10 mai 2012
Cultura não tem mais importância. Literatura, então, nem pensar! Estamos na era do espetáculo e do entretenimento. É o pão e o circo midiáticos, temperados para distrair e alienar o público. A leitura provoca reflexão. Portanto, está na contramão do consumismo.
Tudo a ver com o clássico Fahrenheit 451, romance escrito por Ray Bradbury lançado em 1943 e adaptado para o cinema pelo genial Truffaut, em 1966. A ideia original é de 1947, com o conto Bright Phoenix, que só seria publicado em 1963 tendo antes disso, em 1951, inspirado a novela The Fireman. Esta foi publicada em capítulos na revista Playboy, entre março e maio de 1954.
Bradbury escreveu o livro durante a Guerra Fria, alertando para a crescente paranóia da sociedade norte-americana daquela época. Contudo, é quase certo que o ponto de partida tenha sido o trauma provocado pelo 10 de maio de 1933, quando os nazistas queimaram livros em várias praças da Alemanha.
O romance fala de um tempo tenebroso, no qual as obras literárias são proibidas e as opiniões próprias passam a ser consideradas antissociais. O governo ditatorial suprime o pensamento crítico e manda queimar livros e leitores – se preciso for. O título da obra refere-se à temperatura na qual o papel pega fogo.
A fábula de Bradbury está perto de se tornar realidade, pelo menos no Brasil. Por mais que os governos falem em prestigiar o livro e a leitura, o fato é que o brasileiro continua sendo um dos povos que menos lê em todo o mundo. Estamos atrás de países asiáticos e dos nossos vizinhos sul-americanos. Ainda não queimamos livros em praças públicas, mas, pelo jeito, chegaremos lá.
Da modernidade ao caos
Houve um tempo no Brasil em que ler era chique. A classe média em ascensão nos anos JK valorizava a leitura e prestigiava todas as formas de arte. O país mergulhava na modernidade e havia sede de conhecimento. O cinema era novo, a arquitetura e a bossa eram novas, o teatro era feito em arena e a poesia se tornava tão concreta quanto o sonho nacionalista.
Veio Jânio Quadros, a tumultuada renúncia, a posse e a deposição de João Goulart. O longo período de ditadura preconizou o avanço econômico em detrimento dos valores nacionais e libertários. A censura imperou durante muito tempo, ceifando a criatividade de cineastas, compositores, dramaturgos e escritores que insistissem em falar da realidade.
Por estranha contradição, o regime militar tentou minimizar o analfabetismo ao estimular programas educacionais como o Mobral. Na outra ponta, promoveu reformas pedagógicas que deram início ao irreversível sucateamento do ensino público no país.
Ao mesmo tempo, modernizava-se a televisão, que passou a ser o principal veículo de propaganda oficial. Junto com o entretenimento eletrônico, teve início uma espécie de lavagem cerebral promovida pelo Big Brother globalizado, que lembra a realidade opressora do romance 1984, de George Orwell.
A ditadura caiu de podre e o país se redemocratizou sem passar a limpo questões fundamentais, como a tortura, a corrupção e a falta de investimentos em educação, saúde e segurança pública. Esses serviços foram pouco a pouco sendo privatizados, convertidos numa fábrica de dinheiro para empresas especializadas.
Dificuldades para publicar
A partir do governo Collor, o neoliberalismo tornou-se palavra de ordem, mesmo que disfarçado por programas assistencialistas como o Bolsa-Família. Nem o sociólogo FHC nem o operário Lula se preocuparam de fato com a melhoria da educação. Em vez de formar cidadãos, o país forma mão-de-obra especializada e consumidores de segunda classe.
A mídia acompanha a tendência, divulgando a pior música do mundo em detrimento da qualidade que em outras épocas influenciou artistas lá fora. Mesmo as telenovelas, que já tiveram autores do porte de Janete Clair e Dias Gomes, perdem qualidade ao falar de personagens caricatos, quase inexistentes. E o pior é que essa produção medíocre influencia o cinema nacional, cuja maioria dos filmes de sucesso reproduz os chavões televisivos.
Nesse cenário, o livro perdeu e continua perdendo espaço nos jornais e nas telas, tendo agora que enfrentar a concorrência da internet. As obras que encabeçam as listas dos mais vendidos quase sempre são best sellers importados, de qualidade questionável e que nada têm a ver com a nossa realidade.
Autores brasileiros têm cada vez mais dificuldades para publicar e divulgar seus originais. Boa parte das editoras está de olho nas compras oficiais e mostra-se pouco interessada em atrair o leitor avulso. O resultado disso, somado à concorrência dos sites de compra, é que muitas das poucas livrarias do país estão fechando as portas.
O Ministério da Cultura tenta fazer a sua parte, implantando programas como o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), mas fica difícil sem o apoio da mídia e de governos municipais e estaduais. Há que se valorizar o livro como veículo de educação e formação humana. É preciso que professores e pais reaprendam a ler histórias para as crianças, dando a elas o exemplo pessoal de amor à leitura.
As grandes civilizações se imortalizaram por meio da arquitetura e da escrita, enquanto as principais religiões se codificaram em grandes livros como a Bíblia, o Corão e o Mahabharata. Como disse Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Em outras palavras, fora dos livros não há salvação.
* Artigo publicado no site Dom Total.
24 abr 2012
Coragem é para poucos num país de gente acostumada a levar vantagem. O escritor Fabrício Capinejar provou ser um desses poucos ao publicar uma carta aberta aos organizadores da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, cancelando sua participação no evento.
O motivo foi a divulgação da notícia de que o patrono da feira deste ano, o rapper Gabriel, o Pensador, receberia um cachê de R$ 170 mil para participar. Para Capinejar, o anúncio do pagamento ao músico (que diz admirar) é “uma afronta às vésperas de pleito eleitoral”.
“Literatura não deve ser feita para atrair público, e sim para formar público”, ressalta o escritor gaúcho, alertando que com o valor do cachê cobrado pelo rapper seria possível abrir bibliotecas ou mesmo realizar outras feiras literárias.
Sua atitude aponta o equívoco que geralmente é praticado pelos organizadores de eventos literários no país. Em vez de privilegiar as escolas, criando condições para que estudantes de todas as idades tenham acesso aos livros e seus respectivos autores, as bienais, festas e feiras acabam aderindo à cultura do espetáculo.
Formação de leitores
Uma coisa é promover um evento que vise realmente à formação de leitores, estimulando, sobretudo, crianças e jovens a descobrirem as maravilhas da literatura. Outra é realizar algo meramente comercial e espetacular, repleto de estrelas midiáticas pagas a peso de ouro.
Claro que os participantes de eventos literários devem ser devidamente remunerados, pois o escritor também tem contas a pagar e jamais deveria trabalhar de graça. Mas há que se obedecer a certa lógica, sem discriminar esse ou aquele convidado com cachês abaixo ou muito acima da média. Contudo, é notória a preferência pelos “famosos” ou queridinhos da mídia, justamente pelo fato de atraírem público.
No ensaio La civilización del espectáculo (Alfaguara), o prêmio Nobel Mario Vargas Llosa alerta para os riscos que corremos hoje: “Como no hay manera de saber qué cosa es cultura, todo lo es y ya nada lo es”. Nesse sentido, aqueles que se encarregam de organizar eventos literários deveriam levar em conta a natureza do livro e da própria literatura.
Numa sociedade que cultua o entretenimento, o hábito da leitura deveria se destacar justamente por contrariar a cultura do espetáculo. Literatura requer recolhimento, tanto para ser produzida quanto para ser consumida. Portanto, não pode ser considerada igual ao cinema, ao teatro ou aos shows musicais, embora esteja na raiz dessas artes.
Sutil conspiração
Em entrevista ao jornal El Pais, Vagas Llosa reclama que se sente indefeso frente a uma sutil conspiração. Para ele, a cultura do espetáculo está anestesiando os intelectuais e desarmando o jornalismo, criando na política um espaço onde ganham terreno o cinismo e a tolerância com a corrupção.
Por tudo isso, ao se recusar a participar de um dos eventos literários mais importantes do país, Fabrício Capinejar nos alerta para o risco de promover o livro e a leitura por um viés equivocado. Uma política séria de divulgação da literatura e de promoção da leitura deveria optar pela qualidade e não pela quantidade de público.
O problema é que geralmente as bienais, festas e feiras literárias são realizadas com recursos de leis de incentivo à cultura. Como esses recursos advêm de patrocinadores mediante a renúncia fiscal, estes desejam que o evento que conta com sua chancela seja coroado de sucesso. Nesse caso, sucesso significa exibir a marca ao maior número possível de consumidores.
A política de estímulo ao livro e à leitura deveria ser obra dos governos, sobretudo federal, mesmo sem dispensar o apoio da iniciativa privada. Esse tipo de iniciativa não pode ficar refém das leis de incentivo, que funcionam bem no que diz respeito ao entretenimento e ao espetáculo. Afinal, livro e leitura dialogam diretamente com educação, obrigação do estado garantida pela Constituição Federal.
* Além de vários comentários favoráveis, este artigo teve 61 compartilhamentos no site Dom Total e outros 67 no Observatório da Imprensa. Também foi replicado em diversos sites e blogs literários.
15 mar 2012
A sabedoria popular nos ensina que é preciso ter cuidado com aquilo que desejamos. Afinal, por mais que um sonho pareça impossível, sempre corremos o risco de vê-lo realizado.
Exatamente há uma década, o compositor e multi-artista Sérgio Ricardo – autor de Zelão, Calabouço e da trilha sonora do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol – comemorava 70 anos de vida, enquanto o país festejava o centenário de Carlos Drummond de Andrade.
Na ocasião, ao entrevistá-lo para o jornal Estado de Minas, eu disse a ele que tentaria “fazer a ponte” para que a Fundação Clóvis Salgado produzisse em BH o espetáculo Estória de João Joana.
Trata-se do único cordel escrito por Drummond e genialmente musicado por Sérgio Ricardo. Por sinal, o próprio compositor fez os arranjos com instrumentação de Radamés Gnattali. A peça estreou em Brasília, em 1985, sendo lançada em LP e, 15 anos depois, num CD com as participações de João Bosco e Chico Buarque.
Grande elenco
Em 8 de março deste ano, nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, assisti em Brasília ao grande espetáculo que sonhei para o Palácio das Artes. Lá estava a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, na sala Villa-Lobos, sob a regência do jovem maestro Cláudio Cohen.
No elenco, além de Sérgio e seus filhos João Gurgel e Marina Lutfi, destacaram-se Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo. Também estavam no palco os músicos Lui Coimbra (violão e charango), Bororó (contrabaixo), Jurim Moreira (bateria) e Armando Marçal (percussão).
Mais que uma simples apresentação musical, o cordel sinfônico representou o encontro da obra de Drummond e Sérgio Ricardo com o eruditismo de uma das principais orquestras do país. Bom lembrar que, há 27 anos, a estreia nacional em Brasília teve regência do próprio Cláudio Santoro.
O cordel se passa no Nordeste e remonta ao regionalismo, esse gênero literário que tanto ajudou a consolidar a cultura brasileira. Palavras típicas usadas pelo poeta itabirano encontraram a justa medida em acordes perfeitos, cuja sonoridade lembra a paisagem da caatinga.
Ritmos nacionais
Plateia lotada, o público se emocionou com a sina da menina criada na roça como menino, feito a Diadorim de Guimarães Rosa, para sobreviver num universo notadamente masculino em tempos anteriores às lutas feministas.
Os versos de Drummond em redondilha maior ganharam mais força na partitura tão bem interpretada. A melodia valoriza ritmos como maracatu, batuque, coco, folia e samba de roda. O arranjo e a orquestração apresentam um desenho harmônico que lembra Villa-Lobos, a melhor expressão sonora do modernismo.
Lá estava eu, boquiaberto, depois de ter reencontrado Sérgio Ricardo na hora do almoço, no hotel onde ficamos hospedados. Sérgio sorriu ao se lembrar de nossa conversa em 2002, quando sugeri sua parceria com Drummond à direção da Fundação Clóvis Salgado, sem obter sucesso.
Dessa vez ele ficou surpreso quando eu lhe disse que, na condição de curador da Festa Literária de Pouso Alegre, estava ali para convidá-lo a participar das mesas que deverão discutir as relações da literatura com o cinema, o teatro, as artes plásticas e a música.
As coincidências
Na plateia do dia 8, também estavam o prefeito de Pouso Alegre, Agnaldo Perugini; o secretário municipal de Cultura e Turismo, Rafael de Camargo Huhn; e a coordenadora municipal de Políticas Públicas para Mulheres, Anete Perrone.
Emocionados na ida ao camarim, após o espetáculo, os três reforçaram o convite ao compositor e posaram para fotos ao lado dos artistas. Num momento de descontração, Perugini declarou para mim e Aníbal Macedo, idealizador da Festa Literária: “Vocês estão realizando um antigo sonho meu” – referindo-se ao evento que poderá ter como ápice a homenagem a Sérgio Ricardo.
O encontro selou um pacto, para que o Sul de Minas tenha de fato uma grande Festa Literária, entre 12 e 17 de junho. Coincidentemente, o compositor nascido em Marília e radicado no Rio fará 80 anos no dia 18, no momento em que se comemoram os 110 anos de Drummond e os 90 da Semana de Arte Moderna.
Também a Associação de Comércio e Indústria de Pouso Alegre (Acipa) completa 90 anos, enquanto a Usiminas (principal patrocinadora da Festa Literária) festeja meio século de existência, sendo que em 2012 celebram-se os 100 anos de morte de Adalberto Ferraz, primeiro prefeito de BH, por acaso nascido em Pouso Alegre.
* Publicado no site www.domtotal.com.br
28 fev 2012
Diversas entidades sindicais assinam e divulgam uma nota de repúdio contra a decisão do governo de Minas, de proibir a divulgação de dados referentes à criminalidade no Estado.
Segundo a nota publicada nos sites dessas entidades, em 6 de fevereiro o jornal Hoje em Dia denunciou a maquiagem das ocorrências policiais e publicou um Boletim de Ocorrência, documento de fé pública, para comprovar a denúncia.
Já no dia 16 foi a vez do jornal O Tempo publicar um memorando da Polícia Militar de Minas Gerais, que proíbe os comandantes das 18 regiões da corporação de divulgar para a imprensa qualquer estatística sobre os índices de violência no Estado.
Na contramão
Se tais denúncias são verdadeiras, torna-se preocupante a atitude governamental de manter a população desinformada a respeito da segurança pública no nosso Estado – em vez de conclamar a participação de todos na solução do problema.
O documento sindical afirma que alegar que os dados sobre criminalidade e violência geram “sensação de insegurança” na população é “uma afronta à capacidade de discernimento da sociedade e só justifica os indicativos da manipulação de informações com fins escusos”.
Esse tipo de prática está na contramão da história, pois remonta aos tenebrosos tempos da ditadura militar, quando a verdade dos fatos era sonegada à população, já que os meios de comunicação estavam sob forte censura.
Questão nacional
Bom lembrar que o nosso Estado cumpriu um importante papel no processo de abertura e redemocratização do país, graças à articulação de suas lideranças políticas. Tancredo Neves dizia que o fim da ditadura seria possível quando Minas se unisse. E foi o que de fato ocorreu.
Uma decisão oficial que vise cercear a informação não condiz com a vocação democrática dos mineiros e só tende a desgastar a imagem do próprio governo perante a opinião pública – sobretudo num ano eleitoral.
Até porque, o aumento da violência, do consumo e do tráfico de drogas não se restringe a Minas Gerais. Trata-se de uma questão de âmbito nacional, um problema que se agiganta em todo o país sem que o próprio governo federal se esforce para solucioná-lo.
Como o documento sindical ressalta, “o povo não precisa de tutela, mas de transparência, liberdade, democracia e informação para poder opinar, escolher e cobrar eficiência no combate ao crime e à violência”.
* Dias depois, o governo mineiro voltou atrás e liberou os dados sobre a violência no Estado.
10 fev 2012
Pesquisa realizada pela OIT e Unesco, sobre o quadro educacional em 40 países, revela que a situação do Brasil só não é pior do que a do Peru e Indonésia. No Nordeste, apenas 51% dos professores concluíram o curso superior. No Sul, apenas 72%. No Sudeste, 73%. No Centro-Oeste, 74%.
No Maranhão de José Sarney e na Bahia governada por Jaques Wagner, somente 40% dos profissionais do ensino têm formação acadêmica. O Brasil ocupa atualmente o 84º lugar num ranking de 187 países, atrás do Uruguai, Chile e Argentina. A Rússia, por sua vez, país emergente e populoso como o nosso, está na 66ª posição.
As informações não trazem nada de novo, pois nas últimas décadas pouco mudou na educação brasileira. Os baixos salários dos professores e a falta de qualidade do ensino continuam dando o tom no país que se vangloria de ser a 6ª economia do planeta e pensa resolver o problema educacional com as cotas universitárias.
O discurso oficial esconde o fato de que o governo brasileiro agrada às elites e relega a “coisa pública” – incluindo o ensino – ao último plano de suas prioridades. Afinal, um povo educado e esclarecido incomoda os poderosos, respeita as leis, resiste à corrupção e ao assistencialismo, como política de estado.
Ditames globais
Embora a degradação do ensino brasileiro tenha começado no regime militar, o atual quadro nacional obedece aos ditames da globalização. Desde que Bush-pai proclamou em alto e bom tom a “nova ordem mundial”, os investimentos em educação despencaram também em outros países. Afinal, o neoliberalismo e as grandes corporações querem consumidores e não cidadãos conscientes.
Da abertura dos portos na era Collor ao surgimento de uma nova classe média no governo Lula, o que se percebe é a crescente preocupação em afinar o interesse nacional pelo diapasão da economia internacional. O Japão fez algo parecido após a Segunda Guerra, mas, ao mesmo tempo, priorizou a educação e o ensino de qualidade.
O presidente-sociólogo Fernando Henrique Cardoso festejava o sucesso do Plano Real dando como exemplo o aumento na venda de papel higiênico, frango e eletrodomésticos, esquecendo a lição de que “um país se faz com homens e livros”. Pouco depois, Lula promoveu a inclusão das classes C e D no mercado consumidor, alardeando o aumento na venda de automóveis num país de péssimas estradas.
Claro que as pessoas necessitam de bens de consumo para ter conforto, alimento e diversão, mas a falta de investimentos em educação e cultura demonstra que os governantes estão comprometidos com os interesses capitalistas e não propriamente com os eleitores. Estes são iludidos pelo sistema consumista, que substitui o “ser” pelo “ter”, devasta a natureza e transforma tudo – inclusive pessoas – em coisas descartáveis.
Espelhos distorcidos
A ausência de novas lideranças e o próprio desinteresse pela política também são resultados da perversidade do sistema, que se alimenta da corrupção, permite a impunidade e tem a mídia como aliada na manipulação dos fatos. Pregam o “estado mínimo”, mas se socorrem dele para salvar a economia em tempos de crise.
Em vez de educação e cultura, temos entretenimento aos borbotões. Em vez de reflexão, o delírio das drogas ou os falsos milagres propagandeados por igrejas eletrônicas. Em vez do respeito às diferenças individuais e sociais, a superficialidade do “politicamente correto”.
Por essas e outras, o chique hoje não é ouvir música de qualidade, mas o ruído eletrônico, cujas letras lembram grunhidos de violência ou gemidos sensuais; não mais a crítica de um bom filme ou a leitura e discussão de uma obra literária, mas a polêmica nas redes sociais sobre as novelas e o Big Brother Brasil, espelhos distorcidos da realidade contemporânea.
Tudo passa pela educação e pela boa formação profissional. É público e notório que, em sua grande maioria, os estudantes brasileiros se formam sem saber ler, escrever e pensar corretamente. Os governantes fingem não saber do problema e tentam jogar a população contra os profissionais do ensino. Mas isso até que faz sentido, pois num mundo onde as pessoas valem o que consomem o futuro não existe.
* Publicado no site http://www.domtotal.com/
19 jan 2012
Autorizadas pelo Ministério Público Federal, entidades afro-brasileiras produziram em 2011 um vídeo de direito de resposta coletiva a uma reportagem da TV Record. O programa foi gravado, mas a emissora do bispo Edir Macedo recorreu da ação e conseguiu adiar a exibição.
Intitulado “Diálogos das Religiões”, e tendo quase uma hora de duração, o vídeo prega a tolerância religiosa e foi produzido pela TV PUC com a participação de representantes de entidades afro-brasileiras, católicas, budistas e muçulmanas, além de artistas e jornalistas.
Grupos católicos também têm reagido ao que chamam de “perseguição” da Igreja Universal do Reino de Deus. Um movimento articulado nas redes sociais, auto-intitulado “Brasil Sem TV Record”, conclama internautas a boicotarem a programação da emissora.
Mesmo que não professe religião, qualquer pessoa de bom-senso deve defender quem se sente atacado no seu direito de culto. Afinal, a própria Constituição Federal garante esse direito e a legislação em vigor considera crime o preconceito religioso.
Monopólio da fé
Não há sentido na ideia marxista de que a religião seja o ópio do povo, mas há que se reconhecer que ela entorpece os seguidores toda vez que se torna um negócio ou monopoliza a divindade.
Desde que o mundo é mundo, e principalmente após o advento cristão, a religião tem dividido os homens mais que a própria política. Não precisa ser historiador para reconhecer que algumas das maiores atrocidades da história foram praticadas em nome da fé e do fanatismo religioso.
Contudo, quem já leu os Evangelhos sabe que Jesus não pregava propriamente uma religião, e sim o amor a Deus e ao próximo. Consta no Novo Testamento que ele só foi ao templo duas vezes em toda sua vida: quando criança, para discutir com os doutores; e já adulto, para expulsar os vendilhões.
Séculos mais tarde, as cruzadas promovidas por papas e reis católicos massacraram sarracenos e pagãos, enquanto judeus e hereges eram queimados pela Inquisição. Os islâmicos, por sua vez, responderam às incursões em seus territórios perseguindo e dizimando comunidades cristãs.
Condição histórica
Reivindicada por três religiões que adoram o mesmo Deus, Jerusalém tornou-se palco de confrontos e atentados em nome da fé. Os próprios muçulmanos se veem divididos entre xiitas e sunitas, enquanto o Judaísmo tem as linhas progressistas e ortodoxas de interpretação da Torá.
O mais intrigante, no entanto, é que no mundo antigo a intolerância religiosa não chegou aos níveis registrados depois de Cristo. Talvez por adorarem a vários deuses, os politeístas não se matavam em nome deles. Os gregos, por exemplo, mantinham um templo ao deus desconhecido, reservado aos estrangeiros.
Surgido no antigo Egito, o monoteísmo conquistou os israelitas e se espalhou pelo mundo. No entanto, se o lema do Antigo Testamento é “olho por olho, dente por dente”, a lei de Jesus é a do perdão e do amor ao próximo – mesmo sendo este um romano ou samaritano.
Por sua própria condição histórica, e pelo fato de ser desde sempre um país cultural e racialmente miscigenado, o Brasil não pode retroceder aos patamares da intolerância religiosa. Discriminar este ou aquele grupo religioso é desrespeitar a lei e a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem.
* Artigo publicado nos sites www.observatoriodaimprensa.com.br e www.domtotal.com.br
17 jan 2012
Dizem que cabeça vazia é oficina do diabo. Mentira! Oficina do diabo é um coração vazio de amor.
Quem não lê livros tem dificuldades para ler e compreender a vida.
O leitor que lê um bom livro sente que foi lido pelo autor.
No Brasil, a maioria dos políticos não tem biografia, e sim folha corrida.
Quem muito defende os animais, e despreza o ser humano, devia andar de quatro.
Na hora em que mais se precisa,
menos amigos se tem.
E aqueles que ficam conosco,
é porque são sozinhos também.
8 jan 2012
O primeiro a me falar de Marcelo Jiran foi Paulinho Pedra Azul. Foi no ano passado, durante nossa participação no Salão do Livro do Vale do Aço. Ele elogiou muito o jovem parceiro, com o qual vem trabalhando há algum tempo.
Agora chega às minhas mãos o CD Porta-retratos, no qual Jiran interpreta músicas próprias em variados ritmos, inclusive duas parcerias com Paulinho, além de dois clássicos da MPB.
Independente, como a maioria dos bons discos produzidos em Belo Horizonte, Porta-retratos é pouco mais que um demo, mas funciona como preciosa mostra da polivalência desse músico mineiro de admirável talento.
Rodas de choro
Mesmo no início de carreira, Jiran já desfruta do respeito e da admiração dos colegas veteranos, sendo presença destacada principalmente nas rodas de choro da cidade. É um dos mais jovens membros do Clube do Choro, sendo também uma de suas mais notáveis atrações.
O disco é uma produção caseira e foi gravado, mixado e masterizado no “Quarto Som Studio” pelo próprio Jiran. Fora as participações especiais de Juninho (baixo elétrico na faixa 4) e Serginho Silva (percussão nas faixas 4 e 9), é ele quem toca os mais diversos instrumentos nas 12 músicas gravadas.
Piano elétrico, escaleta, percussão, flauta transversal, saxofone alto, bandolim, guitarra, cavaquinho, violões de 6 e de 7 cordas… Difícil dizer qual desses instrumentos o jovem músico domina com maior destreza.
Riqueza melódica
Outra coisa que chama atenção é a riqueza melódica das composições de Marcelo Jiran, começando pelo Choro na praça e desaguando na bossa-novíssima Ilusões, que tem cheiro de mar e remonta aos tempos do Beco das Garrafas.
As interpretações do samba Com que roupa? (Noel Rosa) e do choro Brejeiro (Ernesto Nazareth) são igualmente criativas e revelam o senso de um bom arranjador. Jiran é antes de tudo um grande conhecedor da tradição musical brasileira, e faz disso sua escola.
Com tanta porcaria tocando no rádio e na TV, ou vendendo nas lojas (inclusive virtuais), é uma pena que discos como Porta-retratos e talentos como Marcelo Jiran não estejam ao alcance do grande público. Quem quiser adquirir um ou mais exemplares deve pesquisar na internet. Site do artista: www.marcelojiran.com.br .
* Publicado no site www.domtotal.com.br
22 nov 2011
Lula raspou a barba e o cabelo para evitar os efeitos deprimentes da quimioterapia. Mais uma vez, o Brasil se comove diante da doença de uma figura pública. Foi assim com a diverticulite de Tancredo Neves, com o câncer do vice-presidente José Alencar e com a luta aguerrida da então ministra Dilma, contra a mesma terrível doença.
Poderosas ou não, as vítimas de qualquer tipo de enfermidade merecem toda solidariedade. Afinal, como escreveu o poeta John Donne, “a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”. O câncer é um mal silencioso e geralmente devastador, que pode atacar qualquer pessoa na hora em que menos se espera.
O curioso no sofrimento de ricos e famosos é o seu efeito junto à opinião pública, principalmente entre pessoas das classes menos favorecidas. Justamente aqueles que têm parentes nos corredores de hospitais públicos ou aguardando atendimento na imensa fila do Sistema Único de Saúde (SUS) são os que mais se comovem com a dor alheia.
Aflições do povo
Quando a doença de Lula foi noticiada, teve gente que usou de ironia para dizer que ele deveria se tratar pelo SUS. Não chego a tanto, mas penso que os políticos deveriam ser obrigados de alguma forma a frequentar escolas e hospitais públicos para melhor entenderem as aflições do povo que os elege.
Desde a década de 1960, o fosso que separa os ricos e os pobres em nosso país tornou-se ainda mais largo e mais fundo, na medida em que os sistemas públicos de saúde e educação foram sendo sucateados. E isso não ocorreu por mero descaso ou pela incompetência dos governos, mas para forçar a privatização dos dois setores. De uns tempos para cá, tem ocorrido o mesmo na área de segurança.
Quando essa política se tornou clara, durante a ditadura militar, a classe média estava amordaçada e preferiu aderir à ideia. Dessa forma, quem podia pagar pelo ensino de qualidade matriculava os filhos em escolas particulares, ignorando a injustiça praticada contra os cidadãos de baixa renda. Ocorreu a mesma coisa no setor de saúde, com a proliferação dos planos privados de assistência familiar.
Perda de referencial
A mesma prática é observada no sistema previdenciário, cujos recursos têm financiado obras faraônicas desde a construção de Brasília. Se o estado brasileiro cumprisse o papel constitucional de garantir saúde e educação de qualidade para todos, dificilmente as escolas, os planos de saúde e a previdência privada teriam se tornado negócios lucrativos.
O problema, no entanto, não é o atendimento privado em si, mas a baixa qualidade dos sistemas públicos que deveriam servir de referencial. A má qualidade desses sistemas acaba contaminando a atividade particular, haja vista a situação dos planos de saúde que já não dispõem de médicos e hospitais para atender à demanda com rapidez.
Desde os tempos da ditadura, temos assistido à total falência dos serviços públicos em nosso país. Os mais velhos devem se lembrar de quando o então general-presidente João Figueiredo se submeteu a uma operação cardíaca em Cleverland, nos Estados Unidos.
Aquele fato já sinalizava a desconfiança dos poderosos com relação ao atendimento médico então praticado no Brasil. Com o tempo, a privatização estimulou investimentos e fez surgir clínicas particulares de padrão internacional em várias capitais. No entanto, a falta de recursos oficiais inibiu a mesma qualidade nos hospitais da rede pública.
Um dia no corredor
O SUS é um belo projeto no papel. O problema são os gargalos. Os municípios pequenos, por exemplo, não dispõem de bons hospitais e transferem pacientes para as grandes cidades, onde as instituições de saúde sequer conseguem atender a população local. Não há investimento em saúde pública justamente porque os poderosos podem pagar hospitais particulares aqui ou lá fora.
Francamente, eu não gostaria que Lula se tratasse pelo SUS. Um homem da sua importância histórica merece todo o nosso respeito. No entanto, seria bom se um ex-presidente passasse pelo menos um dia no corredor de um hospital da rede pública.
Ele teria que fazer isso anonimamente, misturado aos pacientes pobres que aguardam atendimento sem conforto nem privacidade. A mídia certamente faria um estardalhaço e talvez assim nossas autoridades começassem de fato a pensar no povo e a devolver os impostos que nos cobram para bancar suas mordomias.
* Artigo publicado nos sites www.domtotal.com.br e www.observatóriodaimprensa.com.br
9 nov 2011
O jornalismo cultural de Belo Horizonte perdeu, na semana passada, dois de seus melhores articulistas. Na terça-feira (1/11), o crítico de cinema e artes cênicas do jornal Estado de Minas, Marcello Castilho Avellar, foi encontrado morto em sua residência. A causa da morte teria sido um enfarto fulminante, aos 50 anos.
No sábado (5/11), morreu o escritor Duílio Gomes, depois de ficar em coma por dois meses em decorrência de um acidente vascular cerebral. Ele tinha 67 anos, foi editor do Suplemento Literário do Minas Gerais e ajudou a organizar a Bienal Nestlé de Literatura. Colaborou no Jornal do Brasil e no Estado de Minas como crítico literário.
Marcello era autodidata, professor de História do Teatro e integrante do Centro de Estudos Cinematográficos. Escrevia como poucos sobre qualquer assunto. Enciclopedista da modernidade, ele abordava temas relacionados à história, política, filosofia e artes em geral – principalmente cinema.
Duílio nasceu em Mariana, formou-se em Direito pela UFMG e ganhou vários prêmios literários. Presente em muitas antologias, publicou O Nascimento dos Leões (Interlivros, 1975), Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1972; Janeiro Digestivo (Comunicação, 1981); Verde Suicida (Ática, 1982); Deus dos Abismos (Lê, 1993), Prêmio Guimarães Rosa; e Fogo Verde (Lê, 1990). Era integrante o grupo de escritores denominado Coletivo 21.
Erudição solidária
Além da erudição despretensiosa, o que mais cativava nos dois articulistas era a solidariedade com que desenvolviam seu trabalho. Como editor do Suplemento Literário, na década de 1980, Duílio abriu portas para muitos colaboradores, alguns dos quais se firmariam nacionalmente como escritores de talento.
Trabalhava sob a superintendência de Murilo Rubião e dividia tarefas com autores como Adão Ventura, Jaime Prado Gouvêa, Manoel Lobato e Paschoal Motta. Além dos jovens talentos que buscavam espaço para publicar seus primeiros textos, o grupo convivia com artistas de várias áreas e com autores nacionais consagrados.
Já Marcello escrevia com extrema objetividade, colocando o tema erudito ao alcance de qualquer leitor interessado. Aqueles que conviveram com ele na redação do Estado de Minas são unânimes em reconhecer não só suas habilidades de articulista, mas também o caráter solidário com que se relacionava com seus pares.
Ele era daqueles que estão sempre prontos para ler e copidescar o texto do colega, burilando a visão estética sem nunca atropelar a ética no exercício da crítica ou da reportagem. Foi capaz de analisar uma partida de futebol realizada no Mineirão sob a ótica do espetáculo, sem entrar no mérito das paixões futebolísticas.
Escola diferenciada
Como homem de teatro, Marcello lecionou na Fundação Clóvis Salgado, na Oficina de Teatro de Pedro Paulo Cava – onde, aliás, se formou – e também na PUC Minas. Dirigiu alguns espetáculos de sucesso, entre eles o monólogo Vincent, de Jefferson da Fonseca, baseado nas cartas dos irmãos Théo e Vincent Van Gogh.
Com sua aguçada sensibilidade de crítico de cinema e de artes cênicas, ele ajudou a consolidar o trabalho de artistas mineiros que hoje têm projeção nacional, entre eles os cineastas Helvécio Ratton e Paulo Thiago, os grupos teatrais Giramundo e Galpão, e as companhias de dança Corpo e 1º Ato.
Marcello Castilho Avellar e Duílio Gomes pertenciam a uma escola diferenciada de críticos de artes. Eram daqueles que não se contentam em analisar as artes de fora, mas desejam contribuir com o fazer cultural a partir de suas visões estéticas propriamente ditas.
Por todos esses méritos como articulistas e homens de cultura, ambos farão falta à cena artística mineira e nacional, principalmente no momento empobrecedor e conturbado em que se encontra a mídia impressa no país.
* Artigo publicado nos sites www.observatóriodaimpresna.com.br, www.tirodeletra.com.br e http://www.sjpmg.org.br/inicio