5 set 2010
Que maravilha foi o sarau do Nassif, sábado, dia 4, no Espaço Opção, no Caiçara, em Belo Horizonte! O cara é super-simpático. Além de jornalista dos mais brilhantes, bandolinista apaixonado pelo choro. E foi justamente por meio do choro que fiquei sabendo da festa. Curiosamente, moro no Caiçara, bairro sobre o qual já escrevi um livro de mesmo nome. Quando fiquei sabendo do Sarau, convoquei a cantora Lígia Jacques, com quem produzi o CD “Choro Cantado”, e lá fomos nós.
Lá estavam o Ronaldo Coisa Nossa, dono do estabelecimento e sambista dos melhores dessas Gerais. Lá estavam chorões de vários grupos belo-horizontinos, como o trombonista Sampaio, o cavaquinista Warley Henrique, o grande Madeira, do Flor de Abacate, o Bigô e muitos outros. E também o Toninho Camargos com a Regina, a Dóris do samba e várias outras cantoras e músicos de talento inconteste.
A surpresa maior, no entanto, pelo menos pra mim, ficou por conta da Paula Santoro (divina simpatia!) e seu fiel escudeiro, Tabajara Belo, violonista dos melhores e meu parceiro querido no samba “Enredo do Samba”, que a Dóris regravou. Ambos apresentaram “De Formiga e Cigarra”, uma moda que fiz com o violeiro Chico Lobo para a trilha da minissérie “Palmeira Seca”, baseada no meu livro que agora sai na Itália, e que ela regravou no disco “Sabiá”, produzido pelo Nestor Santana - tio do Tabajara (ufa!).
Lá também estavam vários jornalistas, como Vera Godoy, Ailton Magioli, Vilma Fazito e o Herbert, todos ex-companheiros do Estado de Minas. Surpresa também foi conhecer o carioca Alfredo, que veio de Copacabana especialmente pra assistir ao Sarau, já que é colaborador emérito deste blog e fã-leitor do Nassif. Anamaria, irmã da Lígia, e Vilma, minha consorte (sorte minha, não dela) também lá estavam dando o ar da graça.
Enfim, o Nassif está de parabéns por arregimentar tanta gente boa em torno da boa música em diferentes praças do país. Segundo ele, esse encontro em BH foi até agora um dos mais animados. Realmente, a galera não deixou por menos. O Opção lotou aos ladrões, entornando gente e boa música por todos os lados.
Por essas e outras é que moro no Caiçara desde os seis anos, bairro que tem muito boteco legal, como o Bar do Véio e o Pedacinhos do Céu, do meu amigo Ausier Vinícius, gênio do cavaquinho e portador de um coração maior do que um trem.
13 jul 2010
Dizer que a morte de Paulo Moura deixa um vazio na música brasileira seria chover no molhado, sobretudo em tempos de Reboleixo, quando as letras de sucesso se resumem a um monte de vogais. Até parece que os compositores de sucesso não conseguem mais combinar consoantes e vogais para nos dar lindas melodias como antigamente!
Paulo Moura era um mestre do clarinete e do saxofone. Mais que isso, era um gênio da música em toda sua excelência. Curiosamente, no dia anterior à sua morte – e eu nem sabia que ele estava doente – estávamos na casa da Vânia, noiva do violonista Roberto d’Oliveira, que integra o belíssimo duo Cordas e Janelas (o outro é o Márcio Brito, que já se recupera de uma cirurgia no pulmão).
Era aniversário do Roberto e, lá pelas tantas, ele colocou para tocar uma música de Tom Jobim interpretada justamente por Paulo Moura. Curiosamente, ao fazermos uma roda de violão, meu parceiro Valter Braga tocou e cantou um samba genial que dedicou ao cavaquinista e dono do bar Pedacinhos do Céu, que infelizmente está fechado.
A composição foi inspirada justamente por um episódio cujo protagonista teria sido o Paulo, se ele não tivesse faltado a um encontro do qual provavelmente nem sabia. Eu conto essa história no livro Caiçara, que lancei em 2008 pela coleção BH – A cidade de cada um, da Editora Conceito. Peço licença para transcrever dois parágrafos da página 62, nos quais explico melhor:
“De tão frequentado, o lugar (Pedacinhos do Céu) já tem seu folclore. Lembro o dia em que Valter Braga ligou todo animado, dizendo que ia levar Paulo Moura até lá. O Ausier serviria um jantar e disse ao meu parceiro musical para convidar alguns amigos. Quando lá chegamos, fomos informados de que a mulher e empresária do famoso clarinetista o havia proibido e a seus músicos de saírem do hotel. O show seria realizado na manhã de domingo e ela não admitiria atrasos nem ressaca.
“A decepção do anfitrião foi tamanha que mandou cancelar o frango com quiabo. Valter disse que não carecia, pois o resto da moçada estava presente. No final da noite, o garçom nos trouxe a dolorosa. Pegamos e saímos cabisbaixos, mas o Valter não deixou por menos, Dias depois, mostrou-me o samba ‘puxão de orelha’ que havia feito, intitulado Meu caro Ausier:
O frango com quiabo
Que você nos prometeu
E não saiu
Que a culpa foi do Paulo
Que foi primeiro de abril…
- Desculpas mil -
Me veio agora na memória, Ausier
Pois é, fazer o quê?
Escorregaste e ficamos sem cocó
(Só com a cara de bocó)
Mulher é o diabo
E, quando quer, faz do rapaz um zé-mané
E a moça do prezado
Não deixou que ele fosse ao fuzuê
Não é só o Paulo que tem boca, Ausier!
Você fincou o pé
E não é legal deixar a turma na pior
(Teve um ali que desmaiou)
O estrambo na cacunda
Cadê sua panela funda, Ausier?
O ronco que retumba
Não é choro de cuíca
A dica que te dou é ligar
Nos convidando pr’outro jantar
Ou pode ser almoço
Que a galera vai gostar.”
Apenas a título de esclarecimento, devo lembrar que a música e a letra são do Valter. Ele ganhou o prêmio de melhor letrista no Festival da Nova Música Brasileira, da TV Cultura de São Paulo, com Hai-Cai Baião, musicado por Renato Motha. Curiosamente, em nossas mais de 20 parcerias, ele me passou as melodias para que eu colocasse letra. Nem precisava, concordam?
7 jul 2010
A vitória de um a zero da Espanha sobre a Alemanha nas semifinais desta Copa do Mundo provou mais uma vez que a voz do polvo é a voz de Deus. Segundo a imprensa esportiva, até agora o bicho de oito pernas acertou todos os prognósticos feitos sobre os jogos da África do Sul, revelando-se um adivinho mais competente que o próprio Nostradamus.
A eficiência do novo profeta é tamanha que lideranças do PT e do PSDB poderiam contratá-lo para sabermos quem vai vencer as eleições presidenciais deste ano. A bem da verdade, vale observar que a careca do Serra lembra a cabeça de um polvo, enquanto os tentáculos do poder petista na máquina estatal têm tudo a ver com o famoso molusco.
Voltando ao esporte bretão, não sei se é coincidência ou o quê, mas toda vez que o locutor anuncia que quem está na Globo está na Copa, estou justamente na cozinha da minha casa. Afinal, alguém tem que lavar os copos de cerveja depois da partida… De qualquer maneira, como defensor dos frascos e comprimidos, torci pelos times mais fracos, a começar pela seleção brasileira.
No jogo entre Uruguai e Gana, fui mais o segundo time, cujos jogadores fizeram jus ao nome do seu país, disputando a partida sempre com muita gana. Não fosse a falta de sorte, estariam nas finais. Entre Alemanha e Uruguai, vou torcer para que o segundo fique em terceiro lugar, naturalmente.
Já na partida entre Espanha e Holanda tudo pode acontecer. Afinal de contas, são duas equipes poderosíssimas e muito técnicas, de futebol imprevisível. Não precisa ser Galvão Bueno pra saber que uma das duas equipes será campeã do mundo.
Chamo atenção para o baixíssimo saldo de faltas entre Espanha e Alemanha. Tanto, que o juiz teve pouco trabalho. Isso ocorreu porque os dois times têm muita disciplina e sangue frio, ao contrário dos sonecas comandados por Dunga, que ficaram zangados na última hora mas não me deixaram feliz.
Enquanto isso, dependendo das conclusões do inquérito policial em andamento, o goleiro Bruno poderá trocar o Flamengo pelo Bangu. Não o Bangu Atlético Clube, que há 50 anos venceu o Torneio Mundial de Nova York, mas o famoso complexo prisional de segurança máxima do Rio de Janeiro.
18 jun 2010
Com a morte de José Saramago, a literatura portuguesa perde um de seus maiores escritores. Mais que isso, a comunidade lusófona perde um genuíno intelectual marxista que não desistiu de mudar o mundo apenas pelo fato de as tentativas socialistas terem descambado para o estatismo, o imobilismo e o absolutismo canhestro.
Saramago se definia como um homem pessimista, pois só os pessimistas querem mudar o mundo e as coisas a sua volta. A exemplo dele, também me considero de esquerda e um tanto pessimista, na medida em que desejo um mundo melhor, no qual também os pobres possam viver com dignidade. O verdadeiro esquerdista é aquele que anseia por uma sociedade mais justa e igualitária, livre da hipocrisia do politicamente correto e do vale-tudo praticado por governantes que se agarram tanto ao poder que se distanciam de si mesmos - independentemente da ideologia.
No entanto, confesso que nunca fui um fiel leitor dos livros de Saramago e tampouco concordava com tudo o que ele dizia. Sempre achei seu estilo narrativo difícil, pelo menos para os meus parcos conhecimentos literários. Sou daqueles que preferem textos enxutos, com poucas vírgulas e nenhum adjetivo. Gosto de Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, Camilo José Cela, Murilo Rubião, Albert Camus. Em se tratando de períodos longos com sinalizações próprias, abro exceção para Guimarães Rosa - um gênio, a meu ver.
Apesar disso, sempre fui fã de Saramago e me orgulho ao lembrar que nossos caminhos se cruzaram por duas vezes. Em setembro de 1983, um time de 11 autores portugueses desembarcou em São Paulo para diversos eventos literários. Depois de cumprir a agenda local, que incluía a Bienal Internacional do Livro – salve engano – o grupo se subdividiu, dirigindo-se a diferentes regiões do país. Era como se aqueles escritores tivessem a missão secreta de redescobrir o país inventado por Cabral.
Vieram a Minas Gerais José Saramago, sua então mulher, Isabel da Nóbrega, e o poeta Pedro Tamen. Queriam conhecer Ouro Preto e outras cidades históricas, para onde se dirigiriam em caravana com autores da província, entre eles Branca Maria de Paula, Robinson Damasceno dos Reis e o luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu amigo e guru. Na ocasião, tive a oportunidade de entrevistar os três visitantes nas dependências do Oton Palace Hotel, onde se hospedaram de passagem por Belo Horizonte.
A entrevista seria feita para o Estado de Minas, jornal com o qual eu já colaborava como colunista de teatro e cinema. Para minha surpresa, o editor de cultura, Geraldo Magalhães, havia escalado o repórter Waldir Vasconcelos para a mesma tarefa.Afinal, na minha ingenuidade de “foca”, não avisei ao jornal que estaria ali para cumprir a missão voluntariamente. O resultado disso é que publiquei minha reportagem no Suplemento Literário do Minas Gerais, editado naquela época pelo contista Duílio Gomes.
Naquele momento, com o gravador em punho, eu jamais poderia supor estar diante de um futuro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Mais que isso, o único autor a conquistar a láurea escrevendo numa língua que é quase um dialeto no mundo globalizado. Para aproveitar o encontro com os três visitantes, fiz quatro ou cinco perguntas a cada um deles, já que teria apenas uma página para publicar a reportagem. Foram todos simpáticos e objetivos. A matéria pode ser acessada na Faculdade de Letras da UFMG ou no link http://www.letras.ufmg.br/websuplit/exbGer/exbSup.asp?Cod=18089612198304 .
“A vossa literatura está com muita pujança e não está em crise”, disse Saramago ao responder a uma de minhas perguntas. Sobre sua estada no Brasil, ele de certa forma traduziu o ponto de vista de seus companheiros de viagem: “Desejamos que a nossa vinda sirva para que os leitores brasileiros pensassem um pouco mais e atendessem um pouco mais a uma literatura que está a ser feita em nossa terra, que me parece a mim ter mérito suficiente para que o leitor brasileiro se interesse. É possível que os escritores portugueses não sejam muito conhecidos do público brasileiro, mas são com certeza bastante conhecido e muito estimados nas faculdades, por professores de Literatura Portuguesa e por estudantes”.
Saramago voltaria várias vezes a Belo Horizonte, inclusive como convidado do projeto Sempre um Papo, comandado pelo jornalista Afonso Borges. O que eu também não poderia supor é que nossos caminhos se cruzariam mais uma vez. Em 1998, aproveitando a euforia do Plano Real, juntei meu suado dinheirinho e fui passar férias na Península Ibérica em companhia de Vilma, minha mulher.
Depois de quase 12 horas de viagem, desembarcamos em Lisboa e nos dirigimos ao hotel. Chegamos famintos, cansados e sonolentos. Enquanto ela tomava banho, liguei a TV do apartamento para saber das notícias locais. Os telejornais informavam que o grande escritor lusitano havia acabado de ganhar o Prêmio Nobel.
Naquele momento, penso eu, o próprio Saramago recebia a notícia de uma comissária ou recepcionista numa sala de espera do aeroporto de Frankfurt, onde fora participar da famosa Feira de Livros. Arregacei as mangas e telefonei para a redação do Estado de Minas, dizendo que poderia repercutir a notícia do ponto de vista dos portugueses. Aliás, a opinião pública se dividia: a esquerda e os leitores comuns comemoravam, enquanto os direitistas e a comunidade católica mais conservadora lamentavam o fato de se premiar o autor de Memorial do Convento.
Corri às bancas de revistas, ouvi por telefone o editor do Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Vasconcelos (que havia conhecido num encontro literário realizado em Manaus), comprei vários jornais e visitei livrarias cujas vitrines exibiam livros de Saramago. A prefeitura havia distribuído placas pelas principais esquinas de Lisboa, cumprimentado o autor.
Também colhi depoimentos do rádio e da TV, ouvi pessoas nas ruas, juntei as anotações e fui com Vilma para a casa de nossa amiga Maria de Santa-Cruz, professora de Literatura que residia em Paredes – lugar onde conhecera Saramago quando ele ainda era jornalista. Portugal ainda não tinha internet. O jeito foi ligar a cobrar para a redação e ler a reportagem manuscrita para a colega Clara Arreguy, que teve o cuidado de respeitar cada vírgula do meu texto.
Uma década depois, ao nos excluir de sua folha de pagamento, os Diários Associados não mais se lembravam desse nosso esforço de reportagem em plenas férias. Até porque, para os grandes jornais, cultura é pouco mais que um detalhe na pauta. Mas valeu a aventura por amor ao jornalismo e à literatura. Interessante notar que no momento em que Vilma e eu rumávamos de ônibus numa excursão pelo Sul da Espanha, Saramago e Pilar, sua mulher e tradutora, deixavam Madri num voo para Lisboa, onde seriam merecidamente recebidos com pompa e circunstância.
30 mai 2010
A notícia me pegou de surpresa, como um cruzado no pé do ouvido. Era sábado, depois das dez, quando abri a caixa de e-mails e lá estava a mensagem do Geraldo Vianna, repassada pela Lígia Jacques. José Eymard havia morrido na sexta-feira, 28 de maio, depois de 15 dias de internação devido a um aneurisma na aorta. O corpo havia sido sepultado às nove, no Parque da Colina.
Conheci José Eymard nos tempos áureos do Projeto Fim de Tarde, da Fundação Clóvis Salgado, lá pelos anos 80. Lembro que sua salinha ficava numa sobreloja do Palácio das Artes, acho que em cima de uma das galerias de arte. Lá também trabalhava o Célio Balona, outro mestre da nossa boa música.
No Fim de Tarde eu assisti pela primeira vez a shows de alguns dos grandes músicos que hoje se destacam na cena mineira. Foi lá que conheci o talento de cantoras como Lígia Jacques, Loslena, Titane e Titti Walter; de compositores como Celso Adolfo, Ladyston do Nascimento, Ricardo Faria e Tadeu Franco. A primeira vez que falei com Juarez Moreira foi depois de um show no qual ele acompanhava o Celso. E teve muito mais gente, cujos nomes me escapam pelos buracos da memória.
Tive a oportunidade de dirigir três espetáculos no saudoso projeto, que surgira sob a inspiração do antigo Projeto Pixinguinha, o Seis e Meia da Funarte. E olha que naquele tempo nem existiam leis de incentivo à cultura! Cheguei a escrever e dirigir um show do meu parceiro Angelo Pinho, cujo título era “Belôricéia”. A música de mesmo nome só seria gravada em 1997, por Helena Penna, no disco homônimo dedicado ao centário de Belo Horizonte.
A própria Helena, que hoje luta contra as sequelas de dois AVCs, apresentou no Fim de Tarde o espetáculo “…E agora, Brasil?”. Isso em 1989, no tempo das Diretas Já. O show terminava com toda a plateia cantando a marchinha que fiz sobre o tema, cuja letra chegou a ser publicada no Diário da Tarde.
Helena fez a maior bilheteria daquele ano, o que deu a ela o direito e a honra de repertir a dose em 1990. José Eymard assistiu às duas temporadas e, no final, fez críticas e considerações como bom entendedor do ofício musical. Como sempre, passou-nos dicas importantes, que certamente nos ajudariam em futuros projetos.
Agora estou aqui, nesta noite fria de domingo, ouvindo pela enésima vez o CD “Um Saxofone Bem Brasileiro”, gravado pelo Zé em 2003, no Estúdio Bemol. Realmente, seu sax era pra lá de brasileiro. Mais que isso, era também mineiro da gema. No encarte, Toninho Horta aponta a pureza e a delicadeza do seu som, “cujo toque é do coração”.
Quem sou eu para acrescentar alguma coisa às sábias palavras desse gênio das cordas? O teor do texto que ele assina e a qualidade do som que estou ouvindo me fazem supor que José Eymard era de fato um sacerdote da Música. Basta notar a limpeza do seu sopro e a delicadeza do seu toque nas chaves do instrumento inventado por Adolphe Sax.
O repertório do disco é do melhor bom gosto. Destacam-se composições de Dorival Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Flávio Venturini, Chico Buarque, Tavito, Tom Jobim, Gonzaguinha e do próprio Toninho Horta. Melodias que marcaram época e que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. A gravação do “Beijo Partido”, por exemplo, deve ter deixado o Toninho de cabelos em pé, tamanha a fidelidade à partitura original - coisa que nem sempre acontece por aí.
A última vez que vi José Eymard foi na festa dos 60 anos do meu querido parceiro Eduardo Pinto Coelho, vulgo PC. Aliás, ele era irmão de outro PC: o Paulo César de Oliveira, colunista e diretor do jornal Hoje em Dia. Naquela noite, homenageou o aniversariante solando o sax à capela, o que deixou os convidados emocionados. Depois se sentou à nossa mesa, onde também estavam o Paulo Brandão, o Claudinho Campos, o senador Eduardo Azeredo, entre outros. Falamos essencialmente de música, num clima alegre, cordial e de muita descontração.
Agora o Zé foi tocar com os anjos. Certamente seu saxofone estará tecendo uma nuvem de acordes entre as estrelas. Felizmente, tenho seu CD na estante e poderei matar saudades ouvindo seus doces acordes.
28 abr 2010
Não sei exatamente há quanto tempo mantenho no ar o meu site e o presente blog, que faz parte dele. Há algum tempo, certamente. Aqui tenho o hábito de escrever o que me dá na telha. Publico artigos, contos, crônicas, poemas e até paródias musicais. Sempre convoco amigos, ex-colegas de trabalho e outros conhecidos para ler e opinar. Alguns não leem. Outros leem e não comentam. Uma minoria lê e comenta. Alguns concordam, outros discordam. Outros não fedem nem cheiram.
Acho que todo blog tem os visitantes que merece. É muito bom quando alguém se dá ao trabalho de replicar ou treplicar uma opinião do blogueiro. Meu objetivo principal é estimular a reflexão e o debate sobre temas do cotidiano que nos afetam direta ou indiretamente. Não sou o dono da verdade. Se o fosse, não diria. Aliás, se alguém souber o que é a verdade, que faça o favor de me explicar. Como escreveu o autor luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu grande amigo, “todo homem tem o direito de ter razão”. Nesse sentido, a verdade será sempre relativa.
Voltando ao blog, o problema é que muita gente se serve do mesmo para mandar abobrinhas, pedir favores, enviar os malditos spans, propagandas de viagra, encumpridamento de pênis, equipamentos eletrônicos, sacanagens de todo tipo. De vez em quanto, algum jovem pretenso talento teatral manda mensagem como se eu fosse o Jorge Fernando, diretor e ator da Globo.
Se coloquei minha foto no site não foi por mera vaidade. Meu objetivo era deixar bem claro que sou outro e não aquele cara de olhos verdes e trejeitos delicados que de vez em quando aparece na telinha. Sujeito de grande talento e simpatia. Sou seu fã, diga-se de passagem. Mas parece que essa gente nem se dá ao trabalho de observar minha cara no site e sequer faz ideia do quanto eu e o ilustre xará somos diferentes. Aí sapecam pedidos de oportunidade no elenco do filme ou da nova novela que ele está dirigindo, um teste no Projac, uma dica de curso teatral etc. Até já sugeri ao pessoal da Alterosa a criação do Projeca, mas ninguém me deu bola.
Até bem pouco tempo eu respondia essas mensagens, dizendo para olharem bem minha cara feia no site. O gordinho é meu xará e não somos o mesmo sujeito - eu dizia. Contudo, como não adiantava nada, desisti de dar explicações. As mensagens continuam chegando e agora nem me dou ao trabalho de respondê-las. Isso me leva a pensar que todo mundo que sonha ser ator neste país quer trabalhar na novela das oito. Taí uma coisa que jamais desejei. Sempre quis ter uma obra literária reconhecida, mas sem nunca ser parado nas ruas para dar autógrafos. Mesmo na era das celebridades, não abro mão da privacidade. Liberdade é ser um desconhecido na multidão.
Lembro do dia em que meu amigo Jackson Antunes entrou em pânico numa loja de Belo Horizonte, na qual tentava comprar um eletrodoméstico. Isso ocorreu logo no início de sua atuação na novela O Rei do Gado. Ele fugiu pela porta dos fundos, apavorado diante da multidão de fãs que invadiram a loja para vê-lo de perto e pedir autógrafo. Pouco depois, tentava ele caminhar perto de casa, no Rio de Janeiro, quando uns sujeitos mal-encarados começaram a assediá-lo, perguntando se era mesmo tão valente quanto o pistoleiro que interpretava na tal novela.
O site e o blog são excelentes meios para divulgar ideias e trabalhos de cunho artístico, mas felizmente não nos expõem tanto quanto a TV. Mesmo assim, conheço um monte de artistas e jornalistas que sobrevivem sem essa vitrine. Por meio do site, possíveis leitores, professores e editores interessados em meus livros entram em contato comigo ou ficam sabendo mais sobre minha produção. Sempre que faço palestras em escolas, fico surpreso ao saber que os alunos pesquisaram no meu site ou leram meus artigos estampados no blog.
Isso facilita a interlocução, a compreensão da obra, os trabalhos em sala de aula. No entanto, tenho amigos que ainda passam dias e até semanas sem nem mesmo abrir a caixa de mensagens do e-mail pessoal. E há aqueles que nem têm computador em casa. Francamente, eu não saberia viver desse jeito. Posso ficar sem telefone, rádio, TV e mulher; mas sem computador, nem pensar.
No tocante ao blog, acho curioso que alguns textos escritos há meses ainda sejam visitados. Vez ou outra, alguém posta um comentário sobre um assunto do qual eu nem mais me lembrava. Outro dia um sujeito leu uma artigo que publiquei sobre os equívocos da descriminalização do uso de drogas. Indignado, ele disse que fumava maconha, cheirava pó e que eu sou um babaca. Talvez eu seja mesmo, mas nunca usei droga nenhuma, respondi, a não ser o danado do computador.
19 jun 2009
Meu compadre Juventino descobriu uma maneira criativa de reagir ao cinismo e à desfaçatez de políticos corruptos, editores vendidos, colunistas sociais e outros calhordas de plantão. Assinante de vários jornais, de uns tempos para cá ele tem escolhido cuidadosamente as páginas que irão forrar a gaiola do Cauby, o canário belga que herdou da sogra.
Depois de passar os olhos nos artigos e reportagens de política e economia, Juventino arranca as folhas cuidadosamente, dobra no meio e vai empilhando num canto da sala, para mais tarde reaproveitá-las para amparar o cocô e as casquinhas de alpiste espalhadas pela avezinha canora.
Essa prática se tornou uma espécie de resposta silenciosa ao festival de besteiras que assola a mídia nacional. Mais que um protesto simbólico, o ato de rebeldia do velho leitor de jornais pode ser considerado uma atitude ecologicamente correta, pois não deixa de ser uma forma inteligente de reciclar o papel desperdiçado pelo noticiário.
A maior dificuldade, no entanto, é estabelecer critérios objetivos de escolha, pois as besteiras são tantas que Juventino costuma colocar duas e até mais folhas na bandeja da gaiola. Ultimamente, ele tem preferido os artigos assinados pelo senador José Sarney, principalmente aqueles ilustrados com a foto do ex-presidente e seu ridículo bigode tingido de preto. A troca de forro tem sido diária, pois o cocô do canário parece aumentar na proporção das besteiras impressas.
Antigo assinante de jornais, Juventino é daqueles que ainda resistem ao canto de sereia da Internet e hoje se diz decepcionado principalmente com a pauta diária de economia. Para ele, o fato de o noticiário econômico ocupar tamanho espaço deve-se ao compromisso dos veículos com o sistema financeiro, que impõe ao país as maiores taxas de juros do mundo e uma agiotagem sem precedentes.
No que diz respeito ao noticiário político, Juventino pensa que bastariam duas páginas em branco, pois os repórteres e analistas dessa matéria raramente acrescentam alguma coisa ao que o leitor já sabia. Ex-comunista que esteve a um passo de pegar em armas contra a ditadura militar, meu compadre já pensou até em fazer mea-culpa. Diante de tanta corrupção e do cinismo dos poderes constituídos, confessa sentir saudade dos tempos de chumbo, pois o inimigo pelo menos era visível e estava do outro lado da trincheira.
O mais curioso nessa história é que Juventino descobriu que o Cauby sabe ler. Afinal de contas, dependendo da matéria exposta no fundo da gaiola, o canário dispara a cantar ou simplesmente emudece, permanecendo jururu no poleiro. Se o artigo for ilustrado com a tal foto do Sarney, por exemplo, a cantoria pode durar o dia todo. Mas se a imagem impressa for a do presidente Lula, o silêncio do canário será sepulcral.
Que não se ofendam os eleitores, pois não se trata de preconceito contra dois políticos que tanto já fizeram pelo País. Sem preferência partidária, meu compadre também costuma forrar a gaiola com artigos assinados por Fernando Henrique Cardoso, Delfim Neto, Maílson da Nóbrega e até pelo Jarbas Passarinho. Talvez devido ao sobrenome, este é o que mais agrada o Cauby, que sempre muda de tom quando vê sua foto no jornal.
A bem da verdade, devo admitir que meu compadre anda meio ranzinza ultimamente, mas ele insiste na coerência. Por isso, não suporta discursos que tentam explicar a esculhambação generalizada que tomou conta do País. Por mera provocação, alguém poderia perguntar o que, afinal de contas, ele faz com as resenhas literárias e as colunas sociais publicadas nos cadernos de cultura. Estas ele reserva para forrar o xixi do Lulu, seu basset de estimação, que está sempre de caganeira.
PS: Formado em jornalismo, Juventino pretende agora forrar a gaiola do Cauby com seu velho e amarelado diploma.
* Texto também publicado no site www.tirodeletra.com.br
19 mai 2009
Segunda-feira, 18 de maio, fui a Nova Lima a convite da professora Zoí Rossini, para conversar com alunos da Escola Técnica de Formação Gerencial do Sebrae-MG. Já estive lá diversas vezes, mas nenhuma se comparou a esta. Tive a oportunidade de dividir a cena com Bartolomeu Campos Queirós, um dos autores mais premiados do país, verdadeiro mestre das palavras.
Para relizar o trabalho, que teve a família como tema central, os alunos leram e debateram os livros O olho de vidro do meu avô, escrito por Bartolomeu, e No clarão das águas, de minha autoria. Tivemos um encontro inesquecível, com a participação atenta das turmas e o apoio sempre caloroso da direção da escola.
Sempre que posso, não me furto a atender a esse tipo de chamado. Eventos desse tipo quebram a rotina das aulas, marcam a memória dos estudantes e desmistificam a figura do escritor, que se mostra presente, em carne e osso, ao falar de sua obra e de sua relação com as palavras.
Estar ao lado de Bartolomeu, para mim, foi mais uma vez motivo de honra e orgulho. Sempre admirei seus livros, sobretudo pela facilidade com que escreve e pela escolha dos temas abordados. Chegando em casa, tratei logo de reler Por parte de pai, e novamente me emocionei com a história do garoto e seu avô paterno, personagem real que escrevia histórias nas paredes de casa.
Durante nosso encontro em Nova Lima, Bartolomeu falou de sua infância, de sua relação com os avós, de sua maneira de escrever e confessou que hoje prefere ler e reler os grandes autores. Só escreve quando está bem certo da história que vai contar e se diz satisfeito com a publicação de sua obra também no exterior, embora reconheça que o Brasil é que realmente precisa de livros.
Ainda com problemas de saúde depois de um longo período de internação hospitalar, o escritor se ilumina quando fala de sua grande aventura com os livros. Ele afirma que hoje seu passa-tempo predileto é ficar observando os vários títulos que guarda na estante, imaginando a conversa entre autores e personagens no silêncio da noite.
Pelo nível de atenção e participação dos alunos, deduzo que a professora Zoí acertou na mosca ao promover o encontro. A garotada ficou embevecida, sobretudo diante da sensibilidade do Bartolomeu, que muito nos ensina com suas palavras e seus livros. Habitar o mesmo tempo que ele é para mim um privilégio, motivo de satisfação. Subir com ele no mesmo palco é alimentar a certeza de que valeu a pena ter me dedicado à literatura.
Afinal, Bartolomeu Campos Queirós é um autor reverenciado no Brasil e no exterior e sempre nos ensinou lições de vida com seus livros, sua prosa, sua lúcida visão de mundo. Brevemente ele toma posse na Academia Mineira de Letras, juntando-se a outros expoentes das letras que lá estão, entre eles meus amigos Olavo Romano, José Bento Teixeira de Salles, Angelo Oswaldo e Antenor Pimenta, o caçula da turma. Eleição merecida, que só tem a enobrecer a casa do escritor mineiro!
9 abr 2009
Há algum tempo venho observando a decadência musical brasileira. Decadência não no modo de fazer boa música (pois tem muita gente de valor na estrada), mas na quantidade de porcaria que a maioria das pessoas ouve - e obriga os outros a escutarem. Esse é o resultado da falta de educação musical nas escolas e da pilha de lixo cultural que nos foi imposta pela mídia e pela indústria fonográfica ao longo das últimas décadas, resultando numa espécie de lavagem cerebral.
Esse fenômeno ocorreu acentuadamente depois que as classes menos favorecidas começaram a ter acesso aos discos e aos sofisticados aparelhos de som. Todo “novo rico” transforma o próprio carro numa boate ambulante, movida a funk ou breganejo. Sou do tempo em que um adolescente pobre (era o meu caso) estudava música na escola e juntava dinheiro pra comprar um ou dois LPs no fim do ano, isso quando não pedia um disco de presente ao amigo-oculto.
De outro lado, a tecnologia barateou o preço dos discos e possibilitou não apenas o consumo, mas a própria pirataria, que pôs fim ao império das gravadoras. Com isso, o feitiço virou contra o feiticeiro. Depois de passar décadas impondo merda sonora aos ouvidos do público, as fábricas de disco sucumbem ao próprio veneno.
O mais lamentável de tudo é ver sacrificada uma tradição que sempre foi motivo de orgulho para os brasileiros. Nossa música já foi (e talvez ainda seja) considerada a melhor do mundo. De Carmen Miranda a Tom Jobim, passando pelos bossa-novistas, tropicalistas e roqueiros nacionais, a MPB já fez tanto sucesso lá fora quanto o nosso futebol (este, aliás, em franca decadência, assim como a música).
Por essas e outras, ando desanimado com as composições musicais. Tenho mais de 60 canções gravadas, a maioria em parceria, e nunca ganhei dinheiro com isso. Aliás, ganho de vez em quando um caraminguado de direitos autorais, quando algum parceiro inclui uma de nossas canções num show fiscalizado pelo Ecad. Sempre fui amador musical. Aquele que ama a música. Mas ao tentar fazer desse amor uma profissão, dei com os burros n’água - embora não possa reclamar da sorte.
Desde muito cedo sonhei me tornar um compositor popular. Estudei jornalismo, dediquei-me aos livros e busquei na música uma espécie de prolongamento da literatura. Afinal, entendo que a palavra escrita chega ao ponto em que precisa ser cantada. Mas devo esclarecer - como declarei ao site tirodeletra - que poesia é poesia e letra de música é letra de música. O poema tem ritmo próprio e obedece ao compasso das próprias palavras, sem necessitar de melodia. Já a letra de música precisa se grudar à melodia para desenhar uma forma harmônica.
Alguns dos poucos que já se deram ao trabalho de ler e ouvir minhas músicas com a devida atenção se mostram surpresos com a variedade de temas e gêneros musicais. Realmente, gosto da música brasileira por inteiro e cresci ouvindo de tudo, com destaque para Chico, Caetano, Milton, Aldir, Erasmo, Vandré, Noel, Tom, Vinícius, Caymmi, Secos e Molhados, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Gismonti, Renato Teixeira e muita gente mais.
Acho que roubei um pouco de cada ídolo para compor meu próprio estilo - até porque minha obra lítero-musical é quase toda de citação. E também ouvi (e ainda ouço) Beatles, Dylan, Stones, Sinatra, Cole Porter, Piaf, Azznavour, Piazzolla, Paco de Lucia, Billie Holliday, Miles Davis e outras feras do jazz. Além de mestres erutidos, como Bach, Beethoven, Chopin, Debussy, Ravel, Stravinsky e Villa-Lobos. Recentemente, fiz um mergulho na música caipira, para escrever o programa “Nos Braços da Viola”, para a TV Brasil (agora reprisado aos domingos, às 11h30, pela Rede Minas).
Lembro que quando o primeiro disco de música por computador chegou ao Brasil, aproveitei uma faixa de Bach como fundo musical para um poema que apresentei num dos festivais de artes do Colégio Anchieta. Fiquei em primeiro lugar com a minha performance de andróide. De lá para cá, fui me dedicando cada vez mais à composição, fazendo letras e, algumas vezes, melodias.
Já compus de tudo um pouco: samba, choro, frevo, marcha, valsa, bossa nova, coco de embolada, moda de viola, fado, tango, samba-rock e até rap. No entanto, tenho me perguntado pra quê tudo isso. Talvez o mundo estivesse melhor sem tantas músicas. Lembro de uma entrevista de Chico Buarque na qual ele dizia que não tinha aparelho de som em casa, pois estava se dedicando mais à literatura. Hoje eu entendo do que ele estava falando.
Tive a sorte de fazer parcerias com músicos que sempre admirei, entre eles Angelo Pinho, Clésio Vargas (meu primeiro parceiro), Chico Lobo, Tino Gomes, Manezinho do Forró, Valter Braga (que ganhou o prêmio de melhor letrista no festival da TV Cultura, em 2007), Rick Udler, Tabajara Belo, Eric Mordaché, Eduardo Pinto Coelho, Geraldo Vianna, Francisco Saraiva, Roberto d’Oliveira, Rogério Leonel, Rodrigo Delage e até Chiquinha Gonzaga (fiz uma letra para o maxixe “Satan”) e Nino Rota (fiz letras sobre duas melodias de sua autoria). Tive a sorte de ter Helena Penna entre outras intérpretes de valor reconhecido cantando minhas modestas composições.
Uma vez participei de uma promoção no site oficial de Chico Buarque (olha ele de novo!), fazendo versos pra canção “Bom Conselho” e fui premiado com uma caixa de DVDs. Escrevi: “Ouça um bom conselho/ Que lhe dou de graça/ Para o vinho velho/ A nova taça”… De certa forma, fui seu parceiro, ainda que informalmente.
Mas é aquele negócio: você faz música e ninguém grava. Quando grava, não toca no rádio. Quando toca, você não ganha direitos autorais. Isso quando o próprio parceiro ou intérprete não inclui a tal composição nos shows. Resultado: compor pra quê? Pra quem ouvir? Melhor publicar livros, fazer palestras para estudantes, escrever para TV, cinema ou bula de remédio.
Não digo que vou abandonar a música, pois ela está no meu sangue tanto quanto a literatura. Ainda há poucos dias não resisti à tentação e coloquei letra numa linda melodia do violeiro Zeca Colares, que disse ter gostado. Também estou fazendo parcerias com o Max Rosa, outro violeiro que ainda nem tive o prazer de conhecer pessoalmente. Contudo, devo confessar que o parceiro que eu mais tenho procurado é o silêncio, esse cidadão esguio que se faz cada vez mais ausente no mundo das bate-estacas. Numa sociedade de analfabetos e surdos, a música certamente não será necessária.
12 fev 2009
Meu compadre Juventino é do tipo que dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair. Sua última aventura foi parar até na Internet. Dia desses, vindo de uma pescaria lá pelos lados de Pirapora, no Norte de Minas, ele foi ultrapassado por uma BMW vermelha, que de tão veloz provocou um vácuo e sacudiu a lataria de sua implacável Variant.
“Esse sujeito tá mesmo com pressa”, ruminou consigo mesmo. “Vai tirar o pai da forca…”
Minutos depois, numa curva da estrada, lá estava a mesma BMW parada junto ao acostamento, com um pneu traseiro murcho. O motorista fez sinal, pedindo ajuda. Mineiro às antigas, Juventino piscou o farol e estacionou um pouco à frente.
- Boa tarde, tchê - disse o motorista da BMW ao se aproximar.
- Tarde - respondeu Juventino, saindo da Variant.
- Será que o amigo teria um macaco que pudesse me emprestar? - perguntou o sujeito alto e parrudo, de no máximo 40 anos.
- O senhor veio do Sul sem trazer um macaco? - admirou-se Juventino, ao ler o nome Pelotas na placa da BMW.
- Só percebi que o havia esquecido ao tentar trocar o pneu - explicou o gaúcho.
- Né problema não. Tenho aqui um dos bão - disse Juventino, abrindo o porta-mala da Variant.
Para encurtar a prosa, trocaram o pneu em poucos minutos. O gaúcho agradeceu, entrou na BMW, ligou o som bem alto e arrancou a toda velocidade.
Juventino guardou o macaco no porta-mala, limpou as mãos num pedaço de estopa e retomou seu caminho nos rumos de Belo Horizonte. Meia hora depois, resolveu parar num posto de gasolina na beira da estrada pra completar o tanque. Lá estava a mesma BMW, cujo motorista calibrava os pneus.
Ao se aproximar, talvez surpreso por reencontrar o gaúcho, Juventino se distraiu no freio e o pára-choque da Variant quebrou uma lanterna traseira da BMW. O gaúcho teve um sobressalto e o sangue lhe subiu à cabeça.
- Mas que droga, mineiro, olha o que fizeste com o meu carro!
- Foi por querer não. Eu me distraí e peço desculpas, amigo - disse Juventino, humildemente, sem sair da Variant.
- Amigo é o cacete… Tudo sabes o quanto me custou este carro? Teu calhambeque não vale uma roda de cromo dessa, ba!
Juventino se desculpou novamente e disse que aquilo não seria motivo para uma briga.
- Brigar? Eu vou é chamar a Política Rodoviária e fazer a ocorrência. Quero que me pague agora mesmo o prejuízo.
Sem perder a calma, que mineiro bom não se apavora, meu compadre buscou uma garrafa de cachaça no porta-luva da Variant.
- Ocê tá muito nervoso. Vai ver que anda bebendo muito chimarrão e isso não faz bem à saúde - comentou. - Bebe um trago dessa daqui pra se acalmar, que depois a gente conversa.
O gaúcho sentiu-se desconcertado com tanta gentileza do mineiro e acabou aceitando a oferta. Segurou a garrafa, bebeu um longo gole no bico e limpou a boca nas costas da mão.
- Aguardente da boa, tchê!
- É do alambique da fazenda onde eu tava pescando - disse Juventino. - Bebe mais um traguinho pra modo de relaxar direito.
O gaúcho tomou mais dois goles e devolveu a garrafa ao meu compadre.
- Obrigado, tchê!
- Não seja por isso - disse Juventino. - Agora ocê pode chamar os home da Polícia Rodoviária. Mas não se esqueça de dizer pra trazerem o tal bafômetro…