19 nov 2008
Virou pesadelo. O telemarketing não nos dá sossego. O telefone fixo toca a toda hora, inclusive fora de hora. A gente corre para atender pensando que é urgente. É o vendedor de uma editora tentando nos vender assinaturas de revistas que não nos interessam. Toca o celular. É aquela moça de voz sensual oferecendo cartão de crédito, seguro de vida ou uma vaga no cemitério.
Vale tudo no telemarketing, inclusive assassinar a língua com o maldito gerundismo, que usa três verbos em lugar de um para “estar dizendo” o óbvio. Vendem de tudo, inclusive a própria mãe. E o pior é que costumam entregar! Também atacam pela Internet. Mandam tudo quanto é porcaria via e-mail. Ofertam produtos made in China, Viagra, alongamento de pênis, plástica com silicone. Vírus, muitos vírus.
Os donos de serviços de telemarketing não têm alma, compaixão ou compostura. Exploram jovens que estão desesperados para arranjar o primeiro emprego. Trancam os pobres numa baia com telefone monitorado, sem merenda e sem direito de ir à casinha. Exigem produção, vendas, lucros e não aceitam ”não” como resposta.
O telemarketing é uma das mais terríveis invenções do homem. É pior que a bomba atômica, que pelo menos mata depressa. O telemarketing elimina aos poucos, torrando nossa paciência, desconectando nossos neurônios a cada nova ligação. Insistem todos os dias com a mesma lorota, enchendo o saco, ocupando nosso tempo, nosso telefone, nossas vidas.
O inferno com certeza é um imenso serviço de telemarketing, com um punhado de demônios ligando a cada minuto para o freguês, oferecendo tudo aquilo que jamais fez falta a quem quer que seja. Sem lei e sem limites, as operadoras nos torturam com prazer e sadismo, como se ninguém tivesse mais nada pra fazer, a não ser atender ao telefone ou ler e-mails de desconhecidos.
Consumidores do mundo, uni-vos contra o telemarketing! Boicotem as empresas e serviços que usam e abusam desse maldido dispositivo de vendas e promoções! Dêem preferência àqueles que respeitam sua privacidade e que nunca enviam mensagens sem sua prévia autorização! Talvez assim os bambas do ramo aprendam a respeitar o ser humano que está do outro lado da linha.
Privacidade ainda que tardia! Este deveria ser o lema do consumidor num mundo globalizado que assiste boquiaberto à crise do capitalismo e ao fim do neoliberalismo com tudo o que ele tem de ruim. Que o telemarketing morra junto - já vai tarde! -, para o bem da humanidade.
12 nov 2008
Quem nasceu primeiro, a palavra ou o palavrão? Os linguistas de plantão certamente acreditam que foi a palavra, mas há controvérsia. Afinal, quanto maior a fúria ou o perigo que enfrentam na natureza, mais os bichos produzem sons esquisitos com a boca.
Em tais circunstâncias, o cão rosna, o leão ruge e o macaco emite aqueles grunhidos que só mesmo o Tarzan seria capaz de decifrar. No reino animal, somente papagaios, araras e gente desocupada costumam falar pelos cotovelos sem necessidade.
Por essas e outras, não é difícil imaginar a cena. Certo dia, no tempo das cavernas, um dos primeiros trogloditas tentava literalmente lascar a pedra quando acertou o próprio dedo. Na ânsia de expressar a terrível sensação de dor e fúria, soltou um sonoro “puta que pariu”… Nascia assim o primeiro palavrão.
À noite, enquanto fazia sexo com a fêmea, o tal sujeito quis exibir sua descoberta e passou a resmungar: “Puta que pariu… puta que… puta”. Como nessas horas tendemos sempre a usar palavras pequenas e delicadas, do tipo “ai” e “ui”, a frase foi se resumindo ao essencial: “Puta… puta… putinha”… E dessa forma o palavrão virou palavrinha.
Seja lá como for, ninguém pode negar a utilidade de tais vocábulos. Imaginem, por exemplo, o que teria sido da grande Dercy Gonçalves se ninguém tivesse inventado o palavrão. Provalmente ela jamais teria se tornado a rainha do escracho do teatro nacional.
O também saudoso Costinha com certeza não teria se consagrado sem o uso de tais vocábulos. Menos ainda seu colega Ary Toledo, que chega a degustar palavrões dos mais cabeludos em suas piadas nem sempre engraçadas. E o que dizer de autores como Gregório de Matos e Plínio Marcos? Se o palavrão não existisse, eles provavelmente o teriam inventado.
Mas não precisa ir muito longe para reconhecer a importância de tal invento. No trânsito, por exemplo, o que seria de nós sem a possibilidade de xingar o pedestre “sacana”, que atravessa fora da respectiva faixa, ou o “filho da puta” do motoboy que nos corta pela direita? E quanto ao “veado” do motorista que nos dá aquela fechada sem nem mesmo “dar” seta? No campo de futebol, como poderíamos xingar o “corno” do juiz toda vez que nosso time fosse prejudicado?
Para quem não tolera o palavrão, vai aqui uma imagem clássica que justifica a existência de todos eles. Imaginem o Papa pregando um prego na parede e acertando com o martelo a cabeça do próprio polegar. Pensam que ele evocaria São Pedro ou Nosso Senhor Jesus Cristo? Diante do desespero da dor, com certeza sua santidade se comportaria igualzinho ao homem das cavernas. Reiventaria a pólvora, isto é, o palavrão - que nada mais é que uma palavra explosiva.
Já notaram como os palavrões se ajustam às situações que nos levam a pronunciá-los? Isso revela a própria origem de cada um deles. Se a dor da martelada no dedo se expressa por meio do “puta que pariu”, ”merda” deve ter surgido no exato momento em que aquele mesmo troglodita sujou os dedos enquanto limpava o ”cu”. Esta palavra, por sinal, significa nádegas em bom português. Veio daí a expressão “pica no cu”, já que em terras lusitanas - segundo o escritor e filólogo amador Mário Prata - “pica” quer dizer injeção.
Dizem que “caralho” é uma corruptela de carvalho, ou seja, pau grande, duro e resistente. Os navios antigos tinham uma casinha no alto do mastro principal, para onde eram mandados a vigiar os marinheiros e grumetes indisciplinados. Assim surgiu a expressão “casa do caralho”.
Interessante notar é que algumas pessoas, geralmente gente mais simples e pouco instruídas, dizem “carai”. E essa palavra está corretíssima. Não se trata exatamente de um palavrão ou palavra derivada de “caralho”, mas dá quase no mesmo, pois na língua tupi “Karai” significa pau.
Pra quem não sabe, “vagina”, que não chega a ser palavrão, era a bainha onde os guerreiros guardavam suas respectivas espadas ou adagas. Já “boceta”, nome pelo qual o órgão sexual feminino é popularmente conhecido, era a bolsinha onde se portava o rapé. Este era um pó de cheirar, mas não tinha nada a ver com droga nenhuma.
Antes de se tornar o palavrão preferido dos cariocas, ”porra” era um artefato de guerra usado para derrubar portões de castelos e fortalezas. Como se parecia com o órgão sexual masculino, não demorou para ser associado ao produto do mesmo quando devidamente esfregado. O mesmo órgão também leva o codinome de “cacete” e deste veio a palavra cassetete, que significa cacete curto ou pequeno.
Por tudo isso, palavras e palavrões devem ser considerados irmãos de origem e função. Servem para expressar sentimentos, sensações, necessidades do corpo e da alma. Num outro sentido, palavrão seria palavra bem grande, algo do tipo inconstitucionalissimamente, a maior de todas da nossa língua.
Mais que palavrão, verdadeiro palavreão, que descreve todo ato que fere a Constituição do país. Em linguagem chula, podemos dizer que quem faz uma coisas dessas é um tremendo “filho da puta” que só pensa em si mesmo e pode até se “foder” nos termos da lei.
5 nov 2008
Mais uma vez os Estados Unidos surpreendem o mundo. Se ainda na década de 1960 os afro-descendentes eram impedidos de votar em muitos estados norte-americanos, de lá para cá muita coisa mudou. Os negros da América não só construíram sua cidadania na luta pelos direitos civis, como também conquistaram o poder na Casa Branca.
Mas é bom não simplificar a vitória de Barack Hussein Obama II à questão puramente racial. Ele é filho de um negro muçulmano com uma branca, nasceu em Honolulu, é jovem e democrata. Tudo isso somado poderá representar uma guinada histórica nos destinos do mundo. No entanto, seu governo enfrentará sérias dificuldades não apenas devido à herança deixada por Bush como também no que diz respeito ao racismo, à intolerância do poder branco e aos interesses da indústria da guerra.
Obama terá que se proteger dos inimigos para correr atrás do prejuízo. Se há 10 anos Al Gore tivesse derrotado Bush o quadro certamente seria outro. Talvez nem tivessem ocorrido os atentatos terroristas de 11 de setembro de 2001 e a guerra guerra contra o Iraque. Vai ver até que o próprio senador Obama nem tivesse se tornado candidato à presidência. Afinal, embora aos nossos olhos haja pouca diferença entre os dois grandes partidos políticos dos EUA, o fato é que os democratas costumam ser mais habilidosos e menos radicais que os republicanos.
Não só a maioria dos norte-americanos, mas também boa parte do mundo comemora a vitória de Obama. Seu discurso de vitória deu o tom de conciliação nacional que se espera de um grande líder. No entanto, atrás da cortina de fumaça dos fogos de artifício esconde-se o risco de uma grande frustração.
O próprio Obama reconhece o heroísmo e a determinação de seu rival, o senador John Mckain. Pela idade e experiência, este teria melhores condições de enfrentar a crise do capitalismo que se anuncia. Obama ganhou, mas não foi Mckain quem perdeu as eleições, e sim o atual presidente, George W. Bush cujo saldo de governo é um dos piores da história.
Para cumprir seus compromissos de campanha, Obama terá que desafiar os poderosos da indústria bélica e do petróleo, a começar pela retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão. Ele prometeu que no máximo em 10 anos os norte-americanos não dependerão do combustível fóssil tanto quanto hoje. Seu governo pretende levar a sério a busca de fontes energéticas não poluentes. Mais que salvar os EUA da ruína econômica, o candidato vitorioso sabe que é preciso contribuir para salvar o mundo do caos ambiental.
Por mais esperança que se tenha, o futuro sempre reserva surpresas. No Brasil, quando Lula assumiu o poder depois de vários anos de tentativas frustradas, o país beirou a comoção. Nunca se viu tanta cordialidade entre políticos adversários como no momento de sua posse, quando recebeu a faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique Cardoso. Até mesmo quem não votou em Lula torcia pelo sucesso do seu governo.
Com o passar do tempo, a antiga oposição foi se ajustando ao governo, trocando discursos e teorias pela prática do poder, esbarrando na corrupção e no interesse de grupos econômicos poderosos. Vieram mensalões, mensalinhos, assistencialismo, polêmicas, denuncismo, brigas internas no partido - que muitas vezes se confundiu com o governo - e pouca coisa mudou de fato no país. Não fosse a estabilidade econômica advinda da globalização, as coisas teriam sido ainda mais difíceis.
Mesmo que Lula ainda carregue no peito a chama que tantas vezes incendiou seus discursos de líder da classe operária, o fato é que a tal revolução nunca esteve tão longe de acontecer. Como disse um velho e experiente político da República Velha, é mudar para não mudar. Oxalá Obama seja mesmo diferente dos demais políticos e crie condições para promover em seu país a grande mudança que o mundo deseja assistir.
2 nov 2008
Em seu discurso proferido em Cuba, na semana passada, o presidente Lula reclamava dos neoliberais, que pregam a total ausência do Estado no mundo dos negócios e, quando quebram, pedem socorro justamente aos governos.
Com esse pensamento aparentemente simplório, mas correto em sua linha de raciocínio, o presidente brasileiro põe o dedo na ferida aberta pela crise econômica norte-americana, que tende a levar o mundo a um processo de recessão com resultados imprevisíveis.
O curioso é que Lula respondeu prontamente às necessidades do sistema financeiro nacional, autorizando a liberação de recursos e até mesmo a compra de bancos e financeiras que estejam à beira da falência.
O discurso de esquerda proferido na Ilha de Fidel contraria a prática intervencionista típica dos regimes de centro-direita adotada no Brasil. Bom lembrar que FHC foi duramente criticado pelo PT e outros opositores durante a criação do Proer, considerado por muitos um prêmio à corrupção.
Claro que um governo responsável não pode e não deve assistir à bancarrota do sistema financeiro sem fazer alguma coisa para evitar o pior, mas a ação federal demonstra a contradição entre o discurso e a prática.
O problema é que a intervenção estatal no mercado não vai se restringir ao setor bancário. Este, por sinal, cresceu a olhos vistos com a estabilização econômica do país. Dos dez bancos que mais lucram no mundo, três são brasileiros. E agora o setor é o primeiro a contar com ajuda do governo para minimizar os efeitos da crise. Também já entraram na fila os setores de construção civil e agronegócio, todos querendo se defender do tsunami que Lula chamou de marola.
A pergunta óbvia é se haverá recursos para atender a todos os setores da economia nacional. Economia esta que vive agora sua primeira prova de fogo desde a criação do real. Por outro lado, o próprio Lula está às portas de seu maior desafio. Até hoje seu governo se beneficiou dos resultados positivos da globalização. Pena não ter aproveitado a calmaria para implementar as grandes reformas que o país exige. Restringiu-se, na maioria das vezes, ao assistencialismo de resultado momentâneo.
A indústria automobilística já pisou no freio, encolhendo a produção e dando férias coletivas aos empregados, já que as vendas começaram a despencar. A Vale do Rio Doce também “caiu na real”, antes que o pior aconteça. A redução de 10% na produção de aço anunciada na semana passada é sinal de que a direção da segunda maior siderúrgica do mundo está consciente do desafio que tem pela frente. Afinal, por mais extensa que seja, toda crise é passageira e só aqueles que se antecipam às suas piores conseqüências é que conseguem sobreviver.
Quem mais sofre os efeitos de uma recessão geralmente é o povo. Os prejuízos já começaram pelos pequenos investidores da bolsa. Até agora pouco destaque tem sido dado às perdas acumuladas pelas ações da Vale e da Petrobras, balizadoras da Bovespa. No tocante à população, toda vez que o Estado se vê sem recursos tende a aumentar impostos e a diminuir investimentos em áreas prioritárias como saúde, educação e segurança públicas, que, diga-se de passagem, ainda deixam muito a desejar.
Diante da crise, cedo ou tarde o Planalto terá que engatar marcha-ré nos seus projetos sociais, já que se vê obrigado a atender ao pedido de socorro do grande capital. Até quando haverá recursos para isso é outra boa pergunta a ser feita. Certamente não será possível atender a todos ao mesmo tempo. Nesse caso, os maiores prejuízos tendem a ser repassados aos setores não organizados da economia, que têm pouco poder de pressão sobre os políticos.
Nesse sentido, resta saber quanto de dinheiro será destinado às micro e pequenas empresas. Embora frágeis, são elas que respondem pela maior parcela de empregos no país. Para evitar a volta dos índices alarmantes do desemprego é preciso reservar recursos para esse que é um dos principais setores da economia, embora sempre tenha ficado por último na lista de prioridades do Estado brasileiro.
* Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 06/11/2008.
27 out 2008
A atual crise do capitalismo traz de volta a figura do estado como salvador da pátria. A ironia é que o neoliberalismo defende justamente o contrário. Isto é, a total independência da economia, cabendo ao estado apenas o papel de mediador das questões sociais e da prestação de serviços básicos à população. Ou seja, atividades que não geram lucro à iniciativa privada. Tanto isso é verdade que a União Européia ampliou o poder do capital, diminuindo a força dos estados que compõem o Velho Mundo.
Apesar disso, tanto lá quanto cá, o capitalismo pede socorro ao estado para sobreviver às conseqüências da crise gerada pela ganância de alguns e pela irresponsabilidade de muitos. O pior desse quadro é que o exemplo nos é dado justamente pelos Estados Unidos, país construído sobre os pilares da total independência econômica e da não intervenção do estado nos negócios.
O estado pode, sim, salvar a economia ou boa parte dos setores que sucumbiriam à crise sem a sua intervenção, mas, a longo prazo, as conseqüências disso podem ser ainda piores que a simples quebradeira do sistema. Na década de 1930, com os governos do mundo intervindo para minimizar os efeitos da crise de 29, a humanidade assistiu ao enrijecimento do poder e ao surgimento de regimes totalitários, que pouco a pouco conduziram a uma guerra global. Esta, por sua vez, beneficou justamente o capital norte-americano, tirando os EUA da condição de devedores.
O surgimento de regimes extremistas foi fruto da própria necessidade dos estados de se tornarem fortes o bastante para sobreviverem às pressões sociais decorrentes do apoio irrestrito aos bancos e às grandes empresas. Em muitos casos, os governos estatizaram atividades primordiais ao desenvolvimento da livre iniciativa, a começar pelos serviços bancários. Isso naturalmente deu mais poder ao estado e aumentou a pressão da classe operária, encurralada diante das dificuldades oriundas da crise.
O caso mais flagrante, que comprova a presente tese, foi o da Alemanha. Com a economia destruída devido às dívidas e prejuízos decorrentes de sua derrota na Primeira Guerra, os alemães se viam em pleno caos econômico, com dívidas interna e externa de grandes proporções, sem dinheiro, sem trabalho e sem perpectiva de melhoria a curto prazo.
Depois do fracasso da República de Weimar, o país se encontrava diante de uma encruzilhada autoritária: de um lado o socialismo inspirado pelo modelo soviético, de outro o nazismo de Goobels e Adolf Hitler. No confronto de idéias, como os nazistas prometiam uma saída 100% nacionalista, o grosso da polução apostou suas fichas na extrema direita e os resultados disso ecoam até hoje.
Países europeus de economia frágil seguiram o exemplo Alemão e o que se viu foi uma febre de regimes totalitários de direita, com o fascismo dominando a Itália, Portugal e Espanha. De outro lado, atrás da cortina de ferro, os soviéticos reforçariam suas posições para evitar a perda de território para ideologias nacionalistas, naturalmente opostas ao internacionalismo leninista.
A América Latina não demorou a se tornar palco dessa disputa, com a vitória da direita e o surgimento de regimes populistas como o getulismo no Brasil e o peronismo, na Argentina. Coisa parecida ocorreria logo após a Segunda Guerra, tendo como ponto máximo a vitória de Fidel Castro em Cuba, em 1959, e o recrudescimento da direita em outros países latino-americanos, a partir do golpe militar de 1964, no Brasil.
Tudo isso demonstra os riscos que o mundo contemporâneo poderá enfrentar, caso a intervenção do estado na economia não seja devidamente equilibrada. Em países como Brasil, Venezuela e Bolívia, nos quais o ranço populista faz parte da própria cultura de governo, corremos o risco de sofrer um retrocesso político, com a estatização exagerada da economia e o irremediável fortalecimento do estado.
* Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 29/10/2008.
12 out 2008
Águas da crise
(Paródia de “Águas de Março”, de Tom Jobim)
É pau, é ferro, é o fim dos caminhos
É o euro, é o dólar, despencando sozinhos
É o caos, é o Bush, é Obama, é Mckain
É um exit ou push, é o mal, é o bem
É a crise chegando, é um nó, roubalheira
O discurso do Lula é uma grande canseira
Mamadeira de banco, tombo na financeira
É a bolsa afundando, hora da rezadeira
É ministro falando uma nova besteira
É a figa, oração, é a macumba primeira
É a bolsa subindo, é conversa de feira
O dinheiro do povo é a poupança caseira
Tá de volta a inflação, risco de quebradeira
Passarim, passarão, papagaio na esteira
É uma vela pra Deus, é uma vela pro cão
É um despacho pra santa globalização
É o fundo perdido, é o fim do pavio
O meu bolso fodido, tá furado e vazio
É um desfalque, é um cheque, é sem fundo o desconto
FMI tá voltando, o vigário e seu conto
É um juro indigesto, é uma prata brilhando
É o ouro amanhã, desemprego arrochando
É a lenda, é o mito, é o fim do lulismo
É a bolsa família, chega de populismo!
É o projeto do homem, é o plano na lama
O poder diaraque, é a cana, é a cana
É um abraço no Chávez, é um chute no Sam
É um beijo na Dilma, pra depois de amanhã
São as águas da crise molhando o PT
É a promessa, um deslize, o que é que vai ser?
É uma sombra, é pré-sal, tem petróleo no mar
O governo não quer Petrobras pra explorar
São as águas da crise molhando o PT
É a promessa da volta do PSDB
É pau, é ferro, é o fim do império
E o resto da grana é um tremendo mistério
É um abraço no Chávez, é um chute no Sam
É um beijo na Dilma, pra depois de amanhã
São as águas da crise molhando o PT
É a promessa, um deslize, o que é que vai ser?
7 out 2008
Não precisa ser especialista em finanças para saber quando as coisas vão mal no setor econômico. A atual crise internacional oriunda dos Estados Unidos terá sérias conseqüências, principalmente para os países em desenvolvimento.
O Brasil não está diante de uma marola, como disse o presidente Lula. Trata-se de um tsunami, que poderá nos atingir a todos e varrer do mapa seu projeto de poder, que vinha dando certo exatamente por causa da estabilidade da economia globalizada.
O que mais nos assusta no atual governo é a falta de seriedade diante de assuntos que tanto afligem o cidadão. Até agora, a política lulista resumiu-se ao assistencialismo social, seguindo a receita populista que também caracterizou Getúlio Vargas.
A diferença é que, embora tenha sido ditador, Getúlio adotou postura de grande estadista e foi capaz de dar a vida pelo bem do Brasil. Quanto a Lula, basta julgarmos seu comportamento durante o escândalo do mensalão: não viu, não ouviu e não disse nada. Lavou as mãos feito Pilatos no credo.
A crise mundial arquitetada pelo grande capital tem como finalidade pulverizar o mercado, eliminando pequenos e médios concorrentes, bem como a ameaça de crescimento das economias emergentes.
Afinal, os EUA podem se dar ao luxo de destinar US$ 850 bilhões para salvar suas instituições financeiras. Países da União Européia tendem a seguir o exemplo. E quanto aos países do Terceiro Mundo, o que poderão fazer para minimizar os efeitos da crise sem pedir empréstimos?
Lula e seus ministros tentam fingir que as coisas não são tão sérias e que a economia nacional vai bem, obrigado. No entanto, é nítido o nervosismo do presidente, que já não consegue manter o tom galhofeiro de suas tiradas.
O comportamento da Bovespa, cujos acionistas têm amargado sérias perdas inclusive com ações da Vale e da Petrobras, as mais sólidas empresas do país, sinaliza o tamanho do rombo. Investidores internacionais buscam solidez em outros mercados, o risco Brasil cresce e as perdas nacionais se tornam inevitáveis.
Crises econômicas são cíclicas e fazem parte do modelo capitalista. Marx e outros grandes teóricos sabiam disso. O problema principal dos países emergentes é a ausência de reservas cambiais para resistir aos grandes efeitos dos tsunamis. É como se um Jeca Tatu fosse a Las Vegas tentar a sorte num grande cassino, levando apenas alguns trocados no bolso.
O pior de tudo, no nosso caso, é que desperdiçamos os momentos de calmaria econômica e simplesmente não fizemos as reformas prioritárias para o real crescimento do país. Apesar do proselitismo dos governantes, o dever de casa não foi concluído. Setores prioritários como educação, saúde, segurança e transporte continuam a ver navios.
Definitivamente, o que é bom para o Primeiro Mundo não é necessariamente bom para o Brasil. Seguir modelos importados de realidades completamente díspares continua sendo um equívoco tupiniquim. Sequer conseguimos reforçar o mercado interno ou estreitar laços comerciais com países vizinhos, parte deles governada por presidentes populistas e fanfarrões.
No nosso caso, como ocorreu nos EUA, um setor que enfrenta sérios riscos é o da construção civil. Com o aumento da crise, vêm a alta dos juros, que gera inadimplência, falências, recessão e desemprego.
A bolha inchou de olho nos recursos do PAC, projeto eleitoreiro que surtiu efeito psicológico, mas cuja eficácia foi insuficiente. Resta-nos rezar e torcer pelo menos pior. A julgar pelos exemplos da história, boa coisa não vem por aí.
* Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 16/10/2008.
3 out 2008
Quem pensa que a crise econômica norte-americana é fruto da incompetência do governo Bush pode estar redondamente enganado. O evento, que lembra as crises que assolaram a América nas décadas de 1910 e 1930, pode ter sido arquitetado por cérebros iluminados e sinistros que controlam das sombras os destinos da humanidade. Quem duvida deve procurar na Internet o documentário apócrifo Zeitgeist, de quase duas horas de duração. Religião, economia e poder são os temas abordados com vistas a denunciar a grande conspiração dos poderosos.
Embora possa conter exageros, Zeitgeist - expressão alemã que significa “espírito do tempo” - serve para sacudir a poeira das mentes contemporâneas, tão sufocadas pelo excesso de informações confusas e nem sempre confiáveis que assola os meios de comunicação. De qualquer maneira, há que se refletir sobre o atual momento econômico e seus possíveis reflexos nas políticas mundiais.
A era Bush pode ser considerada um dos períodos mais conturbados da história norte-americana. Empossado sob a suspeita de fraude nas eleições que derrotaram os democratas, o presidente republicano assumiu o poder de fato depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Os supostos terroristas que puseram abaixo as torres gêmeas de Nova York e parte do Pentágono, em Washington, fizeram a nação tremer e temer pelo pior.
Bush se travestiu de grande líder, porta-voz das liberdades democráticas, e não demorou a entrar em ação. Sem nenhuma prova contra seus antigos aliados, a Casa Branca liderou as forças internacionais da coalizão e ordenou a invasão do Afeganistão e do Iraque, iniciando uma guerra arquitetada para durar. A exemplo do Vietnã, as duas frentes foram criadas sob falsas premissas.
Políticos, cineastas, escritores e analistas políticos lúcidos já denunciaram o teatro de absurdo da era Bush. No entanto, em meio a tantas desinformações, dezenas de perguntas permanecem sem respostas.
Quem sabe explicar a implosão dos prédios do Word Trade Center logo após o impacto dos aviões? Que história foi aquela do passaporte de um suposto terrorista ter aparecido nos escombros das duas torres, dias depois do atentado? Afinal, onde anda Osama Bin Laden e que história é essa de que a família Bush tem negócios com sua família? Todo mundo sabe, por exemplo, que os EUA armaram a Al-Qaeda para usar seus combatentes contra os soviéticos no Afeganistão. E foi justamente essa guerra que ajudou a derrubar o império do Leste como um castelo de cartas.
O que não faltam são controvérsias. Mas isso não traz nada de novo, pois Hitler foi tolerado pelos EUA e seus aliados até o momento em que invadiu a França. Afinal, os nazistas impediam que Stalin marchasse sobre a Europa e anexasse os países do Oeste ao império soviético. Para justificar a guerra e a ditadura, Hitler mandou incendiar seu parlamento e acusou comunistas e judeus.
Consta que o avô de Bush ganhou muito dinheiro negociando armas com a Alemanha. Da mesma forma, a indústria bélica norte-americana forneceu armas aos Vietcongs e o governo Reagan ajudou os iranianos em plena guerra contra o Iraque. Só que, naquele momento, Saddan Hussein é que era o aliado dos EUA, que temiam o radicalismo dos ayatolás e viam nele um instrumento de resistência contra os fundamentalistas islâmicos. O episódio dos contras da Nicarágua resultou na punição de um oficial norte-americano e, desde então, Saddan perdeu a confiança em Washington.
O crack da bolsa de Nova York, em 1929, gerou a grande depressão, contaminou os mercados internacionais e desembocou na Segunda Guerra Mundial. Desde o primeiro momento, o presidente Roosevelt quis declarar guerra ao eixo, mas precisava de um pretexto para conseguir a aprovação do Congresso. Foi só cortar o fornecimento de óleo para o Japão para que os militares nipônicos fizessem o seu jogo. Depois do ataque a Pearl Harbor, os ianques foram à forra. Entraram na guerra como devedores e saíram como credores, com a economia nacional plenamente revigorada.
Exemplos não faltam na história. Sobretudo na história recente, escrita pelos interesses do imperialismo norte-americano. Portanto, é difícil supor que os últimos acontecimentos econômicos que tanto têm abalado o mundo resultem da mera incompetência da Casa Branca ou dos capitalistas que a sustentam. Até porque, essa gente tem competência e maquiavelismo de sobra.
Por trás do pano das aparências existe um plano e alguns poucos gênios do mal certamente já estão faturando bilhões, planejando ampliar o controle das finanças nacionais e internacionais, pulverizando possíveis competidores com pequenas manobras no tabuleiro. Num mundo globalizado, as conseqüências serão imprevisíveis. Não estão em jogo apenas as pequenas economias perdidas nas bolsas de valores, mas também o destino de uma civilização sustentada pelo lucro das guerras e pelos interesses das grandes corporações.
29 set 2008
Nesses tempos nada amistosos em que os bandidos não respeitam nem mesmo os freqüentadores de velórios nos cemitérios da cidade, meu compadre Juventino teve que se valer literalmente da presença de espírito para escapar de uma esparrela.
Ele havia recebido a notícia da morte do Alencar, codinome Peixoto, velho companheiro dos tempos de militância no antigo Partidão. Juventino fez questão de levar ao amigo seu último adeus e, à viúva e aos filhos, os votos de pêsames.
O velório estava sendo realizado na capela do Cemitério da Paz, no bairro Caiçara, onde o morto seria sepultado na manhã do dia seguinte. Acostumado às velhas tradições que já começavam a ser esquecidas, Juventino chegou tarde ao local justamente para virar a noite conversando com os familiares do Alencar e com amigos que há muito tempo não via.
Lá pelas tantas da madrugada, quando já não havia muita gente em torno do caixão, dois rapazes mal-encarados adentraram o velório armados até os dentes.
- Isso aqui é um assalto - anunciou aos gritos o mais nervoso dos dois.
- Vão passando tudo o que for de valor: dinheiro, celulares, relógios, correntes de ouro… - emendou o outro num tom de voz não menos agressivo.
Apavorados diante dos revólveres, os poucos presentes não tiveram alternativa senão obedecer aos bandidos.
Juventino estava encostado numa parede ao fundo e, por um momento, chegou a pensar que os dois assaltantes não o tinham visto ali, quieto no seu canto. Mas, para sua surpresa, depois de limparem todo mundo, ambos caminharam em sua direção.
- Você é surdo ou o quê, vovô? - perguntou-lhe o mais nervoso.
- Vai passando a grana e o celular - ordenou o outro.
Nesse momento, sentindo-se totalmente acuado e temendo pela própria vida, já que não tinha celular nem dinheiro no bolso, Juventino viu-se obrigado a improvisar.
- Da última vez, fui assassinado pelos bandidos. Agora, vocês dois querem roubar o meu fantasma?
Surpreendidos, os dois meliantes trocaram olhares, o primeiro com expressão de pavor e o segundo, nitidamente pasmado.
- Puts, Beleleu, eu avisei que esse negócio de assaltar cemitério não ia dar certo - disse o primeiro, já com os cabelos em pé.
- Esconjuro! - gritou o outro, antes de passarem sebo nas canelas.
20 set 2008
Medíocre, diz o Aurélio, significa mediano, sem relevo, comum, ordinário, vulgar, meão… Portanto, pessoa medíocre é aquela que está na média, dentro do óbvio e esperado pelos outros. O problema é que nesses tempos globalizados esse tipo de gente subiu ao pódium.
Como ficaria muito caro elevar o nível intelectual e financeiro das massas, os capitalistas preferiram alinhar a população por baixo, transformando o cidadão em mero consumidor. O estudante já não estuda para “ser” alguma coisa, mas apenas para “ter” um diploma. Os patrões não querem mais profissionais experientes, mas diplomados em teorias que, na prática, não servem pra nada.
Gente medíocre não questiona, não reivindica, não contesta, não provoca, não incomoda os poderosos. O sujeito mediano é incapaz de fazer inimigos e, pelo mesmo motivo, também não é dado à integridade, honradez e lealdade que caracterizam a relação de amizade. Pelo contrário, dança conforme a música ou no ritmo do modismo sonoro que a mídia lhe impõe. O máximo que consegue ler é uma crônica de futebol ou um livro de auto-ajuda.
No Brasil, para manter o povo na média, transformaram a idéia de justiça social em caridade. A assistência aos necessitados virou política oficial de estado. Em vez de trabalho e distribuição de renda, firmaram-se o clientelismo, a bolsa família, a esmola institucionalizada em troca da simpatia do eleitorado.
No setor das artes, em vez de política cultural, temos a proliferação das leis de incentivo. Estas funcionam até mesmo para custeio e manutenção de órgãos públicos destinados à cultura, como teatros, museus e orquestras. Tudo isso com direito a caixa 2, caixa 3, caixa-preta, caixa de Pandora que ninguém quer abrir.
O Brasil parou no tempo e vive da ilusão de que o atual governo é progressista, sábio e generoso. Exemplo disso tivemos na sexta-feira, 19 de setembro. Uma decisão do governo norte-americano para minimizar a crise econômica repercutiu tão positivamente no mundo que a bolsa de Moscou fechou em alta antes mesmo do término do pregão. Enquanto isso, a Bovespa fechava com alta de 9,57%, maior índice desde janeiro de 1999, quando entrava em cena o Plano Real.
Em meio à euforia daqueles que há vários dias perdiam dinheiro no mercado de ações, o presidente Lula - principal crítico do Plano Real quando de sua decretação - discursou dizendo que a economia mundial já não depende mais dos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil caminha com as próprias pernas no quesito economia, inclusive sem a ingerência do FMI. Ele não sabe que o peso da economia norte-americana é tamanho que as outras potências ocidentais criaram a União Européia justamente para equilibrar a balança do capital.
No alto da sua mediocridade, Lula tenta convencer a todos que as coisas boas que acontecem no Brasil resultam do seu “excelente” governo. E o pior é que a sorte lhe sorri e ele alcança os píncaros da popularidade nas pesquisas ecomendadas pelo Planalto, o que demonstra quanto os medíocres acreditam nele. O tom populista é o mesmo adotado por Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.
O que mais incomoda, no entanto, é a ausência de uma oposição política de qualidade, com memória histórica e argumentação matemática. A imprensa brasileira parece amordaçada. Não pela censura de tempos idos, mas pelo dinheiro que lhe é pago pelos governos por meio das verbas publicitárias. Nessas alturas dos acontecimentos, já não me queixo por mim ou pelo nobre e raro leitor, mas pelas novas gerações. A impressão que se tem é que o mundo está acabando e que o Brasil acabará primeiro, tamanha a voracidade dos poderosos que hoje controlam o país.
Por essas e outras, costumo dizer aos amigos que militaram contra a ditadura que, ao contrário do que pensam, “eles venceram”. Se vivo fosse, o general Golbery, principal artífice do regime pós-64, estaria satisfeito com o atual momento político brasileiro. Mesmo com todo o seu maquiavelismo, é difícil acreditar que ele tenha vislumbrado o atual quadro nacional, no qual os partidos se tornaram legendas de aluguel e cujos políticos, com raras exceções, dançam conforme o tilintar das moedas no caixa.