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As duas faces de Fidel

Participei de um encontro internacional de críticos literários em Manaus, em 1991, a convite do Instituto Nacional do Livro (INL). Na ocasião, conheci jornalistas de vários países. Fiquei muito próximo de um representante de Cuba, cujo nome não me recordo.

Nas refeições, o jovem periodista empilhava bifes de boi no prato. Na última noite, esvaziamos uma garrafa de cachaça. Ele confessou que se sentia culpado, porque sua família raramente comia carne. Lá pelas tantas, afirmou que em Cuba não havia liberdade nem socialismo. Uma colega brasileira o repreendeu, mas ele preferiu não argumentar. Depois me confidenciou que a moça não sabia do que estava falando.

Três anos depois, quando Fernando Morais lançou a biografia “Chatô, o rei do Brasil”, eu participei da entrevista coletiva no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Na ocasião, ele me deu um charuto Romeo & Julieta, cuja caixa lhe fora enviada por seu amigo Fidel Castro. Fumei o charuto numa ocasião especial e guardei a embalagem de alumínio como souvenir.

Morais ficou famoso em 1976, ao publicar “A ilha”, livro que fez a cabeça da minha geração. Com sua excelente narrativa, o autor nos convencia de que a Cuba de Fidel era um paraíso socialista. Ele só não explicava porque tanta gente fugia de lá! Interessado em política e na música cubana, li outros livros sobre o tema, vi documentários, falei com pessoas que visitaram a ilha e, finalmente, caí na real.

De herói a ditador

A morte de Fidel deixou claro que a esquerda brasileira continua idolatrando a imagem do herói de Sierra Maestra. Até mesmo parte da mídia nacional, considerada “golpista” por essa mesma esquerda, preferiu cantar loas ao carisma do ditador, em vez de ressaltar os crimes por ele praticados.

No auge da revolução que derrubou o golpista Fulgencio Batista, muitos intelectuais apoiaram os rebeldes por acreditar que a justiça e a liberdade seriam triunfantes. Dizem que o escritor americano Ernest Hemingway, que morava em Cuba naquela época, teria contrabandeado armas para ajudar a causa. Ao saber dos fuzilamentos sumários, o autor de “O velho e o mar” deixou a ilha para nunca mais voltar.

Fidel distribuiu terras, nacionalizou empresas, melhorou a educação e a medicina de Cuba. Mas, usando como desculpa o embargo econômico e as ameaças da Casa Branca, alinhou-se com a União Soviética e perpetuou-se no poder com a política do “paredon”.

O Partido Comunista converteu cidadãos comuns em informantes do regime; dissidentes foram presos e assassinados; jornais e sindicatos, fechados; homossexuais – como o escritor Reinaldo Arenas – enviados à Isla de La Juventud, para serem “reeducados”. Sem falar no período em que a ilha passou a exportar a revolução, treinando guerrilheiros estrangeiros e enviando tropas para a África.

Ilha da fantasia

É surpreendente que até hoje existam pessoas que acreditam nos contos da Carochinha socialista. Pior ainda quando são intelectuais que sentiram na pele o peso da repressão política. Outro dia, um desses ressaltou no Facebook as condições que levaram Fidel ao poder e os benefícios que seu governo teria proporcionado aos cubanos.

Pelo discurso, a violência e a repressão seriam justificáveis devido à soberania e ao bem-estar social dos cubanos – embora nem isso tenha sido alcançado. As mesmas razões serviriam para inocentar Hitler ou Pinochet, que também mataram “com a melhor das intenções”.

O sonho de liberdade da revolução que derrubou Fulgencio Batista em 1959 converteu-se num pesadelo, que acabou transformando Cuba numa ilha da fantasia parada no tempo. Fidel foi de fato um revolucionário, mas se converteu num ditador como outro qualquer. Como declarou Mario Vargas Llosa, “a história não o absolverá”.

PROFECIA Nº 2

A palavra ecoa a construção de Babel, o ruído das vozes dentro da torre. Por isso a comunicação é impossível, pois cada alma tem seu próprio idioma e está aprisionada num corpo transitório. Mas chegará o tempo em que falaremos em pensamento apenas o necessário; e todas as discussões serão inócuas; e todos os conflitos cessarão no silêncio do beijo nas bocas. (13/11/2016)

PROFECIA Nº 1

Chegará o dia em que a rede entrará em colapso e os Face’s da vida sairão do ar por tempo indeterminado; em que o WhatisApp será de fato impossibilitado e os celulares, desligados para sempre. E assim, os amigos voltarão a se encontrar, a olhar nos olhos, a conversar ao vivo e a cores longe das telas virtuais. E então nos tornaremos mais humanos, mais próximos e verdadeiros nos nossos relacionamentos. (13/11/2016)

A política no banco dos réus

A eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos é mais uma prova de que a figura do político tradicional está mais desgastada do que nunca. No Brasil, ocorreu o mesmo fenômeno nas eleições para prefeito. Venceram Kalil em BH, Crivella no Rio e João Dória em São Paulo, todos com o discurso antipolítico.

No caso americano, a vitória dos republicanos era quase previsível sob a lógica da alternância de poder. Bom lembrar que a eleição de Barack Obama interrompeu a hegemonia conservadora da era Bush. Parece natural que dessa vez a balança tenha pendido para o outro lado. Mas na prática, apesar do alarde, poucas coisas deverão mudar.

Os democratas geralmente adotam uma política internacional moderada, não protecionista, o que contraria os defensores do chamado modo de vida americano. Enquanto isso, os republicanos são nacionalistas e quase sempre praticam uma política internacional desastrosa. Eis aí as principais diferenças. De qualquer forma, os dois grupos governam o maior império do planeta e priorizam, acima de tudo, os interesses do seu país.

O diferencial de Donald Trump é a arrogância e o fato de não ser um político tradicional. A questão é saber quem de fato ele é. Afinal de contas, é quase certo que seus eleitores votaram no personagem midiático e não propriamente em suas ideias. A empáfia do seu discurso desagradou até mesmo alguns de seus correligionários, mas conquistou o americano comum.

De escândalo em escândalo

No Brasil, um dos principais fatores de desgaste da classe política tem sido a corrupção investigada pela Operação Lava-Jato. Nos Estados Unidos, a atuação não muito eficaz de Hillary Clinton como secretária de Estado contribuiu para sua derrota nas eleições. Sem falar no escândalo dos emails recentemente requentado pelo FBI. Lá, muito mais que aqui, a opinião pública não costuma tolerar corrupção nem erros de seus políticos.

Mas a verdade é que hoje, em todo o mundo, nota-se uma guinada para a direita. Isso se deve à crise econômica, à falência dos regimes de esquerda e mesmo à decepção com a socialdemocracia e os blocos econômicos. A opção dos britânicos em sair da União Europeia comprova essa tese. Desde o início do processo, eles mantiveram um pé atrás com a unificação econômica, tanto que nunca adotaram o euro em seu território.

Mais do que nunca, deve-se discutir política pelo viés da economia e não mais sob a tese ou a viseira das ideologias. As pessoas não enchem o estômago com discursos e se mostram cansadas com a demagogia dos políticos. Em outras palavras, os eleitores se recusam a continuar pagando a conta da corrupção e dos equívocos de seus representantes.

O problema é que no vácuo das lideranças tradicionais surgem personagens como Trump, Kalil, Crivella e outros oportunistas. Mas não há nada de novo no front. Numa Alemanha soterrada pela crise e pela humilhação da derrota na Primeira Guerra, o povo, cuja cultura gerou grandes artistas e pensadores, escolheu Hitler. Em outras palavras, mesmo sendo o melhor dos regimes, a democracia não é infalível.

O equívoco das ocupações

Ocupar estabelecimentos de ensino para protestar contra a PEC 241/2016 é direito dos estudantes, embora muitos façam isso por detestarem as aulas. Contudo, é preciso lembrar que a cada direito corresponde um dever e que o direito de um termina onde começa o do outro.

Além de impedir a realização das aulas em pleno final do ano letivo, as ocupações, em muitos casos, atrapalharam a realização do ENEM, no último fim de semana. Ou seja: quem está sendo diretamente prejudicado com isso é o estudante e não o governo federal.

Outra coisa que não deve ser ignorada é que o PT e seus aliados usam esse tipo de movimento para defender os próprios interesses. Todo mundo sabe que as entidades representativas, com poucas exceções, são comandadas pela esquerda e nunca medem esforços para usar os representados como massa de manobra. Se assim não fosse, a UNE teria convocado protestos quando a ex-presidenta cortou R$ 10 bilhões da educação.

Essa posição não significa que eu apoie o corte de verbas num setor já tão sacrificado. Pelo contrário, penso que sem investimentos em educação dificilmente teremos um futuro melhor. Mas é preciso direcionar a luta política em benefício do povo sem causar-lhe maiores prejuízos.

Hostilidade à dissidência

Ao contrário do que tentam demonstrar as lideranças estudantis, as ocupações não são assim tão democráticas. Ai do estudante ou professor que se atreva a criticá-las numa assembleia! Certamente será vaiado e desqualificado pela galera. Foi o que ocorreu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Num vídeo veiculado pelo canal Top News do Youtube, um estudante que se apresenta como “preto, pobre e favelado” alega ter o direito de estudar. Afinal de contas, lutou muito para chegar ao curso superior e se sente tolhido no seu direito constitucional de ir e vir. Seu discurso é recebido com vaias e palavras depreciativas. Enfim, onde se fala em educação, educação é o que menos se vê.

Fatos como esse deveriam estimular a reflexão. Afinal de contas, até que ponto o protesto atinge seus objetivos? Será que a melhor maneira de fazê-lo é ocupando escolas e atrasando os próprios estudos? Cedo ou tarde, as aulas deverão ser repostas, obrigando alunos e professores a adiarem seus planos de férias ou de cursos complementares.

Imaginemos um estudante que planejasse fazer um intensivo de línguas no exterior. Com as reposições programadas para as férias, certamente teria que adiar seus planos. Se tivesse comprado passagens com muita antecedência, ficaria no prejuízo.

E os alunos de pós-graduação, que dependem de certo cronograma quanto a pesquisas e defesa de tese ou dissertação? E aqueles que conciliam trabalho e faculdade e já programaram as férias? E os que conseguem empregos temporários no fim do ano? Além do mais, o MEC mostra-se indiferente ao movimento. Com certeza aposta no seu esvaziamento pelo cansaço.

Volto a dizer que não se pode admitir o corte na educação. Para equilibrar os gatos públicos, o governo deveria começar pelo congelamento de salários e comissões nos três poderes e pela limitação de despesas com viagens e cartões corporativos. Mas, francamente, ocupar escolas pensando que vão sensibilizar autoridades é quase o mesmo que acreditar em Papai Noel.

O Nobel de Bob Dylan

A mais nova polêmica nos meios literários é o Prêmio Nobel de Literatura concedido ao compositor americano Bob Dylan. Para início de conversa, devo dizer que sou fã do laureado, mas definitivamente acho a premiação equivocada. Mesmo influenciado pelos grandes nomes da beat generation, Dylan é músico e não poeta.

O saudoso Fernando Brant dizia que poesia é poesia e letra de música é letra de música. Chico Buarque diz a mesma coisa. Para ele, a letra funciona muito bem junto com a melodia. No seu caso, na maioria das vezes, nascem juntas. Como escritor e compositor, concordo plenamente.

A poesia traz em si um ritmo que resulta dos versos e das rimas, enquanto a letra musical carece das notas e se mostra incompleta fora da pauta. Em outras palavras, como escrevi na composição “Um sonho de valsa” – parceria com Valter Braga gravada por Lígia Jacques (voz) e Tabajara Belo (violão) –, “a letra é a luva que agasalha a melodia”. A melodia funciona sem ela e o contrário raramente acontece.

Mas há controvérsias. O genial letrista e poeta Paulo César Pinheiro, por exemplo, me disse uma vez que se as letras do Chico não forem poesia, então fica difícil saber o que são. E há aqueles que lembram o fato de música e literatura terem tido a mesma origem, na antiguidade. Pães e opiniães!

Grande repercussão

Ao justificar a premiação de Bob Dylan, a secretária da Academia de Estocolmo, Sara Daniues, afirmou que o Nobel lhe foi concedido “por ele ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da música”. Mas o prêmio não é de música e sim de literatura. Eis a questão!

Por esse critério, o Nobel poderia ter sido dado ao próprio Chico Buarque, que além de escritor foi desde sempre um dos maiores compositores do nosso tempo. Mesmo não compondo em inglês, ele teve letras versadas, entre elas “Sabiá”, parceria com Tom Jobim gravada por Frank Sinatra.

Pela justificativa de Estocolmo, Jobim também poderia ter merecido o Nobel quando vivo e no auge da carreira. Mais que Bob Dylan, ele inovou a canção universal como um dos pais da Bossa Nova, movimento que influenciou cantores e compositores em todo o mundo, principalmente nos EUA.

Tom foi colocado no mesmo hall de Cole Porter e George Gershwin. Chegou a ser o segundo compositor estrangeiro mais tocado na América, atrás apenas dos Beatles. E mais: era um grande letrista em português e inglês. Sua antológica “Águas de março” foi considerada pelo crítico Leonard Feather uma das dez melhores canções de todos os tempos.

De duas uma: ou a Academia criou a polêmica para dar ao Nobel uma repercussão como há muito não si via ou quis dizer, nas entrelinhas, que a literatura mundial vai mal. A premiação é tão controversa que o próprio Dylan parece não estar nem aí para ela.

Por outro lado, se a intenção de Estocolmo era prestigiar um autor americano, nomes não faltariam. Basta lembrar o excepcional Cormac McCarthy, herdeiro da tradição romanesca de Mark Twain, Ernest Hemingway e William Faulkner.

Mil cavalos por um reino

Em tempos de crise política vale refletir sobre o passado e o futuro do Brasil. Todo mundo sabe que a República brasileira não deu certo desde as suas origens. Aliás, a proclamação não foi nada democrática. Resultou de um golpe de estado das oligarquias com apoio das Forças Armadas e de intelectuais positivistas.

Seja como for, sem fazer discurso em favor da monarquia, o fato é que a República brasileira nunca nos garantiu democracia plena. Pelo contrário, ao longo do século XX, poucos presidentes eleitos conseguiram chegar ao fim do mandato sem adoecer, morrer ou serem depostos por movimentos conservadores.

O curioso é que nunca deixamos de lado os resquícios da monarquia. Se assim não fosse, nossos secretários de estado não teriam o título de ministro e nossas sedes de governo não seriam palácios. Enquanto Buenos Aires tem a Casa Rosada e Washington, a Casa Branca, o governo da República Federativa do Brasil ocupa o Palácio da Alvorada, em Brasília.

Além disso, nunca nos faltaram reis e rainhas no imaginário popular: rei do cangaço (Lampião), da embolada (Jackson do Pandeiro), do baião (Luiz Gonzaga), do futebol (Pelé), da jovem guarda (Roberto Carlos), do carnaval (rei Momo), rainha do choro (Ademilde Fonseca), dos baixinhos (Xuxa), reis e rainhas do congado, da pipoca, do milho e até da mandioca.

Canudos e as favelas

Mas a República foi algumas vezes contestada pelo povo. Um exemplo disso foi a trágica epopeia de Canudos, cujo líder, Antônio Conselheiro, enxergava nela o anti-Cristo e, ecoando o sebastianismo português, desejava a volta do rei. O resultado da rebelião foi o massacre de centenas de sertanejos, inclusive mulheres e crianças, pelas tropas federais.

A ironia é que os soldados sobreviventes dessa guerra de esfarrapados dirigiram-se à capital da República com o objetivo de receber o soldo prometido por seus comandantes. A partir de 1897, formaram as primeiras favelas do Rio de Janeiro na certeza de terem servido a Pátria como heróis nacionais.

Favela, é bom que se diga, era o nome do morro onde ficava o arraial de Canudos, no interior da Bahia. O termo tem origem no faveleiro, cujas folhas eram usadas para cobrir as humildes choças daquela região inóspita e miserável, onde hoje descansam as águas da represa de Sobradinho.

Figurantes da história

Voltando à monarquia, o antigo regime tinha menos de uma dezena de ministros e o imperador viajava às próprias custas, sem onerar os cofres públicos. Afastado do trono e exilado em Portugal, Dom Pedro II amargou a depressão e pediu pra descansar a cabeça depois de morto num travesseiro recheado com terra do Brasil.

Hoje, o governo federal tem nada menos que 39 ministérios (40 pegariam mal!). A exemplo de seus antecessores, a presidenta da República viaja cada vez mais, levando uma tropa de assessores muitas vezes desnecessários, todos hospedando-se em hotéis de luxo pagos com o suado dinheiro de nossos impostos.

Por outro lado, a República constituiu-se numa sucessão de governos incompetentes, dominados pela corrupção e pelos interesses oligárquicos, quando não movidos pelo populismo assistencialista e pouco eficiente. O brasileiro pobre, que não teve papel ativo na proclamação, continuou como simples figurante na história nacional. Pior que isso, alheio às grandes decisões, tolhido em seu legítimo direito de participação política e manipulado por falsas lideranças.

Alguns países hoje considerados modernos – entre eles a Inglaterra, Dinamarca, Espanha, Suécia e Japão – são monarquias parlamentaristas e se mostram muito mais próximos da estabilidade política do que a nossa fragilizada República. Não faço – repito – apologia ao regime dos reis, mas deixo aqui uma provocação para que o próprio leitor reflita sobre o tema.

* Publicado no site Dom Total, em 30/07/2015.

Biógrafos no banco dos réus

O Supremo Tribunal Federal (STF) marcou para a próxima quarta-feira, 10 de junho, o julgamento da constitucionalidade das biografias não-autorizadas. Os juízes vão decidir sobre a Ação Direta de Inconstitucionalidade impetrada pela Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) contra liminares que visam proibir esse tipo de publicação.

Os editores nacionais contestam o Artigo 20 do Código Civil, segundo o qual “a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas (…)”.

O tema foi polemizado no ano passado por compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Roberto Carlos, reunidos no grupo Procure Saber, que defende a proibição de biografias não-autorizadas. Contudo, se o Artigo 20 do Código Civil prevalecer sobre a Constituição Federal, estará em risco a própria liberdade de expressão.

Para ser plena, nenhuma democracia pode admitir qualquer forma de obstáculo aos direitos de opinião e informação. Nem mesmo a intenção do PT de implantar o chamado “controle social da mídia” faz sentido num país cuja cidadania já foi tão ultrajada pelo arbítrio e pela censura praticada por regimes autoritários. Ou a imprensa é livre ou não é imprensa. Os excessos devem ser discutidos nos tribunais.

Interesse público

Escrevo o presente texto com o devido conhecimento de causa. Incansável leitor de biografias das mais variadas, tenho no prelo da Geração Editorial o livro “Vandré – O homem que disse não”. Estou convicto de que em momento algum comprometo o caráter ou a trajetória do compositor biografado, que se tornou um dos maiores enigmas da cultura nacional.

Uma biografia nada mais é que uma reportagem alentada sobre a vida de uma personalidade de interesse público. Esse tipo de narrativa ajuda a contar a História e a refrescar a memória nacional. O mais lamentável na ação do grupo Procure Saber é ver artistas que foram vítimas do regime militar pregando a volta da censura em benefício próprio.

Convém lembrar que nem todos os biógrafos estão interessados na vida dos artistas. Existem autores empenhados em desvendar a trajetória de políticos, estadistas e ditadores; e outros que escrevem sobre personalidades que contribuíram para o avanço social ou nas diferentes áreas do conhecimento humano.

Será um descalabro se o Artigo 20 do Código Civil prevalecer em vigor, principalmente após a conclusão dos trabalhos da Comissão da Verdade nomeada pelo governo federal para esclarecer os crimes praticados pelo regime militar. Quem não autoriza a própria biografia geralmente tem algo a esconder.

Memória nacional

Uma das alegações dos artistas do Procure Saber é que o biógrafo ganha dinheiro nas costas do biografado. Isso denota total falta de conhecimento sobre a realidade do mercado editorial brasileiro, no qual a maioria dos autores sobrevive de outras profissões ou paga do próprio bolso para ver seus livros editados. Foi o caso do jornalista Vitor Nuzzi, outro biógrafo de Geraldo Vandré.

Num país que não conhece a própria História, as biografias prestam um importante serviço à memória nacional. Aqueles que se sentem caluniados ou ultrajados podem recorrer à Justiça, direito este garantido pelo Código Penal. Portanto, não é necessária a proibição prévia de um livro para proteger reputações.

Nos Estados Unidos, por exemplo, as biografias circulam livremente, sem nenhum obstáculo legal. A não ser em casos de processo que comprove a prática de crimes previstos em lei, os biógrafos gozam de total liberdade para exercer o seu ofício. Isso faz com que os leitores tenham ao seu dispor dezenas de biografias de personalidades históricas e ídolos do show business.

Exigir autorização prévia para a publicação de um livro - qualquer que seja ele - é abrir um perigoso precedente que cedo ou tarde dará caminho para a volta da censura, representando assim um retrocesso político. Em outras palavras, a plena liberdade de expressão é o principal sustentáculo da democracia.

* Também publicado no blog de Galeno Amorim e nos sites Dom Total e Tiro de Letra.

Polícia para quem precisa de polícia

Enquanto o atentado terrorista contra a redação do tabloide satírico Charlie Hebdo, em Paris, repercute em todo o mundo, eu me pergunto qual teria sido a reação da mídia e do público se a tragédia tivesse ocorrido no Brasil. Recentemente, a ONU divulgou que 10% dos assassinatos cometidos no planeta ocorrem por aqui. Apesar disso, a imprensa nacional noticiou a pesquisa sem manifestar indignação, como se a morte de centenas de pessoas ocorridas semanalmente no país fosse mera rotina.

As ruas de nossas cidades vão pouco a pouco se transformando em redutos de bêbados e craqueiros, gente exposta à violência e disposta a praticá-la por qualquer trocado. O vício pelas drogas é uma das molas da criminalidade. Não bastasse isso, o crime organizado tomou conta da cena política, que está repleta de corruptos e aproveitadores sob total impunidade – dando-nos a impressão de que no Brasil o crime compensa.

Depois dos protestos ocorridos em 2013, a opinião pública nacional se mostra novamente incapaz de se organizar para reverter o quadro de injustiças e desrespeitos sociais. Quanto mais se prega o politicamente correto, mais o país se mostra incorreto politicamente. Por sua vez, a imprensa se limita a faturar na audiência e nossas autoridades cruzam os braços diante da calamidade.

Muitos apontam a pobreza como principal fator de motivação para o crime. Se assim fosse, não haveria gente de bem nos bolsões de miséria nem bandidos nas classes dominantes. A miséria é uma ignomínia, não resta dúvida, mas certamente uma das molas propulsoras da violência é a desigualdade explícita. Nas grandes cidades, condomínios de luxo afrontam favelas e isso amplia o fosso que separa ricos e pobres. Por outro lado, o consumismo exacerbado estimula o “vale tudo” pela sobrevivência.

Enquanto os cientistas sociais discutem as origens do problema, nossas autoridades simplesmente o ignoram. No Brasil, os políticos vivem noutro mundo. Não andam de ônibus nem a pé pelas ruas, mas em automóveis blindados pagos com o dinheiro do contribuinte. Por sua vez, os comandos de polícia alegam dificuldades para manter a lei e a ordem. Má formação, péssimos salários, corrupção e impunidade rondam quartéis e delegacias.

Quem vive em Belo Horizonte sabe que também por aqui a situação vai se agravando a olhos vistos. Se a PM reforça a segurança no Centro da cidade, os bandidos fogem para os bairros. Se os bairros são guarnecidos, eles voltam a atacar no Centro. O policiamento não é ostensivo e a insegurança é a única certeza do cidadão comum.

Ainda ontem minha filha me disse que está alarmada com o aumento da criminalidade no Caiçara, onde morei ao longo de 50 anos. O número de assaltos ao comércio e a residências do bairro tem crescido principalmente devido à falta de policiamento na região, que dispõe de várias rotas de fuga. A ação dos criminosos tem tirado o sono de muita gente também noutros bairros. O policiamento se mostra insuficiente. Contudo, durante a Copa do Mundo, a segurança na capital foi reforçada e isso baixou os índices de violência. Passada a festa, voltamos à alarmante realidade.

Alguns defendem a desmilitarização das PMs, mas penso que deveríamos melhorar a formação da tropa, aumentar os efetivos e investir pesado na segurança preventiva, como ocorre nos países do Primeiro Mundo. Enquanto isso, os defensores dos direitos humanos deveriam zelar também pelos direitos daqueles que trabalham honestamente e pagam seus impostos em dia.

Artigo publicado no Hoje em Dia e no Dom Total

A verdade dos fatos

Repercutiu sobremaneira o oportuno artigo da professora da UFMG, Angela Carrato, publicado no Observatório da Imprensa, sobre o apoio de jornais mineiros à candidatura de Aécio Neves à presidência da República. Contudo, ouso dizer que o fantasma da censura e do apoio partidário não se faz presente apenas nos jornais, mas – infelizmente – também no meio sindical.

Vivi na pele um constrangimento semelhante ao do meu ex-colega João Paulo Cunha, que se demitiu do Estado de Minas ao ser impedido de publicar artigos contrários à orientação dos patrões. Selecionado para o cargo de assessor de comunicação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais em 2009, pedi demissão cinco meses depois devido à censura de uma reportagem no jornal Pauta.

O então presidente da entidade, Aloysio de Morais, havia sugerido matéria sobre a longevidade do programa “A Hora do Fazendeiro”, da Rádio Inconfidência, o mais antigo do país e talvez do mundo a ser transmitido ininterruptamente desde a inauguração da emissora oficial de Minas Gerais, em 1936. Reportagem feita e editada, uma diretora alegou que o tema favorecia o então governador Aécio.

Argumentei em favor da publicação, dizendo que a rádio estadual não pertencia ao governo e sim ao povo mineiro. Até porque, a matéria não apresentava conteúdo partidário e nem citava o governador. Pelo contrário, valorizava os profissionais entrevistados, que se dedicam com afinco à produção do referido programa.

Dias depois, Aloysio me comunicou que a diretoria do Sindicato havia decidido pelo empastelamento. O tom era o mesmo adotado nas redações de jornais. Somado ao fato de discordar do alinhamento sindical com partidos políticos, entreguei a ele o meu cargo. Posteriormente, a reportagem foi ampliada e publicada no OI. No final do ano passado, uma versão reduzida saiu no livro “Um gigante no ar”.

Barbas de molho

De colaborador a editor de cultura, suplementos e revistas, minha relação profissional com o Estado de Minas durou 25 anos. Demitido em 2008, reclamei na Justiça meus direitos trabalhistas, ganhei a causa e nunca mais pisei na redação. Mesmo leal à empresa, jamais deixei de criticar seu comprometimento com empresas, governos e/ou partidos políticos. Tentei fazer o mesmo no Sindicato, mas sequer fui ouvido.

Ao ler o artigo de Angela Carrato, imaginei o que teria acontecido se a situação fosse inversa. Isto é, se a imprensa mineira apoiasse os candidatos do PT, será que a demissão de alguém que discordasse da orientação dos patrões teria tido a mesma repercussão? Com todo respeito, penso que não. Lamento as demissões ocorridas no Estado de Minas não por razões ideológicas, mas pelos companheiros que se veem jogados num mercado de trabalho agonizante.

Recentemente, a jornalista e escritora Cora Rónai publicou no Facebook o seguinte relato: “Por causa do comentário que fiz sobre a Dilma, venho sendo xingada no Twitter, há dois dias, das piores coisas possíveis – não só em relação à minha aparência, mas também em relação à minha vida afetiva e profissional. Um blog chapa branca chegou a justificar o cyberbullying, dizendo que eu mereço esse tratamento…” Será que os sindicatos vão lhe prestar solidariedade?

Ao tomar posse, o novo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, anunciou que o governo federal pretende propor a “regulação econômica da mídia”. A presidenta Dilma disse que isso “jamais poderá ser feito sem consultar a sociedade”. Ninguém discorda que o processo de concessões de emissoras precisa ser revisto o quanto antes, mas todo cuidado é pouco nessa hora. Segundo Berzoini, a sociedade será consultada por meio dos sindicatos e movimentos sociais. Não por acaso, a maioria ligada ao PT.

* Jornalista e escritor