3 jul 2009
A poesia não serve pra nada.
Não serve pra comer
Nem pra beber.
Não serve pra vestir
Nem pra calçar.
A poesia não toca no rádio
Nem melhora a audiência da TV.
Não dá lucros,
Não paga impostos,
Não vence eleições,
Nem alucina os viciados.
A poesia é inútil,
A poesia é estéril,
A poesia não é isso nem aquilo,
Não ata nem desata,
Não fede nem cheira.
A poesia, senhores, é um absurdo!
14 mai 2009
Fantasma de si mesmo
o porco se assombra
com o próprio torresmo
27 dez 2008
A viola, meu compadre,
Dá licença de tocar!
Chama os filhos e a comadre
Para modo de escutar.
Já não há um cão que ladre,
Até o padre quer dançar.
A viola é minha escola,
Vou fazer o meu repente.
Quem gostar me dê uma esmola,
Que aceito humildemente.
Toda moda nos consola,
Faz a gente mais contente.
A viola tem dois lados,
O de dentro e o de fora.
O seu timbre lembra fados
Lusitanos de outrora.
Seus trinados são alados,
Voam longe e vão-se embora.
A viola é tradição,
Não deve nada a ninguém.
Na cidade e no sertão
Ninguém tem o que ela tem.
Violeiro é meu irmão
Na confraria do bem.
A viola vem de longe,
Lá dos tempos de Cabral.
Era instrumento de monge
Nos templos de Portugal.
Quem a escuta responde
Com sentimento abissal.
A viola é viajante.
Caravanas, caravelas,
Cara lusa radiante
Segue a lua e as estrelas
Pra bem longe, bem adiante,
Lá no céu poder revê-las.
A viola é do repente,
Calango, coco e catira.
Sua levada é o que acende
O pito do bom caipira.
E se a musa não se rende,
Amarra a cuja com embira.
A viola é feiticeira,
Traz no bojo um caldeirão.
Faz feitiço a noite inteira
Com os acordes da canção.
Mulher casada e solteira
Ficam loucas de paixão.
A viola é rezadeira
Louva a Deus e a São João
Do Amarante e a padroeira
Do Rosário e do sertão.
Mulher dama, e mesmo freira,
Dança em meio à procissão.
A viola e a rabeca
Formam dupla sertaneja
Desde os tempos lá do Jeca,
Cordas de tripa, que seja!
Feito quem joga peteca,
Fazem moda de bandeja.
A viola é congadeira,
Segue os ritos do tambor.
Maruja catopeseira,
Acompanha o cantador.
Foliã moçambiqueira,
Faz no ar o seu andor.
A viola é aparente,
Alaúde, violão…
Violeiro sai na frente
Comandando a procissão.
No louvor do povo crente,
Todo canto é uma oração.
A viola é pactária,
Diz a lenda do sertão.
Pra tocar de forma vária,
Rio abaixo, em maldição,
Violeiro canta a ária,
Vende a alma e louva o cão.
A viola é de pinho,
Mas tem de cocho também.
Angelim toca sozinho
Só nos braços do meu bem.
Cada toque é um caminho
Pra quem sabe de onde vem.
A viola tem arrojo,
Tem capricho e sedução.
Dorme dentro do estojo
Sem temer assombração.
Bem lá dentro do seu bojo
Brilha a lua do sertão.
A viola é preguiçosa,
Só trabalha por amor.
Acompanha verso e prosa,
Na glosa do cantador.
Dedo com o qual ela goza
Não usa anel de doutor.
A viola é seresteira,
Toca fundo o coração
Da moça namoradeira
Recostada no portão.
Tece moda a noite inteira
Sem errar a marcação.
A viola de Queluz
Serve ao cego de bengala.
Dedilhada ela reluz
Luz no breu, noite de gala.
Boa moda é a que seduz
No terreiro ou lá na sala.
A viola é namorada,
Amante, musa e mulher.
Ela tem um dom de fada,
Minhas mãos, já sabe ler.
No seu braço fiz morada,
Dou de tudo o que ela quer.
A viola é artesã,
Costureira de mão cheia.
Tece fitas, trança lã,
Feito aranha tece a teia.
Criativa tecelã,
Faz a trama na colcheia.
A viola é companheira
De quem vive em solidão.
Amiga pra vida inteira,
Ela alegra o coração
Do caipira sempre à beira
Do abismo da paixão.
A viola é garimpeira
Procurando pedra nova.
Na bateia e na peneira
Rio acima se renova.
No sertão não há maneira
De viver sem sua trova.
A viola é lapidária,
Toda moda é pedra bruta.
Nasce a nota igual a um pária,
Ainda verde feito a fruta.
Violeiro, vida agrária,
Leva a vida na labuta.
A viola é encantada,
Sabe passes de magia.
Ao seu som não penso em nada,
Não há dor nem alegria.
Caipira segue a estrada
Asfaltada de poesia.
A viola é roseana,
Louva as coisas do sertão.
Raramente ela se engana,
Vive tudo com emoção.
Tem também viola urbana,
Ecoando a solidão.
A viola é do Sudeste:
São Paulo, Minas, Goiás.
Seu Zé Coco foi agreste.
Renato Andrade, aliás,
Fez um som quase celeste
Que só um mestre refaz.
A viola é bem moderna,
Já diziam os modernistas,
Sua alma é eterna.
Cantador e repentistas
Tocaram até na caserna,
No tempo dos tenentistas.
A viola é pantaneira,
De Helena a Almir.
Desce o rio em corredeira,
De chalana a prosseguir.
Tuiuiú, ave ligeira,
Do seu bojo há de sair.
A viola é virtual,
Já tem site na Internet.
O seu toque é universal,
Sua letra é em ofsete.
Tem caipira espacial,
Viajando de foguete.
A viola é da garoa,
De Pacífico a Boldrin.
Quando toca o som ecoa
Do Bexiga ao Itaim.
Tião Carreiro e sua loa:
Caipirapora sim.
A viola é inexata,
Inezita sabe disso.
Quando a cuja se desata,
Sua música é um feitiço.
Violeiro, aristocrata,
Cumpre à risca o compromisso.
A viola é boa amiga,
É leal feito ninguém.
Seu arpejo é pra formiga
E pra cigarra também.
Não há aquele que consiga
Merecer o seu desdém.
A viola vive acesa,
Candeeiro a iluminar
Os porões da alma tesa
Pela vida a caminhar.
Violeiro que se preza
Faz a reza no cantar.