Arquivo de setembro de 2008

Ladrões de cemitério

Nesses tempos nada amistosos em que os bandidos não respeitam nem mesmo os freqüentadores de velórios nos cemitérios da cidade, meu compadre Juventino teve que se valer literalmente da presença de espírito para escapar de uma esparrela.

Ele havia recebido a notícia da morte do Alencar, codinome Peixoto, velho companheiro dos tempos de militância no antigo Partidão. Juventino fez questão de levar ao amigo seu último adeus e, à viúva e aos filhos, os votos de pêsames.

O velório estava sendo realizado na capela do Cemitério da Paz, no bairro Caiçara, onde o morto seria sepultado na manhã do dia seguinte. Acostumado às velhas tradições que já começavam a ser esquecidas, Juventino chegou tarde ao local justamente para virar a noite conversando com os familiares do Alencar e com amigos que há muito tempo não via.

Lá pelas tantas da madrugada, quando já não havia muita gente em torno do caixão, dois rapazes mal-encarados adentraram o velório armados até os dentes.

- Isso aqui é um assalto - anunciou aos gritos o mais nervoso dos dois.

- Vão passando tudo o que for de valor: dinheiro, celulares, relógios, correntes de ouro… - emendou o outro num tom de voz não menos agressivo.

Apavorados diante dos revólveres, os poucos presentes não tiveram alternativa senão obedecer aos bandidos.

Juventino estava encostado numa parede ao fundo e, por um momento, chegou a pensar que os dois assaltantes não o tinham visto ali, quieto no seu canto. Mas, para sua surpresa, depois de limparem todo mundo, ambos caminharam em sua direção.

- Você é surdo ou o quê, vovô? - perguntou-lhe o mais nervoso.

- Vai passando a grana e o celular - ordenou o outro.

Nesse momento, sentindo-se totalmente acuado e temendo pela própria vida, já que não tinha celular nem dinheiro no bolso, Juventino viu-se obrigado a improvisar.

- Da última vez, fui assassinado pelos bandidos. Agora, vocês dois querem roubar o meu fantasma?

Surpreendidos, os dois meliantes trocaram olhares, o primeiro com expressão de pavor e o segundo, nitidamente pasmado.

- Puts, Beleleu, eu avisei que esse negócio de assaltar cemitério não ia dar certo - disse o primeiro, já com os cabelos em pé.

- Esconjuro! - gritou o outro, antes de passarem sebo nas canelas.

 

A mediocridade de cada dia

Medíocre, diz o Aurélio, significa mediano, sem relevo, comum, ordinário, vulgar, meão… Portanto, pessoa medíocre é aquela que está na média, dentro do óbvio e esperado pelos outros. O problema é que nesses tempos globalizados esse tipo de gente subiu ao pódium.

Como ficaria muito caro elevar o nível intelectual e financeiro das massas, os capitalistas preferiram alinhar a população por baixo, transformando o cidadão em mero consumidor. O estudante já não estuda para “ser” alguma coisa, mas apenas para “ter” um diploma. Os patrões não querem mais profissionais experientes, mas diplomados em teorias que, na prática, não servem pra nada.

Gente medíocre não questiona, não reivindica, não contesta, não provoca, não incomoda os poderosos. O sujeito mediano é incapaz de fazer inimigos e, pelo mesmo motivo, também não é dado à integridade, honradez e lealdade que caracterizam a relação de amizade. Pelo contrário, dança conforme a música ou no ritmo do modismo sonoro que a mídia lhe impõe. O máximo que consegue ler é uma crônica de futebol ou um livro de auto-ajuda. 

No Brasil, para manter o povo na média, transformaram a idéia de justiça social em caridade. A assistência aos necessitados virou política oficial de estado. Em vez de trabalho e distribuição de renda, firmaram-se o clientelismo, a bolsa família, a esmola institucionalizada em troca da simpatia do eleitorado.

No setor das artes, em vez de política cultural, temos a proliferação das leis de incentivo. Estas funcionam até mesmo para custeio e manutenção de órgãos públicos destinados à cultura, como teatros, museus e orquestras. Tudo isso com direito a caixa 2, caixa 3, caixa-preta, caixa de Pandora que ninguém quer abrir.

O Brasil parou no tempo e vive da ilusão de que o atual governo é progressista, sábio e generoso. Exemplo disso tivemos na sexta-feira, 19 de setembro. Uma decisão do governo norte-americano para minimizar a crise econômica repercutiu tão positivamente no mundo que a bolsa de Moscou fechou em alta antes mesmo do término do pregão. Enquanto isso, a Bovespa fechava com alta de 9,57%, maior índice desde janeiro de 1999, quando entrava em cena o Plano Real.

Em meio à euforia daqueles que há vários dias perdiam dinheiro no mercado de ações, o presidente Lula - principal crítico do Plano Real quando de sua decretação - discursou dizendo que a economia mundial já não depende mais dos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil caminha com as próprias pernas no quesito economia, inclusive sem a ingerência do FMI. Ele não sabe que o peso da economia norte-americana é tamanho que as outras potências ocidentais criaram a União Européia justamente para equilibrar a balança do capital.

No alto da sua mediocridade, Lula tenta convencer a todos que as coisas boas que acontecem no Brasil resultam do seu “excelente” governo. E o pior é que a sorte lhe sorri e ele alcança os píncaros da popularidade nas pesquisas ecomendadas pelo Planalto, o que demonstra quanto os medíocres acreditam nele. O tom populista é o mesmo adotado por Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.

O que mais incomoda, no entanto, é a ausência de uma oposição política de qualidade, com memória histórica e argumentação matemática. A imprensa brasileira parece amordaçada. Não pela censura de tempos idos, mas pelo dinheiro que lhe é pago pelos governos por meio das verbas publicitárias. Nessas alturas dos acontecimentos, já não me queixo por mim ou pelo nobre e raro leitor, mas pelas novas gerações. A impressão que se tem é que o mundo está acabando e que o Brasil acabará primeiro, tamanha a voracidade dos poderosos que hoje controlam o país.

Por essas e outras, costumo dizer aos amigos que militaram contra a ditadura que, ao contrário do que pensam, “eles venceram”. Se vivo fosse, o general Golbery, principal artífice do regime pós-64, estaria satisfeito com o atual momento político brasileiro. Mesmo com todo o seu maquiavelismo, é difícil acreditar que ele tenha vislumbrado o atual quadro nacional, no qual os partidos se tornaram legendas de aluguel e cujos políticos, com raras exceções, dançam conforme o tilintar das moedas no caixa.

 

Imaginário roseano

A influência de Guimarães Rosa na cultura brasileira é incontestável. No entanto, o que muitas vezes foge à percepção de estudiosos é que ela se dá de maneira muito mais intensa na música popular do que propriamente na literatura. Isso talvez se justifique pelo fato de a musicalidade ser uma das marcas da obra do autor, que buscava inspiração em temas divulgados por violeiros, cantadores e contadores de histórias.

É intressante notar que essa influência ocorre sobre compositores dos mais variados gêneros e estidos - dos mais limitados aos mais sofisticados. Basta lembrar que o maestro soberano, Tom Jobim, mantinha os livros do escritor em sua cabeceira e prestou-lhe singular homenagem com o poema sinfônico Matita Perê, feito em parceria com Paulo César Pinheiro.

A proposta do disco Imaginário Roseano, distribuído pela Tratore, é justamente evidenciar a presença roseana no cancioneiro nacional. Isso explica a diversidade das canções nas releituras de Geraldo Vianna, João Araújo e Rodrigo Delage, que se destacam entre os mais talentosos músicos de Minas Gerais. Os três são leitores da obra do grande escritor cujo centenário de nascimento - em 27 de junho de 2008 - ganha com este CD um registro todo especial, no qual também se destacam os convidados (Rolando Boldrin, Paulo Freire e Téo Azevedo).

A dificuldade maior foi na escolha do repertório, pois raros são os compositores da canção brasileira a partir da segunda metade do século 20 que não tenham bebido na mesma fonte ou se inspirado diretamente no homenageado. Da trilha sonora de Geraldo Vandré para o filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, a Mandala do Sertão, feita especialmente para este disco, o que não faltam são músicas cujos acordes e letras ecoam no espaço desbravado pelo escritor.

Guimarães Rosa está para a literatura como Villa-Lobos, para a música. Com visão moderna, os dois buscaram indentificar o verdadeiro caráter da nossa nacionalidade, estreitando laços com a cultura universal e com a aspiração transcendental de diferentes povos. Isso explica a influência irresistível que exercem sobre aqueles que tentam traduzir, por meio da arte, o grande sertão chamado Brasil.

* O interessado em músicas sobre o universo roseano também deve ouvir o disco Rosário, do grupo Nhambuzim, excepcional coletânea de “Canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa” lançada pelo selo Paulus.

 

Maratona de candidato

Vida de candidato não é sopa. Quem vê esses ilustres senhores sorrindo nos postes nem imagina o quanto eles padecem. A começar pela dor de consciência ao contemplar o próprio sorriso largo e franco. Afinal, eles riem do quê?

Para quem não sabe, campanha eleitoral é uma verdadeira maratona para os candidatos. Haja sapato e pneus para tantos quilômetros percorridos em busca do voto. Haja saliva para conquistar o eleitor, esse ilustre desconhecido que tem a petulância de duvidar da honestidade da classe política que tanto se esforça em seu benefício. Haja óleo de peroba!

Se fosse na Roma antiga, o deus dos políticos seria Baco, pois é preciso ter muito apetite para encarar banquetes e coquetéis. Enquanto metade da população faz regime e a outra metade morre de fome, candidato que se preza nunca se furta a fazer uma boquinha, sendo obrigado a almoçar e jantar várias vezes ao dia.

É um franguinho ao molho pardo, em Minas Gerais; acarajé apimentado, na Bahia; buchada de bode, no Ceará; pirarucu no azeite de dendê, no Amazonas; churrasco de maminha de alcatra, no Rio Grande do Sul; feijoada completa, no Rio de Janeiro; e (claro!) a irresistível pizza de mussarela, meu, em São Paulo… Tudo isso regado a coca light, que ninguém é de ferro.

Com tantas calorias acumuladas ao longo da campanha, não há candidato que não engorde uns quilinhos nesta época do ano. Afinal, o pecado da gula se tornou uma virtude no manual do marketing político. E quando a turma sai de cena, logo após as eleições, com certeza pode ser encontrada nos melhores spas do país, tentando recuperar a forma e superar o trauma da comilança. Tem candidato que até sonha com comida e acaba mordendo o travesseiro.

Mas os problemas não param por aí. Tem político que sofre de tendinite na mão direita, devido à quantidade de cumprimentos. Alguns se queixam de hematomas nas costas, provocadas pelos abraços e tapinhas que recebem dos eleitores e correligionários mais entusiasmados. Outros reclamam de pisões, joanetes e bolhas nos pés.

Pior ainda é ter que enfrentar batalhões de repórteres, sempre com perguntas irritantes e indiscretas, e participar de debates com adversários que parecem ter memória de elefante. Também não é nada fácil subir os morros, pisar no barro de becos e ruas descalças, trilhar as veredas do sertão, carregar no colo crianças catarrentas e agüentar grupos de pagode e duplas sertanejadas, sabendo que são eles as grandes atrações do showmício.

Mas tudo isso vale a pena quando a vitória não é pequena. Pior é quando o sacrifício resulta em derrota e o ex-candidato não conta sequer com o consolo de uma vaguinha no segundo escalão. Foi o caso daquele vereador que fez de tudo para se reeleger e eleger um primo para o cargo de prefeito. Ele perdeu a eleição, mas consolu-se com a vitória do outro, na certeza de que seria escolhido para alguma secretaria.

Na solenidade de posse, o ex-vereador posava de papagaio de pirata com cara de galã. Em seu discurso, o novo burgomestre foi de uma objetivdade surpreendente:

- Agradeço o apoio que me foi dado, especialmente pelo meu querido primo que me emprestou seu prestígio e sua experiência de vereador. Mas, para provar que não sou adepto do nepotismo, assumo desde já o compromisso de não ter nenhum parente na minha administração.

A solenidade foi subitamente interrompida com um ruído surdo. Devido ao estresse e à grande surpresa preparada pelo primo, o ex-vereado havia desmaiado, sendo retirado às pressas pelos seguranças. Diante de tamanha decepção, perdeu a confiança na própria classe e nunca mais se envolveu em política.

* Crônica publicada na revista ”Municípios das Gerais”, órgão oficial da Associação Mineira dos Municípios, em agosto de 2008, e também na coletânea “Todo mundo é filho da mãe” (Editora Ciência Moderna). 

 

O “ismo” que nos resta

Diz o ditado que de boas intenções o inferno está cheio. E provavelmente o que mais tem no inferno são políticos, cujo ofício parece ser a arte de enganar eleitores. Claro que a democracia é o melhor dentre os melhores sistemas políticos imaginados pelo homem. No entanto, o voto deveria ser um direito do cidadão e não propriamente um dever cívico, como nos é imposto no Brasil.

Se o voto fosse facultativo, certamente os candidatos teriam que melhorar sua performance e seu discurso para conquistar o eleitor. Afinal, como acreditar num sujeito que invade o horário nobre da TV com promessas fúteis e slogans desgastados pelo uso de tempos em tempos? Que bem pode fazer à comunidade um cidadão cuja campanha política polui a cidade com cartazes, out doors, panfletos e carros de propaganda com o volume de som acima do permitido pela lei ambiental?

Pior ainda são aqueles políticos que ignoram a orientação de seus partidos para apoiar candidatos de outras legendas em coligações que atropelam qualquer senso de coerência ideológica. Tudo, claro, em nome do interesse pessoal ou de grupos econômicos cujo único objetivo é lucrar às custas do eleitor mal-informado.

Pelo visto, depois de tantos ideologismos esgarçados ao longo da história, o único “ismo” que restou é o cinismo da classe política. Com raras exceções, as pessoas se candidatam de olho no maná do poder que é exercido em causa própria, sem nenhum compromisso com a comunidade. Basta ver a guinada no discurso do atual presidente da República, que saiu da extrema esquerda para a confortável posição em que se encontra no poder. 

Para quem almoça com Fidel Castro e janta com George W. Bush, o antigo mote usado pelos opositores de Vargas em seu governo populista cai como luva nos tempos atuais: “O presidente é o pai dos pobres e a mãe dos ricos”. Em outras palavras, a classe média que se dane! E se ela se dana é porque este é o preço da omissão.

O Brasil tem um regime sui gêneris, raro de ser encontrado em outros países ditos civilizados. A escravidão foi abolida de cima para baixo, sem que se desse aos ex-escravos terra e alfabetização. Nossa República resultou de um golpe de estado das oligarquias insatisfeitas com os rumos do império. 

A Carta Magna assinada em 1988 e atualmente em vigor segue o modelo parlamentarista, enquanto o regime se manteve presidencialista. Ao presidente que deseja de fato governar o país restam duas opções: comprar o Congresso com favores e dinheiro ou assinar toneladas de medidas provisórias.

Nossos partidos mais parecem alas de escolas de samba, legendas de aluguel ou agremiações esportivas nas quais os craques trocam de camisa conforme o interesse pessoal ou a cifra oferecida pelo time adversário.

Nos Estados Unidos, quem nasce democrata morre democrata e quem nasce republicando, idem. No entanto, só copiamos os defeitos do Tio Sam, trocando o samba pelo funk ou bananas por hamburguer. Com todos os problemas e absurdos do capitalismo, os norte-americanos dão um banho em termos de democracia. Lá, as algemas são para todos que infringirem a lei, independentemente de raça, sexo, religião, formação escolar ou condição econômica.

Sem querer louvar as opiniões do ditador que governa Cuba há quase meio século, lembro o dia em que ele declarou que a democracia nos moldes norte-americanos é um luxo que custa caro aos países do Terceiro Mundo. Nisso ele tem razão. Se alguém duvida, que procure saber quanto faturam as agências de marketing e propaganda brasileiras nos anos eleitorais. Com o alto custo das campanhas, só ganha eleição quem gasta dinheiro a rodo. As técnicas de convencimento resultam numa lavagem cerebral jamais imaginada por Goebbels.

O Brasil precisa mudar, mas os políticos - justamente eles que têm condições para tanto - são os últimos a desejar a mudança. Quem quer consertar o país somos nós, cidadãos comuns que ralam de sol a sol e pagam a segunda maior tributação do mundo - sem obter o merecido retorno. Mas a classe média se omite, apenas reclama, como à espera de um milagre ou de um messias, herança esta do sebastianismo lusitano.

Diante do sentimento de impotência que nos domina, geralmente adotamos a cômoda postura de anular o voto sem politizar o ato de desobediência civil. Se nenhum candidato nos convence, melhor escolher o mais fraco, fazendo do voto um ato de desagravo. Até porque, eleição não é corrida de cavalo. Mais que votar, é preciso debater os temas de nosso interesse e contribuir para o esclarecimento das massas.

     

País do passado

Eu sou do tempo em que juiz ladrão era personagem de futebol de várzea e cartola era chapéu de bacana ou nome de sambista genial. Craque era só um sujeito bom de bola e bala perdida, chicletes ou drops de hortelã.

Naquele tempo, os rapazes convidavam as moças pra sair e não pra ficar. Camisinha era uma peça do vestuário infantil e zona, o lugar reservado às tias de vida fácil que faziam a alegria dos sobrinhos de vida difícil.

Grampo era prendedor de cabelo e araponga, uma ave de canto metálico, também chamada ferreiro. Aliás, na casa do ferreiro propriamente dito, o espeto costumava ser de pau e era o pau que a gente mostrava depois de matar a cobra.

Cobra-criada era alguém bom demais em alguma coisa, cachorra era a fêmea do cachorro e cão era um dos muitos nomes do coisa-ruim. Político prometia uma conduta transparente e, na verdade, como hoje, fazia a política do traz parente.

Antigamente, honestidade era obrigação de todos e não apenas um atributo que certos candidatos fazem questão de destacar no currículo. Naquele tempo, a esquerda era uma coisa direita e a direita entortava o país em nome da liberdade.

Eu sou do tempo em que o Brasil se proclamava o país do futuro. O tempo passou, o futuro chegou e agora me dou conta de que em muitos aspectos ainda somos um país do passado, de presente duvidoso.   

E para fechar com chave de outro - digo, chave de cadeia - lembro a máxima do escritor Francisco de Morais Mendes: “Eu sou do tempo em que cadeia produtiva era penitenciária agrícola”.