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Inutilidade da poesia

A poesia não serve pra nada.

Não serve pra comer

Nem pra beber.

Não serve pra vestir

Nem pra calçar.

 

A poesia não toca no rádio

Nem melhora a audiência da TV.

Não dá lucros,

Não paga impostos,

Não vence eleições,

Nem alucina os viciados.

 

A poesia é inútil,

A poesia é estéril,

A poesia não é isso nem aquilo,

Não ata nem desata,

Não fede nem cheira.

A poesia, senhores, é um absurdo!

 

 

Haicai suíno

Fantasma de si mesmo

o porco se assombra

com o próprio torresmo

Ave, viola! (cordel da viola caipira)

A viola, meu compadre,

Dá licença de tocar!

Chama os filhos e a comadre

Para modo de escutar.

Já não há um cão que ladre,

Até o padre quer dançar.

 

A viola é minha escola,

Vou fazer o meu repente.

Quem gostar me dê uma esmola,

Que aceito humildemente.

Toda moda nos consola,

Faz a gente mais contente.

 

A viola tem dois lados,

O de dentro e o de fora.

O seu timbre lembra fados

Lusitanos de outrora.

Seus trinados são alados,

Voam longe e vão-se embora.

 

A viola é tradição,

Não deve nada a ninguém.

Na cidade e no sertão

Ninguém tem o que ela tem.

Violeiro é meu irmão

Na confraria do bem.

 

A viola vem de longe,

Lá dos tempos de Cabral.

Era instrumento de monge

Nos templos de Portugal.

Quem a escuta responde

Com sentimento abissal.

 

A viola é viajante.

Caravanas, caravelas,

Cara lusa radiante

Segue a lua e as estrelas

Pra bem longe, bem adiante,

Lá no céu poder revê-las.

 

A viola é do repente,

Calango, coco e catira.

Sua levada é o que acende

O pito do bom caipira.

E se a musa não se rende,

Amarra a cuja com embira.

 

A viola é feiticeira,

Traz no bojo um caldeirão.

Faz feitiço a noite inteira

Com os acordes da canção.

Mulher casada e solteira

Ficam loucas de paixão.

 

A viola é rezadeira

Louva a Deus e a São João

Do Amarante e a padroeira

Do Rosário e do sertão.

Mulher dama, e mesmo freira,

Dança em meio à procissão.

 

A viola e a rabeca

Formam dupla sertaneja

Desde os tempos lá do Jeca,

Cordas de tripa, que seja!

Feito quem joga peteca,

Fazem moda de bandeja.

 

A viola é congadeira,

Segue os ritos do tambor.

Maruja catopeseira,

Acompanha o cantador.

Foliã moçambiqueira,

Faz no ar o seu andor.

 

A viola é aparente,

Alaúde, violão…

Violeiro sai na frente

Comandando a procissão.

No louvor do povo crente,

Todo canto é uma oração.

 

A viola é pactária,

Diz a lenda do sertão.

Pra tocar de forma vária,

Rio abaixo, em maldição,

Violeiro canta a ária,

Vende a alma e louva o cão.

 

A viola é de pinho,

Mas tem de cocho também.

Angelim toca sozinho

Só nos braços do meu bem.

Cada toque é um caminho

Pra quem sabe de onde vem.

 

A viola tem arrojo,

Tem capricho e sedução.

Dorme dentro do estojo

Sem temer assombração.

Bem lá dentro do seu bojo

Brilha a lua do sertão.

 

A viola é preguiçosa,

Só trabalha por amor.

Acompanha verso e prosa,

Na glosa do cantador.

Dedo com o qual ela goza

Não usa anel de doutor.

 

A viola é seresteira,

Toca fundo o coração

Da moça namoradeira

Recostada no portão.

Tece moda a noite inteira

Sem errar a marcação.

 

A viola de Queluz

Serve ao cego de bengala.

Dedilhada ela reluz

Luz no breu, noite de gala.

Boa moda é a que seduz

No terreiro ou lá na sala.

 

A viola é namorada,

Amante, musa e mulher.

Ela tem um dom de fada,

Minhas mãos, já sabe ler.

No seu braço fiz morada,

Dou de tudo o que ela quer.

 

A viola é artesã,

Costureira de mão cheia.

Tece fitas, trança lã,

Feito aranha tece a teia.

Criativa tecelã,

Faz a trama na colcheia.

 

A viola é companheira

De quem vive em solidão.

Amiga pra vida inteira,

Ela alegra o coração

Do caipira sempre à beira

Do abismo da paixão.

 

A viola é garimpeira

Procurando pedra nova.

Na bateia e na peneira

Rio acima se renova.

No sertão não há maneira

De viver sem sua trova.

 

A viola é lapidária,

Toda moda é pedra bruta.

Nasce a nota igual a um pária,

Ainda verde feito a fruta.

Violeiro, vida agrária,

Leva a vida na labuta.

 

A viola é encantada,

Sabe passes de magia.

Ao seu som não penso em nada,

Não há dor nem alegria.

Caipira segue a estrada

Asfaltada de poesia.

 

A viola é roseana,

Louva as coisas do sertão.

Raramente ela se engana,

Vive tudo com emoção.

Tem também viola urbana,

Ecoando a solidão.

 

A viola é do Sudeste:

São Paulo, Minas, Goiás.

Seu Zé Coco foi agreste.

Renato Andrade, aliás,

Fez um som quase celeste

Que só um mestre refaz.

 

A viola é bem moderna,

Já diziam os modernistas,

Sua alma é eterna.

Cantador e repentistas

Tocaram até na caserna,

No tempo dos tenentistas.

 

A viola é pantaneira,

De Helena a Almir.

Desce o rio em corredeira,

De chalana a prosseguir.

Tuiuiú, ave ligeira,

Do seu bojo há de sair.

 

A viola é virtual,

Já tem site na Internet.

O seu toque é universal,

Sua letra é em ofsete.

Tem caipira espacial,

Viajando de foguete.

 

A viola é da garoa,

De Pacífico a Boldrin.

Quando toca o som ecoa

Do Bexiga ao Itaim.

Tião Carreiro e sua loa:

Caipirapora sim.

 

A viola é inexata,

Inezita sabe disso.

Quando a cuja se desata,

Sua música é um feitiço.

Violeiro, aristocrata,

Cumpre à risca o compromisso.

 

A viola é boa amiga,

É leal feito ninguém.

Seu arpejo é pra formiga

E pra cigarra também.

Não há aquele que consiga

Merecer o seu desdém.

 

A viola vive acesa,

Candeeiro a iluminar

Os porões da alma tesa

Pela vida a caminhar.

Violeiro que se preza

Faz a reza no cantar.