1 set 2010
O Jornal do Brasil deixa de circular em papel. Os saudosistas lamentam o fato, mas na verdade o tradicional veículo já estava morto há vários anos. Só havia se esquecido de cair. Queiramos ou não, para os donos de jornais, o jornalismo é apenas um negócio. E no mundo dos negócios é assim: produto que não vende sai de circulação. Empresário visa lucro e não pode se dar ao luxo de arcar com prejuízos.
O JB não será o único a deixar saudades. Outros veículos tradicionais estão na fila. Lembro, com pesar, o fim do Diário da Tarde. Era o segundo jornal dos Diários Associados em Minas Gerais. Circulou durante 70 anos, mas não dava lucro. De certa forma, concorria com o Estado de Minas, “o grande jornal dos mineiros”. O DT era campeão de venda nas bancas, enquanto o EM se salvava pelo número de assinantes.
O curioso é que fecharam o DT para criar um tablóide chamado Aqui. A estratégia era competir em termos de igualdade com a Sempre Editora, que havia lançado o Super Notícias. Primeiro desdenharam a ideia do concorrente. Diziam que o projeto inspirado no sucesso de veículos populares de outras praças não faria sucesso em BH, pois “o mineiro é diferente”.
O Super Notícias acabou vingando, ao se tornar o jornal de maior vendagem diária no país. Aí os Associados cresceram o olho naquela fatia de mercado. Resultado: enterraram o DT e aderiam à moda dos tablóides de R$ 0,25. O Aqui chegou a Brasília e a outras cidades mineiras. Seu preço de produção é bem menor que o do antigo DT. A não ser pelos quase 70 funcionários demitidos, pouca gente lamentou o fato. Talvez uma dúzia de leitores fiéis, que acabaram migrando para o Aqui ou seu concorrente.
Essa é a savana típica do mundo dos negócios em tempos de globalização. Nós, jornalistas, é que idealizamos o exercício profissional. Patrão, não importa o ramo de negócios, visa sempre o lucro. Ninguém inaugura um hospital para salvar vidas, mas para ganhar dinheiro. O mote vale para igrejas, motéis ou… jornais. Curioso é que sempre falamos mal dos patrões, mas quando resolvem mudar de ramo, abrimos o bué. E haja lenço para enxugar tanta lágrima derramada em vão.
O fechamento de jornais como o JB, o DT ou mesmo a Gazeta Mercantil demonstra a mudança de paradigmas no mundo das comunicações. Nem todos os jornais de papel irão de fato sucumbir. Aqueles que se adaptarem à nova realidade mercadológica certamente sobreviverão às intempéries geradas principalmente pelas novas tecnologias da informação. Tais ferramentas devem ser vistas como aliadas e não como adversárias do jornalismo.
O problema é que o imediatismo patronal resulta numa visão arrogante, de curto prazo. Os empresários da comunicação parecem incapazes de fazer mea-culpa. A indiferença com a realidade dos fatos, o péssimo nível de escolaridade da maioria dos brasileiros, bem como o crescente desinteresse pela leitura são os fatores que realmente impactam os veículos impressos. A grande maioria prefere a informação televisiva ou radiofônica, em vez do jornal ou revista de papel.
Outra parte dos leitores – aquela que tem pressa para ler notícias – migra cada vez mais para a internet. Afinal, para que ir à esquina comprar notícias de ontem se temos ao alcance dos olhos o noticiário de agora? E a leitura virtual tem a vantagem de não sujar as mãos com tinta à base de chumbo. E ainda economiza papel! Nesse sentido, os ecologistas agradecem aos inventores da internet.
Como já foi dito e redito, a saída para os impressos seria a análise dos fatos por especialistas e a prática do velho jornalismo investigativo. Mas as duas coisas custam caro, dão trabalho e dor de cabeça, podendo ser feitas também nos meios eletrônicos. Portanto, como já tive oportunidade de afirmar em outros artigos, só não sei como faremos para forrar gaiolas daqui a alguns anos.
26 ago 2010
A norma absurda que estava em vigor consta da Lei 9.504/97, regulamentada por resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quem satirizasse algum candidato entre 1º de julho até o fim do período eleitoral poderia ser penalizado nos termos da lei. Felizmente o STF revogou tal aberração.
Pelo visto, algumas cabeças políticas gostariam de acabar com a irreverência dos brasileiros por decreto. O novo estatuto do torcedor esportivo aprovado recentemente, por exemplo, chega ao ridículo de proibir o palavrão nos estádios de futebol. A proibição da sátira aos candidatos era um absurdo ainda maior, justamente por contrariar a Constituição Federal.
Propaganda enganosa dos candidatos
O Brasil vive um momento controverso no que diz respeito aos direitos de expressão e livre informação. De um lado os interesses políticos e econômicos dos proprietários de veículos de comunicação, do outro as patrulhas ideológicas geralmente atreladas a interesses governamentais. No meio de tudo, o leitor-eleitor bombardeado pela propaganda enganosa e pela desfaçatez daqueles que fazem leis em benefício próprio.
Desde os tempos da ditadura que não tínhamos um processo eleitoral tão obtuso como o que agora se apresenta. Comprometidos apenas com seus respectivos projetos de poder, os principais partidos se lançaram numa desesperada estratégia de alianças das mais esdrúxulas de que se têm notícias. Enquanto a prometida reforma política continua engavetada, os discursos mudam conforme a conveniência dos candidatos.
Para tapar o sol com a peneira, a classe política se arma contra aqueles que pensam de forma independente ou que se atrevem a formular críticas a práticas nada recomendáveis. De mensalão em mensalão, o povo vai sendo enganado e os projetos que realmente seriam de interesse público permanecem adiados. Aparecem verbas para reformar estádios e construir centros administrativos, enquanto faltam recursos para saúde, cultura, educação e segurança pública.
Dissimulação na lógica eleitoral
O curioso é que a maioria dos políticos sequer lê com atenção aquilo que assina, haja vista a polêmica sobre o Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH). Outro episódio do gênero foi a “pegadinha” armada pelo programa CQC da Band pedindo a inclusão da cachaça na cesta básica do brasileiro. Ao serem desmascarados, alguns parlamentares perderam a compostura e agrediram a equipe do programa.
Há que se destacar a dissimulação que rege a presente lógica eleitoral. Candidatos sem propostas reais de mudança se apresentam como revolucionários, enquanto falsos progressistas mudam o tom do discurso para enganar a opinião pública. Partidos nanicos e sem nenhuma expressão prometem o céu na terra para depois se venderem a quem pagar melhor. Enquanto isso, cresce o desinteresse popular pela política. Até porque, votar deixou de ser um direito para se tornar mera obrigação.
2 ago 2010
Os atentados ocorridos no último fim de semana em São Paulo trazem à tona um problema antigo e preocupante, que é a fragilidade da segurança pública diante do crime organizado. Esse quadro acabou transformando a sociedade brasileira em refém dos bandidos. Boa parte das favelas vive sob o domínio do tráfico de drogas, enquanto nos bairros de classe média as residências se transformaram em prisões, isoladas por muros altos, cercas elétricas e outros dispositivos de segurança.
O mais curioso é que os atos criminosos praticados na maior cidade do país ocorrem quase sempre nos períodos pré-eleitorais, quando PT e PSDB se digladiam nas urnas. Seria mera coincidência ou haveria algo de mais podre nos bastidores republicanos que nenhum nariz ainda farejou? De qualquer forma, é lamentável que a mídia se limite à prática do jornalismo declaratório, em vez de investigar a fundo questões de interesse público.
Todo mundo sabe que o sistema prisional brasileiro nunca foi um modelo exemplar. As cadeias são pouco mais que currais ou chiqueiros abarrotados de gente. A Justiça é lenta e, na maioria dos casos, as penas são brandas e nem sempre levadas a termo. Muito se fala e pouco se faz para mudar o quadro.
Anatomia do crime organizado
Num país de vocação autoritária e anti-republicana, no qual os políticos agem de acordo com interesses pessoais ou de grupos econômicos, o submundo sempre demonstrou capacidade de organização superior à do Estado. Contribui para isso a ação oportunista de servidores corruptos, mal-remunerados e de formação deficitária.
Quem leu o livro “Comando Vermelho”, do jornalista Carlos Amorim, deve se lembrar da anatomia do crime organizado no Rio de Janeiro. Segundo o autor, tudo teria começado nos presídios da Ilha Grande, durante o regime militar, quando presos comuns passaram a dividir as celas com ex-guerrilheiros e ativistas políticos de esquerda. Pouco a pouco, a camaradagem entre os dois grupos se estabeleceu. Facções rivais que dominavam os presídios passaram a agir de forma organizada, solidária e eficiente.
De lá para cá, como num jogo de xadrez, o sistema prisional foi sendo pouco a pouco dominado pelo chamado crime organizado. O que se diz por aí é que os presos é que mandam nos presídios. Assim, não fica difícil perceber que nossas autoridades dormiram no ponto em algum momento da história. Em outras palavras, o Estado é que se mostra desorganizado demais para reassumir as rédeas da questão.
Perguntas continuam sem respostas
No livro de Amorim consta que um comandante da Ilha Grande chegou a alertar seus superiores no continente sobre a mudança de comportamento dos presos comuns. As brigas de gangues haviam diminuído e parecia haver de fato uma organização solidária entre eles. Seus relatórios, no entanto, foram ignorados e a organização criminosa acabou se consolidando.
Há que lembrar que muito já se falou sobre a hipotética ligação do PCC com gente das Farcs, bem como sobre a simpatia de setores do PT pela causa desses ex-guerrilheiros que hoje servem ao narcotráfico. Essa questão nunca foi investigada a fundo. No entanto, é bom lembrar que durante o regime militar os extremistas de direita explodiam bombas nas ruas justamente para assustar a população e culpar os comunistas. Em termos políticos, parece que tudo é possível.
De qualquer maneira, a pauta jornalística vive de idas e vindas sobre temas que se repetem periodicamente, deixando em branco alguns itens do lide. Com a espetacularização cada vez maior da notícia, eventos como o assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André, o escândalo do mensalão e o recente desaparecimento da ex-amante do goleiro Bruno parecem mesmo fadados ao esquecimento. Nesses casos, só sabemos o que, onde e quando ocorreu. Quem fez, por que fez e como fez são perguntas que geralmente permanecem sem respostas.
* Artigo repuclicado no site http://www.observatoriodaimprensa.com.br/
3 jul 2010
Futebol tem dessas coisas. Ou, como diria Noel Rosa, quem acha vive se perdendo. Brasil e Argentina saíram da Copa principalmente devido à arrogância dos seus respectivos técnicos. Dunga, que devia se chamar Zangado, passou quase todo o tempo brigando com a imprensa. Maradona, que ganha do nosso técnico em termos de carisma, ficou o tempo todo de salto alto, desfazendo dos adversários. Ambos provavelmente se esqueceram daquela máxima de que o futebol é uma caixinha de surpresas.
Vale notar, no entanto, uma diferença básica entre o estilo dos dois ex-craques do futebol. Enquanto Dunga saiu de campo de cabeça baixa, nitidamente decepcionado com o desempenho de seus atletas diante da Holanda, Dieguito fez questão de adentrar o tapete para abraçar e beijar seus rapazes num gesto de companheirismo e solidariedade frente à derrota para a Alemanha. Verdade seja dita, os jogadores brasileiros entregaram os pontos e saíram do sério na hora do vamos ver, enquanto os argentinos lutaram bravamente e sem perder a cabeça.
Essa diferença resulta principalmente do estilo e da postura de cada um dos dois técnicos. Esse tema, aliás, poderia até inspirar consultores empresariais que lecionam cursos de liderança para executivos de grandes organizações. Dunga, o irritadiço que guarda mágoa no congelador, acabou influenciando negativamente o comportamento de sua equipe.
O destempero dos nossos jogadores
Até mesmo o equilibrado “irmão” Robinho estava nitidamente nervoso, gritando palavrões na cara dos adversários e do juiz durante a partida decisiva. Enquanto isso, conhecidos pela agressividade em campo, os argentinos surpreenderam pelo comportamento esportivo, relativamente ameno. O jogo contra a poderosa Alemanha foi moderado, sem discussões desnecessárias ou cenas de violência e estupidez como a que resultou na merecida expulsão de Felipe Melo do nosso time, no dia anterior.
Curiosamente, em certo momento, o goleiro alemão fez uma defesa extraordinária, esmurrando a bola na pequena área como Júlio César tentou fazer no momento fatídico em que o mesmo Felipe desviou-a para a rede marcando gol contra. Diante da derrota iminente já no meio do segundo tempo, Dunga permaneceu paralisado e sequer mexeu no time com a lucidez que a situação exigia. Ele já havia cometido esse erro por não substituir Kaká antes de sua expulsão, na partida contra a Costa do Marfim.
Outro ponto importante a ser observado é que os jogadores brasileiros raramente se saem bem nas partidas em que trocam a camisa amarela pelo uniforme azul e branco. Parece mandinga ou superstição. Esse fato, inclusive, já poderia ter merecido um estudo sobre a influência subjetiva das cores na psique dos atletas em momentos de decisão.
Os efeitos do “cala boca, Galvão”
De qualquer forma, o “cala boca, Galvão” parece ter surtido efeito, já que o famoso locutor estava rouco durante a partida Brasil e Holanda. Ele certamente pressentia o perigo, pois sabia que aquele era de fato o nosso primeiro grande adversário na África do Sul. No final da disputa, diante do inegável fracasso da seleção brasileira, ficou se desculpando, dizendo que não devemos esquecer que isso é apenas futebol. Vale lembrar que a Rede Globo e boa parte da imprensa alimentaram a ilusão da torcida sem fazer as devidas críticas ao desempenho medíocre de nossos atletas diante de times inexpressivos, que não têm tradição futebolística.
O suposto desentendimento de Dunga com a direção da CBF, no episódio Fátima Bernardes, já atestava a falta de entrosamento e harmonia no comando da seleção. A convocação de alguns jogadores que parecem ser meros produtos de marketing apontava para os riscos de uma derrota decepcionante, o que de certa forma demorou a acontecer. Um time, por melhor que seja, sempre corre o risco de ser derrotado. No entanto, o Brasil jogou pouco e não conseguiu reagir à ação da “laranja mecânica” holandesa, única de suas adversárias que estava à altura do seu futebol.
No circo armado pela mídia e pelos patrocinadores da Copa, novamente a seleção brasileira se destacou mais nos bastidores do que propriamente nos jogos que realizou. Fizemos uma campanha abaixo do nosso dever de pentacampeões do mundo e só mesmo quem não entende nada de futebol poderia supor que chegaríamos à grande final com uma equipe tão acanhada.
A Globo, que dourou a pílula até o último minuto, ainda teve a indelicadeza de azarar os argentinos ao mostrar a reação de Maradona diante dos gols da multirracial seleção alemã ao som de um clássico do tango, logo após a partida. Deviam ter levado a sério as óbvias palavras do Galvão: isso é apenas futebol. Será mesmo?
17 jun 2010
Matéria publicada no Comunique-se de sexta-feira, dia 11, destacou uma reportagem da revista The Economist, intitulada “A sobrevivência da tinta”, sobre a boa performance dos jornais impressos. Ao contrário das previsões catastróficas de 2009, a reportagem mostra um cenário favorável à recuperação dos títulos norte-americanos e registra lucros recordes na Alemanha, além do crescimento da circulação no Brasil.
A revista afirma que “a crescente classe média do Brasil gosta dos jornais baratos, que exploram os assassinatos e biquínis”. Eis o X da questão: a classe média brasileira não está em franco crescimento. De fato, as condições econômicas do país após o Plano Real permitiram a gradativa inclusão das classes C e D no mercado de consumo, com pequena melhoria de renda e facilidades de crédito. No entanto, a conta desse milagre tem sido paga justamente pela classe média.
Os tablóides sensacionalistas geralmente são consumidos não pela classe média, mas por pessoas das classes C e D, que antes não tinham dinheiro para comprar jornais e que ainda apresentam uma baixa formação escolar. Daí o sucesso das publicações baratas, com matérias rasas e enxutas que podem ser folheadas numa viagem de ônibus ou metrô. Mas se esse é o modelo vencedor da mídia impressa brasileira, isso significa que o jornalismo nacional vai de mal a pior.
O Brasil tem características particulares que devem ser levadas em conta nesse tipo de análise. Como bem lembrou a senadora Marina Silva, no discurso de lançamento de sua candidatura à Presidência da República, na quinta-feira, dia 10, cerca de 18% dos jovens brasileiros ainda são analfabetos. Isso sem levar em conta aqueles que passam pela escola sem que a escola passe por eles. São os analfabetos funcionais, que têm dificuldade até para escrever o próprio nome. Os tablóides sensacionalistas quase sempre são mal feitos. Apresentam erros de português e informações pela metade, que a clientela despreparada nem percebe.
Estatísticas apontam que o ensino básico brasileiro é um dos piores do mundo, gerando uma crescente massa de analfabetos funcionais. Em vez de reformar o ensino básico e oferecer uma escola pública e gratuita de qualidade para todos, o governo optou pelas cotas na universidade. Em outras palavras, nossas autoridades preferem remendar o telhado que reforçar o alicerce da casa. As cotas são importantes para remediar as desigualdades, mas é preciso bem mais que isso. Sem uma base sólida de conhecimento os futuros formandos terão sérias dificuldades para sobreviver num mercado de trabalho cada vez mais exigente. Essa é a dura realidade que poucos conseguem enxergar.
O hábito da leitura no Brasil sempre deixou a desejar, mesmo em comparação com outros países emergentes. Isso reflete diretamente no baixo consumo de livros, jornais e revistas. Os editores, no entanto, nunca cogitaram fazer uma cruzada nacional em prol da alfabetização e pela melhoria da educação no país. Crianças e jovens são subestimados, tratados como cidadãos de segunda classe. Haja vista a falta de espaço nos jornais para divulgar a boa literatura infantojuvenil, importante aliada na formação de leitores. Vale lembrar Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. A mensagem é mais simples do que parece. Sem o hábito da leitura não há jornal que se sustente.
O mais grave é que os grandes jornais estão diminuindo o conteúdo das informações impressas. A cada reforma gráfica, encolhem o texto, aumentam os espaços em branco, o tamanho das fotos e dos infográficos na ilusão de atrair um novo cliente. O problema é que esse tipo de “leitor” prefere a informação rasa e instantânea da televisão ou dos tablóides sensacionalistas, pois sem o hábito da leitura fica difícil pensar.
Outros têm ao seu alcance os blogs e sites especializados, com a publicação cada vez mais veloz da notícia. Basta lembrar que a morte de Michael Jackson foi anunciada por um site pouco conhecido, muito antes que a grande imprensa ficasse sabendo. Em vez de analisar os fatos e dar voz aos diferentes setores da sociedade, com plena liberdade de opinião, os grandes jornais evitam polêmicas e se limitam a publicar notícias velhas e pasteurizadas. A manchete de hoje foi destaque ontem na TV, no rádio, nos blogs, no Twitter. A não ser quando se trata de um furo ou de reportagem especial, o diferencial do veículo impresso seria justamente a repercussão e a análise da notícia por especialistas no assunto.
A verdade é que, quanto mais tentam imitar os novos meios, mais os jornais impressos perdem leitores fiéis e alinham o conteúdo por baixo. É como se publicassem notícias para quem não gosta de ler. Isso talvez explique o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo decretado há um ano pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Para fazer esse tipo de trabalho, não é preciso formação nenhuma. Basta seguir a ética de patrões que reduzem a visão de jornal a um simples balcão de negócios.
* Artigo publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 15/6/2010.
28 mai 2010
Como já era previsto, foi um sucesso a abertura da II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, que vai até 25 de junho na Casa do Jornalista, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (avenida Álvares Cabral, 400). O evento comemora os 25 anos da primeira edição, da qual tive a oportunidade de participar ainda no início de carreira. Estão expostas dezenas de obras artísticas, como poemas, contos, crônicas, charges, caricaturas, ensaios fotográficos, pinturas e até mesmo reportagens. Cerca de 30 autores estiveram presentes autografando livros.
O melhor da festa foi ver a sede do sindicato lotada de jornalistas, coisa que raramente tem ocorrido nos últimos tempos, já que a categoria anda dispersa. Aliás, atribuo parte disso à própria desativação da Casa do Jornalista, que sempre funcionou como braço cultural do nosso sindicato. Por problemas burocráticos, que já estão sendo sanados, a entidade ficou fora do ar por algum tempo e agora promete retornar com toda força.
A abertura da mostra homenageou a memória do grande jornalista e escritor Wander Piroli. Participaram do debate sobre sua obra seus antigos colegas Arnaldo Vianna, Carlos Herculano Lopes, Fernando Brant, José Maria Rabelo, Tião Martins e a escritora e professora de Literatura da UFMG, Letícia Malard. A família do homenageado emprestou aos organizadores da mostra alguns de seus objetos pessoais, para que se fizesse uma instalação lembrando seu local de trabalho. A abertura ficou por conta do Secretário de Estado da Cultura, Washington Melo.
Lembro ter estado pessoalmente com Wander Piroli apenas duas vezes. A primeira em 1990, durante o coquetel de lançamento da coletânea “Flor de Vidro”, pela Editora Arte Quintal, na qual tivemos contos incluídos. Na ocasião, ele comentou que lia meus artigos e críticas publicados no Estado de Minas e no Suplemento Literário do Minas Gerais. Disse que gostava do meu estilo, mas recomendou-me rigor nos textos e impiedade nas críticas. Conversamos sobre nossas influências literárias e encerramos o papo elogiando o legado de Hemingway.
Muitos anos depois, pouco antes do início de sua enfermidade, nos reencontramos em volta das mesas de sinuca do salão Bronwswick, no alto da Afonso Pena. Eu estava jogando uma partida com colegas do Estado de Minas e ele, com seus colegas do Hoje em Dia. Trocamos obas e olás sem maiores consequências.
Antes ou pouco depois disso, não me lembro exatamente quando, escrevi um artigo defendendo o direito de Paulo Coelho disputar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Com a ironia que lhe era peculiar, Piroli enviou uma carta à redação elogiando meus argumentos e dizendo que concordava plenamente comigo, até porque “Paulo Coelho e a ABL se merecem”. A carta foi publicada pelo editor de opinião - Geraldo Magalhães ou Dídimo Paiva, não tenho certeza. Sei que devo tê-la guardado em algum lugar.
De qualquer maneira, quero dizer que sempre admirei Wander Piroli. Não só como jornalista e escritor, mas também como homem que virou lenda nas redações de Belo Horizonte. Seu legado é um exemplo para todos nós. Quando ele morreu, um jornal local relutou em publicar uma grande reportagem. Por picuinha de algum diretor, queriam dar apenas uma nota, mas alguns colegas telefonaram para o chefe de redação argumentando que isso seria uma injustiça e um vexame.
O resultado de tal investida é que permitiram a publicação de uma matéria de 30 linhas. No dia seguinte, toda a redação se sentiu vingada ao ver matéria de página inteira na capa do caderno de cultura do Estado de S. Paulo. Aquela era mais uma prova de que, em Minas Gerais, santo de casa não faz milagre nem mesmo depois de morto.
Hoje, devo reconhecer que aprendi muito lendo Wander Piroli. Seu último livro publicado em vida reúne deliciosas crônicas sobre o bairro da Lagoinha, na coletânea que abriu a coleção “BH - A cidade de cada um”, da Editora Conceito. Meu livro sobre o Caiçara faz parte da mesma série, para a qual indiquei a jornalista Márcia Cruz, com um excelente relato sobre o Morro do Papagaio. Na novela juvenil “No Clarão das Águas”, publicada pela Paulus Editora, presto uma justa homenagem ao nosso guru, citando sua obra ”Os rios morrem de sede”, ganhadora do Prêmio Jabuti.
Finalizando, gostaria de registrar que a II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros foi uma iniciativa de Carlos Barroso, um dos bravos diretores da Casa do Jornalista. Foi ele quem de fato pegou o touro pelos chifres, trazendo de volta um evento que jamais deveria ter saído de cena. Afinal, jornalismo também é cultura.
22 mai 2010
Quase três décadas depois de me iniciar no ofício da palavra, como escritor e jornalista profissional em Belo Horizonte, percebo que as dificuldades são as mesmas para os autores que residem em nossa cidade. Dispomos de poucas editoras voltadas para o mercado nacional. Temos uma bienal de livros que não remunera o autor local pela sua participação e perdemos com isso o Salão do Livro, que promovia e remunerava indiscriminadamente todos os convidados.
Não bastasse isso, os poucos eventos voltados para a literatura em nossa cidade dão muito mais destaque aos autores de fora, que figuram na mídia. É a tal “síndrome do tapete vermelho”, sobre a qual já escrevi, inspirado numa frase do sempre lúcido Bartolomeu Campos de Queirós. Nossas faculdades raramente estudam a obra de autores vivos, que dirá se for mineiro! Para piorar o quadro, nossos jornais dão pouco espaço aos livros e têm dificultosa circulação fora dos limites da Serra do Curral.
Mesmo com tais entraves, não posso e não devo reclamar em causa própria. Se coloco o dedo na ferida, falo mais em nome dos novos do que dos antigos autores – entre esses os da minha geração. Lembro que quando comecei nesse ramo de atividade muitos escritores já consagrados eram pouco mais velhos ou tinham a idade que tenho hoje. Basta lembrar que o grande romancista Oswaldo França Júnior, do qual tive a sorte de ser amigo, morreu ainda jovem, aos 53 anos.
A boa notícia é que, apesar da falta de estímulos oficiais, tenho conseguido algumas vitórias. Em 2010 tenho nada menos que seis lançamentos e duas republicações programados no Brasil, além de uma tradução na Itália. Com mais de 300 mil exemplares vendidos dos muitos livros que publiquei (só “O Rei da Rua” esgotou mais de 20 edições), pela primeira vez haverá uma tese sobre um deles, escrita pela jovem Eleonora Casani, estudante de Letras em Roma. Trata-se de “Palmeira Seca”, romance ganhador do Prêmio Guimarães Rosa em 1989, adaptado para teatro e minissérie de TV. Quem me indicou o caminho das pedras foi o fratelo Carlos Herculano Lopes, companheiro de fé e ofício desde os primeiros tempos.
Depois de me desligar da assessoria de comunicação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, em fevereiro, venho me dedicando quase que exclusivamente à literatura. Falando nisso, na quinta-feira, dia 27, participo da abertura da 2ª Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, na Casa dos Jornalistas (na sede do sindicato), autografando a coletânea de contos “Caminhante Noturno”, publicada pelo selo Terceira Margem, da Editora Multifoco. São narrativas produzidas espaçadamente, com o objetivo de me exercitar no texto de ficção até chegar ao gênero romance.
Pela Prumo, de São Paulo, acabo de publicar o infantil “Feira de Aves”, inaugurando a coleção “Natureza Viva”. A série inclui outros três volumes poéticos, todos de minha autoria: “Passeio no Zoo”, “Lindo Jardim” e “Vida no Mar”, belissimamente ilustrados por Cláudio Martins, meu antigo parceiro em outros projetos.
Ainda este ano, publico pela Paulus “As Cores no Mundo de Lúcia”, com maravilhoso projeto gráfico e ilustrações de Denise Nascimento. Pela Saraiva, também de São Paulo, relanço as novelas “Reportagem Mortal” (em 4ª edição) e “Sumidouro das Almas” (numa 2ª edição revista, pelo selo Atual). Enquanto isso, faço palestras em escolas e acompanho a cantora Lígia Jacques nos shows de lançamento do CD “Choro Cantado”, que tive o prazer de produzir com recursos do Fundo Municipal de Cultura. A próxima apresentação será no espaço da Travessa, antiga livraria da Savassi, na noite de 17 de junho, uma quinta-feira – em clima de Copa do Mundo.
Em novembro, marco presença na 56ª Feira de Livros de Porto Alegre, divulgando “Alice no País na Natureza”, novela inspirada no clássico de Lewis Carrol e publicada pela Paulus, com ilustrações de Ayssa. A outra novidade é que acabo de me tornar verbete no “Dicionário biobibliográfico de escritores mineiros”, organizado pela professora Constância Lima Duarte e publicado pela Autêntica Editora. Quem leu esse artigo até aqui pode ter certeza de que todas essas conquistas resultam de muito trabalho, alguma sorte e total dedicação ao ofício que escolhi para toda a vida.
21 abr 2010
Brasília comemora meio século, mergulhada na dengue e na corrupção. Construída como símbolo da modernidade, a cidade espelha as contradições do Brasil. De um lado a classe política legislando e governando em causa própria; do outro, o povo, massa de manobra das elites nacionais. Sobra dinheiro para construções faraônicas, centros administrativos, mensalões, propinas, viagens, nepotismo e outras bossas. Faltam verbas para corrigir as injustiças que se acumulam desde sempre.
Nas festividades dos 50 anos da capital federal, políticos fazem discursos. Enquanto isso, a imprensa publica reportagens e coberturas especiais. No balanço geral, os erros do passado roubam a cena e se repetem no presente. “E o povo” – quem ousa perguntar? Esse permanece como figurante da história, multidão de caras iguais nos shows e em outros eventos comemorativos.
A tragédia ocorrida no Rio de Janeiro em decorrência das fortes chuvas de abril revela a dura realidade. Apesar das promessas de políticos de diferentes partidos ao longo de muitas décadas, o Brasil ainda não deu certo. No lugar da justiça social, oficializaram a esmola em forma de ajuda aos mais necessitados. Em vez de trabalho e boa educação, distribuem dinheiro na certeza de comprar o voto dos mais desesperados e menos esclarecidos.
Seria uma contradição se em Brasília o quadro fosse outro. No entanto, o Distrito Federal acaba de ter o governo deposto por mais um escândalo. Sua população periférica paga o preço da indiferença social, às voltas com doenças medievais, altos índices de violência, péssimas condições de moradia, trabalho e educação. A não ser pela arquitetura, não há nada de novo sob a linha do Equador. Enquanto isso, os políticos trafegam pelas ruas do Planalto em carros blindados, indiferentes à miséria e às aflições dos eleitores.
O curioso é que estamos em mais um período eleitoral e os candidatos que aí se apresentam ainda não perceberam o quanto atrasado é o discurso que se repete. Embora neguem as evidências, governo e oposição rezam na cartilha neoliberal. A grande imprensa, por sua vez, mostra-se pouco interessada em analisar o quadro eleitoral com o rigor merecido, pois precisa faturar de todos os lados para manter suas contas em dia.
Na ausência de proposições para um país perplexo e cansado de promessas vazias, os candidatos trocarão acusações no faz-de-conta das campanhas. Nenhum deles exibirá um projeto de governo que possa de fato apontar soluções para os problemas elementares do país. E enquanto isso, na quase certeza de ganhar tempo e ludibriar a opinião pública, os congressistas empurram com a barriga a votação do projeto Ficha Limpa, que evitaria a candidatura daqueles que respondem a processos na Justiça.
Brasília levou desenvolvimento ao Planalto Central, descentralizando a administração pública. No entanto, contribuiu para esvaziar o Rio economicamente e abrigou a classe política longe do olhar vigilante dos eleitores numa época em que as informações não circulavam com tanta facilidade. Os candangos, por sua vez, aqueles que de fato ergueram do chão o projeto juscelinista, foram empurrados para as chamadas cidades satélites. Em vez de economizar o dinheiro público, os políticos se sentiram à vontade para aumentar os próprios ganhos e mordomias, constituindo uma casta autônoma quase sempre alheia à realidade nacional.
E assim coexistem dois mundos, em Brasília e no restante do país. O mundo dos muito ricos e o mundo dos muito pobres, sendo que os primeiros vivem a sugar os demais por meio de elevados impostos, contribuindo para uma das maiores cargas tributárias do planeta. A Justiça que inocenta uns não é a mesma que condena outros, ainda que seus crimes sejam pequenos em comparação com as aberrações praticadas pelos poderosos. Por essas e outras, podemos concluir que a alvorada sonhada por JK se transformou em crepúsculo antes mesmo do sol se pôr no céu da pátria.
12 mar 2010
Dizem que o mineiro trabalha em silêncio. Enquanto o resto do país faz estardalhaço por qualquer coisa, ficamos calados, olhando nossos pares e ímpares sempre com desconfiança ou inveja. Esse jeito nós herdamos do ciclo do ouro, já que no garimpo o silêncio é a alma do negócio. Ou talvez seja um traço herdado dos criadores de gado, no ciclo do couro, quando era comum desfazer do gado alheio para comprá-lo na bacia das almas. Seja lá como for, eis o silêncio, sobretudo e sobre todos.
Esse “nariz de cera” é para dizer que o Jota Dangelo, nosso grande homem de teatro, acaba de lançar pela Editora Atheneu um livro excepcional, intitulado Os Anos Heroicos do Teatro em Minas. Nele, o ator, autor e produtor teatral dá seu testemunho dos bastidores teatrais de Belo Horizonte entre 1950 e 1990, acrescentando entrevistas com importantes protagonistas da cena mineira, além de um rico acervo de fotos.
Dangelo dispensa apresentações, mas vale ressaltar seu pioneirismo. Quando ainda estudava Medicina na UFMG, ele e seu bravo colega Angelo Machado – hoje um consagrado zoólogo e autor de livros infanto-juvenis – fundaram o Show Medicina, ao qual se deve o fato de muitos médicos de BH se interessarem também por teatro. Entre esses vale citar o autor e diretor Jair Raso, neurologista do primeiro time – para lembrar apenas um dentre os muitos que se destacam nos consultórios e teatros da cidade.
Dentre os muitos trabalhos escritos e dirigidos pelo Dangelo, sempre me lembro de Noel, O Feitiço da Vila, encenado em 1988. Primeiro que sou apaixonado pela obra do compositor de Vila Isabel. Segundo que o espetáculo em questão foi excepcional. Tanto que para este ano, quando o país comemora o centenário do sambista, procurei saber se o autor traria de volta sua peça para só depois aceitar o desafio de escrever um musical sobre a presença de Noel em BH, a ser encenado pelo grupo Caixa de Fósforos. Para quem não sabe, o compositor morou aqui entre janeiro e abril de 1935, quando veio tentar se curar da tuberculose.
Dangelo é também compositor e carnavalesco. Foi Secretário de Estado da Cultura e hoje dirige o BDMG Cultural. Em seu livro, ele prova também que é jornalista. Não tem diploma de comunicação nem carteirinha do sindicato, mas escreve melhor que muitos coleguinhas que insistem no exercício profissional. Sua memória é prodigiosa e seu livro resgata importantes momentos de sua vida e do teatro exercido com fidalguia por uma geração aguerrida, que enfrentou os terríveis moinhos da ditadura militar e o preconceito da tradicional família mineira.
O lançamento do Dangelo ocorre 26 anos depois que publiquei meu primeiro livro, Teatro Mineiro – Entrevistas & Críticas, em 1984, pela Imprensa Oficial de Minas Gerais. Até aquele ano, não havia nenhum livro sobre nossas artes cênicas e eu cometi a loucura de ser o primeiro nessa ingrata tarefa. Em 1995, voltei ao tema, publicando pela Editora Del Rey o volume BH em Cena – Teatro, Televisão, Ópera e Dança na Belo Horizonte Centenária. Hoje, pouca gente se recorda do meu esforço em registrar parte da nossa memória cultural em respeito àqueles que devotam suas vidas ao ofício das artes.
Quando em 1983 passei a assinar a coluna Teatro Vivo, publicada quarta e sábado na 2ª Seção do Estado de Minas – editada pelo generoso Geraldo Magalhães – não havia praticamente nada documentado sobre as artes cênicas em nosso estado. Além de “cometer” algumas críticas sobre o que se passava nos palcos e bastidores do teatro daquela época, abri espaço para publicar entrevistas com artistas de destaque - entre eles o Dangelo. Além dos pioneiros do palco, ouvi novos talentos e artistas globais que por aqui se apresentavam na ocasião, incluindo a cidade no circuito nacional.
Para que esse trabalho não se perdesse no tempo, reuni a documentação nos dois livros, organizados de maneira diferente. O primeiro volume foi dividido em duas partes, com 54 entrevistas e alguns artigos de minha lavra. O segundo eu preferi dividir em quatro partes, narrando a história da TV Itacolomi, dos principais grupos de dança e teatro da cidade, e discorrendo sobre a nossa produção lírica desde os primóridos, por volta de 1935.
O curioso é que algumas pessoas viraram a cara aos dois trabalhos pelo simples fato de não constarem neles. O mesmo deverá ocorrer com o Dangelo, pois seria impossível esgotar o assunto ou incluir todos os nomes realmente importantes da cena mineira num livro. É bom que se diga que o fato de determinada pessoa não estar nesta ou naquela publicação não significa que ela seja desimportante ou que a omissão tenha sido intencional. É humanamente impossível esgotar qualquer tema sobre o qual se pretenda escrever. Só os profissionais do ramo sabem disso sem mágoa ou rancor. Mas num meio no qual a vaidade pesa mais que o talento, parece natural que o “famoso quem” se ofenda por não ter sido lembrado.
Num país que peca pela amnésia, sobretudo no que se refere à cultura nacional, o ideal seria que todo artista escrevesse pelo menos um livro narrando sua trajetória, defendendo suas teses, dando seu testemunho e resgatando os eventos e os nomes de sua época. É o que Jota Dangelo fez com muita propriedade em seu livro recém-lançado. E foi também o que tentei fazer quando me propus à tarefa de reunir em dois volumes o material que publiquei no jornal. Cada um dos nomes enfocados daria uma bela biografia, tarefa que está por ser feita como quase tudo em nossa cidade.
16 jan 2010
