Tropicália, tendo à frente Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e os Mutantes. Também curti a turma da pilantragem, liderada pelo grande cantor Wilson Simonal, com espaço para Jorge Ben (ainda sem o Jor). Como outros garotos daquela época, era impossível não amar Beatles e Rolling Stones.
Tudo isso fez a geléia geral da minha formação musical, enriquecida pelas aulas de arte e canto do Colégio Anchieta, onde pela primeira vez prestei atenção em Bach, Beethoven, Chico Buarque e Geraldo Vandré. Já minha coleção de discos de MPB começou no dia em que troquei um LP do Garry Glitter por um de Toquinho e Vinicius. A partir daquele dia, comprei todas aquelas coleções de bancas de revista e me tornei um expert na biografia dos grandes compositores brasileiros. De Noel Rosa a Milton Nascimento, eu sabia tudo, tim-tim por tim-tim.
Confesso, no entanto, que tinha certa resistência às modas caipiras e aos trinados da viola de 10 cordas. Isso talvez encontre explicação no fato de a mídia eletrônica sempre ter dado pouco espaço para esse tipo de música. Quando finalmente começaram a surgir as duplas sertanejas mais modernosas, fazendo o som no estilo “breganejo” ou “sertanojo”, percebi que alguma coisa ruim estava acontecendo com a nossa música.
Talvez para desagravar essa constatação, corri para os caipiras legítimos e descobri a genialidade de duplas como Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco. Na casa do meu pai tinha discos de Cascatinha e Inhana, cujas músicas minha mãe cantava no tanque de lavar roupa. Aquilo sim, era a legítima música sertaneja, com letras românticas bem construídas e melodias delicadas em vozes perfeitamente harmônicas.
Mesmo naquele tempo, eu ainda não era capaz de imaginar que um dia mergulharia fundo no universo da cultura caipira para escrever roteiro e texto final para um programa de TV. Por mais que a gente tente remar o barco rio-acima, às vezes a vida nos empurra rio-abaixo e, para nossa surpresa, desaguamos num mar de tranquilidade.
Foi assim que me senti quando Saulo Laranjeira me convidou para ajudá-lo a realizar o programa Nos Braços da Viola, que vai ao ar das 20h às 21h, toda segunda-feira, pela TV Brasil, sendo transmitido para vários estados, podendo ser visto no site www.tvbrasil.org.br. Curioso ainda é que por conta desse programa fui convidado a participar do Sem Censura, campeão de audiência da emissora apresentado pela jornalista Lêda Nagle.
É, viver é mesmo muito perigoso, diria Guimarães Rosa, ele próprio um aficionado em viola. Uma das pessoas responsáveis pelo meu “mergulho” no universo caipira é o violeiro Chico Lobo, parceiro com o qual dividi a trilha sonora da minissérie Palmeira Seca, adaptada do meu romance ganhador do Prêmio Guimarães Rosa pelo cineasta Breno Milagres, em 2002, com exibição pela Rede Minas.
De lá para cá fiz várias modas de viola, em parceria com o próprio Chico, Rodrigo Delage, Francisco Saraiva, Wilson Dias e Max Rosa, que até agora só conheço pelo telefone e pela Internet. Eis aí a viola cibernética, rompendo os limites do universo virtual rumo ao futuro! Oxalá os novos violeiros talentosíssimos que têm surgido pelo país afora possam de fato resgatar a nossa cultura musical mais autêntica, que teve início durante a colonização, quando os jesuítas tocavam viola para atrair os índios à catequese.
O Brasil carece mesmo de ser recatequizado, para reaver sua alma e sua identidade cultural. O programa Nos Braços da Viola contribui nesse sentido, colocando na telinha e no horário nobre uma das principais expressões de nossa música mais autêntica.
7 dez 2008
A lei foi sancionada em agosto pelo presidente Lula e deve entrar em vigor em 2009. Finalmente, crianças e jovens voltarão a aprender música na escola, já que o ensino dessa matéria será obrigatório em estabelecimentos públicos e particulares de ensino.
Isso significa muita coisa. Em primeiro lugar, os alunos serão sensibilizados pela arte musical, o que certamente terá reflexos positivos na sua formação. Em segundo, amplia-se o mercado de trabalho para os músicos, que poderão se tornar professores da matéria com a devida qualificação para a tarefa de ensinar música.
Já foi provado e comprovado que o ensino de artes estimula nos alunos a auto-estima, o auto-conhecimento e a criatividade. No fundo, todo mundo é artista, dependendo apenas do incentivo no momento certo para dar asas à imaginação. Isso sem mencionarmos o aspecto terapêutico do aprendizado artístico.
A beleza da arte está justamente na sua aparente inutilidade, já que se trata da legítima manifestação do espírito humano. E este, na sociedade contemporânea, tem sido silenciado e muitas vezes esmagado pelos valores materiais do consumismo imediato e muitas vezes sem sentido.
Particularmente, o ensino de música acrescenta sutilmente ao cotidiano dos estudantes noções de comportamento, disciplina, equilíbrio estético e hierarquia. Afinal, na aparente desigualdade dos instrumentos musicais é que se estabelece o equilíbrio de timbres e tons, para que a música se manifeste em perfeita harmonia.
Outro aspecto importante do ensino musical é que, se bem conduzido, ele pode também educar o ouvido dos alunos, tornando-os aptos a assimilar e compreender a boa música. Com isso, o lixo cultural imposto pela mídia ficará em segundo plano, podendo dar lugar à genuína arte musical.
Para quem não sabe, a música brasileira é admirada em todo o mundo devido à sua qualidade, variedade e vigor. A formação do nosso povo foi enriquecida pela contribuição de vários povos ao longo da colonização e isso se reflete principalmente na riqueza de nossa música.
Somos no mundo o país que mais apresenta ritmos musicais. Para se ter uma idéia, só em Recife foram identificados mais de 200 ritmos de diferentes matizes e matrizes culturais. Seria um crime de lesa pátria continuar negando às novas gerações o acesso a essa riqueza sonora, enquanto a envenenamos com o barulho ensurdecedor do lixo cultural que estimula instintos primários.
“Controle a música e controlarás o povo”. A máxima de Platão já foi confirmada na prática. Um exército sem hinos tem pior desempenho nas batalhas. Por outro lado, nunca tivemos notícias de atos de violência e vandalismo em shows de bossa nova ou num concerto de música sinfônica. Isso porque as ondas sonoras atuam no sistema nervoso central, estimulando reações que podem levar ao relaxamento ou à agressividade.
Ninguém pode garantir que o ensino de música nas escolas seja capaz - por si só - de diminuir a violência e o uso de drogas entre os jovens, mas certamente uma pessoa que projeta para si uma carreira musical estará menos sujeita a esses dois fantasmas que hoje rondam as salas de aula. Da mesma forma, quando o esporte é levado a sério na escola, nota-se menor carga de agressividade entre os alunos.
Não podemos pensar a escola apenas com uma visão objetiva, de ensinar a ler, escrever e vislumbrar uma formação profissional. Mais que isso, a escola precisa se comprometer com a cidadania, formando seres humanos plenos e pensantes, que certamente terão maiores oportunidades na vida.
É realmente lamentável que o Brasil ainda esteja em 18º lugar na qualificação do ensino público na América Latina. Somos um grande país, com um grande povo, e essa posição está longe de traduzir nossas potencialidades como nação em desenvolvimento. O ensino obrigatório de música é uma importante conquista política e certamente vai contribuir na formação da cidadania e na reversão desse quadro vergonhoso, dando aos nossos estudantes melhores perspectivas de vida.
2 dez 2008
Nos últimos anos, com o avanço da globalização, indústria, comércio e governos vinham comemorando o crescimento da economia e o aumento acelerado no consumo em várias partes do mundo. Inclusive em países pobres, nos quais as necessidades básicas da população ainda não foram atendidas.
A cada índice positivo divulgado pelos institutos de pesquisa e estatística crescia a euforia do mercado. No entanto, qualquer pessoa de bom senso certamente formulava a pergunta que não queria se calar: afinal, aonde isso vai dar?
Toda vez que o consumo sobe, cresce também a demanda por matéria-prima. Com isso, aumentam as ameaças à natureza com a exploração descontrolada de minerais, a devastação das florestas e o envenenamento do ar e das águas pela poluição. Afinal, o preço do luxo é o lixo, principalmente na era do descartável.
Boa parte da euforia consumista era sustentada pelo sistema financeiro, por meio de empréstimos bancários, cartões de crédito e dívidas a se perderem de vista em longas prestações, com taxas de juros quase sempre exorbitantes. Nas bolsas de valores, ações em demasia superavam o real valor da moeda disponível no mercado.
A resposta para a tal pergunta que não queria se calar finalmente chegou. No primeiro momento, o consumismo desenfreado acelerou o aquecimento global, gerando mudanças climáticas que colocam em risco a vida no planeta. Em seguida, o sistema capitalista acabou se dobrando ao próprio peso.
Não precisa ser socialista para imaginar o sorriso de Karl Marx, se vivo ele fosse. O capitalismo globalizado se tornou selvagem e, como tal, ignorou as próprias limitações e as consequências do consumismo desenfreado. Parece insano medir a economia pelo número de carros ou eletrodomésticos vendidos a prestação. O desenvolvimento não pode mais ser mensurado pelo número de chaminés que lançam gases na atmosfera, ou pela sede insaciável de petróleo.
Em outras palavras, o capitalismo é uma cobra que engole o próprio rabo. Foi o que ocorreu em 1929 e se repetiu em 2008, com a nova quebra do sistema financeiro mundial. A cobra se engasgou com o próprio chocalho. A crise, no entanto, não é meramente econômica, mas também de valores humanos. Reflete o descontrole autofágico do sistema capitalista e o resultado do hedonismo desenfreado.
O lado bom de tudo isso é que finalmente os governos do mundo terão que pensar numa saída conjunta e de visão ampla. Nos termos ortodoxos do que vinha sendo praticado até agora, a economia não terá salvação. É preciso aproveitar o momento para criar modelos mais flexíveis, não tão à direita quanto o neoliberalismo nem tão à esquerda quanto o comunismo. Este, na verdade, propunha o capitalismo de estado - que é a pior forma de capitalismo.
Por outro lado, é preciso que os governos não cometam os erros do passado, quando alguns estados tentaram salvar a economia e acabaram se arruinando. Disso resultou o messianismo nazi-fascista, que arrastou o mundo ao regimes totalitários e à Segunda Guerra Mundial.
O novo modelo precisará conciliar a visão desenvolvimentista com uma política global de proteção à natureza e aos recursos naturais do planeta. É impossível que toda a humanidade siga os padrões de conforto dos países mais ricos. Há que se encontrar um meio termo entre consumo e preservação ambiental, com a reciclagem do lixo e o investimento em fontes renováveis de energia. Caso contrário, não haverá futuro para a humanidade.
Apocalipse é uma palavra que causa arrepios devido à sua carga simbólica. No entanto, significa “revelação”. No momento em que a crise ambiental coincide com a falência do modelo econômico globalizado é preciso que se revele um novo caminho para a humanidade, no qual seja possível colocar em equilíbrio a economia e a ecologia, como dois pratos na balança do futuro.
* Publicado no Diário do Comércio, em 27/01/2009.