13 jul 2010
Dizer que a morte de Paulo Moura deixa um vazio na música brasileira seria chover no molhado, sobretudo em tempos de Reboleixo, quando as letras de sucesso se resumem a um monte de vogais. Até parece que os compositores de sucesso não conseguem mais combinar consoantes e vogais para nos dar lindas melodias como antigamente!
Paulo Moura era um mestre do clarinete e do saxofone. Mais que isso, era um gênio da música em toda sua excelência. Curiosamente, no dia anterior à sua morte – e eu nem sabia que ele estava doente – estávamos na casa da Vânia, noiva do violonista Roberto d’Oliveira, que integra o belíssimo duo Cordas e Janelas (o outro é o Márcio Brito, que já se recupera de uma cirurgia no pulmão).
Era aniversário do Roberto e, lá pelas tantas, ele colocou para tocar uma música de Tom Jobim interpretada justamente por Paulo Moura. Curiosamente, ao fazermos uma roda de violão, meu parceiro Valter Braga tocou e cantou um samba genial que dedicou ao cavaquinista e dono do bar Pedacinhos do Céu, que infelizmente está fechado.
A composição foi inspirada justamente por um episódio cujo protagonista teria sido o Paulo, se ele não tivesse faltado a um encontro do qual provavelmente nem sabia. Eu conto essa história no livro Caiçara, que lancei em 2008 pela coleção BH – A cidade de cada um, da Editora Conceito. Peço licença para transcrever dois parágrafos da página 62, nos quais explico melhor:
“De tão frequentado, o lugar (Pedacinhos do Céu) já tem seu folclore. Lembro o dia em que Valter Braga ligou todo animado, dizendo que ia levar Paulo Moura até lá. O Ausier serviria um jantar e disse ao meu parceiro musical para convidar alguns amigos. Quando lá chegamos, fomos informados de que a mulher e empresária do famoso clarinetista o havia proibido e a seus músicos de saírem do hotel. O show seria realizado na manhã de domingo e ela não admitiria atrasos nem ressaca.
“A decepção do anfitrião foi tamanha que mandou cancelar o frango com quiabo. Valter disse que não carecia, pois o resto da moçada estava presente. No final da noite, o garçom nos trouxe a dolorosa. Pegamos e saímos cabisbaixos, mas o Valter não deixou por menos, Dias depois, mostrou-me o samba ‘puxão de orelha’ que havia feito, intitulado Meu caro Ausier:
O frango com quiabo
Que você nos prometeu
E não saiu
Que a culpa foi do Paulo
Que foi primeiro de abril…
- Desculpas mil -
Me veio agora na memória, Ausier
Pois é, fazer o quê?
Escorregaste e ficamos sem cocó
(Só com a cara de bocó)
Mulher é o diabo
E, quando quer, faz do rapaz um zé-mané
E a moça do prezado
Não deixou que ele fosse ao fuzuê
Não é só o Paulo que tem boca, Ausier!
Você fincou o pé
E não é legal deixar a turma na pior
(Teve um ali que desmaiou)
O estrambo na cacunda
Cadê sua panela funda, Ausier?
O ronco que retumba
Não é choro de cuíca
A dica que te dou é ligar
Nos convidando pr’outro jantar
Ou pode ser almoço
Que a galera vai gostar.”
Apenas a título de esclarecimento, devo lembrar que a música e a letra são do Valter. Ele ganhou o prêmio de melhor letrista no Festival da Nova Música Brasileira, da TV Cultura de São Paulo, com Hai-Cai Baião, musicado por Renato Motha. Curiosamente, em nossas mais de 20 parcerias, ele me passou as melodias para que eu colocasse letra. Nem precisava, concordam?
7 jul 2010
A vitória de um a zero da Espanha sobre a Alemanha nas semifinais desta Copa do Mundo provou mais uma vez que a voz do polvo é a voz de Deus. Segundo a imprensa esportiva, até agora o bicho de oito pernas acertou todos os prognósticos feitos sobre os jogos da África do Sul, revelando-se um adivinho mais competente que o próprio Nostradamus.
A eficiência do novo profeta é tamanha que lideranças do PT e do PSDB poderiam contratá-lo para sabermos quem vai vencer as eleições presidenciais deste ano. A bem da verdade, vale observar que a careca do Serra lembra a cabeça de um polvo, enquanto os tentáculos do poder petista na máquina estatal têm tudo a ver com o famoso molusco.
Voltando ao esporte bretão, não sei se é coincidência ou o quê, mas toda vez que o locutor anuncia que quem está na Globo está na Copa, estou justamente na cozinha da minha casa. Afinal, alguém tem que lavar os copos de cerveja depois da partida… De qualquer maneira, como defensor dos frascos e comprimidos, torci pelos times mais fracos, a começar pela seleção brasileira.
No jogo entre Uruguai e Gana, fui mais o segundo time, cujos jogadores fizeram jus ao nome do seu país, disputando a partida sempre com muita gana. Não fosse a falta de sorte, estariam nas finais. Entre Alemanha e Uruguai, vou torcer para que o segundo fique em terceiro lugar, naturalmente.
Já na partida entre Espanha e Holanda tudo pode acontecer. Afinal de contas, são duas equipes poderosíssimas e muito técnicas, de futebol imprevisível. Não precisa ser Galvão Bueno pra saber que uma das duas equipes será campeã do mundo.
Chamo atenção para o baixíssimo saldo de faltas entre Espanha e Alemanha. Tanto, que o juiz teve pouco trabalho. Isso ocorreu porque os dois times têm muita disciplina e sangue frio, ao contrário dos sonecas comandados por Dunga, que ficaram zangados na última hora mas não me deixaram feliz.
Enquanto isso, dependendo das conclusões do inquérito policial em andamento, o goleiro Bruno poderá trocar o Flamengo pelo Bangu. Não o Bangu Atlético Clube, que há 50 anos venceu o Torneio Mundial de Nova York, mas o famoso complexo prisional de segurança máxima do Rio de Janeiro.
3 jul 2010
Futebol tem dessas coisas. Ou, como diria Noel Rosa, quem acha vive se perdendo. Brasil e Argentina saíram da Copa principalmente devido à arrogância dos seus respectivos técnicos. Dunga, que devia se chamar Zangado, passou quase todo o tempo brigando com a imprensa. Maradona, que ganha do nosso técnico em termos de carisma, ficou o tempo todo de salto alto, desfazendo dos adversários. Ambos provavelmente se esqueceram daquela máxima de que o futebol é uma caixinha de surpresas.
Vale notar, no entanto, uma diferença básica entre o estilo dos dois ex-craques do futebol. Enquanto Dunga saiu de campo de cabeça baixa, nitidamente decepcionado com o desempenho de seus atletas diante da Holanda, Dieguito fez questão de adentrar o tapete para abraçar e beijar seus rapazes num gesto de companheirismo e solidariedade frente à derrota para a Alemanha. Verdade seja dita, os jogadores brasileiros entregaram os pontos e saíram do sério na hora do vamos ver, enquanto os argentinos lutaram bravamente e sem perder a cabeça.
Essa diferença resulta principalmente do estilo e da postura de cada um dos dois técnicos. Esse tema, aliás, poderia até inspirar consultores empresariais que lecionam cursos de liderança para executivos de grandes organizações. Dunga, o irritadiço que guarda mágoa no congelador, acabou influenciando negativamente o comportamento de sua equipe.
O destempero dos nossos jogadores
Até mesmo o equilibrado “irmão” Robinho estava nitidamente nervoso, gritando palavrões na cara dos adversários e do juiz durante a partida decisiva. Enquanto isso, conhecidos pela agressividade em campo, os argentinos surpreenderam pelo comportamento esportivo, relativamente ameno. O jogo contra a poderosa Alemanha foi moderado, sem discussões desnecessárias ou cenas de violência e estupidez como a que resultou na merecida expulsão de Felipe Melo do nosso time, no dia anterior.
Curiosamente, em certo momento, o goleiro alemão fez uma defesa extraordinária, esmurrando a bola na pequena área como Júlio César tentou fazer no momento fatídico em que o mesmo Felipe desviou-a para a rede marcando gol contra. Diante da derrota iminente já no meio do segundo tempo, Dunga permaneceu paralisado e sequer mexeu no time com a lucidez que a situação exigia. Ele já havia cometido esse erro por não substituir Kaká antes de sua expulsão, na partida contra a Costa do Marfim.
Outro ponto importante a ser observado é que os jogadores brasileiros raramente se saem bem nas partidas em que trocam a camisa amarela pelo uniforme azul e branco. Parece mandinga ou superstição. Esse fato, inclusive, já poderia ter merecido um estudo sobre a influência subjetiva das cores na psique dos atletas em momentos de decisão.
Os efeitos do “cala boca, Galvão”
De qualquer forma, o “cala boca, Galvão” parece ter surtido efeito, já que o famoso locutor estava rouco durante a partida Brasil e Holanda. Ele certamente pressentia o perigo, pois sabia que aquele era de fato o nosso primeiro grande adversário na África do Sul. No final da disputa, diante do inegável fracasso da seleção brasileira, ficou se desculpando, dizendo que não devemos esquecer que isso é apenas futebol. Vale lembrar que a Rede Globo e boa parte da imprensa alimentaram a ilusão da torcida sem fazer as devidas críticas ao desempenho medíocre de nossos atletas diante de times inexpressivos, que não têm tradição futebolística.
O suposto desentendimento de Dunga com a direção da CBF, no episódio Fátima Bernardes, já atestava a falta de entrosamento e harmonia no comando da seleção. A convocação de alguns jogadores que parecem ser meros produtos de marketing apontava para os riscos de uma derrota decepcionante, o que de certa forma demorou a acontecer. Um time, por melhor que seja, sempre corre o risco de ser derrotado. No entanto, o Brasil jogou pouco e não conseguiu reagir à ação da “laranja mecânica” holandesa, única de suas adversárias que estava à altura do seu futebol.
No circo armado pela mídia e pelos patrocinadores da Copa, novamente a seleção brasileira se destacou mais nos bastidores do que propriamente nos jogos que realizou. Fizemos uma campanha abaixo do nosso dever de pentacampeões do mundo e só mesmo quem não entende nada de futebol poderia supor que chegaríamos à grande final com uma equipe tão acanhada.
A Globo, que dourou a pílula até o último minuto, ainda teve a indelicadeza de azarar os argentinos ao mostrar a reação de Maradona diante dos gols da multirracial seleção alemã ao som de um clássico do tango, logo após a partida. Deviam ter levado a sério as óbvias palavras do Galvão: isso é apenas futebol. Será mesmo?
18 jun 2010
Com a morte de José Saramago, a literatura portuguesa perde um de seus maiores escritores. Mais que isso, a comunidade lusófona perde um genuíno intelectual marxista que não desistiu de mudar o mundo apenas pelo fato de as tentativas socialistas terem descambado para o estatismo, o imobilismo e o absolutismo canhestro.
Saramago se definia como um homem pessimista, pois só os pessimistas querem mudar o mundo e as coisas a sua volta. A exemplo dele, também me considero de esquerda e um tanto pessimista, na medida em que desejo um mundo melhor, no qual também os pobres possam viver com dignidade. O verdadeiro esquerdista é aquele que anseia por uma sociedade mais justa e igualitária, livre da hipocrisia do politicamente correto e do vale-tudo praticado por governantes que se agarram tanto ao poder que se distanciam de si mesmos - independentemente da ideologia.
No entanto, confesso que nunca fui um fiel leitor dos livros de Saramago e tampouco concordava com tudo o que ele dizia. Sempre achei seu estilo narrativo difícil, pelo menos para os meus parcos conhecimentos literários. Sou daqueles que preferem textos enxutos, com poucas vírgulas e nenhum adjetivo. Gosto de Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, Camilo José Cela, Murilo Rubião, Albert Camus. Em se tratando de períodos longos com sinalizações próprias, abro exceção para Guimarães Rosa - um gênio, a meu ver.
Apesar disso, sempre fui fã de Saramago e me orgulho ao lembrar que nossos caminhos se cruzaram por duas vezes. Em setembro de 1983, um time de 11 autores portugueses desembarcou em São Paulo para diversos eventos literários. Depois de cumprir a agenda local, que incluía a Bienal Internacional do Livro – salve engano – o grupo se subdividiu, dirigindo-se a diferentes regiões do país. Era como se aqueles escritores tivessem a missão secreta de redescobrir o país inventado por Cabral.
Vieram a Minas Gerais José Saramago, sua então mulher, Isabel da Nóbrega, e o poeta Pedro Tamen. Queriam conhecer Ouro Preto e outras cidades históricas, para onde se dirigiriam em caravana com autores da província, entre eles Branca Maria de Paula, Robinson Damasceno dos Reis e o luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu amigo e guru. Na ocasião, tive a oportunidade de entrevistar os três visitantes nas dependências do Oton Palace Hotel, onde se hospedaram de passagem por Belo Horizonte.
A entrevista seria feita para o Estado de Minas, jornal com o qual eu já colaborava como colunista de teatro e cinema. Para minha surpresa, o editor de cultura, Geraldo Magalhães, havia escalado o repórter Waldir Vasconcelos para a mesma tarefa.Afinal, na minha ingenuidade de “foca”, não avisei ao jornal que estaria ali para cumprir a missão voluntariamente. O resultado disso é que publiquei minha reportagem no Suplemento Literário do Minas Gerais, editado naquela época pelo contista Duílio Gomes.
Naquele momento, com o gravador em punho, eu jamais poderia supor estar diante de um futuro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Mais que isso, o único autor a conquistar a láurea escrevendo numa língua que é quase um dialeto no mundo globalizado. Para aproveitar o encontro com os três visitantes, fiz quatro ou cinco perguntas a cada um deles, já que teria apenas uma página para publicar a reportagem. Foram todos simpáticos e objetivos. A matéria pode ser acessada na Faculdade de Letras da UFMG ou no link http://www.letras.ufmg.br/websuplit/exbGer/exbSup.asp?Cod=18089612198304 .
“A vossa literatura está com muita pujança e não está em crise”, disse Saramago ao responder a uma de minhas perguntas. Sobre sua estada no Brasil, ele de certa forma traduziu o ponto de vista de seus companheiros de viagem: “Desejamos que a nossa vinda sirva para que os leitores brasileiros pensassem um pouco mais e atendessem um pouco mais a uma literatura que está a ser feita em nossa terra, que me parece a mim ter mérito suficiente para que o leitor brasileiro se interesse. É possível que os escritores portugueses não sejam muito conhecidos do público brasileiro, mas são com certeza bastante conhecido e muito estimados nas faculdades, por professores de Literatura Portuguesa e por estudantes”.
Saramago voltaria várias vezes a Belo Horizonte, inclusive como convidado do projeto Sempre um Papo, comandado pelo jornalista Afonso Borges. O que eu também não poderia supor é que nossos caminhos se cruzariam mais uma vez. Em 1998, aproveitando a euforia do Plano Real, juntei meu suado dinheirinho e fui passar férias na Península Ibérica em companhia de Vilma, minha mulher.
Depois de quase 12 horas de viagem, desembarcamos em Lisboa e nos dirigimos ao hotel. Chegamos famintos, cansados e sonolentos. Enquanto ela tomava banho, liguei a TV do apartamento para saber das notícias locais. Os telejornais informavam que o grande escritor lusitano havia acabado de ganhar o Prêmio Nobel.
Naquele momento, penso eu, o próprio Saramago recebia a notícia de uma comissária ou recepcionista numa sala de espera do aeroporto de Frankfurt, onde fora participar da famosa Feira de Livros. Arregacei as mangas e telefonei para a redação do Estado de Minas, dizendo que poderia repercutir a notícia do ponto de vista dos portugueses. Aliás, a opinião pública se dividia: a esquerda e os leitores comuns comemoravam, enquanto os direitistas e a comunidade católica mais conservadora lamentavam o fato de se premiar o autor de Memorial do Convento.
Corri às bancas de revistas, ouvi por telefone o editor do Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Vasconcelos (que havia conhecido num encontro literário realizado em Manaus), comprei vários jornais e visitei livrarias cujas vitrines exibiam livros de Saramago. A prefeitura havia distribuído placas pelas principais esquinas de Lisboa, cumprimentado o autor.
Também colhi depoimentos do rádio e da TV, ouvi pessoas nas ruas, juntei as anotações e fui com Vilma para a casa de nossa amiga Maria de Santa-Cruz, professora de Literatura que residia em Paredes – lugar onde conhecera Saramago quando ele ainda era jornalista. Portugal ainda não tinha internet. O jeito foi ligar a cobrar para a redação e ler a reportagem manuscrita para a colega Clara Arreguy, que teve o cuidado de respeitar cada vírgula do meu texto.
Uma década depois, ao nos excluir de sua folha de pagamento, os Diários Associados não mais se lembravam desse nosso esforço de reportagem em plenas férias. Até porque, para os grandes jornais, cultura é pouco mais que um detalhe na pauta. Mas valeu a aventura por amor ao jornalismo e à literatura. Interessante notar que no momento em que Vilma e eu rumávamos de ônibus numa excursão pelo Sul da Espanha, Saramago e Pilar, sua mulher e tradutora, deixavam Madri num voo para Lisboa, onde seriam merecidamente recebidos com pompa e circunstância.
17 jun 2010
Matéria publicada no Comunique-se de sexta-feira, dia 11, destacou uma reportagem da revista The Economist, intitulada “A sobrevivência da tinta”, sobre a boa performance dos jornais impressos. Ao contrário das previsões catastróficas de 2009, a reportagem mostra um cenário favorável à recuperação dos títulos norte-americanos e registra lucros recordes na Alemanha, além do crescimento da circulação no Brasil.
A revista afirma que “a crescente classe média do Brasil gosta dos jornais baratos, que exploram os assassinatos e biquínis”. Eis o X da questão: a classe média brasileira não está em franco crescimento. De fato, as condições econômicas do país após o Plano Real permitiram a gradativa inclusão das classes C e D no mercado de consumo, com pequena melhoria de renda e facilidades de crédito. No entanto, a conta desse milagre tem sido paga justamente pela classe média.
Os tablóides sensacionalistas geralmente são consumidos não pela classe média, mas por pessoas das classes C e D, que antes não tinham dinheiro para comprar jornais e que ainda apresentam uma baixa formação escolar. Daí o sucesso das publicações baratas, com matérias rasas e enxutas que podem ser folheadas numa viagem de ônibus ou metrô. Mas se esse é o modelo vencedor da mídia impressa brasileira, isso significa que o jornalismo nacional vai de mal a pior.
O Brasil tem características particulares que devem ser levadas em conta nesse tipo de análise. Como bem lembrou a senadora Marina Silva, no discurso de lançamento de sua candidatura à Presidência da República, na quinta-feira, dia 10, cerca de 18% dos jovens brasileiros ainda são analfabetos. Isso sem levar em conta aqueles que passam pela escola sem que a escola passe por eles. São os analfabetos funcionais, que têm dificuldade até para escrever o próprio nome. Os tablóides sensacionalistas quase sempre são mal feitos. Apresentam erros de português e informações pela metade, que a clientela despreparada nem percebe.
Estatísticas apontam que o ensino básico brasileiro é um dos piores do mundo, gerando uma crescente massa de analfabetos funcionais. Em vez de reformar o ensino básico e oferecer uma escola pública e gratuita de qualidade para todos, o governo optou pelas cotas na universidade. Em outras palavras, nossas autoridades preferem remendar o telhado que reforçar o alicerce da casa. As cotas são importantes para remediar as desigualdades, mas é preciso bem mais que isso. Sem uma base sólida de conhecimento os futuros formandos terão sérias dificuldades para sobreviver num mercado de trabalho cada vez mais exigente. Essa é a dura realidade que poucos conseguem enxergar.
O hábito da leitura no Brasil sempre deixou a desejar, mesmo em comparação com outros países emergentes. Isso reflete diretamente no baixo consumo de livros, jornais e revistas. Os editores, no entanto, nunca cogitaram fazer uma cruzada nacional em prol da alfabetização e pela melhoria da educação no país. Crianças e jovens são subestimados, tratados como cidadãos de segunda classe. Haja vista a falta de espaço nos jornais para divulgar a boa literatura infantojuvenil, importante aliada na formação de leitores. Vale lembrar Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. A mensagem é mais simples do que parece. Sem o hábito da leitura não há jornal que se sustente.
O mais grave é que os grandes jornais estão diminuindo o conteúdo das informações impressas. A cada reforma gráfica, encolhem o texto, aumentam os espaços em branco, o tamanho das fotos e dos infográficos na ilusão de atrair um novo cliente. O problema é que esse tipo de “leitor” prefere a informação rasa e instantânea da televisão ou dos tablóides sensacionalistas, pois sem o hábito da leitura fica difícil pensar.
Outros têm ao seu alcance os blogs e sites especializados, com a publicação cada vez mais veloz da notícia. Basta lembrar que a morte de Michael Jackson foi anunciada por um site pouco conhecido, muito antes que a grande imprensa ficasse sabendo. Em vez de analisar os fatos e dar voz aos diferentes setores da sociedade, com plena liberdade de opinião, os grandes jornais evitam polêmicas e se limitam a publicar notícias velhas e pasteurizadas. A manchete de hoje foi destaque ontem na TV, no rádio, nos blogs, no Twitter. A não ser quando se trata de um furo ou de reportagem especial, o diferencial do veículo impresso seria justamente a repercussão e a análise da notícia por especialistas no assunto.
A verdade é que, quanto mais tentam imitar os novos meios, mais os jornais impressos perdem leitores fiéis e alinham o conteúdo por baixo. É como se publicassem notícias para quem não gosta de ler. Isso talvez explique o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo decretado há um ano pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Para fazer esse tipo de trabalho, não é preciso formação nenhuma. Basta seguir a ética de patrões que reduzem a visão de jornal a um simples balcão de negócios.
* Artigo publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br, em 15/6/2010.
10 jun 2010
A cantora Lígia Jacques entra no clima de Copa do Mundo e se apresenta nesta quinta-feira, 17 de junho, às 20h30, no Mezzanino da Travessa, Rua Pernambuco, 1.286, 2º andar, na Savassi. O nome do show é Choro Cantado – Uma Seleção Musical. O repertório reúne músicas do seu novo CD e outros clássicos do choro. Destacam-se Conversa de Botequim (Noel Rosa e Vadico), Um a Zero (Pixinguinha, Benedito Lacerda e Nelson Angelo) e Meu Caro Amigo (Francis Hime e Chico Buarque), cujas letras falam de choro e futebol.
No Almanaque do Choro, o pesquisador André Diniz destaca que “o futebol e o choro, mesmo com regras básicas, guardam sua vivacidade nas trilhas dos improvisos, nos dribles inesperados de Garrincha e Pelé, nas bicicletas singulares de Leônidas da Silva, nos contrapontos de Pixinguinha, nas frases inusitadas dos músicos solistas”.
Lígia lembra que Um a Zero foi composto para homenagear a vitória do Brasil contra o Uruguai, com o gol de Friedenreich decidindo o campeonato sul-americano de 1919. “A letra foi feita muito tempo depois por Nelson Angelo, um mineiro bom de bola nascido na Rua da Bahia”, ressalta.
Seu novo CD é dedicado a Ademilde Fonseca. Com arranjos e direção musical de Rogério Leonel, Choro Cantado reúne cinco clássicos do repertório da rainha do choro e cinco faixas inéditas, ricas em citações musicais que reverenciam mestres como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e o contemporâneo Guinga. Lígia é uma das convidadas de Ademilde para o show em comemoração aos seus 90 anos, em 2011, no Rio de Janeiro.
HISTÓRIA DO CHORO
Surgido em meados do século 19, sob forte influência da polca e do lundu, o choro se tornou o principal gênero instrumental da música brasileira. Com excelentes melodias valorizadas pela performance de grandes instrumentistas, muitos clássicos do gênero também ganhariam letras, algumas assinadas por poetas como Vinicius de Moraes, co-autor de Odeon (de Ernesto Nazareth), e João de Barro, letrista de Carinhoso (o clássico de Pixinguinha).
Lígia Jacques afirma que a proposta do CD Choro Cantado foi justamente registrar choros melodicamente ricos, mas que também se destacam pela qualidade das letras. Para tanto, foram selecionadas 10 composições que dialogam entre si, unindo música e letra com precisão, valorizando a poesia e o canto. Destacam-se, por exemplo, Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo e Miguel Lima) e Títulos de Nobreza – Ademilde no Choro (João Bosco e Aldir Blanc).
Em algumas faixas, a cantora faz quatro vozes, formando um quarteto desdobrado em oito canais de gravação. Uma curiosidade é que Choro Barroco (de Rogério Leonel), carro chefe do seu primeiro disco, ganhou letra do escritor, compositor e jornalista Jorge Fernando dos Santos. Ele assina a produção do novo CD e outras quatro letras do repertório, três em parceria com Valter Braga e uma com Chiquinha Gonzaga.
CARREIRA DE SUCESSO
Belo-horizontina da gema, Lígia estudou técnica vocal na Fundação de Educação Artística, é integrante do quarteto Tom Sobre Tom, professora de voz e de técnica vocal. Realizou vários espetáculos e oficinas, participou de mais de 30 discos de artistas como Marcus Viana, Ladston do Nascimento, Hudson Brasil, Toninho Camargos, Geraldo Alvarenga e Rubinho do Vale. Também cantou em shows de Clara Sverner, Guinga e Francis Hime. Com o CD Choro Barroco, recebeu três indicações para o Prêmio Caras de Música.
Em 2004, ao lado do marido e parceiro Rogério Leonel, Lígia Jacques se apresentou no Circuito Cultural do Banco do Brasil. Em 2005, ambos participaram do programa Talentos, da TV Câmara, em Brasília. Em 2008, ela gravou programas na Rádio MEC, no Rio de Janeiro. Lígia é preparadora vocal e integrante do elenco do espetáculo Missa dos Quilombos, montagem carioca da Companhia Ensaio Aberto, com músicas de Milton Nascimento, textos de Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, direção musical de Túlio Mourão e direção geral de Luiz Fernando Lobo.
O CD Choro Cantado foi gravado no estúdio Fábrica de Música, com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Rogério Leonel tocou violão, fez os arranjos e a direção musical. Já a direção artística coube a Jairo de Lara, flautista e saxofonista em várias faixas. Também tocaram no disco Milton Ramos (contrabaixo acústico) e Serginho Silva (percussões).
A produção executiva foi de Tião Rodrigues, a arte do encarte de Adriano Alves e as gravações e mixagem foram feitas por Jairo de Lara e Eloísio Oliveira. O disco teve ainda as participações especiais de Ausier Vinícius (cavaquinho), Celso Adolfo (voz) e Hudson Brasil (bandolim). No dia do show será vendido a R$25,00 (preço promocional). Além de Lígia Jacques (vocal), o espetáculo Choro Cantado – Uma Seleção Musical terá a presença dos músicos Rogério Leonel (violão e arranjos), Bill Lucas (percussão) e Jairo de Lara (Flauta e saxofones). Os textos ficam por conta de Jorge Fernando dos Santos.
Ingressos individuais: R$ 20.
Mesa para quatro pessoas: R$ 70.
Informações e reservas pelos telefones: (31) 3223-8070 e 9764-9173
30 mai 2010
A notícia me pegou de surpresa, como um cruzado no pé do ouvido. Era sábado, depois das dez, quando abri a caixa de e-mails e lá estava a mensagem do Geraldo Vianna, repassada pela Lígia Jacques. José Eymard havia morrido na sexta-feira, 28 de maio, depois de 15 dias de internação devido a um aneurisma na aorta. O corpo havia sido sepultado às nove, no Parque da Colina.
Conheci José Eymard nos tempos áureos do Projeto Fim de Tarde, da Fundação Clóvis Salgado, lá pelos anos 80. Lembro que sua salinha ficava numa sobreloja do Palácio das Artes, acho que em cima de uma das galerias de arte. Lá também trabalhava o Célio Balona, outro mestre da nossa boa música.
No Fim de Tarde eu assisti pela primeira vez a shows de alguns dos grandes músicos que hoje se destacam na cena mineira. Foi lá que conheci o talento de cantoras como Lígia Jacques, Loslena, Titane e Titti Walter; de compositores como Celso Adolfo, Ladyston do Nascimento, Ricardo Faria e Tadeu Franco. A primeira vez que falei com Juarez Moreira foi depois de um show no qual ele acompanhava o Celso. E teve muito mais gente, cujos nomes me escapam pelos buracos da memória.
Tive a oportunidade de dirigir três espetáculos no saudoso projeto, que surgira sob a inspiração do antigo Projeto Pixinguinha, o Seis e Meia da Funarte. E olha que naquele tempo nem existiam leis de incentivo à cultura! Cheguei a escrever e dirigir um show do meu parceiro Angelo Pinho, cujo título era “Belôricéia”. A música de mesmo nome só seria gravada em 1997, por Helena Penna, no disco homônimo dedicado ao centário de Belo Horizonte.
A própria Helena, que hoje luta contra as sequelas de dois AVCs, apresentou no Fim de Tarde o espetáculo “…E agora, Brasil?”. Isso em 1989, no tempo das Diretas Já. O show terminava com toda a plateia cantando a marchinha que fiz sobre o tema, cuja letra chegou a ser publicada no Diário da Tarde.
Helena fez a maior bilheteria daquele ano, o que deu a ela o direito e a honra de repertir a dose em 1990. José Eymard assistiu às duas temporadas e, no final, fez críticas e considerações como bom entendedor do ofício musical. Como sempre, passou-nos dicas importantes, que certamente nos ajudariam em futuros projetos.
Agora estou aqui, nesta noite fria de domingo, ouvindo pela enésima vez o CD “Um Saxofone Bem Brasileiro”, gravado pelo Zé em 2003, no Estúdio Bemol. Realmente, seu sax era pra lá de brasileiro. Mais que isso, era também mineiro da gema. No encarte, Toninho Horta aponta a pureza e a delicadeza do seu som, “cujo toque é do coração”.
Quem sou eu para acrescentar alguma coisa às sábias palavras desse gênio das cordas? O teor do texto que ele assina e a qualidade do som que estou ouvindo me fazem supor que José Eymard era de fato um sacerdote da Música. Basta notar a limpeza do seu sopro e a delicadeza do seu toque nas chaves do instrumento inventado por Adolphe Sax.
O repertório do disco é do melhor bom gosto. Destacam-se composições de Dorival Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Flávio Venturini, Chico Buarque, Tavito, Tom Jobim, Gonzaguinha e do próprio Toninho Horta. Melodias que marcaram época e que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. A gravação do “Beijo Partido”, por exemplo, deve ter deixado o Toninho de cabelos em pé, tamanha a fidelidade à partitura original - coisa que nem sempre acontece por aí.
A última vez que vi José Eymard foi na festa dos 60 anos do meu querido parceiro Eduardo Pinto Coelho, vulgo PC. Aliás, ele era irmão de outro PC: o Paulo César de Oliveira, colunista e diretor do jornal Hoje em Dia. Naquela noite, homenageou o aniversariante solando o sax à capela, o que deixou os convidados emocionados. Depois se sentou à nossa mesa, onde também estavam o Paulo Brandão, o Claudinho Campos, o senador Eduardo Azeredo, entre outros. Falamos essencialmente de música, num clima alegre, cordial e de muita descontração.
Agora o Zé foi tocar com os anjos. Certamente seu saxofone estará tecendo uma nuvem de acordes entre as estrelas. Felizmente, tenho seu CD na estante e poderei matar saudades ouvindo seus doces acordes.
28 mai 2010
Como já era previsto, foi um sucesso a abertura da II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, que vai até 25 de junho na Casa do Jornalista, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (avenida Álvares Cabral, 400). O evento comemora os 25 anos da primeira edição, da qual tive a oportunidade de participar ainda no início de carreira. Estão expostas dezenas de obras artísticas, como poemas, contos, crônicas, charges, caricaturas, ensaios fotográficos, pinturas e até mesmo reportagens. Cerca de 30 autores estiveram presentes autografando livros.
O melhor da festa foi ver a sede do sindicato lotada de jornalistas, coisa que raramente tem ocorrido nos últimos tempos, já que a categoria anda dispersa. Aliás, atribuo parte disso à própria desativação da Casa do Jornalista, que sempre funcionou como braço cultural do nosso sindicato. Por problemas burocráticos, que já estão sendo sanados, a entidade ficou fora do ar por algum tempo e agora promete retornar com toda força.
A abertura da mostra homenageou a memória do grande jornalista e escritor Wander Piroli. Participaram do debate sobre sua obra seus antigos colegas Arnaldo Vianna, Carlos Herculano Lopes, Fernando Brant, José Maria Rabelo, Tião Martins e a escritora e professora de Literatura da UFMG, Letícia Malard. A família do homenageado emprestou aos organizadores da mostra alguns de seus objetos pessoais, para que se fizesse uma instalação lembrando seu local de trabalho. A abertura ficou por conta do Secretário de Estado da Cultura, Washington Melo.
Lembro ter estado pessoalmente com Wander Piroli apenas duas vezes. A primeira em 1990, durante o coquetel de lançamento da coletânea “Flor de Vidro”, pela Editora Arte Quintal, na qual tivemos contos incluídos. Na ocasião, ele comentou que lia meus artigos e críticas publicados no Estado de Minas e no Suplemento Literário do Minas Gerais. Disse que gostava do meu estilo, mas recomendou-me rigor nos textos e impiedade nas críticas. Conversamos sobre nossas influências literárias e encerramos o papo elogiando o legado de Hemingway.
Muitos anos depois, pouco antes do início de sua enfermidade, nos reencontramos em volta das mesas de sinuca do salão Bronwswick, no alto da Afonso Pena. Eu estava jogando uma partida com colegas do Estado de Minas e ele, com seus colegas do Hoje em Dia. Trocamos obas e olás sem maiores consequências.
Antes ou pouco depois disso, não me lembro exatamente quando, escrevi um artigo defendendo o direito de Paulo Coelho disputar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Com a ironia que lhe era peculiar, Piroli enviou uma carta à redação elogiando meus argumentos e dizendo que concordava plenamente comigo, até porque “Paulo Coelho e a ABL se merecem”. A carta foi publicada pelo editor de opinião - Geraldo Magalhães ou Dídimo Paiva, não tenho certeza. Sei que devo tê-la guardado em algum lugar.
De qualquer maneira, quero dizer que sempre admirei Wander Piroli. Não só como jornalista e escritor, mas também como homem que virou lenda nas redações de Belo Horizonte. Seu legado é um exemplo para todos nós. Quando ele morreu, um jornal local relutou em publicar uma grande reportagem. Por picuinha de algum diretor, queriam dar apenas uma nota, mas alguns colegas telefonaram para o chefe de redação argumentando que isso seria uma injustiça e um vexame.
O resultado de tal investida é que permitiram a publicação de uma matéria de 30 linhas. No dia seguinte, toda a redação se sentiu vingada ao ver matéria de página inteira na capa do caderno de cultura do Estado de S. Paulo. Aquela era mais uma prova de que, em Minas Gerais, santo de casa não faz milagre nem mesmo depois de morto.
Hoje, devo reconhecer que aprendi muito lendo Wander Piroli. Seu último livro publicado em vida reúne deliciosas crônicas sobre o bairro da Lagoinha, na coletânea que abriu a coleção “BH - A cidade de cada um”, da Editora Conceito. Meu livro sobre o Caiçara faz parte da mesma série, para a qual indiquei a jornalista Márcia Cruz, com um excelente relato sobre o Morro do Papagaio. Na novela juvenil “No Clarão das Águas”, publicada pela Paulus Editora, presto uma justa homenagem ao nosso guru, citando sua obra ”Os rios morrem de sede”, ganhadora do Prêmio Jabuti.
Finalizando, gostaria de registrar que a II Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros foi uma iniciativa de Carlos Barroso, um dos bravos diretores da Casa do Jornalista. Foi ele quem de fato pegou o touro pelos chifres, trazendo de volta um evento que jamais deveria ter saído de cena. Afinal, jornalismo também é cultura.
22 mai 2010
Quase três décadas depois de me iniciar no ofício da palavra, como escritor e jornalista profissional em Belo Horizonte, percebo que as dificuldades são as mesmas para os autores que residem em nossa cidade. Dispomos de poucas editoras voltadas para o mercado nacional. Temos uma bienal de livros que não remunera o autor local pela sua participação e perdemos com isso o Salão do Livro, que promovia e remunerava indiscriminadamente todos os convidados.
Não bastasse isso, os poucos eventos voltados para a literatura em nossa cidade dão muito mais destaque aos autores de fora, que figuram na mídia. É a tal “síndrome do tapete vermelho”, sobre a qual já escrevi, inspirado numa frase do sempre lúcido Bartolomeu Campos de Queirós. Nossas faculdades raramente estudam a obra de autores vivos, que dirá se for mineiro! Para piorar o quadro, nossos jornais dão pouco espaço aos livros e têm dificultosa circulação fora dos limites da Serra do Curral.
Mesmo com tais entraves, não posso e não devo reclamar em causa própria. Se coloco o dedo na ferida, falo mais em nome dos novos do que dos antigos autores – entre esses os da minha geração. Lembro que quando comecei nesse ramo de atividade muitos escritores já consagrados eram pouco mais velhos ou tinham a idade que tenho hoje. Basta lembrar que o grande romancista Oswaldo França Júnior, do qual tive a sorte de ser amigo, morreu ainda jovem, aos 53 anos.
A boa notícia é que, apesar da falta de estímulos oficiais, tenho conseguido algumas vitórias. Em 2010 tenho nada menos que seis lançamentos e duas republicações programados no Brasil, além de uma tradução na Itália. Com mais de 300 mil exemplares vendidos dos muitos livros que publiquei (só “O Rei da Rua” esgotou mais de 20 edições), pela primeira vez haverá uma tese sobre um deles, escrita pela jovem Eleonora Casani, estudante de Letras em Roma. Trata-se de “Palmeira Seca”, romance ganhador do Prêmio Guimarães Rosa em 1989, adaptado para teatro e minissérie de TV. Quem me indicou o caminho das pedras foi o fratelo Carlos Herculano Lopes, companheiro de fé e ofício desde os primeiros tempos.
Depois de me desligar da assessoria de comunicação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, em fevereiro, venho me dedicando quase que exclusivamente à literatura. Falando nisso, na quinta-feira, dia 27, participo da abertura da 2ª Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, na Casa dos Jornalistas (na sede do sindicato), autografando a coletânea de contos “Caminhante Noturno”, publicada pelo selo Terceira Margem, da Editora Multifoco. São narrativas produzidas espaçadamente, com o objetivo de me exercitar no texto de ficção até chegar ao gênero romance.
Pela Prumo, de São Paulo, acabo de publicar o infantil “Feira de Aves”, inaugurando a coleção “Natureza Viva”. A série inclui outros três volumes poéticos, todos de minha autoria: “Passeio no Zoo”, “Lindo Jardim” e “Vida no Mar”, belissimamente ilustrados por Cláudio Martins, meu antigo parceiro em outros projetos.
Ainda este ano, publico pela Paulus “As Cores no Mundo de Lúcia”, com maravilhoso projeto gráfico e ilustrações de Denise Nascimento. Pela Saraiva, também de São Paulo, relanço as novelas “Reportagem Mortal” (em 4ª edição) e “Sumidouro das Almas” (numa 2ª edição revista, pelo selo Atual). Enquanto isso, faço palestras em escolas e acompanho a cantora Lígia Jacques nos shows de lançamento do CD “Choro Cantado”, que tive o prazer de produzir com recursos do Fundo Municipal de Cultura. A próxima apresentação será no espaço da Travessa, antiga livraria da Savassi, na noite de 17 de junho, uma quinta-feira – em clima de Copa do Mundo.
Em novembro, marco presença na 56ª Feira de Livros de Porto Alegre, divulgando “Alice no País na Natureza”, novela inspirada no clássico de Lewis Carrol e publicada pela Paulus, com ilustrações de Ayssa. A outra novidade é que acabo de me tornar verbete no “Dicionário biobibliográfico de escritores mineiros”, organizado pela professora Constância Lima Duarte e publicado pela Autêntica Editora. Quem leu esse artigo até aqui pode ter certeza de que todas essas conquistas resultam de muito trabalho, alguma sorte e total dedicação ao ofício que escolhi para toda a vida.
28 abr 2010
Não sei exatamente há quanto tempo mantenho no ar o meu site e o presente blog, que faz parte dele. Há algum tempo, certamente. Aqui tenho o hábito de escrever o que me dá na telha. Publico artigos, contos, crônicas, poemas e até paródias musicais. Sempre convoco amigos, ex-colegas de trabalho e outros conhecidos para ler e opinar. Alguns não leem. Outros leem e não comentam. Uma minoria lê e comenta. Alguns concordam, outros discordam. Outros não fedem nem cheiram.
Acho que todo blog tem os visitantes que merece. É muito bom quando alguém se dá ao trabalho de replicar ou treplicar uma opinião do blogueiro. Meu objetivo principal é estimular a reflexão e o debate sobre temas do cotidiano que nos afetam direta ou indiretamente. Não sou o dono da verdade. Se o fosse, não diria. Aliás, se alguém souber o que é a verdade, que faça o favor de me explicar. Como escreveu o autor luso-brasileiro Cunha de Leiradella, meu grande amigo, “todo homem tem o direito de ter razão”. Nesse sentido, a verdade será sempre relativa.
Voltando ao blog, o problema é que muita gente se serve do mesmo para mandar abobrinhas, pedir favores, enviar os malditos spans, propagandas de viagra, encumpridamento de pênis, equipamentos eletrônicos, sacanagens de todo tipo. De vez em quanto, algum jovem pretenso talento teatral manda mensagem como se eu fosse o Jorge Fernando, diretor e ator da Globo.
Se coloquei minha foto no site não foi por mera vaidade. Meu objetivo era deixar bem claro que sou outro e não aquele cara de olhos verdes e trejeitos delicados que de vez em quando aparece na telinha. Sujeito de grande talento e simpatia. Sou seu fã, diga-se de passagem. Mas parece que essa gente nem se dá ao trabalho de observar minha cara no site e sequer faz ideia do quanto eu e o ilustre xará somos diferentes. Aí sapecam pedidos de oportunidade no elenco do filme ou da nova novela que ele está dirigindo, um teste no Projac, uma dica de curso teatral etc. Até já sugeri ao pessoal da Alterosa a criação do Projeca, mas ninguém me deu bola.
Até bem pouco tempo eu respondia essas mensagens, dizendo para olharem bem minha cara feia no site. O gordinho é meu xará e não somos o mesmo sujeito - eu dizia. Contudo, como não adiantava nada, desisti de dar explicações. As mensagens continuam chegando e agora nem me dou ao trabalho de respondê-las. Isso me leva a pensar que todo mundo que sonha ser ator neste país quer trabalhar na novela das oito. Taí uma coisa que jamais desejei. Sempre quis ter uma obra literária reconhecida, mas sem nunca ser parado nas ruas para dar autógrafos. Mesmo na era das celebridades, não abro mão da privacidade. Liberdade é ser um desconhecido na multidão.
Lembro do dia em que meu amigo Jackson Antunes entrou em pânico numa loja de Belo Horizonte, na qual tentava comprar um eletrodoméstico. Isso ocorreu logo no início de sua atuação na novela O Rei do Gado. Ele fugiu pela porta dos fundos, apavorado diante da multidão de fãs que invadiram a loja para vê-lo de perto e pedir autógrafo. Pouco depois, tentava ele caminhar perto de casa, no Rio de Janeiro, quando uns sujeitos mal-encarados começaram a assediá-lo, perguntando se era mesmo tão valente quanto o pistoleiro que interpretava na tal novela.
O site e o blog são excelentes meios para divulgar ideias e trabalhos de cunho artístico, mas felizmente não nos expõem tanto quanto a TV. Mesmo assim, conheço um monte de artistas e jornalistas que sobrevivem sem essa vitrine. Por meio do site, possíveis leitores, professores e editores interessados em meus livros entram em contato comigo ou ficam sabendo mais sobre minha produção. Sempre que faço palestras em escolas, fico surpreso ao saber que os alunos pesquisaram no meu site ou leram meus artigos estampados no blog.
Isso facilita a interlocução, a compreensão da obra, os trabalhos em sala de aula. No entanto, tenho amigos que ainda passam dias e até semanas sem nem mesmo abrir a caixa de mensagens do e-mail pessoal. E há aqueles que nem têm computador em casa. Francamente, eu não saberia viver desse jeito. Posso ficar sem telefone, rádio, TV e mulher; mas sem computador, nem pensar.
No tocante ao blog, acho curioso que alguns textos escritos há meses ainda sejam visitados. Vez ou outra, alguém posta um comentário sobre um assunto do qual eu nem mais me lembrava. Outro dia um sujeito leu uma artigo que publiquei sobre os equívocos da descriminalização do uso de drogas. Indignado, ele disse que fumava maconha, cheirava pó e que eu sou um babaca. Talvez eu seja mesmo, mas nunca usei droga nenhuma, respondi, a não ser o danado do computador.