Arquivo de outubro de 2008

Os riscos da estatização

A atual crise do capitalismo traz de volta a figura do estado como salvador da pátria. A ironia é que o neoliberalismo defende justamente o contrário. Isto é, a total independência da economia, cabendo ao estado apenas o papel de mediador das questões sociais e da prestação de serviços básicos à população. Ou seja, atividades que não geram lucro à iniciativa privada. Tanto isso é verdade que a União Européia ampliou o poder do capital, diminuindo a força dos estados que compõem o Velho Mundo.

Apesar disso, tanto lá quanto cá, o capitalismo pede socorro ao estado para sobreviver às conseqüências da crise gerada pela ganância de alguns e pela irresponsabilidade de muitos. O pior desse quadro é que o exemplo nos é dado justamente pelos Estados Unidos, país construído sobre os pilares da total independência econômica e da não intervenção do estado nos negócios.

O estado pode, sim, salvar a economia ou boa parte dos setores que sucumbiriam à crise sem a sua intervenção, mas, a longo prazo, as conseqüências disso podem ser ainda piores que a simples quebradeira do sistema. Na década de 1930, com os governos do mundo intervindo para minimizar os efeitos da crise de 29, a humanidade assistiu ao enrijecimento do poder e ao surgimento de regimes totalitários, que pouco a pouco conduziram a uma guerra global. Esta, por sua vez, beneficou justamente o capital norte-americano, tirando os EUA da condição de devedores.

O surgimento de regimes extremistas foi fruto da própria necessidade dos estados de se tornarem fortes o bastante para sobreviverem às pressões sociais decorrentes do apoio irrestrito aos bancos e às grandes empresas. Em muitos casos, os governos estatizaram atividades primordiais ao desenvolvimento da livre iniciativa, a começar pelos serviços bancários. Isso naturalmente deu mais poder ao estado e aumentou a pressão da classe operária, encurralada diante das dificuldades oriundas da crise.

O caso mais flagrante, que comprova a presente tese, foi o da Alemanha. Com a economia  destruída devido às dívidas e prejuízos decorrentes de sua derrota na Primeira Guerra, os alemães se viam em pleno caos econômico, com dívidas interna e externa de grandes proporções, sem dinheiro, sem trabalho e sem perpectiva de melhoria a curto prazo.

Depois do fracasso da República de Weimar, o país se encontrava diante de uma encruzilhada autoritária: de um lado o socialismo inspirado pelo modelo soviético, de outro o nazismo de Goobels e Adolf Hitler. No confronto de idéias, como os nazistas prometiam uma saída 100% nacionalista, o grosso da polução apostou suas fichas na extrema direita e os resultados disso ecoam até hoje.

Países europeus de economia frágil seguiram o exemplo Alemão e o que se viu foi uma febre de regimes totalitários de direita, com o fascismo dominando a Itália, Portugal e Espanha. De outro lado, atrás da cortina de ferro, os soviéticos reforçariam suas posições para evitar a perda de território para ideologias nacionalistas, naturalmente opostas ao internacionalismo leninista.

A América Latina não demorou a se tornar palco dessa disputa, com a vitória da direita e o surgimento de regimes populistas como o getulismo no Brasil e o peronismo, na Argentina. Coisa parecida ocorreria logo após a Segunda Guerra, tendo como ponto máximo a vitória de Fidel Castro em Cuba, em 1959, e o recrudescimento da direita em outros países latino-americanos, a partir do golpe militar de 1964, no Brasil.

Tudo isso demonstra os riscos que o mundo contemporâneo poderá enfrentar, caso a intervenção do estado na economia não seja devidamente equilibrada. Em países como Brasil, Venezuela e Bolívia, nos quais o ranço populista faz parte da própria cultura de governo, corremos o risco de sofrer um retrocesso político, com a estatização exagerada da economia e o irremediável fortalecimento do estado.   

* Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 29/10/2008.

 

 

Aquilo deu nisso - 6

Águas da crise

(Paródia de “Águas de Março”, de Tom Jobim)

 

É pau, é ferro, é o fim dos caminhos

É o euro, é o dólar, despencando sozinhos

É o caos, é o Bush, é Obama, é Mckain

É um exit ou push, é o mal, é o bem

É a crise chegando, é um nó, roubalheira

O discurso do Lula é uma grande canseira

Mamadeira de banco, tombo na financeira

É a bolsa afundando, hora da rezadeira

É ministro falando uma nova besteira

É a figa, oração, é a macumba primeira

É a bolsa subindo, é conversa de feira

O dinheiro do povo é a poupança caseira

Tá de volta a inflação, risco de quebradeira

Passarim, passarão, papagaio na esteira

É uma vela pra Deus, é uma vela pro cão

É um despacho pra santa globalização

É o fundo perdido, é o fim do pavio

O meu bolso fodido, tá furado e vazio

É um desfalque, é um cheque, é sem fundo o desconto

FMI tá voltando, o vigário e seu conto

É um juro indigesto, é uma prata brilhando

É o ouro amanhã, desemprego arrochando

É a lenda, é o mito, é o fim do lulismo

É a bolsa família, chega de populismo!

É o projeto do homem, é o plano na lama

O poder diaraque, é a cana, é a cana

É um abraço no Chávez, é um chute no Sam

É um beijo na Dilma, pra depois de amanhã

São as águas da crise molhando o PT

É a promessa, um deslize, o que é que vai ser?

É uma sombra, é pré-sal, tem petróleo no mar

O governo não quer Petrobras pra explorar

São as águas da crise molhando o PT

É a promessa da volta do PSDB

É pau, é ferro, é o fim do império

E o resto da grana é um tremendo mistério

É um abraço no Chávez, é um chute no Sam

É um beijo na Dilma, pra depois de amanhã

São as águas da crise molhando o PT

É a promessa, um deslize, o que é que vai ser?

 

 

 

Entre a marola e o tsunami

Não precisa ser especialista em finanças para saber quando as coisas vão mal no setor econômico. A atual crise internacional oriunda dos Estados Unidos terá sérias conseqüências, principalmente para os países em desenvolvimento. 

O Brasil não está diante de uma marola, como disse o presidente Lula. Trata-se de um tsunami, que poderá nos atingir a todos e varrer do mapa seu projeto de poder, que vinha dando certo exatamente por causa da estabilidade da economia globalizada.

O que mais nos assusta no atual governo é a falta de seriedade diante de assuntos que tanto afligem o cidadão. Até agora, a política lulista resumiu-se ao assistencialismo social, seguindo a receita populista que também caracterizou Getúlio Vargas.

A diferença é que, embora tenha sido ditador, Getúlio adotou postura de grande estadista e foi capaz de dar a vida pelo bem do Brasil. Quanto a Lula, basta julgarmos seu comportamento durante o escândalo do mensalão: não viu, não ouviu e não disse nada. Lavou as mãos feito Pilatos no credo.

A crise mundial arquitetada pelo grande capital tem como finalidade pulverizar o mercado, eliminando pequenos e médios concorrentes, bem como a ameaça de crescimento das economias emergentes.

Afinal, os EUA podem se dar ao luxo de destinar US$ 850 bilhões para salvar suas instituições financeiras. Países da União Européia tendem a seguir o exemplo. E quanto aos países do Terceiro Mundo, o que poderão fazer para minimizar os efeitos da crise sem pedir empréstimos?

Lula e seus ministros tentam fingir que as coisas não são tão sérias e que a economia nacional vai bem, obrigado. No entanto, é nítido o nervosismo do presidente, que já não consegue manter o tom galhofeiro de suas tiradas.

O comportamento da Bovespa, cujos acionistas têm amargado sérias perdas inclusive com ações da Vale e da Petrobras, as mais sólidas empresas do país, sinaliza o tamanho do rombo. Investidores internacionais buscam solidez em outros mercados, o risco Brasil cresce e as perdas nacionais se tornam inevitáveis. 

Crises econômicas são cíclicas e fazem parte do modelo capitalista. Marx e outros grandes teóricos sabiam disso. O problema principal dos países emergentes é a ausência de reservas cambiais para resistir aos grandes efeitos dos tsunamis. É como se um Jeca Tatu fosse a Las Vegas tentar a sorte num grande cassino, levando apenas alguns trocados no bolso.

O pior de tudo, no nosso caso, é que desperdiçamos os momentos de calmaria econômica e simplesmente não fizemos as reformas prioritárias para o real crescimento do país. Apesar do proselitismo dos governantes, o dever de casa não foi concluído. Setores prioritários como educação, saúde, segurança e transporte continuam a ver navios.

Definitivamente, o que é bom para o Primeiro Mundo não é necessariamente bom para o Brasil. Seguir modelos importados de realidades completamente díspares continua sendo um equívoco tupiniquim. Sequer conseguimos reforçar o mercado interno ou estreitar laços comerciais com países vizinhos, parte deles governada por presidentes populistas e fanfarrões.

No nosso caso, como ocorreu nos EUA, um setor que enfrenta sérios riscos é o da construção civil. Com o aumento da crise, vêm a alta dos juros, que gera inadimplência, falências, recessão e desemprego.

A bolha inchou de olho nos recursos do PAC, projeto eleitoreiro que surtiu efeito psicológico, mas cuja eficácia foi insuficiente. Resta-nos rezar e torcer pelo menos pior. A julgar pelos exemplos da história, boa coisa não vem por aí.

* Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 16/10/2008.

 

O plano por trás do pano

Quem pensa que a crise econômica norte-americana é fruto da incompetência do governo Bush pode estar redondamente enganado. O evento, que lembra as crises que assolaram a América nas décadas de 1910 e 1930, pode ter sido arquitetado por cérebros iluminados e sinistros que controlam das sombras os destinos da humanidade. Quem duvida deve procurar na Internet o documentário apócrifo Zeitgeist, de quase duas horas de duração. Religião, economia e poder são os temas abordados com vistas a denunciar a grande conspiração dos poderosos.

Embora possa conter exageros, Zeitgeist - expressão alemã que significa “espírito do tempo” - serve para sacudir a poeira das mentes contemporâneas, tão sufocadas pelo excesso de informações confusas e nem sempre confiáveis que assola os meios de comunicação. De qualquer maneira, há que se refletir sobre o atual momento econômico e seus possíveis reflexos nas políticas mundiais.

A era Bush pode ser considerada um dos períodos mais conturbados da história norte-americana. Empossado sob a suspeita de fraude nas eleições que derrotaram os democratas, o presidente republicano assumiu o poder de fato depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Os supostos terroristas que puseram abaixo as torres gêmeas de Nova York e parte do Pentágono, em Washington, fizeram a nação tremer e temer pelo pior.

Bush se travestiu de grande líder, porta-voz das liberdades democráticas, e não demorou a entrar em ação. Sem nenhuma prova contra seus antigos aliados, a Casa Branca liderou as forças internacionais da coalizão e ordenou a invasão do Afeganistão e do Iraque, iniciando uma guerra arquitetada para durar. A exemplo do Vietnã, as duas frentes foram criadas sob falsas premissas.

Políticos, cineastas, escritores e analistas políticos lúcidos já denunciaram o teatro de absurdo da era Bush. No entanto, em meio a tantas desinformações, dezenas de perguntas permanecem sem respostas.

Quem sabe explicar a implosão dos prédios do Word Trade Center logo após o impacto dos aviões? Que história foi aquela do passaporte de um suposto terrorista ter aparecido nos escombros das duas torres, dias depois do atentado? Afinal, onde anda Osama Bin Laden e que história é essa de que a família Bush tem negócios com sua família? Todo mundo sabe, por exemplo, que os EUA armaram a Al-Qaeda para usar seus combatentes contra os soviéticos no Afeganistão. E foi justamente essa guerra que ajudou a derrubar o império do Leste como um castelo de cartas.

O que não faltam são controvérsias. Mas isso não traz nada de novo, pois Hitler foi tolerado pelos EUA e seus aliados até o momento em que invadiu a França. Afinal, os nazistas impediam que Stalin marchasse sobre a Europa e anexasse os países do Oeste ao império soviético. Para justificar a guerra e a ditadura, Hitler mandou incendiar seu parlamento e acusou comunistas e judeus.

Consta que o avô de Bush ganhou muito dinheiro negociando armas com a Alemanha. Da mesma forma, a indústria bélica norte-americana forneceu armas aos Vietcongs e o governo Reagan ajudou os iranianos em plena guerra contra o Iraque. Só que, naquele momento, Saddan Hussein é que era o aliado dos EUA, que temiam o radicalismo dos ayatolás e viam nele um instrumento de resistência contra os fundamentalistas islâmicos. O episódio dos contras da Nicarágua resultou na punição de um oficial norte-americano e, desde então, Saddan perdeu a confiança em Washington.

O crack da bolsa de Nova York, em 1929, gerou a grande depressão, contaminou os mercados internacionais e desembocou na Segunda Guerra Mundial. Desde o primeiro momento, o presidente Roosevelt quis declarar guerra ao eixo, mas precisava de um pretexto para conseguir a aprovação do Congresso. Foi só cortar o fornecimento de óleo para o Japão para que os militares nipônicos fizessem o seu jogo. Depois do ataque a Pearl Harbor, os ianques foram à forra. Entraram na guerra como devedores e saíram como credores, com a economia nacional plenamente revigorada.

Exemplos não faltam na história. Sobretudo na história recente, escrita pelos interesses do imperialismo norte-americano. Portanto, é difícil supor que os últimos acontecimentos econômicos que tanto têm abalado o mundo resultem da mera incompetência da Casa Branca ou dos capitalistas que a sustentam. Até porque, essa gente tem competência e maquiavelismo de sobra.

Por trás do pano das aparências existe um plano e alguns poucos gênios do mal certamente já estão faturando bilhões, planejando ampliar o controle das finanças nacionais e internacionais, pulverizando possíveis competidores com pequenas manobras no tabuleiro. Num mundo globalizado, as conseqüências serão imprevisíveis. Não estão em jogo apenas as pequenas economias perdidas nas bolsas de valores, mas também o destino de uma civilização sustentada pelo lucro das guerras e pelos interesses das grandes corporações.