10 jun 2010
A cantora Lígia Jacques entra no clima de Copa do Mundo e se apresenta nesta quinta-feira, 17 de junho, às 20h30, no Mezzanino da Travessa, Rua Pernambuco, 1.286, 2º andar, na Savassi. O nome do show é Choro Cantado – Uma Seleção Musical. O repertório reúne músicas do seu novo CD e outros clássicos do choro. Destacam-se Conversa de Botequim (Noel Rosa e Vadico), Um a Zero (Pixinguinha, Benedito Lacerda e Nelson Angelo) e Meu Caro Amigo (Francis Hime e Chico Buarque), cujas letras falam de choro e futebol.
No Almanaque do Choro, o pesquisador André Diniz destaca que “o futebol e o choro, mesmo com regras básicas, guardam sua vivacidade nas trilhas dos improvisos, nos dribles inesperados de Garrincha e Pelé, nas bicicletas singulares de Leônidas da Silva, nos contrapontos de Pixinguinha, nas frases inusitadas dos músicos solistas”.
Lígia lembra que Um a Zero foi composto para homenagear a vitória do Brasil contra o Uruguai, com o gol de Friedenreich decidindo o campeonato sul-americano de 1919. “A letra foi feita muito tempo depois por Nelson Angelo, um mineiro bom de bola nascido na Rua da Bahia”, ressalta.
Seu novo CD é dedicado a Ademilde Fonseca. Com arranjos e direção musical de Rogério Leonel, Choro Cantado reúne cinco clássicos do repertório da rainha do choro e cinco faixas inéditas, ricas em citações musicais que reverenciam mestres como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e o contemporâneo Guinga. Lígia é uma das convidadas de Ademilde para o show em comemoração aos seus 90 anos, em 2011, no Rio de Janeiro.
HISTÓRIA DO CHORO
Surgido em meados do século 19, sob forte influência da polca e do lundu, o choro se tornou o principal gênero instrumental da música brasileira. Com excelentes melodias valorizadas pela performance de grandes instrumentistas, muitos clássicos do gênero também ganhariam letras, algumas assinadas por poetas como Vinicius de Moraes, co-autor de Odeon (de Ernesto Nazareth), e João de Barro, letrista de Carinhoso (o clássico de Pixinguinha).
Lígia Jacques afirma que a proposta do CD Choro Cantado foi justamente registrar choros melodicamente ricos, mas que também se destacam pela qualidade das letras. Para tanto, foram selecionadas 10 composições que dialogam entre si, unindo música e letra com precisão, valorizando a poesia e o canto. Destacam-se, por exemplo, Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo e Miguel Lima) e Títulos de Nobreza – Ademilde no Choro (João Bosco e Aldir Blanc).
Em algumas faixas, a cantora faz quatro vozes, formando um quarteto desdobrado em oito canais de gravação. Uma curiosidade é que Choro Barroco (de Rogério Leonel), carro chefe do seu primeiro disco, ganhou letra do escritor, compositor e jornalista Jorge Fernando dos Santos. Ele assina a produção do novo CD e outras quatro letras do repertório, três em parceria com Valter Braga e uma com Chiquinha Gonzaga.
CARREIRA DE SUCESSO
Belo-horizontina da gema, Lígia estudou técnica vocal na Fundação de Educação Artística, é integrante do quarteto Tom Sobre Tom, professora de voz e de técnica vocal. Realizou vários espetáculos e oficinas, participou de mais de 30 discos de artistas como Marcus Viana, Ladston do Nascimento, Hudson Brasil, Toninho Camargos, Geraldo Alvarenga e Rubinho do Vale. Também cantou em shows de Clara Sverner, Guinga e Francis Hime. Com o CD Choro Barroco, recebeu três indicações para o Prêmio Caras de Música.
Em 2004, ao lado do marido e parceiro Rogério Leonel, Lígia Jacques se apresentou no Circuito Cultural do Banco do Brasil. Em 2005, ambos participaram do programa Talentos, da TV Câmara, em Brasília. Em 2008, ela gravou programas na Rádio MEC, no Rio de Janeiro. Lígia é preparadora vocal e integrante do elenco do espetáculo Missa dos Quilombos, montagem carioca da Companhia Ensaio Aberto, com músicas de Milton Nascimento, textos de Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, direção musical de Túlio Mourão e direção geral de Luiz Fernando Lobo.
O CD Choro Cantado foi gravado no estúdio Fábrica de Música, com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Rogério Leonel tocou violão, fez os arranjos e a direção musical. Já a direção artística coube a Jairo de Lara, flautista e saxofonista em várias faixas. Também tocaram no disco Milton Ramos (contrabaixo acústico) e Serginho Silva (percussões).
A produção executiva foi de Tião Rodrigues, a arte do encarte de Adriano Alves e as gravações e mixagem foram feitas por Jairo de Lara e Eloísio Oliveira. O disco teve ainda as participações especiais de Ausier Vinícius (cavaquinho), Celso Adolfo (voz) e Hudson Brasil (bandolim). No dia do show será vendido a R$25,00 (preço promocional). Além de Lígia Jacques (vocal), o espetáculo Choro Cantado – Uma Seleção Musical terá a presença dos músicos Rogério Leonel (violão e arranjos), Bill Lucas (percussão) e Jairo de Lara (Flauta e saxofones). Os textos ficam por conta de Jorge Fernando dos Santos.
Ingressos individuais: R$ 20.
Mesa para quatro pessoas: R$ 70.
Informações e reservas pelos telefones: (31) 3223-8070 e 9764-9173
2 mar 2010
De segunda a sexta-feira, às 17h, a sanfona de Rubens Diniz sapeca pela Rádio Inconfidência AM, de Belo Horizonte (MG), o clássico Campo Belo, composição rancheira de Antenógenes Silva. Trata-se do prefixo de Hora do Fazendeiro, o programa radiofônico mais antigo do Brasil – talvez do mundo –, transmitido ininterruptamente há 73 anos em ondas médias e curtas, e hoje também pela internet.
A primeira transmissão foi ao ar em 7 de setembro de 1936, quatro dias depois da inauguração da rádio pública de Minas Gerais. Apresentado por Tina Gonçalves e Cristiano Batista, o programa passou por uma reformulação em junho de 2009, sendo ampliado de uma para duas horas de duração. Na retaguarda estão o superintendente de Jornalismo, Getúlio Neuremberg, e o coordenador artístico da emissora, Gustavo Abreu.
Segundo a produtora Aline Louise Moreira, o objetivo da equipe de produção sempre foi “dialogar com o homem do campo”, oferecendo serviços, boletim meteorológico, cotação de produtos agrícolas, dicas, receitas caseiras e a autêntica música caipira. Outra missão que não fica de lado é a prestação de serviços aos ouvintes urbanos, que podem, por exemplo, aprender a montar uma horta em apartamento ou numa pequena área do quintal.
Linguagem específica
Tina Gonçalves apresenta Hora do Fazendeiro desde a década de 1970, quando o programa ia ao ar ainda pela manhã. Ela trabalhou ao lado de Bentinho, Delmário, Caxangá, Geraldo Eustáquio e José Penido, nomes lendários do rádio mineiro. “O segredo do nosso sucesso é que não havia programas direcionados ao homem do campo, naquela época”, afirma.
“A TV não tinha o alcance de hoje e o homem do campo não dispunha de acesso a agrônomos e veterinários”, acrescenta a apresentadora. Segundo ela, o programa propiciou esse contato, orientando o ouvinte no seu dia-a-dia na roça. “Além disso, trouxemos a música de raiz, mensagens de ouvintes e a seção de desaparecidos, na qual procuram-se notícias de parentes e amigos que estão longe de casa”, ressalta.
Cristiano Batista começou a apresentar Hora do Fazendeiro há quatro anos, substituindo o locutor José Penido. “Usamos uma linguagem específica, pois o público padrão inclui o fazendeiro e o trabalhador rural”, ele explica. “Temos também ouvintes na capital e aqueles que gostam do programa por causa da música caipira. Muita gente liga apenas para ouvir o próprio nome no rádio, enviando lembranças a amigos e familiares distantes.”
Num especial apresentado quando o programa comemorava 70 anos, um dos entrevistados foi João Moreira, de 85 anos, ouvinte desde os tempos em que era fazendeiro, em Barão de Cocais, há mais de meio século. “Esse programa é uma maravilha”, disse ele, resumindo o sentimento da audiência. “Meu filho até já ofereceu música pra mim, lá de São Paulo… Meu rádio só fica ligado na Inconfidência.”
Marca do pioneirismo
A iniciativa de se criar uma rádio difusora em Minas Gerais foi articulada na década de 1930, durante o governo de Benedito Valadares. Quem viabilizou a ideia foi o secretário de Agricultura e futuro governador, Israel Pinheiro. O transmissor da terceira emissora a ser inaugurada em Belo Horizonte – depois das rádios Mineira e Guarani – foi adquirido graças a contribuições de prefeituras do interior, que doaram cerca de dois contos de réis ao governo estadual.
Com os estúdios instalados na antiga Feira Permanente de Amostras, na Praça Rio Branco, a emissora foi inaugurada às 19h de 3 de setembro de 1936. Entre as autoridades presentes estavam o ex-presidente Venceslau Brás e o ministro da Agricultura de Getúlio Vargas, Odilon Braga. Intelectuais e artistas como Tristão de Athayde, Almirante, Carmen Miranda e Orlando Silva também deram o ar da graça. Naquele mesmo mês seria inaugurada no Rio de Janeiro a legendária Rádio Nacional.
O primeiro slogan da “PRI-3″ dos mineiros foi “a voz de Minas para toda a América”. Em 1938, a Inconfidência foi uma das primeiras rádios do continente a transmitir uma Copa do Mundo de Futebol – a terceira delas, realizada na França, com notável desempenho da seleção brasileira. Pioneira belo-horizontina também nas radionovelas e nos programas de auditório, a emissora sempre teve Hora do Fazendeiro entre seus campeões de audiência.
Competência premiada
O sucesso do programa rural certamente contribuiu para que a Inconfidência ganhasse em 2009 o Prêmio Mídia do Ano em Comunicação Empresarial (categoria rádio), conferido pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje). Também no ano passado, sob a presidência do escritor e jornalista José Eduardo Gonçalves (que hoje preside a Rede Minas de Televisão), Hora do Fazendeiro conquistou o Prêmio Abimilho, com uma série de reportagens sobre o milho na cozinha brasileira.
Atualmente presidida pelo jornalista Valério Fabris, a emissora oficial de Minas firmou-se entre as principais do país. Basta dizer que a Inconfidência FM 100,9, que acaba de completar 30 anos de funcionamento, tornou-se uma trincheira da MPB, com programação de música 100% nacional. O padrão foi implantado por Claudinê Albertini, em 1980, no auge a chamada “invasão cultural”, sendo mantido até hoje e se tornando um importante diferencial frente à concorrência.
Para orgulho dos seus ouvintes mais fiéis, a Inconfidência FM foi cognominada “a brasileiríssima”. Em sua equipe sempre se destacaram profissionais que primam pelo bom-gosto musical, como os programadores Kiko Ferreira, Luiz Marcelo, Paulo Bastos, Miguel Rezende e o apresentador Tutti Maravilha, dono de um estilo inconfundível, que se tornou um dos símbolos do rádio mineiro.
* Reportagem escrita para o jornal Pauta, do SJPMG, e somente publicada no site do Observatório da Imprensa, em 3/3/2010.
8 ago 2007
Jorge Fernando dos Santos*
Carinhoso, Brasileirinho, Odeon, Tico-tico no fubá… Muitos são os choros que fizeram e ainda fazem sucesso na preferência do público. Por essas e outras, segunda-feira, 23 de abril, comemora-se o Dia Nacional do Choro. Mas será que os pequenos leitores sabem do que se trata? Nada a ver com o berreiro que alguns deles fazem quando se machucam ou são contrariados. Choro, nesse caso, é música da melhor qualidade. Ao lado do samba, é um dos gêneros mais autênticos da música popular brasileira (MPB).
Alguns estudiosos chegam a dizer que o choro é o jazz brasileiro. Essa comparação com o ritmo mais importante da música norte-americana se deve ao fato dos músicos se sentirem desafiados a fazer improvisos enquanto tocam. O curioso é que os dois gêneros se originaram do encontro da cultura africana com o classicismo europeu.
A data escolhida para ser o Dia Nacional do Choro tem uma explicação muito simples. Foi em 23 de abril de 1897 que nasceu o Pixinguinha. Batizado Alfredo da Rocha Vianna Júnior, esse carioca negro e de origem humilde se tornaria um dos maiores músicos do país. Um dos primeiros brasileiros a ganhar a vida como arranjador musical, ele tocava piano, flauta e saxofone, trabalhou em emissoras de rádio e integrou a banda Oito Batutas, primeiro grupo da MPB a se apresentar em Paris e Buenos Aires, ainda na década de 1920.
Pixinguinha compôs valsas famosas, como Rosa, e é autor de choros como Lamentos, Urubu, Um a zero e o clássico Carinhoso, com letra de João de Barro. Este choro-canção foi eleito a música preferida dos brasileiros numa pesquisa realizada no ano 2000, por ocasião dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil. O compositor foi amigo e parceiro de João da Baiana e Donga, co-autor de Pelo telefone, oficialmente o primeiro samba gravado da história, em 1917.
Mas Pixinga, como também era chamado – o apelido, por sinal, foi colocado pela avó africana – não foi o único músico a se imortalizar compondo choros. Esse ritmo musical também revelou talentos como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Waldir Silva, Zequinha de Abreu, Jacob do Bandolin, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho e muitos outros. Até o compositor erudito Heitor Villa-Lobos não resistiu à tentação desse modo de compor e tocar. Dizem até que ele se inspirou no alemão Bach, considerado o pai da moderna música ocidental, cujas composições teriam antecipado fundamentos do choro e do jazz.
Artistas ligados à bossa nova, movimento que modernizou a MPB nas décadas de 1950 e 1960, também se fizeram choro. Entre eles Tom Jobim, Edu Lobo e Francis Hime. Mais recentemente, músicos como Hermeto Pascoal e Guinga também compuseram lindas canções nesse ritmo que encanta ouvidos mais delicados.
Influência da polca
Segundo o pesquisador e cavaquinista Henrique Cazes, autor do livro Choro – Do quintal ao Municipal, o choro teria surgido no Rio de Janeiro, na segunda metade do século 18. Tudo começou depois que a polca foi dançada pela primeira vez no Teatro São Pedro. A polca era um tipo de música alegre e sensual muito apreciada na França e em Portugal. Suas melodias chorosas, ricas em harmonia e convidativas à dança teriam influenciado músicos brasileiros interessados em renovar o jeito de tocar.
Os primeiros grupos a se dedicarem a esse novo tipo de música eram formados por funcionários dos Correios e da Central do Brasil, que tocavam principalmente violão, flauta e cavaquinho. Por isso foram apelidados de “bandas de pau e corda”. Mais tarde, o pandeiro e o piano seriam incorporados com sucesso a esses grupos. O termo choro surgiu justamente pelo fato de as melodias serem chorosas, repletas de nuances e sobe-desces de timbres e tons musicais. Uma música complexa, rica em detalhes, que só pode ser praticada com sucesso por aqueles que realmente sabem tocar um instrumento.
Por essas e outras, o choro sempre foi música por excelência, embora muitos clássicos do gênero tenham recebido letras de qualidade, assinadas por verdadeiros poetas, como João de Barro, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Aldir Blanc. No entanto, somente Ademilde Fonseca – consagrada como “rainha do choro” – se consagrou como cantora exclusiva desse tipo de música.
Tempero africano
no choro e no samba
Como nem tudo é unanimidade entre pessoas que dominam o mesmo assunto, há quem discorde da versão de que o choro é um gênero musical que surgiu por influência da polca. O músico e também pesquisador Carlos Henrique Machado Freitas, que mora em Volta Redonda (RJ) defende que o choro, assim como o samba e outros gêneros da MPB, teria surgido no Vale do Paraíba, no Norte do Rio de Janeiro.
Ele lembra que aquela região recebeu muitos escravos vindos da Bahia para trabalhar em plantações de café e trouxeram com eles a musicalidade típica do povo africano. Tanto que era muito comum a formação de bandas musicais só de escravos. Sem falar nos grupos de folia e congado que marcaram a regiliosidade interiorana também em Minas Gerais.
A própria origem do samba é outra discussão que sempre deu pano para manga. O mais certo é que ele se desenvolveu no Recôncavo baiano, também devido à grande presença de negros na região. Com a transferência da primeira capital da colônia para o Rio de Janeiro, ele teria se descolocado para lá junto com as comunidades negras da época. Tanto que a doceira baiana Tia Ciata ficou famosa no Rio antigo por receber sambistas e chorões em sua casa. E ela não era a única a recebê-los de braços abertos.
No entanto, o crítico e historiador José Ramos Tinhorão afirma que o samba nasceu mesmo foi na Cidade Nova, no coração do Rio, depois que um prefeito chamado Pereira Passos resolveu reformar o Centro da velha capital federal, expulsando dali os negros e os pobres, que começaram a formar as favelas nos morros e na Zona Norte da cidade.
CARNAVAL Seja lá como for, o samba mudou de andamento nos anos 20, quando o compositor Ismael Silva fundou no Bairro Estácio de Sá a Deixa Falar, primeira escola de samba de que se tem notícia. Mais tarde, ela incorporaria o nome do bairro que homenageia o fundador da cidade. Até então cadenciado e dolente, mais apropriado aos salões de dança ou gafieiras, o samba adquiriu ritmo mais marcado e ligeiro, próximo ao da marcha, para facilitar os desfiles de carnaval na avenida.
A vantagem do samba sobre o choro é que ele é mais percussivo e tem na poesia das letras sua grande aliada. Em outras palavras, o samba bate no ritmo do coração brasileiro, funcionando como amálgama da música nacional. Feito um camaleão, transmutou-se na bossa nova e em subgêneros populares, como samba-choro, samba-enredo, sambolero, samba-rock, samba-funk, samba-rap, pagode e axé-music. Já o choro, por ser mais musical e menos cantado, mais melódico e menos rítmico, agrada mais aos músicos do que ao público na sua totalidade.
Polêmicas à parte, o fato é que o choro e o samba são os principais ritmos da MPB, funcionando ambos como matrizes dessa que é considerada a música mais rica do mundo. Tanto isso é verdade que a bossa nova ainda é admirada em vários países, enquanto existem escolas de samba e grupos de choro até mesmo no distante Japão.
* Matéria publicada no Gurilândia, caderno infantil do Estado de Minas
8 ago 2007
Jorge Fernando dos Santos*
“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é/ É ruim da cabeça ou doente do pé”. Esses versos de Samba da minha terra, do compositor baiano Dorival Caymmi, sintetizam com precisão o ritmo que melhor identifica o Brasil lá fora. Tanto isso é verdade que muitos estrangeiros pensam que o hino brasileiro é o samba-exaltação Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. O Dia Nacional do Samba é comemorado em 2 de dezembro, data em que esse ilustre mineiro desembarcou na Bahia pela primeira vez.
Ninguém sabe exatamente quando surgiu o samba, mas, oficialmente, sua primeira gravação está completando 90 anos. Foi em 1917 que o cantor Bahiano fez o registro fonográfico de Pelo telefone para o selo Odeon. Trata-se de uma parceria entre Ernesto dos Santos (Donga) e Mauro de Almeida, surgida numa roda de samba no terreiro de Tia Ciata, famosa doceira baiana que reunia em sua casa músicos e compositores. Entre eles, um dos mais famosos era José Barbosa da Silva, o Sinhô, consagrado como o “rei do samba”.
Curiosamente, o próprio Bahiano – que havia gravado os primeiros discos da Casa Edison, a primeira gravadora do país – já tinha registrado outros sambas, como A viola está magoada, de Catulo da Paixão Cearense, poeta e compositor que fez muito sucesso nas primeiras décadas do século 20.
ORIGENS No Samba da bênção, feito em parceria com o violonista Baden Powell, o poeta Vinicius de Moraes afirma que “o samba nasceu lá na Bahia”. Essa afirmação é baseada no fato de que esse gênero musical é de origem negra e foi o Recôncavo Baiano uma das primeiras regiões do país a receber levas de escravos africanos. Ali surgiu o tradicional samba-de-roda, estilo no qual pode ser enquadrada a composição Pelo telefone.
A primeira menção ao samba na imprensa foi feita pelo padre Lopes Gama, pesquisador da cultura popular brasileira. Em 1838, num artigo publicado no jornal pernambucano O Carapuceiro, ele se refere ao “samba d’almocreves”. Para quem não sabe, almocreve é palavra de origem árabe e designava o serviçal encarregado de cuidar dos animais usados pelos tropeiros, que transportavam de tudo no lombo de mulas e burros.
O artigo de Lopes Gama fala mais precisamente da umbigada, gênero de dança muito comum entre os negros daquela época, uma das prováveis origens do samba. Aliás, essa palavra seria a junção de sam (dar) e ba (receber), expressões que designavam a coreografia considerada imoral pelas autoridades. Naquela época, os brancos preferiam curtir os gêneros musicais europeus, como o fado, a polca, a valsa e o lundu-canção, até então a única aproximação tolerável com a música de origem negra.
Além da umbigada, o samba também tem suas origens relacionadas a outros gêneros, como benguelê, corimá, jongo e cantos de trabalho dos escravos, ritmos que tiveram na cantora Clementina de Jesus sua última grande divulgadora. Em Angola existe ainda hoje o semba, um tipo de música também associada ao samba, a começar pela semelhança do nome.
Origem do ritmo
ainda é discutível
Muita gente discorda da tese de que o samba nasceu na Bahia. O compositor e pesquisador Carlos Henrique Machado Freitas, que reside em Volta Redonda (RJ), acredita que tanto o samba quanto o choro e o maxixe foram gestados no Vale do Paraíba, no Norte do Rio de Janeiro. Sua argumentação se baseia na presença maciça de escravos negros que vieram da Bahia para trabalhar nas plantações de café da região.
Já o crítico e pesquisador José Ramos Tinhorão afirma categoricamente que o samba surgiu na Cidade Nova, em pleno coração do Rio de Janeiro, mais precisamente na velha Praça Onze freqüentada pela boemia carioca. Em 1910, o prefeito Pereira Passos incrementou várias obras no Centro da antiga capital da República, devido às ressacas do mar e às epidemias que ameaçavam a população. Os velhos cortiços foram demolidos e os pobres foram literalmente empurrados para a Zona Norte e os morros da cidade.
Em 1897, com o fim da Guerra de Canudos no interior da Bahia, soldados que haviam derrotado os jagunços de Antônio Conselheiro mudaram-se para o Rio na esperança de receber os soldos atrasados. Muitos haviam constituído família com caboclas baianas e foram morar nos morros, pois não tinham recursos nem para habitar os velhos cortiços. Como Canudos ficava no Morro da Favela, devido à presença da fava ou faveleira – árvore cujas folhas eram usadas para cobrir os barracos de adobe –, não demorou muito para que as comunidades pobres começassem a ser chamadas de favelas.
A ação saneadora da prefeitura fez crescer ainda mais aqueles aglomerados, que se tornariam redutos das escolas de samba. Esse termo foi inventado pelo compositor Ismael Silva, que em 1928 fundou a Deixa Falar, primeira agremiação do samba carioca e embrião do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Estácio de Sá. Também graças a ele, as composições mudaram de andamento, ficando mais adaptáveis aos desfiles, nascendo assim o chamado samba-enredo.
Depois surgiriam outras famosas agremiações, como a Estação Primeira de Mangueira, Portela, Vila Isabel, Salgueiro e Beija-Flor, entre outras. A Primeira de São Paulo foi fundada por Elpídio de Faria, em 1935, e o modelo não demorou a alcançar Minas Gerais e outros estados. Com isso, as escolas de samba foram pouco a pouco substituindo os antigos ranchos carnavalescos.
Influências da indústria
Entre 1930 e 1950, o rádio e a indústria de discos se consolidavam no país. Com isso, o samba desceu do morro para o asfalto, tornando-se o gênero musical mais divulgado da época, ao lado do maxixe, do choro e do foxtrote, ritmo surgido nos Estados Unidos. Emissoras como a Rádio Nacional e a Mayrink Veiga disputariam a audiência, como hoje fazem os canais de televisão.
Surgiram grandes cantoras, como Aracy Cortes, Aracy de Almeida, Marília Barbosa e Carmen Miranda, que levaria o samba para o mundo, e cantores como Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva e Sílvio Caldas. Compositores talentosos como Assis Valente, Geraldo Pereira, Lamartine Babo, Noel Rosa e Wilson Batista teriam seus sambas imortalizados por esses intérpretes.
No final dos anos 50, o bolero e o samba-canção estavam na moda, com letras e melodias tristes. A chegada da televisão e a renovação das gravadoras, que adotaram o LP (long play), disco de vinil com seis músicas de cada lado, coincide com o início da bossa nova. Esse tipo de música, consolidada pela parceria de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e o cantor João Gilberto, funde elementos do samba, do jazz e da música erudita e logo cai no gosto dos jovens de formação universitária.
A história do samba não acaba nunca e nem mesmo a força do rock conseguiu suplantá-lo. Artistas como Chico Buarque, João Bosco, Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho ajudam a mantê-lo em alta. Como diz o sambista Nelson Sargento, “o samba agoniza mas não morre”. Pelo contrário, como bom brasileiro, ele tem a capacidade de assimilar outras influências sem perder o rebolado. Graças a isso surgiram subgêneros para todos os gostos, como sambolero, samba-choro, samba-jazz, samba-rock, samba-rap, samba-funk, pagode e axé-music, que, em muitos casos, retoma a levada do tradicional samba-de-roda do Recôncavo Baiano.
*Matéria publicada no Gurilândia, caderno infantil do Estado de Minas
1 ago 2007
A obra mais conhecida do romancista João Felício dos Santos acaba de voltar às livrarias. Trata-se do romance Xica da Silva, escrito a partir do roteiro do filme de Cacá Diegues. A produção de 1976 foi estrelada por Zezé Motta, Walmor Chagas e José Wilker, tendo no papel do pároco o próprio autor, que só não se tornou ator profissional devido à surdez. Xica da Silva figura na galeria de personagens femininas da literatura brasileira, ao lado de Gabriela e Tereza Batista (de Jorge Amado), Ana Terra (Érico Verissimo), Capitu (Machado de Assis) e Iracema (José de Alencar).
Na década de 1960, quando a maioria dos leitores brasileiros sequer tinha ouvido falar no norte-americano Gore Vidal, João Felício dos Santos já se dedicava a escrever romances históricos nos quais reconstruía a trajetória de personagens marginalizados pela história oficial do país. Ganga-Zumba, por exemplo, foi lançado em 1964, premiado pela Academia Brasileira de Letras e adaptado para o cinema por Cacá Diegues. O livro narra a saga de Zumbi dos Palmares e inclui um glossário com palavras de origem africana.
O curioso é que, mesmo com a preocupação oficial em reconhecer a importância da contribuição negra na cultura brasileira, quase ninguém se lembrava mais de João Felício dos Santos, morto em 13 de junho de 1989. Sua obra abriu caminho nesse sentido e só agora, depois de demorada ausência nas livrarias, começa a ser reeditada pela José Olympio Editora.
Segundo a gerente editorial da José Olympio, Maria Amélia Mello, o projeto de republicar os livros de João Felício dos Santos foi motivado pelo valor de sua obra e pela própria política da empresa do grupo Record em manter no seu catálogo grandes autores nacionais, como Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz, Mário Palmério, Aníbal Machado, Raul Bop e Ferreira Gullar, além de clássicos internacionais, como Gabriel García Márquez, por exemplo.
Maria Amélia entrevistou João Felício dos Santos em 1977 e diz que ficou impressionada com a força de sua personalidade. “Ele era um grande autor e sempre trabalhou com personagens negros ilustres. Era um escritor de estilo erudito, mas de leitura agradável, de fácil compreensão, marcada por um humor fino”, reconhece. “Era um pesquisador compromissado com a boa literatura e seria um absurdo seus livros continuarem longe das novas gerações. São obras que têm tudo para agradar os jovens, sendo adotadas em escolas e exames de vestibular.”
A decisão de começar a publicação da obra do autor por Xica da Silva se deve justamente ao fato de se tratar de seu livro mais conhecido. “A personagem já faz parte do imaginário do nosso povo. Foi popularizada pelo filme do Cacá, pela música do Jorge Benjor e virou até enredo de escola de samba”, lembra Maria Amélia. “Por isso a escolhemos para ser o abre-alas da coleção.”
Para o cineasta Cacá Diegues, “João Felício dos Santos foi, no Brasil, um precursor da ficção histórica, do romance baseado em fatos reais. Sempre procurou abordar a história dos esquecidos, daqueles que foram excluídos à força pelos vencedores. Não sei de outro escritor brasileiro que tivesse um tão vasto conhecimento das coisas do país, não só na forma de sua cultura popular, como também na erudição de sua história”, reconhece. “Ele escreveu de uma forma peculiar, numa espécie de língua brasileira que articulava de maneira muito pessoal e popular, a igual distância de Jorge Amado e Guimarães Rosa.”
Sobre o filme, Cacá afirma que “Xica da Silva foi e continua sendo” um de seus filmes mais populares. “A idéia de fazê-lo estava muito ligada ao momento que vivíamos, de certa abertura política na ditadura militar, um momento que nos dava muita esperança de dias melhores e mais democráticos…Pedi a Felício que escrevesse o roteiro comigo, não podia abrir mão de sua participação na escritura dele. Para mantê-lo a meu lado nas filmagens, inventamos o personagem do pároco, que ele interpretou de maneira graciosa.” Só depois do filme pronto é que o escritor resolveu escrever o romance. “Este é um caso raro de um filme que deu origem a um livro”, diz o cineasta, acrescentando que “as novas gerações precisam conhecer esse grande brasileiro, esse grande escritor. O leitores de hoje vão se surpreender com a atualidade de sua literatura”.
Na orelha da nova edição, o escritor Joel Rufino dos Santos lembra que a narrativa do ficcionista vai além da história oficial. “É o que a literatura pode fazer com a história: torná-la viva, interessante para os homens de qualquer lugar e de qualquer tempo”, ressalta. “Com os poderes de sua arte, sem falsear a verdade histórica, apenas lhe acrescentando vida, o romancista torna a personagem fascinante, comovedora – quase uma Pombagira.”
Um dos grandes amigos de João Felício dos Santos foi o escritor português Cunha de Leiradella, que viveu no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte e hoje está de volta à sua terra natal. “O que tenho a dizer sobre esse grande entre os grandes escritores brasileiros cabe numa rima: verdade X saudade”, afirma de sua casa, em Póvoa do Lanhoso, Norte de Portugal. “Com ele, aprendi que a verdade do artista é muito mais importante do que a fama do artista.”
Autor premiado de romances como O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior, e de peças como As pulgas, ainda em cartaz em Portugal, Leiradella lembra que o romancista histórico “foi um dos seres mais humanos, mas verdadeiros e mais puros” que conheceu: “Como escritor, foi um dos maiores. Nunca o vi escrever para o aqui e para o agora. Felício escreveu para o depois. Para o tempo onde apenas os grandes têm lugar”, define.
VIAJANTE João Felício dos Santos nasceu na comarca de Mendes, Estado do Rio, a 14 de março de 1911. Sobrinho do historiador mineiro Joaquim Felício dos Santos, de Diamantina, foi jornalista, publicitário e funcionário público federal. Topógrafo de profissão, ingressou no Ministério de Viação e Obras Públicas em 1932. Viajou várias vezes pelo país a serviço do governo e também por conta própria, com o intuito de conhecer a história e os costumes nacionais. Sobreviveu a três naufrágios, um duelo, uma queda em poço de elevador e à morte do filho, jovem oficial da FAB que desapareceu com avião e tudo numa tempestade, na Serra do Mar.
Sua estréia na literatura ocorreu em 1934, com o livro de poemas Palmeira-real. Em 1956, lançou o infantil João Bola. Só depois de ouvir o ponto de vista de personagens comuns sobre importantes capítulos da história nordestina foi que se sentiu apto a escrever livros como João Abade (1958 ), sobre a guerra de Canudos, e Major Calabar (1960), no qual desenha um rigoroso retrato da invasão holandesa em Pernambuco. Esse livro veio a público muito antes do musical de Chico Buarque e Ruy Guerra, Calabar, o elogio da traição, que seria vetado pela censura federal.
O pioneirismo em abordar temas polêmicos foi uma das principais características do autor. Outro exemplo disso é o romance Carlota Joaquina, a rainha devassa, publicado em 1968, antecipando em décadas o filme de Carla Camurati. Já Ganga-Zumba antecedeu o famoso espetáculo Arena conta Zumbi, de Giafrancesco Guarnieri e Augusto Boal. A guerrilheira – O romance da vida de Anita Garibaldi certamente teria resultado numa minissérie mais verossímil que A casa das sete mulheres.
O escritor integrou os quadros da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e foi amigo pessoal do ex-presidente Juscelino Kubitschek, quando este já vivia no ostracismo, com os direitos políticos cassados. Ele mesmo seria enquadrado no AI-5, acusado de subversão devido ao ponto de vista de sua obra e aos elogios que recebia do Partido Comunista (PC).
Outra perseguição vinha de catedráticos de história, que não perdoavam no autor a ousadia de misturar história e ficção, dando preferência ao discurso dos excluídos. Sua verve literária, marcada pela pesquisa e pelo texto de estilo fluente, permitiu-lhe lançar luzes sobre capítulos obscuros da vida brasileira com estilo que lembra o dos grandes clássicos. “Os historiadores geralmente são frustrados porque não têm a imaginação dos romancistas”, defendia-se.
Para ele, a história era “o fato de quebrar a linha entre o exemplo e a esperança, nunca um meio certo para provar que não existe semelhança numa comparação. Escrevê-la, ainda que de forma ficcional, é juntar pedaços como ponteiros. Mas a escolha do tamanho depende da ideologia”. Morreu aos 78 anos, no Rio, deixando mulher, filha e o romance inédito Rotas de além-mar.
Além de Xica da Silva, que graças ao cinema se tornou a obra mais popular de João Felício dos Santos, estão planejadas para breve as reedições de outros romances que ele publicou pela Civilização Brasileira. Oito deles foram também editados pelo então prestigioso Círculo do Livro, que vendia em domicílio o melhor da literatura universal. Ganga-Zumba, considerado seu grande clássico, ganhou edição de bolso pela Ediouro, com ilustrações do artista plástico Caribé. Seu último livro publicado, Margueira amarga, foi ilustrado por Poty.
Serviço
Xica da Silva
De João Felício dos Santos
José Olympio Editora, 240 páginas, R$ 34
* Artigo publicado no caderno Pensar do jornal Estado de Minas.