19 nov 2008
Virou pesadelo. O telemarketing não nos dá sossego. O telefone fixo toca a toda hora, inclusive fora de hora. A gente corre para atender pensando que é urgente. É o corretor de seguros tentando nos vender uma apólice. Outra chamada. É a moça de voz sensual oferecendo cartão de crédito, assinatura de TV a cabo ou uma vaga no cemitério. O celular apita. É mais um anúncio da operadora, cuja habilidade para vender contrasta com a lerdeza no atendimento aos clientes.
Vale tudo no telemarketing, inclusive assassinar a língua com o maldito gerundismo, que usa mais de um verbo para “estar dizendo” o óbvio. Vendem de tudo, inclusive a própria mãe. E o pior é que costumam entregar! Também atacam pela Internet. Mandam tudo quanto é porcaria via e-mail. Ofertam produtos made in China, Viagra, alongamento de pênis, pornografia barata. Vírus, muitos vírus.
Os donos de serviços de telemarketing não têm alma, compaixão nem desconfiômetro. Exploram jovens que estão desesperados para arranjar o primeiro emprego. Trancam os pobres numa baia com telefone monitorado, sem merenda e sem direito de ir à casinha. Exigem produção, vendas, lucros e não aceitam o “não” como resposta.
O telemarketing é uma das mais terríveis invenções do homem. É pior que a guilhotina ou a bomba atômica, que pelo menos matam depressa. O telemarketing elimina aos poucos, torrando nossa paciência, desconectando nossos neurônios a cada nova ligação. Insistem todos os dias com a mesma lorota, enchendo o saco, ocupando nosso tempo, nosso telefone, nossas vidas.
O inferno com certeza é um imenso serviço de telemarketing, com um punhado de demônios ligando a cada minuto para o pecador, oferecendo produtos e serviços até então desnecessários. Sem lei e sem limites, as operadoras nos torturam com prazer e sadismo, como se ninguém tivesse mais nada pra fazer, a não ser atender ao telefone ou ler e-mails de desconhecidos.
Consumidores do mundo, uni-vos contra o telemarketing! Boicotem as empresas e serviços que usam e abusam desse maldito dispositivo de vendas e promoções! Dêem preferência àqueles que respeitam sua privacidade e que nunca enviam mensagens sem sua prévia autorização! Talvez assim os bambas do ramo aprendam a respeitar o ser humano que está do outro lado da linha.
Privacidade ainda que tardia! Este deveria ser o lema do consumidor num mundo globalizado que assiste boquiaberto à crise do capitalismo e ao fim do neoliberalismo com tudo o que ele tem de ruim. Que o telemarketing morra junto - já vai tarde! -, para o bem da humanidade.
12 nov 2008
Quem nasceu primeiro, a palavra ou o palavrão? Os linguistas de plantão certamente acreditam que foi a palavra, mas há controvérsia. Afinal, quanto maior a fúria ou o perigo que enfrentam na natureza, mais os bichos produzem sons esquisitos com a boca.
Em tais circunstâncias, o cão rosna, o leão ruge e o macaco emite aqueles grunhidos que só mesmo o Tarzan seria capaz de decifrar. No reino animal, somente papagaios, araras e gente desocupada costumam falar pelos cotovelos sem necessidade.
Por essas e outras, não é difícil imaginar a cena. Certo dia, no tempo das cavernas, um dos primeiros trogloditas tentava literalmente lascar a pedra quando acertou o próprio dedo. Na ânsia de expressar a terrível sensação de dor e fúria, soltou um sonoro “puta que pariu”… Nascia assim o primeiro palavrão.
À noite, enquanto fazia sexo com a fêmea, o tal sujeito quis exibir sua descoberta e passou a resmungar: “Puta que pariu… puta que… puta”. Como nessas horas tendemos sempre a usar palavras pequenas e delicadas, do tipo “ai” e “ui”, a frase foi se resumindo ao essencial: “Puta… puta… putinha”… E dessa forma o palavrão virou palavrinha.
Seja lá como for, ninguém pode negar a utilidade de tais vocábulos. Imaginem, por exemplo, o que teria sido da grande Dercy Gonçalves se ninguém tivesse inventado o palavrão. Provalmente ela jamais teria se tornado a rainha do escracho do teatro nacional.
O também saudoso Costinha com certeza não teria se consagrado sem o uso de tais vocábulos. Menos ainda seu colega Ary Toledo, que chega a degustar palavrões dos mais cabeludos em suas piadas nem sempre engraçadas. E o que dizer de autores como Gregório de Matos e Plínio Marcos? Se o palavrão não existisse, eles provavelmente o teriam inventado.
Mas não precisa ir muito longe para reconhecer a importância de tal invento. No trânsito, por exemplo, o que seria de nós sem a possibilidade de xingar o pedestre “sacana”, que atravessa fora da respectiva faixa, ou o “filho da puta” do motoboy que nos corta pela direita? E quanto ao “veado” do motorista que nos dá aquela fechada sem nem mesmo “dar” seta? No campo de futebol, como poderíamos xingar o “corno” do juiz toda vez que nosso time fosse prejudicado?
Para quem não tolera o palavrão, vai aqui uma imagem clássica que justifica a existência de todos eles. Imaginem o Papa pregando um prego na parede e acertando com o martelo a cabeça do próprio polegar. Pensam que ele evocaria São Pedro ou Nosso Senhor Jesus Cristo? Diante do desespero da dor, com certeza sua santidade se comportaria igualzinho ao homem das cavernas. Reiventaria a pólvora, isto é, o palavrão - que nada mais é que uma palavra explosiva.
Já notaram como os palavrões se ajustam às situações que nos levam a pronunciá-los? Isso revela a própria origem de cada um deles. Se a dor da martelada no dedo se expressa por meio do “puta que pariu”, ”merda” deve ter surgido no exato momento em que aquele mesmo troglodita sujou os dedos enquanto limpava o ”cu”. Esta palavra, por sinal, significa nádegas em bom português. Veio daí a expressão “pica no cu”, já que em terras lusitanas - segundo o escritor e filólogo amador Mário Prata - “pica” quer dizer injeção.
Dizem que “caralho” é uma corruptela de carvalho, ou seja, pau grande, duro e resistente. Os navios antigos tinham uma casinha no alto do mastro principal, para onde eram mandados a vigiar os marinheiros e grumetes indisciplinados. Assim surgiu a expressão “casa do caralho”.
Interessante notar é que algumas pessoas, geralmente gente mais simples e pouco instruídas, dizem “carai”. E essa palavra está corretíssima. Não se trata exatamente de um palavrão ou palavra derivada de “caralho”, mas dá quase no mesmo, pois na língua tupi “Karai” significa pau.
Pra quem não sabe, “vagina”, que não chega a ser palavrão, era a bainha onde os guerreiros guardavam suas respectivas espadas ou adagas. Já “boceta”, nome pelo qual o órgão sexual feminino é popularmente conhecido, era a bolsinha onde se portava o rapé. Este era um pó de cheirar, mas não tinha nada a ver com droga nenhuma.
Antes de se tornar o palavrão preferido dos cariocas, ”porra” era um artefato de guerra usado para derrubar portões de castelos e fortalezas. Como se parecia com o órgão sexual masculino, não demorou para ser associado ao produto do mesmo quando devidamente esfregado. O mesmo órgão também leva o codinome de “cacete” e deste veio a palavra cassetete, que significa cacete curto ou pequeno.
Por tudo isso, palavras e palavrões devem ser considerados irmãos de origem e função. Servem para expressar sentimentos, sensações, necessidades do corpo e da alma. Num outro sentido, palavrão seria palavra bem grande, algo do tipo inconstitucionalissimamente, a maior de todas da nossa língua.
Mais que palavrão, verdadeiro palavreão, que descreve todo ato que fere a Constituição do país. Em linguagem chula, podemos dizer que quem faz uma coisas dessas é um tremendo “filho da puta” que só pensa em si mesmo e pode até se “foder” nos termos da lei.
5 nov 2008
Mais uma vez os Estados Unidos surpreendem o mundo. Se ainda na década de 1960 os afro-descendentes eram impedidos de votar em muitos estados norte-americanos, de lá para cá muita coisa mudou. Os negros da América não só construíram sua cidadania na luta pelos direitos civis, como também conquistaram o poder na Casa Branca.
Mas é bom não simplificar a vitória de Barack Hussein Obama II à questão puramente racial. Ele é filho de um negro muçulmano com uma branca, nasceu em Honolulu, é jovem e democrata. Tudo isso somado poderá representar uma guinada histórica nos destinos do mundo. No entanto, seu governo enfrentará sérias dificuldades não apenas devido à herança deixada por Bush como também no que diz respeito ao racismo, à intolerância do poder branco e aos interesses da indústria da guerra.
Obama terá que se proteger dos inimigos para correr atrás do prejuízo. Se há 10 anos Al Gore tivesse derrotado Bush o quadro certamente seria outro. Talvez nem tivessem ocorrido os atentatos terroristas de 11 de setembro de 2001 e a guerra guerra contra o Iraque. Vai ver até que o próprio senador Obama nem tivesse se tornado candidato à presidência. Afinal, embora aos nossos olhos haja pouca diferença entre os dois grandes partidos políticos dos EUA, o fato é que os democratas costumam ser mais habilidosos e menos radicais que os republicanos.
Não só a maioria dos norte-americanos, mas também boa parte do mundo comemora a vitória de Obama. Seu discurso de vitória deu o tom de conciliação nacional que se espera de um grande líder. No entanto, atrás da cortina de fumaça dos fogos de artifício esconde-se o risco de uma grande frustração.
O próprio Obama reconhece o heroísmo e a determinação de seu rival, o senador John Mckain. Pela idade e experiência, este teria melhores condições de enfrentar a crise do capitalismo que se anuncia. Obama ganhou, mas não foi Mckain quem perdeu as eleições, e sim o atual presidente, George W. Bush cujo saldo de governo é um dos piores da história.
Para cumprir seus compromissos de campanha, Obama terá que desafiar os poderosos da indústria bélica e do petróleo, a começar pela retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão. Ele prometeu que no máximo em 10 anos os norte-americanos não dependerão do combustível fóssil tanto quanto hoje. Seu governo pretende levar a sério a busca de fontes energéticas não poluentes. Mais que salvar os EUA da ruína econômica, o candidato vitorioso sabe que é preciso contribuir para salvar o mundo do caos ambiental.
Por mais esperança que se tenha, o futuro sempre reserva surpresas. No Brasil, quando Lula assumiu o poder depois de vários anos de tentativas frustradas, o país beirou a comoção. Nunca se viu tanta cordialidade entre políticos adversários como no momento de sua posse, quando recebeu a faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique Cardoso. Até mesmo quem não votou em Lula torcia pelo sucesso do seu governo.
Com o passar do tempo, a antiga oposição foi se ajustando ao governo, trocando discursos e teorias pela prática do poder, esbarrando na corrupção e no interesse de grupos econômicos poderosos. Vieram mensalões, mensalinhos, assistencialismo, polêmicas, denuncismo, brigas internas no partido - que muitas vezes se confundiu com o governo - e pouca coisa mudou de fato no país. Não fosse a estabilidade econômica advinda da globalização, as coisas teriam sido ainda mais difíceis.
Mesmo que Lula ainda carregue no peito a chama que tantas vezes incendiou seus discursos de líder da classe operária, o fato é que a tal revolução nunca esteve tão longe de acontecer. Como disse um velho e experiente político da República Velha, é mudar para não mudar. Oxalá Obama seja mesmo diferente dos demais políticos e crie condições para promover em seu país a grande mudança que o mundo deseja assistir.
2 nov 2008
Em seu discurso proferido em Cuba, na semana passada, o presidente Lula reclamava dos neoliberais, que pregam a total ausência do Estado no mundo dos negócios e, quando quebram, pedem socorro justamente aos governos.
Com esse pensamento aparentemente simplório, mas correto em sua linha de raciocínio, o presidente brasileiro põe o dedo na ferida aberta pela crise econômica norte-americana, que tende a levar o mundo a um processo de recessão com resultados imprevisíveis.
O curioso é que Lula respondeu prontamente às necessidades do sistema financeiro nacional, autorizando a liberação de recursos e até mesmo a compra de bancos e financeiras que estejam à beira da falência.
O discurso de esquerda proferido na Ilha de Fidel contraria a prática intervencionista típica dos regimes de centro-direita adotada no Brasil. Bom lembrar que FHC foi duramente criticado pelo PT e outros opositores durante a criação do Proer, considerado por muitos um prêmio à corrupção.
Claro que um governo responsável não pode e não deve assistir à bancarrota do sistema financeiro sem fazer alguma coisa para evitar o pior, mas a ação federal demonstra a contradição entre o discurso e a prática.
O problema é que a intervenção estatal no mercado não vai se restringir ao setor bancário. Este, por sinal, cresceu a olhos vistos com a estabilização econômica do país. Dos dez bancos que mais lucram no mundo, três são brasileiros. E agora o setor é o primeiro a contar com ajuda do governo para minimizar os efeitos da crise. Também já entraram na fila os setores de construção civil e agronegócio, todos querendo se defender do tsunami que Lula chamou de marola.
A pergunta óbvia é se haverá recursos para atender a todos os setores da economia nacional. Economia esta que vive agora sua primeira prova de fogo desde a criação do real. Por outro lado, o próprio Lula está às portas de seu maior desafio. Até hoje seu governo se beneficiou dos resultados positivos da globalização. Pena não ter aproveitado a calmaria para implementar as grandes reformas que o país exige. Restringiu-se, na maioria das vezes, ao assistencialismo de resultado momentâneo.
A indústria automobilística já pisou no freio, encolhendo a produção e dando férias coletivas aos empregados, já que as vendas começaram a despencar. A Vale do Rio Doce também “caiu na real”, antes que o pior aconteça. A redução de 10% na produção de aço anunciada na semana passada é sinal de que a direção da segunda maior siderúrgica do mundo está consciente do desafio que tem pela frente. Afinal, por mais extensa que seja, toda crise é passageira e só aqueles que se antecipam às suas piores conseqüências é que conseguem sobreviver.
Quem mais sofre os efeitos de uma recessão geralmente é o povo. Os prejuízos já começaram pelos pequenos investidores da bolsa. Até agora pouco destaque tem sido dado às perdas acumuladas pelas ações da Vale e da Petrobras, balizadoras da Bovespa. No tocante à população, toda vez que o Estado se vê sem recursos tende a aumentar impostos e a diminuir investimentos em áreas prioritárias como saúde, educação e segurança públicas, que, diga-se de passagem, ainda deixam muito a desejar.
Diante da crise, cedo ou tarde o Planalto terá que engatar marcha-ré nos seus projetos sociais, já que se vê obrigado a atender ao pedido de socorro do grande capital. Até quando haverá recursos para isso é outra boa pergunta a ser feita. Certamente não será possível atender a todos ao mesmo tempo. Nesse caso, os maiores prejuízos tendem a ser repassados aos setores não organizados da economia, que têm pouco poder de pressão sobre os políticos.
Nesse sentido, resta saber quanto de dinheiro será destinado às micro e pequenas empresas. Embora frágeis, são elas que respondem pela maior parcela de empregos no país. Para evitar a volta dos índices alarmantes do desemprego é preciso reservar recursos para esse que é um dos principais setores da economia, embora sempre tenha ficado por último na lista de prioridades do Estado brasileiro.
* Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 06/11/2008.