19 jan 2012
Autorizadas pelo Ministério Público Federal, entidades afro-brasileiras produziram em 2011 um vídeo de direito de resposta coletiva a uma reportagem da TV Record. O programa foi gravado, mas a emissora do bispo Edir Macedo recorreu da ação e conseguiu adiar a exibição.
Intitulado “Diálogos das Religiões”, e tendo quase uma hora de duração, o vídeo prega a tolerância religiosa e foi produzido pela TV PUC com a participação de representantes de entidades afro-brasileiras, católicas, budistas e muçulmanas, além de artistas e jornalistas.
Grupos católicos também têm reagido ao que chamam de “perseguição” da Igreja Universal do Reino de Deus. Um movimento articulado nas redes sociais, auto-intitulado “Brasil Sem TV Record”, conclama internautas a boicotarem a programação da emissora.
Mesmo que não professe religião, qualquer pessoa de bom-senso deve defender quem se sente atacado no seu direito de culto. Afinal, a própria Constituição Federal garante esse direito e a legislação em vigor considera crime o preconceito religioso.
Monopólio da fé
Não há sentido na ideia marxista de que a religião seja o ópio do povo, mas há que se reconhecer que ela entorpece os seguidores toda vez que se torna um negócio ou monopoliza a divindade.
Desde que o mundo é mundo, e principalmente após o advento cristão, a religião tem dividido os homens mais que a própria política. Não precisa ser historiador para reconhecer que algumas das maiores atrocidades da história foram praticadas em nome da fé e do fanatismo religioso.
Contudo, quem já leu os Evangelhos sabe que Jesus não pregava propriamente uma religião, e sim o amor a Deus e ao próximo. Consta no Novo Testamento que ele só foi ao templo duas vezes em toda sua vida: quando criança, para discutir com os doutores; e já adulto, para expulsar os vendilhões.
Séculos mais tarde, as cruzadas promovidas por papas e reis católicos massacraram sarracenos e pagãos, enquanto judeus e hereges eram queimados pela Inquisição. Os islâmicos, por sua vez, responderam às incursões em seus territórios perseguindo e dizimando comunidades cristãs.
Condição histórica
Reivindicada por três religiões que adoram o mesmo Deus, Jerusalém tornou-se palco de confrontos e atentados em nome da fé. Os próprios muçulmanos se veem divididos entre xiitas e sunitas, enquanto o Judaísmo tem as linhas progressistas e ortodoxas de interpretação da Torá.
O mais intrigante, no entanto, é que no mundo antigo a intolerância religiosa não chegou aos níveis registrados depois de Cristo. Talvez por adorarem a vários deuses, os politeístas não se matavam em nome deles. Os gregos, por exemplo, mantinham um templo ao deus desconhecido, reservado aos estrangeiros.
Surgido no antigo Egito, o monoteísmo conquistou os israelitas e se espalhou pelo mundo. No entanto, se o lema do Antigo Testamento é “olho por olho, dente por dente”, a lei de Jesus é a do perdão e do amor ao próximo – mesmo sendo este um romano ou samaritano.
Por sua própria condição histórica, e pelo fato de ser desde sempre um país cultural e racialmente miscigenado, o Brasil não pode retroceder aos patamares da intolerância religiosa. Discriminar este ou aquele grupo religioso é desrespeitar a lei e a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem.
* Artigo publicado nos sites www.observatoriodaimprensa.com.br e www.domtotal.com.br
17 jan 2012
Dizem que cabeça vazia é oficina do diabo. Mentira! Oficina do diabo é um coração vazio de amor.
Quem não lê livros tem dificuldades para ler e compreender a vida.
O leitor que lê um bom livro sente que foi lido pelo autor.
No Brasil, a maioria dos políticos não tem biografia, e sim folha corrida.
Quem muito defende os animais, e despreza o ser humano, devia andar de quatro.
Na hora em que mais se precisa,
menos amigos se tem.
E aqueles que ficam conosco,
é porque são sozinhos também.
8 jan 2012
O primeiro a me falar de Marcelo Jiran foi Paulinho Pedra Azul. Foi no ano passado, durante nossa participação no Salão do Livro do Vale do Aço. Ele elogiou muito o jovem parceiro, com o qual vem trabalhando há algum tempo.
Agora chega às minhas mãos o CD Porta-retratos, no qual Jiran interpreta músicas próprias em variados ritmos, inclusive duas parcerias com Paulinho, além de dois clássicos da MPB.
Independente, como a maioria dos bons discos produzidos em Belo Horizonte, Porta-retratos é pouco mais que um demo, mas funciona como preciosa mostra da polivalência desse músico mineiro de admirável talento.
Rodas de choro
Mesmo no início de carreira, Jiran já desfruta do respeito e da admiração dos colegas veteranos, sendo presença destacada principalmente nas rodas de choro da cidade. É um dos mais jovens membros do Clube do Choro, sendo também uma de suas mais notáveis atrações.
O disco é uma produção caseira e foi gravado, mixado e masterizado no “Quarto Som Studio” pelo próprio Jiran. Fora as participações especiais de Juninho (baixo elétrico na faixa 4) e Serginho Silva (percussão nas faixas 4 e 9), é ele quem toca os mais diversos instrumentos nas 12 músicas gravadas.
Piano elétrico, escaleta, percussão, flauta transversal, saxofone alto, bandolim, guitarra, cavaquinho, violões de 6 e de 7 cordas… Difícil dizer qual desses instrumentos o jovem músico domina com maior destreza.
Riqueza melódica
Outra coisa que chama atenção é a riqueza melódica das composições de Marcelo Jiran, começando pelo Choro na praça e desaguando na bossa-novíssima Ilusões, que tem cheiro de mar e remonta aos tempos do Beco das Garrafas.
As interpretações do samba Com que roupa? (Noel Rosa) e do choro Brejeiro (Ernesto Nazareth) são igualmente criativas e revelam o senso de um bom arranjador. Jiran é antes de tudo um grande conhecedor da tradição musical brasileira, e faz disso sua escola.
Com tanta porcaria tocando no rádio e na TV, ou vendendo nas lojas (inclusive virtuais), é uma pena que discos como Porta-retratos e talentos como Marcelo Jiran não estejam ao alcance do grande público. Quem quiser adquirir um ou mais exemplares deve pesquisar na internet. Site do artista: www.marcelojiran.com.br .
* Publicado no site www.domtotal.com.br
22 nov 2011
Lula raspou a barba e o cabelo para evitar os efeitos deprimentes da quimioterapia. Mais uma vez, o Brasil se comove diante da doença de uma figura pública. Foi assim com a diverticulite de Tancredo Neves, com o câncer do vice-presidente José Alencar e com a luta aguerrida da então ministra Dilma, contra a mesma terrível doença.
Poderosas ou não, as vítimas de qualquer tipo de enfermidade merecem toda solidariedade. Afinal, como escreveu o poeta John Donne, “a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”. O câncer é um mal silencioso e geralmente devastador, que pode atacar qualquer pessoa na hora em que menos se espera.
O curioso no sofrimento de ricos e famosos é o seu efeito junto à opinião pública, principalmente entre pessoas das classes menos favorecidas. Justamente aqueles que têm parentes nos corredores de hospitais públicos ou aguardando atendimento na imensa fila do Sistema Único de Saúde (SUS) são os que mais se comovem com a dor alheia.
Aflições do povo
Quando a doença de Lula foi noticiada, teve gente que usou de ironia para dizer que ele deveria se tratar pelo SUS. Não chego a tanto, mas penso que os políticos deveriam ser obrigados de alguma forma a frequentar escolas e hospitais públicos para melhor entenderem as aflições do povo que os elege.
Desde a década de 1960, o fosso que separa os ricos e os pobres em nosso país tornou-se ainda mais largo e mais fundo, na medida em que os sistemas públicos de saúde e educação foram sendo sucateados. E isso não ocorreu por mero descaso ou pela incompetência dos governos, mas para forçar a privatização dos dois setores. De uns tempos para cá, tem ocorrido o mesmo na área de segurança.
Quando essa política se tornou clara, durante a ditadura militar, a classe média estava amordaçada e preferiu aderir à ideia. Dessa forma, quem podia pagar pelo ensino de qualidade matriculava os filhos em escolas particulares, ignorando a injustiça praticada contra os cidadãos de baixa renda. Ocorreu a mesma coisa no setor de saúde, com a proliferação dos planos privados de assistência familiar.
Perda de referencial
A mesma prática é observada no sistema previdenciário, cujos recursos têm financiado obras faraônicas desde a construção de Brasília. Se o estado brasileiro cumprisse o papel constitucional de garantir saúde e educação de qualidade para todos, dificilmente as escolas, os planos de saúde e a previdência privada teriam se tornado negócios lucrativos.
O problema, no entanto, não é o atendimento privado em si, mas a baixa qualidade dos sistemas públicos que deveriam servir de referencial. A má qualidade desses sistemas acaba contaminando a atividade particular, haja vista a situação dos planos de saúde que já não dispõem de médicos e hospitais para atender à demanda com rapidez.
Desde os tempos da ditadura, temos assistido à total falência dos serviços públicos em nosso país. Os mais velhos devem se lembrar de quando o então general-presidente João Figueiredo se submeteu a uma operação cardíaca em Cleverland, nos Estados Unidos.
Aquele fato já sinalizava a desconfiança dos poderosos com relação ao atendimento médico então praticado no Brasil. Com o tempo, a privatização estimulou investimentos e fez surgir clínicas particulares de padrão internacional em várias capitais. No entanto, a falta de recursos oficiais inibiu a mesma qualidade nos hospitais da rede pública.
Um dia no corredor
O SUS é um belo projeto no papel. O problema são os gargalos. Os municípios pequenos, por exemplo, não dispõem de bons hospitais e transferem pacientes para as grandes cidades, onde as instituições de saúde sequer conseguem atender a população local. Não há investimento em saúde pública justamente porque os poderosos podem pagar hospitais particulares aqui ou lá fora.
Francamente, eu não gostaria que Lula se tratasse pelo SUS. Um homem da sua importância histórica merece todo o nosso respeito. No entanto, seria bom se um ex-presidente passasse pelo menos um dia no corredor de um hospital da rede pública.
Ele teria que fazer isso anonimamente, misturado aos pacientes pobres que aguardam atendimento sem conforto nem privacidade. A mídia certamente faria um estardalhaço e talvez assim nossas autoridades começassem de fato a pensar no povo e a devolver os impostos que nos cobram para bancar suas mordomias.
* Artigo publicado nos sites www.domtotal.com.br e www.observatóriodaimprensa.com.br
9 nov 2011
O jornalismo cultural de Belo Horizonte perdeu, na semana passada, dois de seus melhores articulistas. Na terça-feira (1/11), o crítico de cinema e artes cênicas do jornal Estado de Minas, Marcello Castilho Avellar, foi encontrado morto em sua residência. A causa da morte teria sido um enfarto fulminante, aos 50 anos.
No sábado (5/11), morreu o escritor Duílio Gomes, depois de ficar em coma por dois meses em decorrência de um acidente vascular cerebral. Ele tinha 67 anos, foi editor do Suplemento Literário do Minas Gerais e ajudou a organizar a Bienal Nestlé de Literatura. Colaborou no Jornal do Brasil e no Estado de Minas como crítico literário.
Marcello era autodidata, professor de História do Teatro e integrante do Centro de Estudos Cinematográficos. Escrevia como poucos sobre qualquer assunto. Enciclopedista da modernidade, ele abordava temas relacionados à história, política, filosofia e artes em geral – principalmente cinema.
Duílio nasceu em Mariana, formou-se em Direito pela UFMG e ganhou vários prêmios literários. Presente em muitas antologias, publicou O Nascimento dos Leões (Interlivros, 1975), Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1972; Janeiro Digestivo (Comunicação, 1981); Verde Suicida (Ática, 1982); Deus dos Abismos (Lê, 1993), Prêmio Guimarães Rosa; e Fogo Verde (Lê, 1990). Era integrante o grupo de escritores denominado Coletivo 21.
Erudição solidária
Além da erudição despretensiosa, o que mais cativava nos dois articulistas era a solidariedade com que desenvolviam seu trabalho. Como editor do Suplemento Literário, na década de 1980, Duílio abriu portas para muitos colaboradores, alguns dos quais se firmariam nacionalmente como escritores de talento.
Trabalhava sob a superintendência de Murilo Rubião e dividia tarefas com autores como Adão Ventura, Jaime Prado Gouvêa, Manoel Lobato e Paschoal Motta. Além dos jovens talentos que buscavam espaço para publicar seus primeiros textos, o grupo convivia com artistas de várias áreas e com autores nacionais consagrados.
Já Marcello escrevia com extrema objetividade, colocando o tema erudito ao alcance de qualquer leitor interessado. Aqueles que conviveram com ele na redação do Estado de Minas são unânimes em reconhecer não só suas habilidades de articulista, mas também o caráter solidário com que se relacionava com seus pares.
Ele era daqueles que estão sempre prontos para ler e copidescar o texto do colega, burilando a visão estética sem nunca atropelar a ética no exercício da crítica ou da reportagem. Foi capaz de analisar uma partida de futebol realizada no Mineirão sob a ótica do espetáculo, sem entrar no mérito das paixões futebolísticas.
Escola diferenciada
Como homem de teatro, Marcello lecionou na Fundação Clóvis Salgado, na Oficina de Teatro de Pedro Paulo Cava – onde, aliás, se formou – e também na PUC Minas. Dirigiu alguns espetáculos de sucesso, entre eles o monólogo Vincent, de Jefferson da Fonseca, baseado nas cartas dos irmãos Théo e Vincent Van Gogh.
Com sua aguçada sensibilidade de crítico de cinema e de artes cênicas, ele ajudou a consolidar o trabalho de artistas mineiros que hoje têm projeção nacional, entre eles os cineastas Helvécio Ratton e Paulo Thiago, os grupos teatrais Giramundo e Galpão, e as companhias de dança Corpo e 1º Ato.
Marcello Castilho Avellar e Duílio Gomes pertenciam a uma escola diferenciada de críticos de artes. Eram daqueles que não se contentam em analisar as artes de fora, mas desejam contribuir com o fazer cultural a partir de suas visões estéticas propriamente ditas.
Por todos esses méritos como articulistas e homens de cultura, ambos farão falta à cena artística mineira e nacional, principalmente no momento empobrecedor e conturbado em que se encontra a mídia impressa no país.
* Artigo publicado nos sites www.observatóriodaimpresna.com.br, www.tirodeletra.com.br e http://www.sjpmg.org.br/inicio
6 nov 2011
Uma caixa com dois livros, recentemente lançada em Belo Horizonte pela Conceito Editorial, presta justa homenagem a um dos mais combativos e respeitados jornalistas do país.
Passos de uma Paixão – Dídimo Paiva e a Dignidade no Jornalismo traz seu perfil biográfico assinado por Tião Martins e Alberto Sena. O outro volume, Um Bunker na Imprensa – Dídimo Paiva em Seis Décadas de Profissão, reúne 71 textos de sua autoria, selecionados e organizados por André Rubião.
Conheci Dídimo na redação do Estado de Minas, onde convivemos ao longo de duas décadas. Poucos nomes da imprensa brasileira foram ao mesmo tempo tão éticos, competentes, perseverantes e apaixonados pela profissão quanto ele. Se morasse no Rio ou São Paulo sua trajetória certamente seria conhecida nacionalmente.
Tanto isso é verdade que dezenas de colegas dão testemunho de suas qualidades nos dois livros. Outras dezenas ficaram de fora por falta de espaço. Talvez o certo fosse publicar um terceiro volume só de depoimentos sobre sua pessoa e tudo o que ele representa para o jornalismo praticado em Minas e no Brasil.
Independência
Fernando Morais e Mauro Santayana assinam respectivamente os dois prefácios. O primeiro livro tem contracapa assinada pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, enquanto o senador e ex-presidente Itamar Franco escreveu a contracapa do segundo volume.
Os dois políticos destacam principalmente a coragem e o comportamento ético do jornalista que enfrentou os militares e que jamais aceitou cargos ou favores de quem quer que seja. Foi cogitado até para ser ministro do TST, mas agradeceu a honraria.
Dídimo presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais em meados dos anos 70 e enfrentou a ditadura militar com desassombro. Foi um dos principais artífices do chamado “novo sindicalismo” e um dos primeiros a perceber as potencialidades políticas de Lula, que despontava como líder sindical no ABC paulista.
No entanto, mesmo sendo seu amigo e mentor, recusou-se a ser o primeiro nome a disputar o governo de Minas pelo recém-criado Partido dos Trabalhadores, em 1982. Mais tarde, tornou-se um crítico ferrenho do governo petista, com a mesma independência demonstrada desde os tempos anteriores à ditadura militar.
Generosidade
Tive a oportunidade de colaborar em cadernos especiais editados por Dídimo. A seu pedido, cheguei a redigir editoriais, tarefa pela qual era devidamente remunerado. Generoso com os mais jovens, ele sempre elogiava nossos textos e procurava melhorá-los sem nunca alterar o conteúdo das ideias.
Sempre conversamos sobre os mais variados assuntos, principalmente política e jornalismo. Dídimo é acima de tudo um revoltado com as desigualdades sociais e a prepotência das elites. Tanto que muitas vezes se colocou na linha de confronto com os patrões, mas sem nunca perder o senso da lealdade profissional.
Para ele, que sempre transitou à esquerda e à direita do poder, a pessoa humana está acima das ideologias e o jornalista tem que ser um questionador imparcial, livre pensador a serviço da informação, da cultura e da história.
Por essas e outras, os dois volumes lançados pela Conceito deveriam ser adotados nos cursos de Comunicação pelo país afora, sendo leitura obrigatória principalmente para os estudantes de Jornalismo. Chama atenção não apenas a trajetória de Dídimo, desde a infância pobre em Jacuí, mas principalmente seu arrojado estilo narrativo e a atualidade dos temas abordados.
* Artigo publicado nos sites www.domtotal.com.br e www.observatóriodaimprensa.com.br
10 out 2011
Recebi por e-mail um texto do jornalista e consultor de inovações José Luiz de Almeida Costa, companheiro dos tempos de faculdade de Comunicação, alertando para mais um absurdo no que se refere à Copa de 2014.
Segundo ele, o evento seria uma ótima oportunidade de divulgação da lusofonia em âmbito global, mas os organizadores pregam que os brasileiros precisam aprender o inglês “para não dar vexame diante dos turistas estrangeiros”.
Meu amigo se mostra indignado. Depois de ler o seu texto, resolvi me posicionar diante de tal submissão. Jamais uma coisa dessas ocorreria em países como França e Estados Unidos, por exemplo.
Franceses têm orgulho do seu idioma e, nos Estados Unidos, além da língua inglesa, imigrantes de diferentes países falam o próprio idioma em suas respectivas comunidades.
Submissão vergonhosa
A postura de nossos “líderes” é mais uma vez desanimadora. Um povo que se preza se impõe principalmente pela língua e pelos costumes. Se tirarmos isso dele, restará muito pouco ou quase nada de sua cultura e do seu modo de ser.
Foi o que fizeram com os índios e, mais tarde, com os africanos trazidos para cá na condição de escravos. Felizmente, apesar de tal violência, o português falado em nosso país foi enriquecido com palavras oriundas das línguas desses povos.
Como cantou Noel Rosa no samba Não tem Tradução, “tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia, é brasileiro, já passou de português”. Temos em nossos dicionários e usamos diariamente – mesmo sem perceber – muitos termos de origem tupi-guarani, africana, árabe, francesa e por aí vai.
Ao contrário da língua imperial, o português falado no Brasil sempre se mostrou plural e flexível. Foi também enriquecido pelo nhangatu, que chegou a ser a língua dominante do vasto território nacional em conjunto com sua irmã idiomática, a língua geral paulista, falado por índios, jesuítas e colonos de origem portuguesa.
Em vez de nos rendermos ao aprendizado do idioma inglês em função da Copa de 2014, José Luiz sugere que deveríamos estimular os turistas e membros das delegações esportivas visitantes a aprenderem algo de básico do nosso idioma.
O lado lúdico do turismo
Nesse sentido, penso eu, o Ministério da Cultura teria um importante papel a desempenhar na publicação e distribuição de minidicionários e de livrinhos de viagem contendo frases prontas do nosso dia a dia e a tradução em inglês. Isso facilitaria a vida dos visitantes e daqueles que deverão atendê-los em solo brasileiro.
José Luiz não contesta a praticidade do inglês como idioma da globalização. No entanto, chama atenção para o estado de espírito do turista que deseja “estar-se” brasileiro quando aqui está. É o lado lúdico do turismo a ser levado em conta e a nos oferecer uma boa oportunidade de divulgação da nossa língua.
Segundo ele, “esforçar-se para comunicar na língua do lugar visitado não é só demonstração de deferência aos anfitriões. É uma manifestação de civilidade planetária e da capacidade de aprender um com o outro. O turismo da Copa de 2014 trás uma oportunidade de entrelaçamento cultural luso-global que não deve ser desperdiçada”.
Assino embaixo e lanço a ideia pelo bem do Brasil e dos brasileiros. Afinal, como cantou Caetano Veloso ecoando o poema de Fernando Pessoa, “minha pátria é minha língua”.
* Artigo publicado no site Dom Total.
4 out 2011
O problema não é falar sozinho. O problema é quando o “outro” responde.
O grande amor é aquele que acorda em você suas melhores virtudes e inibe seus piores defeitos.
Não me preocupa tanto a corrupção dos políticos, porque é pública e notória. Preocupa-me a pequena corrupção do dia a dia, impregnada em nosso jeitinho e disfarçada pela maquiagem da hipocrisia.
Ser politicamente correto é não desejar a mulher do próximo, principalmente quando ele estiver bem próximo.
Sexo sem amor é como champanha sem espuma. Pode até ser gostoso, mas não faz cócegas no nariz.
E Deus respondeu aos desesperados: Eu não existo, sou um produto da fraqueza dos homens que precisam culpar alguém por suas falhas ou agradecer por suas virtudes.
17 set 2011
Dados divulgados na segunda-feira (12/9) pelo Ministério da Educação (MEC) apontam que somente 8% das escolas “tops” de ensino médio do Brasil são públicas. Do grupo considerado “escolas públicas” constam as não profissionalizantes, as que são ligadas a entidades de ensino superior ou aquelas que realizam exames para selecionar alunos.
O ENEM demonstrou que as escolas mineiras destacadas entre as dez melhores do país são dirigidas à elite. Além de três entidades particulares de ensino, dados do MEC apontam a presença do Colégio de Aplicação, que é ligado à Universidade Federal de Viçosa, em oitavo lugar.
As melhores escolas do país continuam localizadas nas regiões Sul e Sudeste, com destaque para aquelas que atendem à alta classe média. Tudo isso demonstra mais uma vez a péssima qualidade do ensino público brasileiro, que além de ruim não é nada democrático.
O país, diga-se de passagem, tem um dos piores sistemas de ensino do mundo, com índices de repetência e abandono escolar entre os mais elevados da América Latina. Isso foi demonstrado em 2010 pelo Relatório de Monitoramento de Educação para Todos, da Unesco. O estudo demonstrou que a qualidade da educação brasileira é muito baixa, principalmente no que tange ao ensino básico.
Segundo o relatório, embora tenha havido melhora entre 1999 e 2007, o índice de repetência no ensino fundamental do país é de 18,7%, ou seja, o mais elevado do continente e acima da média mundial, que é de 2,9%. Em torno de 13% dos estudantes brasileiros deixam a escola no primeiro ano do ensino básico.
Deficiência acadêmica
Por outro lado, para concorrer com as grandes potências, o Brasil terá que se esforçar ao máximo também para aumentar o percentual da população com formação acadêmica superior. O país está no último lugar num grupo de 36 países avaliados segundo o percentual de graduados na população de 25 a 64 anos. Em 2008, apenas 11% dos brasileiros nessa faixa etária tinha diploma universitário. O Chile, na mesma época, tinha 24% e a Rússia, 54%.
Apesar das promessas e dos discursos oficiais, as provas do ENEM e as recentes pesquisas sobre a educação brasileira comprovam o óbvio: estamos parados no tempo e na contramão da história. Basta ver a situação do ensino público estadual em Minas Gerais. Os professores estão em greve por melhores salários há mais de 90 dias, sem que o governo se sensibilize. Aqui, como em outros estados, há dinheiro para tudo, menos para a educação.
O salário dos professores de escolas públicas é uma vergonha, se comparado aos ganhos de políticos e autoridades constituídas. Mas não é só a questão salarial que abala o sistema de ensino. Há que se levar em conta a falta de investimentos na compra de livros, equipamentos e também no quesito segurança. Em muitos casos, as escolas ficam em áreas de risco social, sendo depredas ou funcionando como ponto de venda de drogas.
Quem tem o costume de visitar escolas públicas no país sabe que seria preciso muito esforço e vontade política para mudar o quadro caótico em que se encontram. Sem isso, no entanto, não teremos como vislumbrar um futuro melhor para os brasileiros.
Jogo de faz de conta
Os atuais governos investem em programas sociais, gastam muito em propaganda oficial e na infra-estrutura da Copa do Mundo, mas parecem ignorar completamente a importância do ensino de qualidade. Há todo um jogo de faz de conta no âmbito da educação.
A escola pública brasileira precisa ser repensada e reorganizada pelo próprio bem do Brasil. O sistema atual simplesmente não funciona. Não prepara crianças e jovens para o mundo atual e menos ainda para o futuro próximo.
A fonte de insegurança, violência e falta de perspectivas de vida está na ausência de investimentos no ensino público em todos os âmbitos. Trata-se do alicerce do conhecimento e da verdadeira cidadania em qualquer país civilizado. Sem isso, todo o resto estará irremediavelmente perdido.
* Artigo publicado no site Dom Total.
1 set 2011
Um evento literário de qualidade voltado para crianças e jovens, mas sem excluir o público adulto. Eis o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais, de 1º a 11 de setembro na Serraria Souza Pinto.
Estarão presentes autores como Affonso Romano de Sant’Anna, Bartolomeu Campos de Queirós, Ferreira Gullar, Luis Fernando Verissimo, Marina Colasanti, Miquéias Paz, Peter O’Sagae, Vera Maria Tietzmann da Silva, Ziraldo e outros convidados.
Além de mesas-redondas, palestras e oficinas literárias, a programação inclui teatro, filmes, leituras, contação de histórias e sessões de autógrafos. Também estão programadas exposições em homenagem a Fernando Sabino e Marcelo Xavier, e mais um Encontro de Bibliotecários da rede municipal de ensino.
Os dois momentos mais significativos, no entanto, deverão ser o lançamento do Circuito Literário Mineiro, dia 7, e a apresentação do Coletivo 21, dia 9. O circuito tem o objetivo de levar eventos literários ao interior do estado e abrange até agora Divinópolis, Pouso Alegre e Norte de Minas (Montes Claros, Pirapora, Janaúba e Bocaiúva).
Já o Coletivo 21 foi idealizado pelo jornalista e escritor Adriano Macedo e reúne 23 dos mais expressivos autores residentes na capital. Seu objetivo é funcionar como fórum de ideias e plataforma de promoção da literatura produzida pelos seus integrantes.
Todo mundo sabe – ou pelo menos imagina – as dificuldades enfrentadas pelos autores nacionais, que disputam mercado com best-sellers e livros de auto-ajuda. Basta conferir as listas dos mais vendidos no país, geralmente dominadas por obras de autores estrangeiros, nem sempre de qualidade.
A coisa se torna ainda mais difícil para aqueles que residem fora do eixo Rio-São Paulo. Além de não contarem com grandes editoras em suas respectivas regiões, quase nunca têm espaço em veículos de circulação nacional. Se a literatura brasileira perde espaço na mídia, nos jornais regionais a coisa piora principalmente para os autores locais. Em tempos de globalização, o que não é global nem sempre é considerado notícia pelos jornais.
Belo Horizonte, por exemplo, vive a “síndrome do tapete vermelho”. Produtores culturais geralmente preferem apresentar autores e artistas de fora, supondo que terão plateia garantida – o que não deixa de ser verdade. Enquanto isso, os escritores da terra raramente têm espaço para falar de seus livros, ideias e projetos. Em alguns casos, os produtores convidam todos, remuneram os de fora e sequer dão gorjeta aos autores locais.
Mudança de perfil
Quem escreve tem fama de individualista e solitário, o que só prejudica numa era dominada por cooperativas e grandes corporações. Agindo coletivamente e agenciando seus próprios projetos, os escritores terão maiores chances de chamar atenção para a qualidade do seu trabalho. A quase ausente figura do agente literário no país poderá pouco a pouco ser compensada pela ação coletiva de grupos que também possam influir politicamente.
Foi o que ocorreu no recente anúncio da não-realização do Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte. Os 23 integrantes do Coletivo 21 redigiram uma “carta aberta” à presidenta da Fundação Municipal de Cultura, Thaïs Pimentel, manifestando sua insatisfação contra a decisão. Em poucos dias, o documento recebeu a adesão de quase 250 pessoas. Com isso, criou-se a possibilidade de que o concurso volte a ser realizado em 2012, mas com mudanças que lhe garantam mais visibilidade e repercussão.
Além de Adriano Macedo e do autor deste artigo, o Coletivo 21 é formado por André Rubião, Antônio Barreto, Branca Maria de Paula, Caio Junqueira Maciel, Carlos Herculano Lopes, Cláudio Martins, Cristina Agostinho, Dagmar Braga, Duílio Gomes, Francisco Morais Mendes, Jaime Prado Gouvêa, Jeter Neves, Léo Cunha, Luís Giffoni, Malluh Praxedes, Neusa Sorrenti, Olavo Romano, Ronald Claver, Ronaldo Guimarães, Ronaldo Simões Coelho e Sérgio Fantini.
A maioria desses autores coleciona importantes premiações e tem livros publicados em várias edições, alguns até no exterior. Na noite do dia 9, sexta-feira, eles estarão autografando a antologia intitulada “Coletivo 21”, publicada pela Autêntica Editora, com prefácio de Vivina de Assis Vianna e orelha assinada por Luiz Ruffato. São 33 textos em diferentes gêneros e estilos que atestam o talento do grupo e sua disposição para o trabalho.
-O Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais é uma realização da Câmara Mineira do Livro e AHPCE Gestão Cultural, com produção da Plataforma Produção Cultural e curadoria de Maria Antonieta Antunes Cunha.
De 1º a 11/9 na Serraria Souza Pinto, Belo Horizonte, com entrada franca
Dias úteis: das 9h às 21h
Dia 7, sábado e domingo: das 10h às 21h
Dia 11: das 10h às 20h
Confira programação no site www.salaodolivro.com.br
* Artigo reproduzido nos sites Dom Total, Jornalistas de Minas, Minaslivre e Observatório da Imprensa.